O Escândalo da Rainha: O Martírio de Maria Antonieta – Parte IV

PARTE IV – O Luxo de Ser Mãe

por: Renato Drummond Tapioca Neto

Então observamos até aqui como Maria Antonieta usou de todos os elementos que dispunha para se sobrepor à decadente corte francesa, e nesse processo a maneira de vestir-se assumiu um caráter determinante. Todavia, a moda constituía também uma espécie de fuga para a Rainha, pois até 1777 ela e o Rei não haviam consumado o casamento de sete anos atrás, dando margem para que surgissem boatos pessimistas quanto à sua fertilidade (possivelmente a resposta para a demora deve-se ao fato do Rei ser inconformado com o seu corpo. Afinal, Maria Antonieta era tida como uma beldade, enquanto que ele era o novo monarca, sem nenhum atrativo. Outro fator seria a inexperiência do jovem casal quanto a assuntos sexuais). As cartas da Imperatriz Maria Tereza ainda atormentavam a sua filha e, por incitação da mãe, José II, irmão da Rainha, teve de fazer uma viajem a França para adverti-la sobre suas indevidas damas de companhia, como a Duquesa de Polignac, e aconselhar o jovem casal no que dizia respeito à cópula carnal. Parece que a visita do Imperador surtira efeito, pois na segunda metade de 1777, Marie finalmente concebeu e no ano seguinte dera à luz uma menina forte e saudável que recebeu o nome de Maria Teresa, em homenagem à regente do Sacro Império, sua avó.

O Petit Trianon, refúgio predileto de Maria Antonieta

O Petit Trianon, refúgio predileto de Maria Antonieta

Infelizmente o nascimento da pobre garotinha foi uma desilusão para a França e a Áustria, pois a chegada de um menino seria importantíssima para cimentar de uma vez por todas a aliança. “Pobre menininha, não és o que se desejava, mas não é por isso que és menos querida. Um filho seria propriedade do Estado. Será minha, terás o meu carinho indiviso; dividirá comigo toda minha felicidade e aliviarás os meus sofrimentos…”, foram as primeiras palavras de Maria Antonieta sobre o nascimento de Maria Teresa. Segundo Evelyne Lever:

Maria Antonieta continuava a levar a vida da maneira que desejava, devotando tempo mínimo a suas obrigações oficiais. Afirmando que uma rainha tinha direito a vida privada, pretendia comportar-se tão livremente quanto seus súditos privilegiados, cuja companhia a deleitava. A etiqueta, para ela, era o símbolo de uma época bárbara; não podia aceitar o fato de não pertencer a si mesma, e sim inteiramente ao reino de França, e de que sua situação pairava acima do comum dos mortais em uma sociedade extremamente hierárquica, onde cada um de seus gastos tinha o impacto de um ato público (LEVER, 2004, p. 150).

Depois das complicações do parto, o Rei Luís resolveu presentear a sua esposa com um novo refúgio, onde ela poderia passar o tempo que quisesse longe da corte e de todo o protocolo real, o Petit Trianon, que outrora tinha pertencido madame Du Barry. A Rainha transformou essa extensão do palácio de Versalhes em uma pequena vila, com vários jardins, plantações e criação de animais. Era esse o cenário dos primeiros anos da existência de Maria Teresa e o início do que os historiadores chamam de a fase campestre da glamorosa Rainha. Ainda de acordo com Lever:

No Trianon, Maria Antonieta pretendia comportar-se como uma simples châtelaine. “Aqui sou eu mesma”, gostava de repetir. Durante aquele verão de 1780, ela deixou de usar as complicadas roupagens da corte e as plumas e pompons, lançando o estilo de vestidos brancos para o jardim, amarrados na cintura com uma larga faixa de seda. Quando entrava na sala, ninguém precisava levantar-se. A conversação continuava, as senhoras não interrompiam seus bordados, as tapeçarias ou as músicas. A rainha se sentava entre os convidados, onde quisesse, participava da conversação ou trabalhava com as agulhas. Ninguém deveria sentir-se constrangido (LEVER, 2004, p. 155).

Maria Antonieta reuniu um seleto grupo de amigos, sob comando da Duquesa de Pollignac, para frequentar o Petit Trianon. Isso, por sua vez, despertou o ciúme de muitos membros da nobreza palaciana, que interpretaram a atitude da Rainha como uma forma de desprezo à posição titular que cada um detinha.

"La Reine en Gaule", por Elizabeth Vigée Le Brun (1783)

Maria Antonieta e seus trajes simples, por Elizabeth Vigée Le Brun (1783)

A solução encontrada para mostrar o quão infundado era esse pensamento foi distribuir convites àqueles que se sentiam mais ressentidos, para assistirem às periódicas apresentações teatrais a realizarem-se no auditório do mini-palácio, onde se podia ver Marie interpretando papeis contraditórios à sua posição, ora uma camponesa, ora uma burguesa. (uma das peças encenadas eram As Bodas de Fígaro, do dramaturgo Pierre de Beaumarchais – isso por si só gerou mais uma polêmica, pois o texto fazia uma crítica massiva à nobreza da França). Entre os muito presentes, encontrava-se um notório Conde sueco que ficaria intimamente ligado à figura da Rainha dos palcos. Seu nome era Axel Fersen, que lutou na guerra de Independência dos Estados Unidos aliado das tropas francesas.

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte.  1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

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