Luz, Câmera e Adaptação: rainhas da história e suas versões para o cinema – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao longo das décadas, as técnicas de produção de filmes foram se aperfeiçoando, passado do preto e branco, até ganharem sons e cores. Através desse processo, todo um passado habitado por figuras icônicas como a princesa Diana, Grace Kelly ou Ana Bolena foi transposto para as telas de cinema, possibilitando assim com que o público de espectadores vislumbrasse um pedacinho da época em que cada uma dessas soberanas viveram. Em alguns casos, a representação se fez tão marcante na cultura popular, que muitos conseguem evocar com maior facilidade as imagens de atores e atrizes que interpretaram determinadas personalidades do passado, do que o agente histórico em si. É o caso, por exemplo, de Carlota Joaquina, magistralmente interpretada por Marieta Severo, ou então de Maria Antonieta, que muitos associam à face de Kirsten Dunst. Dessa forma, os dissabores e a vida dessas soberanas adentrou em nossos lares, despertando nossa curiosidade para sua biografia e, ao mesmo tempo, nos influenciando a pesquisar mais acerca do enredo e de suas personagens. Embora muito do que apareça em tais produções seja fruto de ficção, o cinema possui essa qualidade mágica de nos transportar para um mundo antes apenas acessível pelas páginas dos livros.

“CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRAZIL” (1995)

Retrato de D. Carlota Joaquina, por artista desconhecido, e Marieta Severo, caracterizada como a soberana.

Marieta Severo como a rainha D. Carlota Joaquina, no filme dirigido por Carla Camurati, “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995). Parte sátira, parte alegoria, o filme narra a vida da esposa do rei D. João VI de uma forma bastante controversa, abusando de elementos como sexo, intrigas políticas e comédia, misturadas no enredo para provocar o riso do espectador. Por conta de tais características, muitos historiadores fizeram árduas críticas à produção. Ronaldo Vainfas, por exemplo, disse que o filme “é uma história cheia de erros de todo tipo, deturpações, imprecisões, invenções”, enquanto Luiz Carlos Villalta falou que o longa-metragem “constitui um amplo ataque ao conhecimento histórico”. Com efeito, “Carlota Joaquina” reforçou uma série de estereótipos que vinham sendo desconstruídos pela historiografia há muito tempo, como a imagem de D. João VI como um rei bonachão e de sua esposa como uma rainha devassa. No entanto, em termos de recepção do público, a película foi um sucesso e a atuação de Marieta Severo foi bastante elogiada. Além disso, a obra acabou representando o renascimento do cinema nacional após o fechamento da Embrafilme, empresa que financiava a produção e distribuição de filmes brasileiros.

“MARIA ANTONIETA” (2006)

Versão do famoso retrato de Maria Antonieta, pintado em 1783 por Élisabeth Vigée-Lebrun com rosto da atriz Kirsten Dunst.

Versão do famoso retrato de Maria Antonieta segurando uma rosa, pintado em 1783 por Élisabeth Vigée-Lebrun, que aparece no filme “Marie Antoinette” (2006), de Sofia Coppola, cujo enredo se baseia nas biografias escritas por Stefan Zweig e Antonia Fraser. A adaptação traz o rosto da atriz Kirsten Dunst encaixado ao corpo da última rainha do absolutismo francês. A imagem, por sua vez, é uma das mais icônicas já feitas da esposa de Luís XVI, não apenas por sua delicadeza, mas principalmente por representar uma nova fase na vida da monarca. Exceto por um colar de pérolas, Antonieta não usa joias suntuosas e nem fios de ouro bordados no seu vestido de seda azul. Aqui, a natureza empresta ao quadro um efeito quase bucólico, servindo de moldura perfeita para a soberana, que mantém um olhar cândido e esboça um sorriso caloroso para o observador. Na película dirigida por Coppola, porém, a tela aparece em tomadas com o título de “Madame Déficit”, servindo para ilustrar o contrate entre a vida da realeza com a pobreza do terceiro estado.

“A DUQUESA” (2008)

Georgiana, por Thomas Gainsborough (1787) e Keira Knightley.

Em 7 de junho de 1757, nascia em Althorp (Northamptonshire, Inglaterra), Lady Georgiana Spencer, futura duquesa de Devonshire. Filha de John Spencer, primeiro conde de sua linhagem, Georgiana é uma ancestral indireta da princesa Diana, sendo sua tia-tataravó, com oito gerações de distância. Assim como a esposa do príncipe Charles, Georgiana era cultuada em seu tempo como uma espécie de celebridade. Ao se casar com William Cavendish, V duque de Devonshire, ela usou sua posição para ditar tendências da moda e também para participar da política do partido liberal, sendo uma defensora da Revolução Americana. Ao longo de sua vida, Georgiana (retratada aqui por Thomas Gainsborough, 1787) cultivou amizades significativas, como com a rainha Maria Antonieta da França, e se cercou de um importante grupo de intelectuais e políticos, entre os quais o futuro Primeiro-Ministro, Sir Charles Grey (com quem ela manteve uma relação extraconjugal, da qual resultou no nascimento de uma filha, Eliza). Como Diana, Georgiana sofria muito com as traições do marido e procurou consolo em seu universo de sociabilidades, no cuidado dos filhos e nas causas pelas quais advogava. Ela faleceu em 30 de março de 1806, aos 48 anos. Em 2008, a nobre foi interpretada pela atriz Keira Knightley no filme “A Duquesa”, baseado na biografia homônima da historiadora Amanda Foreman.

“A OUTRA” (2008)

Natalie Portman em “The Other Boleyn Girl” e retrato póstumo de Ana Bolena, pintado no final do século XVI.

Natalie Portman como Ana Bolena, no filme “The Other Boleyn Girl” (no Brasil “A Outra”, 2008). Dirigido por Justin Chadwick, a película se baseia no romance homônimo da escritora inglesa Philipa Gregory, que aborda a rivalidade entre Ana e sua irmã, Maria, pelo coração do rei Henrique VIII (interpretados por Scarlett Johansson e Eric Bana, respectivamente). Como se trata de uma produção adaptada a partir de outra obra ficcional, o filme faz largo uso da licença poética, para assim comover o espectador diante da situação humilhante vivenciada por Maria, ao passo em que apresenta uma Ana malvada, ressentida e inescrupulosa. Apesar da excelente atuação de Natalie, “The Other Boleyn Girl” convenceu muitos espectadores da visão de Ana Bolena como vilã, capaz de atos tão sórdidos quanto tentar cometer incesto com o próprio irmão, e não como vítima do jogo de homens poderosos, cujas famílias disputavam por ascensão e prestígio na corte dos Tudor. Por outro lado, o longa-metragem é composto por um elenco excelente, figurinos belíssimos e ótimos cenários. Para quem se interessa pelo reinado de Henrique VIII, ele pode ser uma interessante porta de entrada, desde que se tenha em mente que sua narrativa é puramente ficcional e não verídica.

“OS TRÊS MOSQUETEIROS” (2011)

Juno Temple em “Os Três Mosqueteiros” e retrato de Ana de Áustria, por Peter Paul Rubens.

A atriz Juno Temple, caracterizada como Ana da Áustria, rainha da França (magistralmente retratada na imagem ao lado pelos pincéis de Peter Paul Rubens), no filme “Os Três Mosqueteiros” (2011). Dirigido por Paul W. S. Anderson com base na obra de Alexandre Dumas, encontramos na película Athos, Porthos, Aramis e o jovem D’Artagnan envolvidos numa trama arquitetada pelo maquiavélico cardeal de Richelieu para tomar o trono. A peça-chave da conspiração é o roubo do colar de diamantes da rainha, que foi contrabandeado para a Inglaterra como parte de uma farsa para criar uma prova de adultério supostamente comentido pela esposa do rei Luís XIII com o duque de Buckingham. Ao final, os mosqueteiros não só conseguem recuperar o colar e salvar a reputação da rainha, como também desarticular os planos do cardeal.

“DIANA” (2013)

Naomi Watts como a princesa de Gales no filme “Diana” (2013).

A atriz Naomi Watts em cena do filme “Diana”, de 2013, interpretando a polêmica entrevista que a princesa de Gales (foto da direita) concedeu ao programa “Panorama”, da BBC, apresentado por Martin Bashir. Sem que ninguém soubesse, Diana conseguiu introduzir a equipe de filmagens no Palácio de Kensington. Usando um blazer preto e apenas lápis desenhando o contorno dos olhos, ela disse, entre várias alegações, que não enxergava em Charles o perfil de um futuro monarca; que havia pessoas dentro do establishment que trabalhavam contra ela: e que desde o princípio existiam “três pessoas dentro do seu casamento”, referindo-se a Camilla Parker-Bowles. Quando questionada como se imaginava no papel de rainha, ela respondeu com a frase que acabaria se tornando seu epitáfio: “prefiro ser rainha no coração das pessoas”. A entrevista bombástica foi ao ar no dia 20 de novembro de 1995 e assistida por mais de 20 milhões de ingleses. O episódio foi o suficiente para que a rainha Elizabeth II exigisse de seu filho e de sua nora a dissolução do matrimônio.

“GRACE DE MÔNACO” (2014)

Grace Kelly e Nicole Kidman, no filme “Grace de Mônaco”.

Nicole Kidman na pele de Grace Kelly, no filme “Grace de Mônaco” (2014), do diretor Olivier Dahan. O enredo, por sua vez, se baseia na biografia escrita por Jeffrey Robinson e aborda o dilema vivenciado por Grace no início da década de 1960, divida entre sua vontade voltar para Hollywood ou assumir de vez seu papel como esposa do príncipe Rainier III. Em meio a essa crise pessoal, o governo monegasco enfrenta um impasse representado pelo presidente da França, Charles De Gaulle, que ameaça a existência do principado e de seus habitantes. Confiando em suas qualidades como mãe, esposa e atriz, Grace Kelly desenvolve na trama um golpe para desarticular De Gaulle e salvar sua família. Ao final, a personagem conclui que o grande papel de sua vida não seria protagonizar mais um filme de Alfred Hitchcock, e sim assumir seu destino como a princesa de Mônaco.

“THE SCANDALOUS LADY W” (2015)

Seymour Dorothy Fleming, pintada por Joshua Reynold, e Natalie Dormer.

Recriação do traje de Seymour Dorothy Fleming, mais conhecida como Lady Worsley, para o filme “The Scandalous Lady W” (BBC 2, 2015), com a atriz Natalie Dormer no papel protagonista. Na tela pintada pelo artista Joshua Reynolds em 1775/6, Lady Worsely usa um redingote, espécie de sobrecasaca feminina, traspassada, ajustado à cintura e, dependendo do modelo, duplamente abotoado na frente. A peça de vestuário foi inspirada nos uniformes de montaria masculinos. A moda do redingote se tornou muito popular entre as mulheres da aristocracia inglesa e francesa do período. Na Inglaterra, Georgiana, duquesa de Devonshire, ditava tendências e costumava usar o famoso hábito na sociedade. Já na França, Maria Antonieta escandalizou a corte de Versalhes quando apareceu vestida em um modelo similar, que lhe permitia usar calças de montaria por baixo e cavalgar com uma perna de cada lado, algo considerado indecoroso para uma rainha.

CONTINUA…

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