A “avó do diabo”: Maria Carolina de Nápoles e o fim da Era dos reis de direito divino!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A despeito da aparente repulsa que sentia por Fernando IV de Nápoles no início do casamento, a rainha Maria Carolina de Habsburgo-Lorena seria uma das soberanas mais prolíficas daquele reino, passando ao todo por 18 gestações, entre 1772 e 1793 (quando já era avó). Destas, a mais importante foi o nascimento do príncipe herdeiro, em 1775. A chegada de um bebê do sexo masculino garantiu à soberana um lugar no Conselho de Estado, posição esta que ela ocupou até seu marido ser deposto do trono de Nápoles por Napoleão Bonaparte, em 1806. O primeiro descendente do casal, contudo, nasceu três anos após a chegada de Maria Carolina à Itália. A criança, uma garotinha, foi batizada de Maria Teresa, em homenagem à imperatriz do Sacro Império. Com os anos, essa princesa acabaria por ocupar o lugar da avó ao se casar com o primo, o imperador Francisco I da Áustria. Uma das filhas dessa união foi ninguém menos que a imperatriz Leopoldina do Brasil, que deixaria registrado em cartas para a irmã mais velha, Maria Luísa, as últimas aparições a rainha de Nápoles e da Sicília. Outra de suas netas, não obstante, também teve particular importância na história do nosso país: Teresa Cristina de Bourbon, filha do rei Francisco I das Duas Sicílias, que se casaria com o imperador D. Pedro II, em 1843.

A família real de Nápoles, por Angelica Kauffman (1782).

Todavia, naquele ano de 1775, quando a rainha finalmente teve assento no Conselho de Estado, seu objetivo maior era afastar Tanucci do governo e, assim, acabar com a influência espanhola na corte. Por insistência da esposa, Fernando IV enviou algumas cartas ao pai, o rei Carlos III da Espanha, fazendo graves acusações contra o primeiro-ministro, embora Tanucci já estivesse a serviço da coroa por quatro décadas. Mas, por baixo dos panos, o monarca também se queixava da intromissão da esposa nos assuntos de Estado, que segundo ele estariam sendo instigados pela Áustria. “Tentarei impedir a consumação desse intento”, disse ele ao rei da Espanha. A desconfiança de Fernando, por sua vez, não estava destituída de fundamentos, visto que a imperatriz Maria Teresa instruía suas filhas a intercederem na qualidade de agentes diplomáticos a serviço do Sacro Império, nos reinos para onde eram enviadas. Na França, os ministros de Luís XVI fizeram o possível para barrar qualquer influência que Maria Antonieta pudesse exercer sobre o marido, aumentando sua mesada e estimulando os gastos da rainha para que ela desviasse sua atenção da política. Com Maria Carolina, porém, a situação foi diferente. “O meu primeiro objetivo é prestar serviço ao meu adorado irmão, o imperador, por quem daria todo o meu sangue de boa vontade”, declarou a soberana de Nápoles.

O marquês de Tanucci, por artista desconhecido.

O esforço da rainha em diminuir o poder de Tanucci acabou dando resultados, pois um ano após o nascimento do herdeiro presuntivo, o primeiro-ministro caia em desgraça, depois de ter dedicado quarenta e dois anos de sua vida ao serviço da coroa. Incapaz de resistir às pressões da esposa e com total desinteresse pelos negócios de Estado, Fernando IV deixava que Maria Carolina tivesse sempre a última palavra em quase todos os assuntos. Numa certa ocasião, durante uma reunião do Conselho de Estado, o rei se retirou para caçar e orientou a esposa que fizesse o que achasse mais adequado com os outros ministros. Seguindo as orientações de seus irmãos na Áustria, a rainha se esforçou por conquistar a confiança da elite política e intelectual do país, com a intenção de conseguir apoio para as reformas políticas e econômicas que pretendia implementar. O poder de Maria Carolina foi aumentando gradativamente com essas relações. Ela não só afastou a influência espanhola da corte napolitana, que cedeu lugar ao predomínio austríaco, como também atraiu o interesse da Grã-Bretanha. Para reorganizar o exército, a rainha pediu auxílio ao seu irmão Leopoldo, que lhe enviou como aliado o soldado John Acton. Atraente e aventureiro, Acton chamou bastante a atenção da soberana, o que deu lugar ao surgimento do alguns rumores de que seriam amantes.

Com efeito, assim que tais boatos chegaram à corte de Madri, Carlos III passou um forte sermão ao filho: “você está se transformando num rei parlapatão, (…) trate de se livrar o quanto antes de Acton, ou ponha-o para fora do reino”. Motivado pelas admoestações do pai, Fernando discutiu o assunto com a esposa. Ao fim de 24 horas trancados num quarto debatendo a questão, o rei de Nápoles foi convencido a manter o oficial. A despeito das seguintes tentativas da Espanha para que John Acton fosse demovido do cargo, seu prestígio, ao contrário, só fez aumentar. Com a graça da rainha, ele foi nomeado primeiro-ministro e comandante da marinha, fundando quatro academias navais, que não só produziram o primeiro mapa atualizado do Mediterrâneo, como também estimularam o comércio marítimo. Durante o longo “reinado” de Maria Carolina, que durou até o início da década de 1790, não lhe faltou pragmatismo e vontade de governar, o que lhe rendeu muitos inimigos, principalmente entre os partidários da Espanha. Fernando IV, que acordava cedo para caçar e só retornava ao final da tarde, assinava todos os documentos que a esposa lhe apresentava, sem nem questionar. Carlos III, enfurecido pela incapacidade do filho para governar sozinho os reinos de Nápoles e da Sicília, acabou morrendo em 14 de dezembro de 1788, quando sua nora estava na plenitude do poder.

Contudo, os ventos políticos que sopraram a partir da França, onde Maria Antonieta era rainha, acabariam por ameaçar a estabilidade de Maria Carolina em Nápoles. As duas irmãs continuaram dando manifestações de carinho uma pela outra durante toda a vida, mesmo sem se encontrarem. Em 1785, por exemplo, quando a esposa de Luís XVI deu à luz seu segundo filho, este fora batizado de Luís Carlos, em homenagem à soberana de Nápoles, que lhe serviu como madrinha. Quando o rei e a rainha da França foram feitos prisioneiros pela população de Paris, Maria Carolina disse ao irmão Leopoldo que “daria o meu sangue vital para salva-la, (…) não para fazer dela rainha da França outra vez, mas para que possa terminar os seus tristes dias num convento”. Infelizmente, a situação de Maria Antonieta era algo que fugia ao controle de sua família. Levada a julgamento em 14 de outubro de 1793, ela foi decapitada dois dias depois, para horror de sua irmã em Nápoles e de outras cabeças coroadas da Europa. Quando a notícia da execução chegou aos ouvidos de Maria Carolina, ela ficou devastada. Tentou até parar de falar o francês, tamanha foi a dor que aquela morte lhe causou. Sua filha Maria Amélia, futura esposa de Luís Felipe de Orleans, recordou-se que na ocasião a mãe levou a ela e suas irmãs para rezarem na capela pela alma da morta.

John Acton, atribuído a Emanuele Napoli (1802).

“Minha mãe falava muito de ti”, disse Maria Teresa Carlota, única filha sobrevivente de Luís XVI e Maria Antonieta, à sua tia. “Amava-te mais que a todas as outras irmãs”, completou. À rainha de Nápoles restou apenas o consolo do amor e afeição que sua irmã lhe dedicara. Em mais de uma vez ela havia profetizado que o destino de Maria Antonieta acabaria em morte: “Tudo o que der fim à sua tortura é bom”, escreveu dez dias antes da lâmina da guilhotina ceifar a vida da rainha da França. Refletindo sobre o comportamento da irmã, Maria Carolina concluiu que “a sua única falha foi amar as diversões e festas, e isso levou ao seu sofrimento”. Seu desfecho, contudo, serviu de alerta para a própria rainha de Nápoles, que era muito pródiga com os gastos, endividando o país com sucessivas atividades beneméritas, principalmente em auxílio daqueles que conseguiram fugir da fase do Terror revolucionário. Sua insistência em implementar reformas acabou contrariando grupos políticos que se beneficiavam com a corrupção, tais como a nobreza, que teve muitos de seus privilégios de classe cortados. Aos nobres napolitanos desagradavam também a presença de oficiais estrangeiros ocupando postos que deveriam ser destinados a nativos. O clero, de sua parte, retirou seu apoio às políticas da rainha, principalmente depois da fundação de colégios seculares, mantidos com recursos confiscados aos jesuítas expulsos.

Esses modos autoritários de Maria Carolina causaram irritação em muitos setores da sociedade. Procurando seguir o exemplo da mãe, falecida em 1780, ela se mostrava enérgica, mas ao mesmo tempo ambiciosa e inconstante. Em 1793, depois da morte de sua irmã e do cunhado, ela se juntou à coligação austro-britânica contra a França, passando a odiar tudo o que fosse francês, especialmente as ideias iluministas que um dia tanto lhe seduziram. Ingressou numa fase de grande perturbação e via traidores em todos os cantos, o que a fez abandonar o sistema político de contemporizações adotado até então. Sua influência, aos poucos, foi esmorecendo, enquanto recaía sob seus ombros a culpa por dilapidar o tesouro real. Defendendo-se dessas acusações, a rainha disse o seguinte:

Vivi aqui [em Nápoles] trinta e um anos… Não possuo sequer uma casa de campo, um jardim (algo que sempre desejei), uma joia, capital aplicado, nada. Todos já puderam verificar que os supostos milhões são uma quimera. Não consegui sequer ajudar a todos que desejava, pois, até nessa matéria, jamais me desviei um milímetro sequer do caminho do dever (apud KENT, 2011, p. 130).

Esse mesmo sentimento de dever para com o país e de caridade aos mais necessitados seria algo que Maria Carolina passaria às suas descendentes, conforme podemos observar no procedimento de sua neta no Brasil. Leopoldina não só participou ativamente no processo de emancipação política do país, auxiliando seu marido, como também contraiu muitas dívidas para socorrer os mais pobres. Tal procedimento era considerado obrigatório para uma rainha consorte, pois traduzia uma imagem positiva para o governo.

Maria Carolina de Nápoles e da Sicília, por Madame Vigée Le Brun (1791).

Por muitos anos, Maria Carolina foi amada pelos súditos de Nápoles e da Sicília, enquanto era odiada pela antiga nobreza. Mas o medo de que os ideais da Revolução tomassem conta de seus domínios fez com que ela adotasse uma postura mais defensiva. Em 1793, o diplomata Sir William Hamilton afirmou que Fernando IV ainda gozava de grande estima junto à população, ao contrário da rainha, que “não é popular, mas como seu poder é grande, continua sendo muito temida”. Investindo insensatamente numa segunda coligação contra os franceses, Maria Carolina viu os exércitos de Napoleão Bonaparte invadiram Nápoles em 1798, forçando-a a fugir do país. Sete anos depois, utilizando o pouco de influência que ainda lhe restava para garantir a participação do reino numa terceira guerra contra a França, ela e seu marido perderam de vez a coroa napolitana, exilando-se na Sicília. A partir de então, a situação começaria a ficar cada vez mais humilhante para a rainha. Em 1809, por exemplo, sua filha Maria Amélia se casou com o duque de Orleans, filho do homem que havia votado a favor da execução de Luís XVI. Mas nada se comparou ao casamento que ocorreu no ano seguinte: o de sua neta, a arquiduquesa Maria Luísa da Áustria, com o imperador dos Franceses. “É justamente o que me faltava”, disse ela quando soube da notícia, “tornar-me agora ainda avó do diabo”.

Como a rainha odiava viver em Palermo, principal cidade da Sicília, causando desentendimentos com ministros e diplomatas, Fernando enviou a esposa em 1813 para Viena, onde ela passou a viver na companha dos netos e do sobrinho, o imperador Francisco I. Aos 60 anos, Maria Carolina ainda tinha energia suficiente para animar a corte com músicos, artistas e promover eventos para sua família. Em 10 de março de 1814, a futura imperatriz do Brasil escreveu ao pai que “no domingo passado a querida vovó nos ofereceu um almoço turco; tivemos que nos sentar em almofadas baixinhas e comer carne de carneiro com arroz”. Provavelmente fora numa dessas reuniões que dona Leopoldina teria ouvido sua avó contar histórias de sua própria infância e do amor que ela sentia por Maria Antonieta, similar ao sentimento que existia entre a jovem e Maria Luísa, imperatriz dos Franceses. No dia 13 de agosto, Maria Carolina completou 62 anos na companhia de seus netos no belíssimo palácio de Laxenburg. Um mês depois, porém, ela falecia, para tristeza de sua família. Leopoldina deu a notícia para Maria Luísa da seguinte forma:

Amada Luísa!

Já deves estar sabendo da grande infelicidade que nos aconteceu com a perda da melhor das avós; atingiu-me tanto que abalou minha saúde e hoje até tive que me retirar do réquiem porque estava muito abafado, o que foi muito doloroso para mim. Acompanhamos seu funeral, uma situação extremamente triste; não podes nem imaginar a desolação do pobre tio Leopoldo, tiveram que arrastá-lo até a igreja, onde soluçava de maneira terrível. Espero que a notícia não tenha prejudicado tua saúde, já que não a recebeste de supetão (apud KANN, 2006, p. 214).

Enterrada na cripta imperial de Viena, com Maria Carolina de Nápoles sepultava-se também a Era dos reis de direito divino, assim como as guerras napoleônicas. A despeito dos infortúnios, ultrajes e ressentimentos que marcaram o final de sua vida, ela foi um bom exemplo de poder feminino no antigo regime e influenciou muitas princesas de sua família. Especialmente aquela que no dia 2 de setembro de 1822, presidindo uma sessão do Conselho de Estado, da mesma forma como sua avó fizera tantas vezes em Nápoles, acabou deliberando pela independência do Brasil.

Referências Bibliográficas:

BEARN, Mrs. A sister of Marie Antoinette: the life-story of Maria Carolina, queen of Naples. London: T. Fisher Unwin, 1907.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

KENT, Princesa Michael de. Maria Carolina: arquiduquesa da Áustria / rainha de Nápoles e das Duas Sicílias. In: Coroadas em terras distantes. Tradução de Maria João Batalha Reis. São Paulo: Ambientes e Costumes Editora, 2011, pp. 107-131.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

Um comentário sobre “A “avó do diabo”: Maria Carolina de Nápoles e o fim da Era dos reis de direito divino!

  1. Como a primeira parte,é uma narrativa adorável ,conteúdo rico em detalhes,enfim uma experiência que me proporcionou momentos super agradáveis!Agradeço muito por tudo isso.

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