Rainhas de Portugal: Isabel Stilwell fala sobre a vida das mulheres que moldaram o destino da Europa!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A história de Portugal foi traçada, ao longo dos séculos, pela pena corajosa de mulheres que deixaram sua marca no destino e na memória do país. Personalidades que contribuíram para a modernização da monarquia portuguesa, incentivando a educação, a cultura e as artes, além de desempenharem um papel importante nas decisões políticas do reino. Nascidas para o casamento dinástico, muitas foram as princesas e rainhas de Portugal que exerceram forte influência no governo dos reis, quando não o assumiram na qualidade de regentes ou reinando em seu próprio nome. Mulheres como Dona Isabel de Aragão, Filipa de Lencastre, Catarina de Bragança, Isabel de Borgonha, Dona Maria I e sua bisneta, Maria II, permanecem encantadas no imaginário popular graças ao trabalho de historiadores e romancistas, que nos últimos anos veem empreendendo uma valiosa pesquisa, elaborada no sentido de resgatar essas personalidades dos bastidores da História e devolve-las ao seu protagonismo merecido. É o caso, por exemplo, dos romances de Isabel Stilwell, que capturam com emoção e delicadeza os detalhes da vida destas princesas, apresentando-as ao leitor como pessoas de carne e osso e, portanto, mais próximas de nós.

Jornalista e escritora portuguesa, Isabel Stilwell é uma das autoras de romances mais lidas dos últimos anos, especialmente por suas obras que abordam os amores e as tragédias das rainhas que marcaram a história de Portugal. Seu estilo de escrita simples e despojado de formalidades cativa facilmente o leitor, instigando-lhe o desejo e a curiosidade por aprender mais acerca dos temas abordados nos seus livros, que se tornaram um sucesso dentro e fora de Portugal, ganhando edições no Brasil e também na Inglaterra. Na entrevista que segue abaixo, Isabel fala conosco um pouco do processo de pesquisa e escrita dos seus romances, fazendo também algumas considerações entre o domínio da História e o reino da ficção. Em seguida, ela discorre sobre a importância das rainhas portuguesas, retratadas nos seus livros sob uma ótica mais humana, embora sem abandonar o compromisso com a verossimilhança. Ao devolver voz e movimentos para personalidades que antes pareciam petrificadas pelos arautos da História, os livros de Isabel Stilwell ajudaram a despertar o interesse do grande público para as vidas de mulheres que moldaram o destino da Europa e do mundo.

Isabel Stilwell. Foto de José Sérgio. Para maiores informações, visite: http://www.isabelstilwell.com/

Rainhas Trágicas (R.T): Isabel, muito obrigado pela sua disponibilidade em participar dessa entrevista conosco. Para iniciar nossa conversa, gostaríamos de saber um pouco sobre o processo de escrita dos seus livros. Como você seleciona os temas e quanto tempo leva para compor o texto até a publicação do material?

Isabel Stilwell (I.S) – Obrigada. Gostei muito do seu blog, fico muito lisonjeada que esteja interessado nos meus livros. O desafio para escrever o meu primeiro romance histórico, sobre Filipa de Lencastre, resultou de um acaso: uma conversa com dois editores muito criativos, que me propuseram que tentasse um novo caminho na escrita. O nome de Filipa surgiu naturalmente – sendo eu portuguesa, mas filha de pais ingleses –, a história da única princesa inglesa que foi rainha de Portugal. Percebi então que as rainhas, as mulheres em geral, estavam muito esquecidas, para não dizer totalmente. Daí serem hoje já oito as rainhas sobre as quais escrevi.

Todas resultaram de um momento de empatia, que é depois prolongado ao longo de cerca de dois anos em que leio, investigo, cruzo informação, e depois escrevo, procurando sempre trazer de volta à vida estas mulheres e dá-las a conhecer.

R.T: Levando em consideração a tipologia textual dos seus livros, há alguma preferência sua pela ficção histórica enquanto gênero narrativo?

I.S – Sempre fui uma leitora ávida de História, tanto na versão mais formal como na que reconta a História permitindo-se algum grau de ficção. Em qualquer um dos géneros, o que me importa é a qualidade e a seriedade do trabalho.

R.T: A escrita da ficção possibilita ao autor explorar lugares que vão muito além do reino da História. Como é a experiência de escrever romances, dando novamente voz a personagens marcantes e que viveram muitos anos atrás?

I.S – É verdade que abre muitas possibilidades, mas eu não diria que muito para lá do reino da História. Porque a História que imaginamos pura e dura é feita com base em fontes que não são, afinal, mais do que o relato ao tempo de gente de carne e osso que, tantas vezes, puxou a brasa à sua sardinha. Quando não recebiam dos próprios visados para os autobiografar. As cartas, os diários, mesmo os contratos são uma fonte extraordinária de informação, mas também de emoção, de interpretação. Como jornalista de formação e experiência, não consigo afastar-me muito daquilo que os documentos de todos os tipos me dizem, mas feita à grelha dos fatos, depois aplico a plausibilidade e a imaginação para preencher as lacunas. A partir do momento em que introduzimos um diálogo, introduzimos ficção, mas também aproximamos o leitor daquela pessoa, daquele tempo, da História que lhes pertence.

R.T: Podemos dizer que a ficção possibilita um olhar mais humano para o passado?

I.S – Acredito que a imaginação, a emoção e uma linguagem simples e clara permitem que as personagens do passado sejam percebidas pelo leitor a três dimensões. Andam, falam, amam. São pessoas como nós. E é verdade que o foram.

R.T: Muitas das suas obras versam sobre a história de Portugal. Como surgiu seu interesse por essa temática?

I.S – O meu pai era historiador, formado em Oxford, mas era também um extraordinário contador de histórias, e adorava Portugal e a sua História. Por isso acho que nasci e cresci interessada, porque essa é a magia que os nossos pais exercem sobre nós.

Capa da edição comemorativa de “D. Maria II – Tudo por um reino”.

R.T: A maioria dos seus livros de ficção trazem a mulher como protagonista do enredo. Como você observa a reescrita da história portuguesa a partir da análise das personagens femininas?

I.S – Tenho um certo orgulho, não vale a pena escondê-lo, de ter contribuído para acordar o interesse para as personagens femininas da nossa História. Não só do ponto de vista de quem tem a generosidade de ler os meus livros, e me diz que passou a interessar-se pela nossa História, e sobretudo a das mulheres, como também daqueles que passaram a escrever sobre elas, e que se calhar, quero acreditar que sim, encontram hoje uma comunidade de leitores com muito mais desejo de os ler.

R.T: Entre as soberanas que lhe serviram de inspiração para os seus livros, há alguma com a qual você possua maior afinidade, cuja narrativa lhe tocou mais profundamente?

I.S – Varia conforme os dias. No ano em que celebramos o bicentenário de D. Maria II, nascida Maria da Glória no Rio de Janeiro, é irresistível falar desta rainha, da sua alegria, da sua força, de como viveu a menina que se tornou rainha aos 7 anos. Este ano, além de uma edição especial comemorativa, e da tradução para inglês do livro, que será lançado agora em setembro, publiquei um roteiro dos caminhos de D. Maria II, que passam obviamente pelo Brasil, mas também por Londres, e evidentemente por Portugal. E dediquei-lhe o primeiro de uma coleção de rainhas dedicadas a um público mais infantil/juvenil. É uma vida que vale bem a pena conhecer, e a troca de cartas com a rainha Vitória, que celebra também duzentos anos, permite-nos um olhar intimista e único sobre o mundo particular e político de duas mulheres rainhas, num mundo de homens.

R.T: Na sua opinião, qual rainha de Portugal foi mais maltratada pela historiografia tradicional?

I.S – Sem dúvida nenhuma, a rainha D. Amélia, a última rainha de Portugal, como era previsível: infelizmente os conquistadores tendem a denegrir os vencidos. É uma mulher extraordinária, de uma imensa coragem, que fez muito por este país. Felizmente, acredito que hoje as pessoas já a conhecem melhor. E, consequentemente, admiram-na.

R.T: Das rainhas de Portugal, D. Maria I permanece como uma das mais interessantes e controversas. Que traço da personalidade desta soberana portuguesa você conseguiu captar em “D. Maria I: Uma rainha atormentada por um segredo que a levou à loucura”?

I.S – Ao escrever sobre D. Maria I, o meu mais recente livro sobre a primeira rainha por direito de Portugal, tomei consciência que também ela foi infinitamente prejudicada na memória das pessoas, pela loucura a que sucumbiu. Ao perceber aquilo que viveu, aquilo por que passou, e a força de vontade com que lutou contra a sua melancolia e angústia (que vinham de longe), encontrei uma Maria muito diferente da Piedosa ou da Louca que tinha ficado para a História. A descoberta das cartas da sua grande amiga que escolheu para Priora da Estrela, o convento adjacente à primeira basílica dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, fundamentam uma visão completamente diferente desta rainha que superou o terremoto de 1755, a expulsão dos Jesuítas, a morte dos Távoras, a pressão política do Marquês de Pombal, e depois tantos infortúnios pessoais.

Alguns dos livros da Isabel estão disponíveis nas 9 Livraria da Travessa do Rio de Janeiro.

R.T: Podemos traçar algum paralelo entre a história de D. Maria I e sua bisneta, D. Maria II?

I.S – Ambas tiveram de trabalhar o dobro para se imporem num mundo essencialmente masculino, que olhava com grande desconfiança para o exercício do poder no feminino. Não é por acaso que D. Maria II recebe o cognome de Educadora, e é sempre referida como boa mãe, como se não pudesse ter tido uma influência para lá da esfera doméstica. Quando, na realidade, a rainha adorava o poder e queria muito exercê-lo, com uma autoridade que, aliás, facilmente decaía para o autoritarismo, mais próximo de um poder real absoluto do que aquele que previa a Carta que lhe servia de bandeira. Mas do ponto de vista da personalidade, felizmente D. Maria da Glória nasceu e cresceu no Brasil, num Rio de Janeiro cheio de cores e sabores, de onde trouxe, acredito, uma alegria que a sua bisavó nunca teve.

R.T: Antes de finalizar nossa conversa, gostaríamos de saber quais conselhos você daria para o jovem escritor ou escritora que pensa em iniciar uma carreira como autor de romances?

I.S – Que encontre um personagem que o inspire de verdade, descubra tudo quanto pode sobre ele, visite os lugares onde viveu, porque as pedras também falam, e depois escreva de forma clara e simples, com rigor, mas resistindo a “antiquar” o português ou a tratar os personagens como se fossem intocáveis. Como costumo dizer àqueles que acham, por vezes, que os meus diálogos são muito coloquiais ou que lhe faltam “Vossas Majestades” para aqui e para ali, se escrevêssemos como então, teríamos provavelmente de publicar livros apenas em latim.

R.T: Isabel, mais uma vez, gostaríamos de agradecer por seu tempo e interesse em participar deste bate-papo com o Rainhas Trágicas. Lhe desejamos todo o sucesso possível! Que mensagem você teria para o nosso leitor e leitora, que estão lendo essa conversa agora?

I.S – Obrigada. Duas mensagens. Uma, que leiam muito, os livros precisam de leitores. E segunda, que escrevam diários e cartas, que imprimam os e-mails, que guardem o registo do seu tempo. Os historiadores e romancistas históricos do futuro agradecem.

R.T: Um grande abraço!

I.S – Até um dia, obrigada.

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