A irmã de Maria Antonieta: Maria Carolina de Habsburgo, rainha de Nápoles e da Sicília

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Palácio de Schönbrunn (Viena), 13 de agosto de 1752: a imperatriz Maria Teresa da Áustria (a Grande) dava à luz ao seu 13° bebê, fruto da união com o imperador Francisco Estêvão da Lorena. A criança, uma garotinha, recebeu em batismo o nome de Maria Carolina, assim como duas de suas irmãs mais velhas, que infelizmente haviam morrido instantes depois de seu nascimento. Dentro da familia imperial, porém, era chamada pelo carinhoso apelido de Carlota. Diferentemente das duas primeiras, a terceira Maria Carolina estava destinada a ter uma vida longa e próspera, tumultuada apenas pelos eventos políticos que surgiram na França e sacudiram o restante da Europa, ceifando a vida de uma das pessoas que mais amava no mundo, a rainha Maria Antonieta, sua irmã. Embora seja mais conhecida como filha, mãe e avó de reis e imperadores, Maria Carolina de Habsburgo-Lorena foi uma das figuras mais interessantes do século XVIII, tendo governando os reinos de Nápoles e da Sicília em nome do marido, além de ter oferecido árdua resistência ao imperialismo bonapartista. Às suas filhas, deixou uma importante lição sobre força e determinação feminina em tempos de crise, algo que teve particular relevância na formação de sua neta, a arquiduquesa Maria Leopoldina, futura imperatriz do Brasil.

Miniatura de 1764, da autoria de Antonio Pencini, retratando Maria Carolina (esquerda) e Maria Antonieta (direita).

O nascimento de Maria Carolina deu início ao que a maioria dos historiadores e biógrafos consideram como o segundo grupo de filhos da imperatriz Maria Teresa. A ela se seguiram em rápida sucessão o arquiduque Fernando, a belíssima Antoine e Maximiliano, um bebê gorducho que recebeu na família o apelido de “Max Gordo”. De todos eles, foi com Antoine, três anos mais nova, que Carlota estabeleceu uma relação mais estreita. As duas arquiduquesas passavam a maior parte do tempo juntas, longe do alcance das atenções oficiais. Se uma delas adoecia, a outra logo pegava a infecção, sendo então isoladas e depois enviadas juntas para convalescer. Ambas eram meninas bastante animadas e agradáveis, além de serem consideradas muito parecidas, conforme notou a pintora Madame Vigée Le Brun anos mais tarde (seus retratos podem ser facilmente confundidos). Quando crianças, as duas possuíam os mesmos olhos grandes e azuis, uma pele leitora, cabelos loiros e nariz comprido, tendendo para o aquilino. Apesar de, no geral, Antoine ser considerada a mais bonita, Carlota possuía a personalidade forte e protetora da mãe. De todas as filhas da imperatriz, era a que mais se assemelhava à ela, conforme reconheceu a própria Maria Teresa.

A imperatriz Maria Teresa da Áustria (a Grande), por Martin van Meytens (1759).

Entretanto, a jovem arquiduquesa aprendeu apenas o que era considerado necessário para a formação de uma princesa no período, a amar e respeitar o futuro cônjuge e servir ao reino em algum casamento dinástico. “Nasceram para obedecer”, disse a imperatriz para suas filhas menores, “e deverão aprende-lo a seu tempo”. Por outro lado, a intrepidez e a indisciplina das pequenas arquiduquesas eram uma constante preocupação para seus tutores. A mãe, em contrapartida, ameaçava aparta-las: “fique sabendo, Carlota, que não a quero ver assim ligada à sua irmã Antoine. Separarei as duas”. Maria Teresa deplorava o comportamento das filhas, que viviam de cochichos sobre conhecidos, familiares e damas da corte, enquanto negligenciavam suas lições para aproveitar os dias da forma como melhor entendiam. Esses vínculos criados na infância, por sua vez, se manteriam inalteráveis durante toda a vida das duas, mesmo quando a política matrimonial da casa de Habsburgo-Lorena as levou para reinos distintos. A princípio, Carlota era cogitada como noiva do herdeiro do trono francês, haja vista que o rei Luís XV era o seu padrinho. Uma epidemia de varíola e a morte, porém, mudaram completamente esses planos.

Em 15 de outubro de 1767, a arquiduquesa Maria Josefa, noiva de Dom Fernando de Nápoles, faleceu aos 16 anos, após ter contraído varíola na cripta dos Habsburgo, enquanto fazia orações diante do túmulo mal fechado da cunhada, morta pela mesma enfermidade. “A Princesa Noiva tornou-se noiva de um noivo celeste”, escreveu o jovem compositor Wolfgang Mozart. Aquela perda foi muito lamentada não apenas na corte de Viena, como também em Nápoles. Restava à imperatriz do Sacro Império escolher então outra de suas filhas para cumprir aquele acordo matrimonial. Como a arquiduquesa Maria Amália estava destinada ao duque de Parma e Antoine ainda era muito jovem, Carlota era a única opção disponível no momento e os planos de um casamento dela com o delfim Luís Augusto tiveram de ser suspensos. Só podemos então imaginar as consequências de uma união entre Maria Carolina, tão autoritária e cheia de apetite sexual, com futuro Luís XVI, no lugar da afável Maria Antonieta. O fato é que em 7 de abril de 1768, o casamento por procuração com o rei Fernando IV de Nápoles e III da Sicília aconteceu em Viena, com o arquiduque Fernando fazendo o papel do noivo na cerimônia. A partir de então, uma triste Maria Carolina (como passou a ser chamada), foi enviada para o sul da Itália, onde agora seria rainha.

“Escreve-me tudo o que souberes sobre minha irmã Antoine, até os mínimos detalhes, o que ela diz e faz e até o que pensa”, pediu uma saudosa Carlota à Condessa Lerchenfeld, sua antiga governanta, durante a viagem de núpcias para Nápoles. “Pede-lhe que me ame, porque com muita paixão me preocupo com ela”, completava. Aos 16 anos, a jovem rainha deixava sua infância dourada na Áustria para trás. “Vou agora tratar-te como uma pessoa adulta”, disse a imperatriz Maria Teresa para a nova rainha de Nápoles e da Sicília. A soberana ainda deu alguns conselhos para a filha no que tange à futura vida numa corte estrangeira: “Não fales o tempo todo de teu país, nem faças comparações entre os nossos costumes e os deles”, disse antes que a jovem partisse para cumprir seu destino. O primeiro encontro entre ela e Fernando IV ocorreu na cidade de Poztella. “Embora seja um príncipe feio, não é inteiramente repulsivo (…) pelo menos não fede”, havia-lhe advertido a imperatriz. Sendo um ano mais velho do que Maria Carolina, Fernando sofria com uma incurável doença de pele, o que lhe dava uma aparência desagradável, apesar do porte avantajado. Gostava de passar o tempo caçando na companhia de criados e outros rapazes da mesma idade, dedicando-se pouco a atividades de leitura e escrita.

Maria Carolina segura o retrato de seu pai, o imperador Francisco, em óleo de Martin van Meytens (1767).

Filho do rei Carlos III da Espanha, Fernando era um jovem vivaz e dotado de alguma astúcia. Sir John Acton, futuro primeiro-ministro do reino de Nápoles, o classificou como “um bom homem porque a natureza não lhe forneceu os meios apropriados para dele fazer um mau caráter”. Dizia-se adepto dos “divertimentos a sérios (sic)” e detestava os assuntos de Estado, tanto que mais tarde mandaria confeccionar um carimbo com a sua assinatura, para não precisar se ocupar com documentos e despachos diplomáticos. Estes ficavam ao encargo de Bernardo Tanucci, que governava Nápoles em nome de Fernando IV. A reação inicial de Maria Carolina à vida de casada foi registrada por ela numa carta endereçada à família, na qual dizia que “sofremos um martírio contínuo, agravado pelo fato de sermos obrigados a fingir que estamos contentes”. A jovem rainha sentia saudades de casa e lamentava sua atual condição: “É um desespero”. Fernando, por sua vez, compartilhava do mesmo sentimento de repulsa. Quando perguntado na manhã seguinte à noite de núpcias se havia gostado de sua esposa, este respondeu que ela “dorme como um cadáver e transpira como um suíno”. Seria preciso eentão muito esforço e algum engenho por parte da rainha para que a situação virasse a seu favor. Decidia a conquistar a afeição do esposo, ela começou a cobri-lo de atenção e lisonjas, até domina-lo quase por completo.

É “um idiota razoavelmente simpático” (ein recht guter Narr), referiu-se Maria Carolina ao marido. Sua influência sobre ele foi crescendo gradativamente, ao passo em que a do marquês de Tanucci seguia o sentido oposto. Aos vinte anos, em 1772, a rainha foi descrita como dotada da “tez mais fina e delicada que já vi”, segundo depoimento da viajante inglesa Lady Anna Miller. De acordo com a impressão da cronista, Maria Carolina era “suficientemente avantajada para ter boa aparência física”. Seus lábios, porém, eram pequenos e “não tinham a característica espessura austríaca”. O rosto de feições agradáveis era sustentando por um pescoço alto, o que valorizava seu busto e lhe dava um ar de imponência. Tudo isso combinado com um porte gracioso e um andar régio. O conjunto dessas características físicas foi aos poucos conquistando o rei e sua esposa sabia exatamente com utilizar tais atributos para domina-lo. Quando o imperador José visitou a irmã um ano após o seu casamento, ele reportou que Maria Carolina parecia cada vez mais senhora da situação, “deslumbrada pelo esplendor da corte, pelas honrarias que lhe eram reservadas, pela beleza do país e pela liberdade de que desfrutava”. Em suma, o imperador concluía que estava “bastante esperançoso em relação ao seu futuro”.

Com efeito, José ressaltava que sua irmã havia se transformado num verdadeiro modelo de distinção: “ela não possui o menor traço de elegância afetada ou ânsia de seduzir, quer nas relações com os familiares (embora o fato de estar rodeada de jovens pudesse conduzi-la a exibir-se), quer na indumentária, que é muito simples e despojada de presunção”. A Maria Carolina não agradava a enorme quantidade de tecidos e adereços caros que tanto fascinaram Maria Antonieta em Versalhes. Seus vestidos geralmente cobriam a maior parte do colo e completamente os pés, para desgosto de Fernando, que manifestava o desejo de que a esposa fosse mais insinuante nos trajes. Nos bailes promovidos na corte, era costume a rainha aparecer usando um chapéu à moda inglesa, ou uma pluma no cabelo. As mãos delicadas eram vestidas com luvas, devido ao mau hábito da soberana de roer as unhas. Em essência, ela se mantinha apegada às tradições de seu país natal, conforme conselho da própria mãe: “em teu coração e na altivez de tua mente”, deveria ser sempre alemã. Isso se refletiu até mesmo na organização do palácio real, onde a influência austríaca penetrava por quase todas as portas, em contraste com o rígido modelo espanhol até então imposto por Tanucci.

Fernando IV de Nápoles e III da Sicília, por Anton Raphael Mengs (1772-3).

Sob orientação de Maria Carolina, que tivera uma educação voltada para o uso das artes e da música, a vida na corte foi aos poucos se transformando. A etiqueta foi se tornando mais flexível e novos hábitos foram introduzidos, como o de tomar café numa sala especial, algo também adotado por Maria Antonieta em recepções feitas no Trianon e em Marly. Foi a rainha quem inseriu em Nápoles a moda da contradança nos bailes, realizada de preferência com três ou quatro pares na presença do rei e da rainha, seguida de minuetos. Não obstante, a soberana concedeu apoio a muitos pintores alemães, tais como Angélica Kauffman, Christopher Kniep, Henry Fuger e, especialmente, Raphael Mengs. Nos seus aposentos, apenas a língua alemã era permitida e quase todos os seus criados eram austríacos. Os palácios reais foram redecorados de acordo com o padrão vienense e muito do mobiliário ali existente era de origem germânica. Apesar disso, a participação da soberana em assuntos de Estado era quase nula. De acordo com uma das cláusulas do seu contrato de casamento, inserida pela imperatriz Maria Teresa, apenas com o nascimento de um herdeiro do sexo masculino a rainha teria assento no conselho real, o que não a impediu, contudo, de usar o seu charme e influência para conseguir aquilo que desejava da parte do rei. Logo, a fama de Maria Carolina como esposa intrometida e encrenqueira começaria a se espalhar por toda a Europa, causando verdadeiro desespero em sua mãe, na Áustria.

CONTINUA…

Referências:

BEARN, Mrs. A sister of Marie Antoinette: the life-story of Maria Carolina, queen of Naples. London: T. Fisher Unwin, 1907.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

KENT, Princesa Michael de. Maria Carolina: arquiduquesa da Áustria / rainha de Nápoles e das Duas Sicílias. In: Coroadas em terras distantes. Tradução de Maria João Batalha Reis. São Paulo: Ambientes e Costumes Editora, 2011, pp. 107-131.

3 comentários sobre “A irmã de Maria Antonieta: Maria Carolina de Habsburgo, rainha de Nápoles e da Sicília

  1. Sou apaixonada por HISTÓRIA, todas as vezes ilque tenho oportunidade, leio as publicações gmaque me caem em mãos. Este artigo é super interessante,nem conhecia esta nobre Imperatriz .Gostei muito do estilo fluido do narrador , do levantamento dos fatos e das reproduções das fotos.Excelente trabalho esse.

    Curtido por 1 pessoa

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