Luz, Câmera e Adaptação: rainhas da história e suas versões para o cinema – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao longo das décadas, as técnicas de produção de filmes foram se aperfeiçoando, passado do preto e branco, até ganharem sons e cores. Através desse processo, todo um passado habitado por figuras icônicas como Elizabeth I da Inglaterra, a rainha Margot ou Catarina de Médici foi transposto para as telas de cinema, possibilitando assim com que o público de espectadores vislumbrasse um pedacinho da época em que cada uma dessas soberanas viveram. Em alguns casos, a representação se fez tão marcante na cultura popular, que muitos conseguem evocar com maior facilidade as imagens de atores e atrizes que interpretaram determinadas personalidades do passado, do que o agente histórico em si. É o caso, por exemplo, da imperatriz Elisabeth da Áustria, magistralmente interpretada por Romi Schneider, ou então de Elizabeth II do Reino Unido, que muitos associam à face de Helen Mirren. Dessa forma, os dissabores e a vida dessas soberanas adentrou em nossos lares, despertando nossa curiosidade para sua biografia e, ao mesmo tempo, nos influenciando a pesquisar mais acerca do enredo e de suas personagens. Embora muito do que apareça em tais produções seja fruto de ficção, o cinema possui essa qualidade mágica de nos transportar para um mundo antes apenas acessível pelas páginas dos livros.

TRILOGIA “SISSI” (1955-56)

A atriz Romy Schneider caracterizada como a Imperatriz Elisabeth da Áustria, retratada aqui por Franz Xaver Winterhalter.

A atriz Romy Schneider caracterizada como a Imperatriz Elisabeth da Áustria, na trilogia “Sissi”. A cena reproduz aquele que seria o mais icônico de todos os retratos da soberana. Pintado em 1865 pelos habilidosos pincéis de Franz Xaver Winterhalter, a tela apresenta Sissi em um vestido de cetim branco sobre crinolina, coberto por uma fina camada de tule salpicado de estrelas em folhas de prata. O traje, possivelmente confeccionado pela Casa Worth (fundada pelo estilista inglês Charles Frederick Worth), segue os padrões da moda de meados da década de 1860, embora com características singulares. Do topo de seu cabelo trançado até a barra da saia, a roupa da soberana era coberta por estrelas reluzentes, que denotavam seu status imperial. O quadro, um dos quatro que Winterhalter pintaria de Sissi, acabou eternizando a imagem da retratada como uma das maiores beldades do século XIX. A vida reclusa da soberana, casada com o imperador Francisco José, serviu de inspiração para a escrita de vários romances e biografias, incluindo a bem produzida trilogia de 1955-56, dirigida por Ernst Marischka, que trouxe a talentosa atriz Romy Schneider no papel principal. Com cenários bem montados, figurinos arrebatadores e ótimas atuações, “Sissi” foi um marco na produção de dramas históricos, até hoje não superado por qualquer outra película que retrate a trajetória da imperatriz da Áustria.

“A RAINHA MARGOT” (1994)

Margarida de Valois, segundo rascunho de François Clouet (séc. XVI) e Isabelle Adjani, caracterizada como a rainha de Navarra.

A atriz Isabelle Adjani caracterizada como a rainha Margarida de Valois, no filme do diretor francês Patrice Chéreau (1994), baseado no romance homônimo de Alexandre Dumas, “La Reine Margot” (no Brasil, “A Rainha Margot”). A película aborda as peripécias da irmã do rei da França, Carlos IX, forçada a se casar com o rei Henrique de Navarra (futuro Henrique IV da França) para selar uma paz entre católicos e huguenotes. O matrimônio, porém, não cumpriu seu propósito e durante as bodas de Margot e Henrique ocorreu o maior massacre de protestantes já registrado na história do reino. Sentindo-se usada por sua família, a personagem passa por uma transformação ao longo do enredo: de moça frívola e esnobe para uma mulher engajada na causa dos oprimidos. O que contribuiu para essa metamorfose foi o amor surgido em meio à matança do dia de São Bartolomeu por um homem conhecido como La Môle, que desperta em Margot sentimentos que até então ela desconhecia. O filme recebeu ótimas críticas e se tornou um dos maiores sucessos da carreira de  Patrice Chéreau. Embora Isabelle Adjani não seja tão parecida quanto as representações da rainha nos retratos pintados em seu tempo de vida, sua atuação está impecável. Uma verdadeira obra-prima do cinema francês!

“A RAINHA MARGOT” (1994)

Na imagem da esquerda, temos a rainha viúva Catarina de Médici, em retrato atribuído a François Clouet. Na da direita, a atriz Virna Lisi, no papel da esposa do rei Henrique II no filme “A rainha Margot”, de 1994.

Não foi apenas Isabelle Adjani quem brilhou no elenco de “A rainha Margot” (1994). Eu diria que o grande destaque ficou para a atriz veterana Virna Lisi, que interpretou a rainha-mãe, Catarina de Médici. Um detalhe que talvez tenha escapado aos olhos do telespectador é que ao longo de toda a trama a personagem usa preto em sinal de luto pela morte do marido, exceto no casamento de Margot e Henrique, quando opta por um traje de cor púrpura. Assim como no cinema, a verdadeira Catarina só tirou o preto do luto em duas ocasiões até o dia de sua morte, em 1589, e uma delas foi justamente no casamento de Margot. Infelizmente, o filme reforça os estereótipos da soberana como uma mulher vil, inescrupulosa e capaz de lançar mão dos meios mais sórdidos para se livrar de seus inimigos, incluindo o uso de venenos. Além disso, o enredo coloca a personagem como uma das responsáveis pelo massacre do dia de São Bartolomeu, algo que a historiografia recente vêm lutando para desconstruir. Por outro lado, a atuação de Virna Lisi foi bastante elogiada, tanto que ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 1994 por seu papel como Catarina de Médici.

“ELIZABETH” (1998)

A coroação de Elizabeth I em duas representações distintas: numa tela pintada no século XVI e no cinema, com Cate Blanchett no papel da soberana.

Retrato da coroação da rainha Elizabeth I, pintado no final do século XVI a partir de um original (hoje perdido), datado de 1559. Ao lado, a atriz Cate Blanchett interpretando esse momento no filme “Elizabeth”, de 1998. Cate veste uma recriação perfeita dos trajes da rainha na cena. Elizabeth usa o mesmo robe e estola forrados com pele de arminho que foram usados por sua irmã, Maria I Tudor, na sua própria coroação. O vestido em amarelo ouro foi bordado com o mesmo padrão floral do manto. A monarca também está ricamente coberta com joias adornadas com pérolas naturais em formato de gota, rubis e topázios. Seus cabelos ruivos caem delicadamente atrás do manto, enquanto a Coroa lhe adorna a fronte. Com uma das mãos ela segura um orbe, que representa seus domínios sobre Inglaterra, Irlanda e Gales, enquanto com a outra mão ela segura o cetro real, símbolo de seu poder e direto de governar. Dirigido por Shekhar Kapur e com roteiro de Michael Hirst, o filme aborda as dificuldades e a inexperiência de Elizabeth I para governar durante os primeiros anos de seu reinado. O filme, por sua vez, possui uma continuação lançada em 2007, intitulada “Elizabeth: A Era de Ouro”.

“ALEXANDRE” (2004)

Angelina Jolie como Olímpia de Épiro, retratada ao lado num baixo-relevo no palácio imperial de Pavlovsk, na Rússia.

Dirigido por Oliver Stone e lançado nos cinemas brasileiros em janeiro de 2005, “Alexandre” trouxe em seu elenco grandes estrelas, como Anthony Hopkins e Colin Farrell, mas nenhuma delas brilhou tanto quanto a de Angelina Jolie no papel da rainha Olímpia de Épiro. Embora muito do que se saiba sobre a vida da mãe de Alexandre, o Grande, provenha de relatos póstumos que, por sua vez, colaboraram para criar uma imagem nada positiva dela, a película contribuiu sobremaneira para que pudéssemos olhar para a personagem a partir de outro ângulo. Casada com um homem violento e submetida a abusos sexuais, Olímpia encontra conforto na maternidade, aliada à crença de que seria capaz de transformar seu filho em um rei melhor do que aqueles que o antecederam. Destaque também para o papel de Olímpia como mênade, ou seja, uma adoradora do deus Dioniso, de quem se acreditava descendente. Ao longo da trama, observamos a rainha da Macedônia envolvida em conspirações secretas para que seu filho seja reconhecido como herdeiro legítimo de Felipe II. Por outro lado, o longa-metragem lança na mente do telespectador a dúvida sobre se a soberana estaria ou não envolvida no assassinato do marido. Questão essa que nem mesmo a historiografia ainda foi capaz de responder.

“A RAINHA” (2006)

Elizabeth II e a atriz Helen Mirren no papel da soberana em “A Rainha” (2006).

Numa época em que o seriado “The Crown” da Netflix virou uma verdadeira febre, a vida e o reinado da rainha Elizabeth II se tornou um dos assuntos mais pesquisados na internet. Em 2006, quando o filme “A Rainha” chegou aos cinemas, muitos ficaram chocados com a semelhança entre a atriz Helen Mirren com a monarca. Helen, que já interpretava o papel da soberana há alguns anos no teatro, estabeleceu as bases para as futuras atrizes que vestiram a roupa da personagem. Dirigido por Stephen Frears, a película foca nos dias mais conturbados do reinado de Elizabeth, quando a trágica morte da princesa Diana em um acidente de carro abala os alicerces da monarquia. Em 45 anos desde que assumiu o trono após a morte de seu pai, a monarca observa consternada seus súditos culpando a coroa pelo acidente que custou a vida de uma das mulheres mais adoradas do século XX. Mas, como uma verdadeira rainha em um jogo de xadrez, Elizabeth consegue dar a volta por cima e provar a todo mundo que, embora fosse uma Chefe de Estado, também era um ser humano com sentimentos e falhas. Helen Mirren foi ovacionada pela crítica por seu papel, tanto que ganhou os prêmios BAFTA, Globo de Ouro e Oscar de Melhor Atriz em 2007. Em nível de curiosidade, seu currículo de papeis de rainhas é grande, já tendo interpretado a imperatriz Milônia Cesônia, a rainha Charlotte, a rainha Elizabeth I e mais recentemente a imperatriz Catarina II, a Grande.

“A JOVEM RAINHA VITÓRIA” (2009)

Retrato da coroação da rainha Vitória, pintado em 1838 por George Hayter e abaixo a recriação desse momento, com a atriz Emily Blunt no filme “A jovem rainha Vitória” (2009).

Dirigido por Jean-Marc Vallée, com uma belíssima trilha sonora assinada por Ilan Eshkeri, o filme “A jovem rainha Vitória” é um verdadeiro deleite para aqueles que amam um bom drama adaptado da história. Como o próprio título sugere, o enredo aborda uma fase menos conhecida do reinado da soberana que marcaria toda uma Era. Interpretada pela atriz Emily Blunt, o filme introduz o telespectador na criação extremamente rigorosa à qual a jovem princesa foi submetida (o chamado sistema Kensington), privando-a da companhia de amigos e até mesmo de seus familiares. Uma vez rainha, Vitória sente as dificuldades para se manter estável no trono, quando políticos começam a brigar por maior influência junto à coroa. Apenas com a ajuda de seu primo, o príncipe Albert (vivido por Rupert Friend), a monarca consegue driblar as crises que marcaram o início de seu reinado, encontrando relativa paz e tranquilidade, tanto na esfera pública quanto na privada. É interessante observar como o filme aborda os conflitos entre o casal no início do casamento, o que, de certa forma, desconstrói a visão que a própria soberana tentou cristalizar anos mais tarde, de uma vida conjugal sem desentendimentos e percalços. O longa-metragem ganhou o Oscar 2010 na categoria de Melhor Figurino.

“VICTORIA E ABDUL” (2017)

Comparação entre a rainha Vitória, fotografada na época do seu Jubileu de Ouro, em 1887, com a atriz Judi Dench, que interpretou a monarca nessa fase de seu reinado, no filme Victoria e Abdul: o confidente da rainha” (2017).

Diferentemente da leveza de “A jovem rainha Vitória”, em “Victoria e Abdul” a atriz Judi Dench retorna ao papel da velha monarca como melhor nos lembramos dela: eternamente enlutada pelo marido morto. A atriz, que já havia interpretado o papel em “Her Majesty, Mrs. Brown” (1997), aparece como uma soberana já cansada do peso da coroa, indisposta e sem qualquer entusiasmo para as comemorações do seu Jubileu de Ouro (50 anos de reinado), até que seu olhar é atraído para um jovem indiano, trazido especialmente para servi-la durante o banquete comemorativo. Interpretado por Ali Fazal, a personagem Abdul Karim desperta a curiosidade de Vitória e logo se torna seu munshi, ou seja, seu professor de hindustani. O convívio com um homem vindo do outro lado do mundo desperta na soberana a centelha da vida e a vontade de aprender coisas novas. Talvez o ponto mais interessante do filme é que ele resgata uma figura até então pouco trabalhada na biografia da rainha, ao mesmo tempo em que expõe o preconceito da família real e da corte do Palácio de Buckingham para com os indianos. A crítica considerou o longa-metragem bom, além de ser 99% fiel aos fatos, uma coisa rara em se tratando de um produto de ficção, cujo objetivo principal é agradar ao grande público. Uma curiosidade é que Judi Dench também já interpretou a rainha Elizabeth I no filme “Shakespeare Apaixonado” (1998), pelo qual ganhou o Oscar 1999 de Melhor Atriz Coadjuvante.

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