A princesa e a rainha: as impressões de Dona Leopoldina sobre sua sogra, Carlota Joaquina!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“A única coisa que temo é minha futura senhora sogrinha, que, segundo o querido papai, dizem ser desleixada, intrigante”, assim escreveu a arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo-Lorena, referindo-se pela primeira vez à mãe de seu futuro marido, o príncipe D. Pedro de Portugal, Brasil e Algarve. É curioso para muitos de nós imaginar o relacionamento entre essas duas personalidades da história brasileira, tão diferentes em caráter, quanto nos modos e costumes. No ano de 1816, quando Leopoldina escreveu essa carta para a sua irmã, Maria Luísa, a fama da esposa de D. João VI não era das melhores. Muitos sabiam de suas conspirações para tomar a regência do marido, dos desentendimentos e aborrecimentos causados por ela com diplomatas e ministros da Coroa, bem como dos supostos casos extraconjugais envolvendo seu nome. O imperador Francisco I da Áustria, que era primo de Dona Carlota, havia alertado a filha sobre as intrigas que esta provocava na corte, aconselhando-a a agir com indiferença a boatos e fofocas, obedecer ao rei e ao príncipe, além de respeitar a sogra. Mas, até aportar na baía de Guanabara em 5 de novembro de 1817, a nova princesa real não tinha ideia dos dissabores pelos quais iria passar ao lado da nova família.

Dona Leopoldina como noiva, por Natale Schiavoni.

“O rei é, ao que parece, um excelente soberano, que a mantém nas rédeas e os filhos afastados dela [Carlota Joaquina] o máximo possível”, completou a jovem arquiduquesa na mesma carta do dia 26 de novembro de 1816, citada no parágrafo anterior. Bem se nota por essas linhas que Leopoldina ainda estava mal informada sobre as relações estabelecidas entre membros da família real portuguesa, que viviam em constante tensão, diferentemente da imagem dos “anjos de bondade”, que o marquês de Marialva havia lhe passado em Viena. Dona Carlota, que vivia no Brasil desde 1808, quando a corte se estabeleceu na cidade do Rio de Janeiro, dizia que se encontrava num “exílio forçado na terra de negros e macacos”. Com sua linguagem solta e desaforada, a rainha de 1,47m assustava a todos quando montava a cavalo pelos logradouros do Rio, vestida como uma amazona de chicote na mão, obrigado aqueles que cruzavam seu caminho a prestarem reverência. Passava a maior parte do ano residindo com as filhas menores em casas localizadas em bairros separados da Quinta da Boa Vista (como em Laranjeiras, Botafogo e Mata-Porcos), encontrando-se com o marido e os príncipes principalmente em ocasiões oficiais. A recepção da arquiduquesa Leopoldina foi um desses eventos aos quais ela compareceu ao lado do rei.

Apesar de ter sido alertada sobre o comportamento de Dona Carlota Joaquina, nas suas cartas endereçadas à sogra, Leopoldina sempre tentava manter um tom cordial e respeitoso, conforme lhe aconselhara seu pai. Em 16 de abril de 1817, ainda em Viena, ela escreveu à rainha de Portugal:

Senhora!

Vossa Majestade dignar-se-á aceitar o sentimento com o qual eu me apresso de lhe suplicar para que me conceda sua bondade e sua ternura maternal. Em poucas semanas terei a felicidade de contar-me no número de seus filhos; possa eu esperar que Vossa Majestade admitindo-me na sua família dignar-se-á me fazer dividir a afeição que ela lhe tem e que eu me apressarei merecer, fazendo feliz um filho que é objeto de toda a ternura de Vossa Majestade. A minha mais querida ocupação será de me tornar agradável a Vossa Majestade, e de lhe provar em toda ocasião os sentimentos de respeitosa devoção e da profunda submissão com as quais eu tenho a honra de ser

Senhora

De Vossa Majestade

Sobrinha muito devota

Leopoldina

Dona Carlota Joaquina, por artista desconhecido.

Por meio de palavras afetuosas, a futura imperatriz do Brasil procurava conquistar a simpatia da sogra, que lhe diziam ser uma mulher de temperamento muito difícil. Como veremos mais adiante, as impressões da noiva do príncipe D. Pedro iriam mudar bastante após conhecer a rainha e os hábitos da corte portuguesa.

De um total de três cartas endereçadas a Carlota Joaquina por Dona Leopoldina, publicadas no livro Cartas de uma imperatriz (2006), a jovem princesa sempre ressaltava seu amor filial, o afeto que dizia nutrir por Pedro e reafirmar seu senso de responsabilidade e comprometimento para com a nova pátria e família. Essas correspondências, contudo, possuem um caráter protocolar e demonstram a cautela de Leopoldina para com aquela mulher de personalidade complexa. Em 13 de maio de 1817, ocorreu o casamento por procuração em Viena. Carlota Joaquina, por sua vez, tentara causar um embraço diplomático, ao pedir para que seu irmão, Fernando VII da Espanha, induzisse a corte austríaca a celebrar o casamento em Lisboa. No dia 14, porém, Leopoldina escreveu novamente para a mãe de D. Pedro:

Senhora mui querida sogra

Tendo a felicidade de apresentar-me hoje a Vossa Majestade como nora, ela me permitirá de antecipar as homenagens que eu terei a honra de lhe reiterar incessantemente de viva voz. Meus mais caros desejos se limitam a esperar e contribuir, tanto quanto o deva, à felicidade do Príncipe Real Seu Filho, eu só estarei entretanto tranquila sob este aspecto porquanto ela me concederá, como eu lhe rogo, a benevolente indulgência e seus conselhos maternos. Que Vossa Majestade não queira duvidar dos sentimentos respeitosos que eu lhe terei sempre nem do bem sincero e terno afeto que eu lhe voto, e com o qual eu serei toda minha vida

Senhora mui querida sogra

De Vossa Majestade

A mais humilde servidora e nora

Leopoldina

Observando bem a etiqueta nesse tipo de correspondência, Leopoldina demonstrava respeito a uma soberana extremamente ciosa de suas prerrogativas sociais, apesar dos boatos de que era alvo na corte. Na época em que princesa real escrevia essas linhas, houve um grande escândalo envolvendo o nome da rainha por conta de um crime que lhe atribuíram: Gertrudes Pedra, esposa de Carneiro Leão, diretor do Banco do Brasil, tinha sido assassinada a tiros depois de acusar Dona Carlota de lhe querer tomar o marido e a sua chácara em Laranjeiras. De acordo com o inquérito policial que parou nas mãos de D. João VI, o assassino, conhecido pela alcunha de Orelha, era comissionado pela soberana. Assim que soube disso, o rei queimou os documentos do processo e disse ao juiz que “convém que desapareça para sempre mais este escândalo dessa mulher”. À condessa de Ega, Carlota Joaquina teria confessado que “eu adoro Deus e tenho medo do diabo; mas se Deus ou o diabo se puserem na minha frente quando o amor me preocupe, eu os porei na rua a pontapés”. Verdadeira ou não, essa declaração ilustra o posicionamento da rainha diante da religião: alguém que respeitava os ritos e sacramentos da Igreja, mas que não se deixava guiar por eles.

Dona Carlota Joaquina e Dona Lepoldina, por Jean-Baptiste Debret.

Com efeito, despachar os amantes e inconvenientes da esposa não eram as únicas preocupações do rei antes da chegada de sua nora. Algum tempo depois, D. João tomara conhecimento do envolvimento do filho com uma bailarina francesa, que engravidara do príncipe. Era preciso resolver mais este problema antes que a comitiva de Leopoldina aportasse. Afinal, não convinha ao rei estragar logo de início a imagem positiva que haviam passado para a princesa acerca de sua nova família. De Florença, em 1 de julho de 1817, Leopoldina escreveu novamente para a sogra, agradecendo-lhe pela Ordem de Santa Isabel, com que fora agraciada pela soberana:

Senhora,

Minha queridíssima sogra!

Eu rogo a Vossa Majestade de querer aceitar a homenagem de todo reconhecimento pela carta graciosa que ela dignou-se honrar-me e pela Ordem de Santa Isabel que ela teve a bondade de lhe juntar; eu não encontro nenhuma expressão que possa lhe descrever; Senhora, quanto eu me sinto adulada e tocada por este sinal de sua bondade pela promessa unicamente de deixar tornar-me sempre digna fazendo a felicidade do Príncipe Seu Filho é tudo o que eu posso lhe dizer. Eu ouso adicionar a certeza que meu coração espera com a mais viva impaciência o instante feliz em que eu mesma poderei lhe apresentar a homenagem de todos os meus sentimentos, e lhe dar o doce título de mãe. Acreditai na espera disto, Vossa Majestade que já lhe dei meu coração. Eu estou encarregada da parte de Sua Majestade a Imperatriz de um encargo para Vossa Majestade de remeter-lhe de sua parte a Ordem da Cruz Esmeralda. Esse encargo me é tão honroso que eu não pude resolver-me a lhe envia-la antes, não querendo renunciar à felicidade de entrega-la eu mesma.

Permiti-me assegurar a Vossa Majestade a alta consideração e o profundo respeito com os quais eu tenho a honra de ser

Senhora muito querida sogra

De Vossa Majestade nora e servidora

Leopoldina

Quando a comitiva da princesa chegou ao Rio, ela foi recepcionada primeiramente pela família real a bordo do navio que a trouxe para cá do porto de Livorno, na Itália. Leopoldina se ajoelhou diante dos sogros e teve a oportunidade de entregar a Dona Carlota Joaquina a Ordem da Cruz Esmeralda. Ali ela tirou suas próprias conclusões acerca da aparência da rainha. Carlota era uma mulher de baixa estatura, manca devido a uma queda de cavalo e com ossos salientes. Apesar de todo o exagero que envolve qualquer descrição feita de sua pessoa, ela dificilmente se encaixava dentro dos padrões de obediência e recato que se esperavam de uma consorte real. Dizia-se que tinha linguagem desaforada e, por vezes, obscena, com gestos que denotavam vulgaridade no comportamento. Dona Leopoldina iria constatar tudo isso com o tempo. Mas, naquela ocasião, ela estava encantada demais com a nova família, a quem descreveu em carta ao pai como “anjos de bondade”, e, principalmente, com o jovem marido. Arcos do triunfo foram erguidos nas ruas do Rio de Janeiro para saudar a nova princesa real e festas foram organizadas em sua honra. Sem dúvidas, o rei se empenhara bastante para esconder de sua nora o atraso da nova corte e os horrores que eram destinados aos escravos.

Dona Carlota Joaquina se apresentou ricamente adornada para receber a princesa, conforme podemos observar nas ilustrações feitas pelo pintor Jean-Baptiste Debret para essa ocasião. Seguindo o protocolo dos casamento reais, ela foi preparada pela sogra e as cunhadas para a noite de núpcias e então acompanhada por elas até o leito de D. Pedro. Mas, aos poucos, toda a felicidade de Leopoldina foi se desfazendo quando foi envolvida pelo círculo de conspirações e intrigas que pairava naquela corte, provocadas ora pelos partidários do rei, ora pelos da rainha e do príncipe, constantemente disputando por benesses. “Estou frequentemente na companhia do rei, que amo e prezo como a um pai”, disse ela em carta ao imperador Francisco. Os costumes da corte também eram muito diferentes dos seus. À irmã Maria Luísa, com quem ela costumava desabafar, por exemplo, reclamou do “estilo de vida em que nunca se vai ao teatro, nunca a uma festa em que as pessoas não sejam as mesmas de todos os dias”, algo que era “mortal para alguém acostumado a um pouco de distração”. O calor excessivo “e a consequente preguiça não nos deixam ler nem escrever”, confessou. Guiada ainda por seus preconceitos pátrios, Leopoldina também disse que “o que mais me impressionou foram os muitos, diferentes tons de pele dos nativos e seus rostos de traços tão feios”.

Desembarque da Princesa Real D. Leopoldina, segundo estudo de Jean-Baptiste Debret. A rainha Carlota contempla o jovem casal!

Com efeito, quase dois meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, a princesa escreveu à irmã que se empenhava em “ser simpática e agradável à minha nova família, embora isso me custe um pouco! Não obstante, observo nos mínimos detalhes os hábitos deste país, que são um tanto esquisitos”. A princesa tentava se ocupar com a música e a leitura, para esquecer um pouco da saudade que sentia de casa. Ia à cidade apenas em recepções formais ou quando a família ia à igreja. Ao pai confidenciou que sofria “frequentemente com as ralhações do meu esposo temperamental e desconfiado”, bem como com as intrigas que passaram a envolver o jovem casal. Porém, foi com Maria Luísa, em carta datada de 18 de abril de 1818, que ela se arriscou a deixar um retrato mais franco de seu marido e da família real, especialmente da sogra:

Ele me diz tudo o que pensa com franqueza e mesmo com certa rudeza; acostumado a que se lhe faça sempre sua vontade, tudo tem que se adaptar a ele, e até tenho que aturar as suas grosserias, porém vê que me magoam e assim chora comigo; além disso estou convicta de que, com toda a sua impetuosidade e maneira de pensar, me ama sinceramente, embora seja (devido a muitas circunstâncias infelizes em sua família) muito reservado e teimoso; conheço cada um de seus pensamentos; para mim, contudo, o que o torna querido e digno de proteção é o fato de continuar sendo amigo de seus amigos, mesmo que caiam em desgraça, e não poupar sacrifício por eles, ao passo que é implacável com seus inimigos; além disso se comporta impecavelmente para com seus pais, o que é muito difícil naquela situação infeliz em que um é contra o outro; honro e prezo meu sogro, uma vez que me demonstra bondade e amizade; o que me custa mais é estar todos os dias com certas pessoas, que seriam muito atuais no tempo de Henrique III, rei da França, o que é terrível; respeitarei minha sogra como mãe de meu esposo, mas seu temperamento é vergonhoso, e infelizmente se vêm as tristes consequências em seus filhos menores, que têm péssima educação e com dez anos já sabem tudo como gente casada [grifo meu].

O tom dessa carta destoa bastante da correspondência protocolar entre Leopoldina e a rainha, citada anteriormente. Conhecedora da história europeia, a princesa relacionava a corrupção e decadência dos costumes da corte portuguesa ao tempo Henrique III, último rei Valois, famoso por suas festas obscenas no Palácio do Louvre e por se vestir em trajes femininos. Todo um universo que parecia ter sido sepultado com a Revolução Francesa ainda se mantinha vivo nesta corte tropical, da qual a rainha dava um péssimo exemplo, segundo as palavras da esposa de seu filho. Carlota Joaquina tinha o costume de ralhar em público com Pedro e de lhe dar alguns tabefes, o que certamente causou horror à arquiduquesa. Ela também não estava sozinha quanto ao comentário que fez sobre a educação dos príncipes. Outros cronistas europeus, como o francês conde de Suzannet, também chamaram a atenção para o que eles consideravam uma “corrupção dos costumes” na educação das crianças brasileiras. Quando a corte finalmente partiu para Portugal em 21 de abril de 1821 e Leopoldina e Pedro ficaram no Brasil como regentes, a população do Rio de Janeiro pode então comparar os hábitos da princesa aos de sua sogra. Carlota Joaquina nunca foi bem quista pelo povo, enquanto a esposa de D. Pedro passou a ser saudada por todos e reconhecida pela sua caridade e dedicação à causa da independência.

Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, Francisca L. Nogueira. Carlota Joaquina na corte do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CASSOTTI, Marsilio. Carlota Joaquina: o pecado espanhol. Tradução de João Bernardo Paiva Boléo. Lisboa, Portugal: A Esfera dos Livros, 2009.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

LEITE, Míriam Moreira (Org.). A condição feminina no Rio de Janeiro do século XIX: antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: Edusp, 1993.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

PEDREIRA, Jorge; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

4 comentários sobre “A princesa e a rainha: as impressões de Dona Leopoldina sobre sua sogra, Carlota Joaquina!

  1. A cada leitura que faço sobre a querida Leopoldina, me sinto mais acredita na significância que ela deve para o crescimento do Brasil.

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