Mary Stuart, rainha da Escócia: mártir Católica ou dissimulada? – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Bela, majestosa, amante, pretensiosa, assassina, traidora, rainha. Muitas são as palavras que se poderiam utilizar para classificar uma das personagens mais fascinantes do século XVI: Mary, a trágica soberana da Escócia. Sua figura altiva até hoje exerce verdadeiro fascínio para muitos entusiastas e estudiosos das casas dinásticas europeias: a de uma mulher bastante imponente, que arriscou seu reino para viver uma paixão inconsequente e pagou com a própria vida por desejar algo que estava além de sua vontade, a coroa da Inglaterra. Dos interstícios da renascença nórdica, o relacionamento entre duas soberanas se mostraria fatal para uma delas e mesmo após a morte de ambas, elas passaram para os arautos do tempo como estereótipos de mulheres que desejavam o que a outra possuía. Louca, coquete, conspiradora, mãe desnaturada, ou santa? Mary Stuart: quantas perguntas para nenhuma definitiva resposta. Acompanhe-nos nessa microssérie de três posts nesta jornada pela vida de uma mulher que perdeu três tronos, três maridos e, por fim, a cabeça.

Parte I – Infância dourada e Juventude à flor da Pele

Mary Stuart, em 1555, com cerca de doze anos, por François Cloeut

O primeiro papel designado a Mary Stuart veio ainda em sua tenra idade, quando o cenário da Europa se encontrava em chamas, insufladas pela reforma religiosa. Nascida a 8 de dezembro de 1542, Mary tornou-se a filha indesejada de um pai moribundo, que antes de morrer rogava a Deus para que lhe abençoasse com um herdeiro varão forte o bastante para governar aquele reino divido por facções e clãs. Mas quis o destino, incerto por natureza, que o desejo do pobre rei Jaime V da Escócia não se concretizasse. Após a morte do marido, a rainha consorte Marie de Guise, descendente de umas das famílias mais proeminentes da França, tratou logo de reforçar a segurança da única herdeira viva do trono escocês, reivindicando o título de regente na minoridade da filha, e assim barrando as pretensões do tio da mesma, Henrique VIII da Inglaterra, de casa-la com o príncipe de Gales.

Para Marie de Guise, seria muito mais proveitoso, assim como para seus parentes, que a pequena rainha desposasse o delfim da França, filho do rei Henrique II. Sendo assim, com apenas seis anos de idade incompletos, Mary partiu para a corte mais ilustre da Europa, onde receberia uma educação muito aquém da de sua terra natal, à qual também estaria destinada a tornar-se monarca reinante. Os anos que passou naquelas terras seriam os mais felizes para a criança que arrancava elogios de todos os que estavam á sua volta. Entre os que faziam parte do cordão dos deslumbrados, estava o tio da princesinha, o cardeal de Lorena, que em carta à mãe da mesma, disse:

“Ela cresceu tanto e cresce diariamente em altura, bondade, beleza e virtude, que se tornou a mais perfeita e realizada pessoa em todas as coisas honestas e virtuosas possíveis de imaginar…”

Sob o olhar contemporâneo, a rainha escocesa, ainda na mocidade, metamorfoseou-se de filha indesejada à verdadeira joia das coroas francesa e escocesa, e se os planos do rei Henrique II da França dessem certo, logo a Inglaterra se juntaria à herança da jovem.

Marie de Guise

Marie de Guise, atribuído a Corneille de Lyon

O direito de Mary Stuart ao futuro trono de Elizabeth I provinha de um ascendente em comum entre elas: Henrique VII, fundador da dinastia Tudor, através da filha deste, Margareth, avó de Mary. Até então, as duas primas eram estranhas uma à outra, quando o ano de 1558 trouxe uma reviravolta nos seus destinos. Em 24 de abril, Mary estava cumprindo seu se casava com o filho do rei, o delfim Francisco. Para Elizabeth, estava reservado algo mais grandioso que tornar-se uma rainha consorte, pois em 17 de novembro sua meio-irmã, rainha Maria I, faleceu, sendo enfim sucedida pela filha de Ana Bolena. A filiação de Elizabeth foi sem dúvida o ponto principal da discussão para aqueles que queriam invalidar seu direito ao trono, uma vez que para os países católicos ela era uma bastarda. Em vista disso, o rei da França declarou que Mary era a legítima rainha da Inglaterra, título esse que até sua morte ela julgara ser seu.

Porém, como sua trajetória mostrará, nem tudo saía conforme os desejos desta bela princesa. Mary havia criado nos anos que passou na França um profundo auto-reconhecimento do seu poder como majestade, justificado pela teoria do direito divino dos reis e sua felicidade tornar-se-ia maior quando seu marido, após a morte do pai, ascendeu como Francisco II. Ao contrário dela, Elizabeth sempre buscou estar em bons termos com seus súditos, pois sabia que precisava do apoio deles para reinar. Contudo, no ano de 1560, o destino resolvera agir mais uma vez contra a casa dos Stuart, derrubar duas peças importantíssimas no tabuleiro político da rainha da Escócia: sua mãe, Marie de Guise, depois de tanto lutar para manter a coroa da filha, finalmente faleceu aos 44 anos, a 11 de junho; mais tarde, em 5 de dezembro, era a vez do rei Francisco II, que não resistiu à febre e morreu, deixando sua esposa viúva aos 18 anos .

FrancescoMaria1559

Ilustração de Francisco II e Mary Stuart, extraída do livro de horas de Catarina de Médicis.

Foram dias de pranto para a rainha Mary da Escócia. Não só fora rebaixada pela ex-sogra, Catarina de Médicis, como teria que retornar para um universo menos promissor, um lugar que lhe era praticamente estranho: sua terra-natal, a Escócia. Não obstante, tivera de pedir à Elizabeth um salvo conduto para atravessar de navio as águas inglesas. Porém, esta só atenderia ao pedido da prima caso ela de bom grado rejeitasse sua pretensão ao trono da Inglaterra, o que Mary decididamente não fez. Então, em 19 de agosto, ela partia para sua pátria, sem saber como os súditos receberiam uma rainha que lhes era, em parte, desconhecida. O que os escoceses veriam seria a mais pura representação do que vários embaixadores já mencionaram: o profundo magnetismo pessoal que aquela mulher exercia perante qualquer um. Todos, exceto John Knox (temente de que Mary fizesse ruir o protestantismo naquele país), ficaram absortos pela figura da jovem. Agora ela era a soberana amada e idolatrada, um verdadeiro ideal de beleza a ser seguido. Mas, como tudo na vida de Mary era inconstante, o passo em falso logo viria e desta vez com trágicas consequências para seu futuro.

Referências Bibliográficas:

CHASTENET, Jacques. A Vida de Elizabeth I de Inglaterra. Tradução de José Saramago. 2ª edição. São Paulo: Círculo do Livro, 1976

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Odillon Gllotti. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1942. pp. 376.

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