O Escândalo da Rainha: O Martírio de Maria Antonieta – Conclusão

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A trajetória de Maria Antonieta e sua contribuição no deslanchar da Revolução Francesa sempre deixarão máculas quanto ao determinismo de sua presença. Para os estudiosos mais radicais, que sempre avaliam a nobreza como a causa de todos os males do povo, ela nunca deixará de ser tiranizada e culpada por todos aqueles escândalos creditados à sua pessoa. Entretanto, e para isso o bom senso não há de falhar, é inegável o fato de que as acuações contra a Rainha apresentavas pelo Tribunal Revolucionário não estavam embasadas em argumentos sólidos e por isso não apresentavam uma característica conclusiva, perante um tribunal que, a priori, fora armado com o objetivo de declarar apenas uma sentença: a morte. Esse ato covarde, por hora, representou para o povo da França, de uma vez por todas, a liberdade de submissão à coroa, mal sabendo as camadas mais baixas da sociedade que estavam deixando o domínio de um governo tirano para serem escravizados por outro ainda pior, que nada mais é do que a burguesia, única vitoriosa com o processo de revolução.

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Último retrato de Maria Antonieta ainda em vida, sendo transportada para a Guilhotina, por David.

Não medindo esforços para mostrar a soberania da Repúplica, Robespierre espalhou pela França uma ação desmedida, que via até na execução do mais simplório dos homens um motivo para salvaguardar a nação. Nesse momento, Paris assistiria a decapitação de diversos personagens desta presente história: em oito de dezembro de 1793, era guilhotinada Madame Du Barry, amante de Luís XV, declarada inimiga da revolução; Em 27 de junho de 1794, a Condessa de Noailles e seu marido foram executados, assim como membros de sua família. Outros, como a Duquesa de Polignac, melhor amiga de Maria Antonieta, desfrutariam de uma morte menos dolorosa e longe do perigo (Yolande falecera em Viena por contrair cancro, pouco depois de saber que a Rainha havia sido assassinada). Para os defensores do antigo regime, o momento era propício à aclamação de Luís Carlos, que passaria a ser chamado de Luís XVII, uma vez que a insurreição francesa não era contida pelos seus próprios instigadores.

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Maximilien Robespierre, por artista desconhecido (1790).

Enquanto Isso, Maria Teresa, a primogênita do casal de monarcas, encontrava-se enclausurada, acusada de traição. Quando Madame Isabel, tia e protetora da princesinha, foi decapitada em 1794, a jovem de 14 anos permaneceria isolada e esquecida na Conciergerie. Um ano depois, seu irmão, Luís XVII, juntar-se-ia a aos pais devido a uma provável tuberculose, fazendo com que o exilado Conde de Provença reivindicasse o trono da França como Luís XVIII. O País testemunhava um dos períodos mais sangrentos de sua história: a fase do Terror, sob comando de Robespierre, o “incorruptível”. Em sua gestão seria abolida a escravidão nas colônias, findado todos os privilégios, imposição de limites aos preços dos alimentos, direito ao ensino gratuito e obrigatório, criação do museu do Louvre, entre outras medidas. Mas sua campanha sanguinária receberia fortes opositores como Danton, que também acabaria guilhotinado, fazendo com que o partido dos sans-culottes rompesse com os jacobinos.

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Estátuas comemorativas de Luís XVI e Maria Antonieta na Basílica de Saint-Denis.

Sem o apoio da população, Robespierre e seus aliados foram executados devido à tomada do poder pelo Pântano, facção da alta burguesia financeira, no episódio conhecido como nove Termidor. Porém, embora tenha se emancipando dos entraves feudais, a sociedade burguesa ainda seria perturbada ora por levantes populares, ora por tentativas de restabelecimento da monarquia. Para completar o quadro, em 1798 era formada a Segunda Coligação européia antifrancesa. Diante de tal situação, os burgueses foram obrigados a recorrer a um jovem general, recém-chegado do Egito vitorioso na campanha italiana. Esse notório guerreiro era Napoleão Bonaparte, que tomou o poder da França para si ao deflagrar o golpe de 18 brumário de 1799, dando início ao Império Napoleônico, que em seu esplendor, se estenderia até 1815.

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Maria Teresa Carlota da França, única filha de Luís XVI e Maria Antonieta a sobreviver (tela de Alexandre-François Caminade, 1826).

Após a derrocada do Imperador, ascenderia ao governo efetivo da França, o Rei Luís XVIII, que providenciou o casamento de Maria Teresa com seu sobrinho, o Duque d’ Angouleme, além de ordenar que os restos mortais de Maria Antonieta e de Luís XVI fossem transferidos para a Basílica de Saint-Denis (sepulcro dos reis franceses), lugar onde estão até hoje. Com sua morte, ascenderia ao trono Carlos X, que abdicou em 1830, tornando seu filho, o Duque d’ Angouleme, Rei e Maria Tereza Rainha da França pelo tempo necessário para que este também abdicasse (nove minutos). Em sua idade adulta, Madame Royale tornar-se-ia uma mulher infeliz, sem filhos ou quaisquer atrativos. Mas até a sua morte (19 de outubro de 1851), ela nunca deixara de se lembrar daquele poderoso arauto de graça e beleza, sua mãe Maria Antonieta, a última Rainha do absolutismo francês. Alguém que não teve medo de esconder seu verdadeiro eu em detrimento de padrões que podem ser definidos como falso-moralistas. Alguém que viveu e amou assim como todos nós e que pagou caro por lutar pela sua felicidade. Alguém que foi uma MULHER.

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte.  1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

MELLO, Leonel Itaussu Almeida; COSTA, Luís César Amad. Revolução Francesa. In: História moderna e contemporânea. 5ª edição. São Paulo, 2001.

VERDEJO, C. Maria Antonieta. In: Figuras. 1ª edição. Provença, 93 – Barcelona, Espanha: Ramón Sopena, 1973.

WEBER, Caroline. Rainha da Moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. De A. Borges. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008

 

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