Pesquisadora retraça a trajetória de Dona Maria da Glória, a princesa do Brasil que se tornou rainha de Portugal!

Por: Renato Drummond T. Neto

Segunda mulher a ocupar o trono de Portugal em seu próprio nome, Dona Maria II foi também uma das poucas governantes do sexo feminino a terem destaque no cenário político europeu, durante o século XIX. Filha primogênita de D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal com a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria, ela se tornou rainha com apenas sete anos de idade, em 1826, logo após seu pai abdicar da coroa portuguesa. Quando criança, recebeu uma educação esmerada, pincelada pelas cores verdes e alegres dos jardins do Paço de São Cristóvão. Entretanto, a morte prematura da mãe, em 1826, a luta pelo trono de Portugal travada contra seu tio, D. Miguel e, por fim, a perda do pai para a tuberculose deixaram marcas indeléveis no espírito da monarca. As adversidades pelas quais teve que passar na juventude e a luta pelo poder moldaram o caráter da soberana que Dona Maria veio a se tornar. Seu reinado foi marcado por estabilidade política e pela consolidação da monarquia constitucional, legada por D. Pedro. Por outro lado, muitos aspectos da vida desta rainha portuguesa nascida em solo americano permanecem quase desconhecidos do público em geral, nublando a imagem da mulher pragmática e determinada que Dona Maria foi.

Com efeito, para esclarecer alguns pontos sobre a trajetória da segunda rainha reinante de Portugal, tivemos o prazer de conversar com a biógrafa Cláudia Thomé Witte. Pesquisadora em história do primeiro reinado, Cláudia possui relevante produção sobre a vida dos primeiros imperadores do Brasil, especialmente acerca de Dona Amélia de Leuchtenberg, sobre quem atualmente escreve uma biografia. Suas pesquisas a levaram a vários arquivos do Brasil e da Europa, o que lhe possibilitou trabalhar com fontes até então pouco conhecidas pela maioria dos historiadores e demais escritores. Em “Maria da Glória, uma princesa brasileira no trono de Portugal”, Cláudia apresenta para o leitor o perfil destemido da jovem rainha, explorando aspectos de sua juventude no Rio de Janeiro e a luta para chegar no trono de Portugal. Publicada em maio de 2019 pela Fundação Casa de Bragança, a obra faz parte da série “Livros de Muitas Cousas”, que aborda fatos, lugares e personalidades ligadas à monarquia portuguesa, entre elas, Dona Maria II. Na entrevista que segue abaixo, Cláudia nos conta um pouco sobre as circunstâncias do nascimento da soberana, em 1819, o relacionamento com os pais e com a madrasta, a distância dos irmãos, suas medidas políticas enquanto rainha de Portugal e até mesmo suas conexões com a família real britânica. Confira:

Cláudia Thomé Witte

Cláudia Thomé Witte

Rainhas Trágicas (R.T.): O século XIX é um dos períodos mais fascinantes da história do Brasil, especialmente pelo rico panteão de personalidades que ainda permanecem vivas no imaginário popular. Dessas, qual exerce maior fascínio em você e porquê?

Cláudia: Eu me interesso principalmente pelas figuras femininas que circundaram D. Pedro I: suas duas esposas, D. Leopoldina e D. Amélia, e suas filhas. Dentre elas, tenho me dedicado a pesquisar a vida da segunda imperatriz, por ser mais desconhecida.

R.T: Como surgiu seu interesse por temas relacionados à história do Brasil Império?

Cláudia: Meu interesse começou na infância. Tive um avô português, dono de uma livraria, que me deu uma gravura de D. Pedro I e D. Maria da Glória ainda criança e já rainha de Portugal aos 7 anos. A partir daí, comecei a ler biografias e com 10 anos li a carta de D. Amélia para D. Pedro II, seu enteado, o que me comoveu muito. E o interesse pela família Bragança continuou…

RT: Recentemente, você publicou uma biografia sobre a rainha Dona Maria II de Portugal, intitulada “Maria da Glória, uma princesa brasileira no trono de Portugal”? Pode nos contar um pouco acerca do processo de escrita e publicação da obra?

Cláudia: A biografia sobre D. Maria II foi publicada em junho de 2019, em Portugal, pela Fundação da Casa de Bragança. Foi uma encomenda para que eu contasse sobre a infância e juventude dela, à luz de documentos que descobri e estudei nos últimos anos. É o período menos conhecido da vida dessa rainha e a edição conta ainda com mais de 50 ilustrações, muitas delas inéditas.

R.T: Suas pesquisas apontaram para algum traço da personalidade da segunda rainha reinante de Portugal, que foi pouco explorado pelos demais autores?

Cláudia: Outros autores já haviam comentado que a rainha era corajosa e fazia comentários com muito bom humor; neste livro trouxe mais documentos provando esses traços da personalidade de D. Maria da Glória e mostrando que ela já dispunha dessa características desde muito pequena.

R.T: O nascimento da princesa Maria da Glória foi muito aguardado pelos seus pais, o príncipe D. Pedro e a princesa Dona Leopoldina. Como o jovem casal recebeu a notícia da chegada de uma garotinha? Isso gerou algum desconforto na corte dos Bragança, instalada no Rio de Janeiro?

Cláudia: Tanto D. Pedro como D. Leopoldina ficaram muito felizes com o nascimento de uma filha saudável. O fato de ser mulher não era empecilho para que se tornasse rainha de Portugal, país onde sua bisavó já havia reinado como D. Maria I. Embora tenha nascido no Brasil, em 1819 só existia o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, do qual ela era herdeira.

R.T: Como era o relacionamento da princesa Maria da Glória com seus pais?

Cláudia: D. Maria da Glória convivia muito tanto com o pai, como com sua mãe, conforme relatou sua preceptora Maria Graham e, segundo a correspondência de D. Leopoldina, ela era criada com muito carinho e dedicação dos pais. Era enfatizado que, embora fisicamente ela fosse loira de olhos azuis como a mãe, seu temperamento se assemelhava mais ao do pai, por quem ela tinha verdadeira adoração.

R.T: Como a princesa reagiu à morte de sua mãe, quando tinha apenas 7 anos de idade?

Cláudia: O único relato do qual temos conhecimento é que ela ficou muito abalada, o que é natural para uma criança de 7 anos que já compreende o significado da morte.

R.T: Em 1829, D. Pedro I se casou pela segunda vez com Dona Amélia de Leuchtenberg. Como era o relacionamento entre madrasta e enteada e qual o papel de Dona Amélia na formação educacional da rainha Dona Maria?

Cláudia: D. Maria da Glória era apenas 7 anos mais nova que sua madrasta, D. Amélia. No início, elas se deram muito bem e a correspondência entre elas era bastante afetuosa. Durante o exílio, D. Amélia ficou responsável pela educação da jovem rainha e então os conflitos começaram. A corte portuguesa que acompanhava D. Maria II a protegia e bajulava, enquanto a madrasta tinha dificuldades para fazer cumprir o programa de estudos, alimentação e exercícios que que D. Pedro estipulara. Muitas vezes, o pai intervinha por meio de cartas, para ressaltar a autoridade de D. Amélia sobre D. Maria II.

Dona Maria da Glória, em 1829, por Thomas Lawrence.

R.T: Ainda sobre Dona Amélia, como foi sua vida após a morte de Dom Pedro, durante o reinado de Dona Maria II?

Cláudia: Após a morte de D. Pedro e de D. Augusto, primeiro marido de D. Maria II e irmão de D. Amélia, ela se afastou da corte por decisão da rainha. A soberana preferiu começar uma nova vida com seu segundo marido, D. Fernando, sem a presença de D. Amélia nem de nenhum dos antigos servidores do tempo de D. Pedro. D. Amélia passou então a se dedicar à educação de sua filha, D. Maria Amélia, criada entre a Baviera e Portugal. Após a morte da princesa, D. Amélia passou a ficar totalmente devotada a obras de caridade que ela mesma projetou, implantou e financiou.

R.T: Nos seus diários de infância, a rainha Vitória do Reino Unido descreve seu primeiro encontro com a rainha de Portugal, quando as duas eram crianças. Futuramente, elas se tornaram parentes pelo casamento. Pode nos contar um pouco sobre o relacionamento entre as duas monarcas?

Cláudia: D. Maria da Glória e Vitória do Reino Unido tinham exatamente a mesma idade, foram ambas governantes de países aliados e se casaram com dois primos. Embora tenham se conhecido na infância, a convivência entre elas durante o ano que D. Maria da Glória passou na Inglaterra foi muito pouca. A amizade entre elas se consolidou ao longo dos anos através das inúmeras cartas que elas trocaram.

R.T: Após deixar o Brasil, Dona Maria continuou a manter contato com seus irmãos? Ela chegou a reencontrar algum antes de morrer? Se sim, pode nos contar um pouco sobre essa experiência?

Cláudia: D. Maria II se correspondeu com seus irmãos ao longo de toda a sua vida, desde os primeiros meses após a partida para o Brasil, quando eles ainda eram crianças. Ela nunca mais reviu seu irmão, D. Pedro II, pois a rainha faleceu em 1853 e o imperador só foi à Europa pela primeira vez em 1871. Desconheço qualquer registro de encontro com D. Januária; só com D. Francisca, que apareceu inesperadamente em Lisboa, em 1848, após a Revolução ocorrida na França.

R.T: Quais medidas políticas importantes foram introduzidas em Portugal, durante o reinado de Dona Maria II?

Cláudia: Durante seu reinado, D. Maria II implementou medidas importantes em Portugal, como a institucionalização do ensino primário gratuito, o fim do tráfico de escravos nas colônias portuguesas, a criação do ministério de obras públicas, a introdução do sistema métrico e da telegrafia elétrica. Ela também aboliu a pena de morte, criou o primeiro passeio público, espaço democrático, onde, pela primeira vez em Portugal, nobres e plebeus se misturavam; mandou construir o teatro “D. Maria II”, estimulou a proteção às artes e à conservação do patrimônio, mas, acima de tudo, ela consolidou a monarquia constitucional, instaurada por seu pai, atravessando um período de muitas revoltas e rebeliões, sem que o país enfrentasse nenhuma outra guerra.

R.T: O que levou a rainha de Portugal à morte, em 15 de novembro de 1853? Que impacto essa perda causou no destino da monarquia portuguesa?

Cláudia: D. Maria II faleceu devido a complicações no parto de seu 11° filho. Com sua morte, seu marido, D. Fernando II, assumiu a regência durante a menoridade de D. Pedro V, filho primogênito da rainha. A maior prova do quanto ela havia conseguido estabilizar o país durante seu reinado é que essa transição ocorreu sem maiores problemas.

R.T: Há muito que a imperatriz Dona Amélia não é objeto de uma biografia bem documenta no Brasil e, atualmente, você pode ser considerada sua principal biógrafa. Quais os seus planos para uma obra sobre a segunda esposa de Dom Pedro I?

Cláudia: Já trabalho na redação da biografia de D. Amélia. Levei 15 anos pesquisando, mas agora preciso me concentrar em escrever. Sempre falta alguma informação e gosto muito da busca, do trabalho nos arquivos, da emoção da descoberta de documentos inéditos, mas agora necessito realmente finalizar esse projeto.

R.T: Cláudia, o Rainhas Trágicas agradece pela sua disponibilidade e paciência em responder às nossas perguntas. Desejamos boa sorte no seu trabalho e, antes de encerrarmos, gostaria de saber: que mensagem você tem para o leitor e a leitora que está lendo essa entrevista neste momento?

Cláudia: Fico muito contente em demonstrarem interesse de ler minhas respostas e espero que elas tenham acrescentado alguma coisa ao conhecimento dos leitores!

Um comentário sobre “Pesquisadora retraça a trajetória de Dona Maria da Glória, a princesa do Brasil que se tornou rainha de Portugal!

  1. Com grande expectativa, aguardamos um possível lançamento do livro de Cláudia Witte sobre d. Maria II no Brasil, para se reunir aos de seus pais e irmão, escritos por Paulo Rezzutti. No mesmo espírito de se conhecer os desmembramentos do período imperial brasileiro, o livro sobre d. Amelia e, futuramente, sobre d. João VI, o pioneiro dessa incrível saga.

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