Catarina de Médicis: os últimos anos da mulher mais poderosa da França

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Após a morte de seu filho Carlos IX (em 1574, aos 24 anos), a rainha-mãe Catarina de Médicis ficou inconsolável. Em carta ao seu outro filho e sucessor do irmão ela escreveu o seguinte: “peço a Deus que me dê a morte antes de assistir a outro espetáculo como este”. Seu único consolo era saber que Henrique III estaria chegando em breve, pois “se eu vos perdesse, me faria sepultar viva convosco, pois não terei força para suportar mais esta dor”. Ela acreditava que o retorno do monarca recém-entronado lhe encheria de “alegria e de satisfação, e que nunca mais experimentarei nem dor nem desprazer” (CRAVERI, 2007, p. 57). Afora o desejo de não morrer antes do rei, infelizmente todas as esperanças de Catarina para com o seu filho predileto seriam frustradas, pois ele estava decidido a não permitir que ela se intrometesse na sua vida privada, apenas em assuntos políticos. Assim, ele escolheu sozinho a sua esposa, Luísa de Vaudémont, princesa de Lorena. Era uma mulher bastante atraente, mas não possuía qualquer dos dotes intelectuais esperados de uma rainha consorte da França.  Para a professora Benedetta Craveri (ibid.), Henrique possuía uma personalidade complexa, ambígua e atormentada, o que contribuiu para o elemento de tragédia na sua estória.

Retrato da rainha-mãe Catarina de Médicis, executado a partir da obra de François Clouet.

Retrato da rainha-mãe Catarina de Médicis, executado a partir da obra de François Clouet.

Como não conseguiu ter filhos com Luísa de Vaudémont, Henrique III teve que fazer do irmão mais novo e rival, o duque de Alençon, seu sucessor. Os Valois estavam assim à beira de uma crise dinástica, com o reino sendo disputado pela coroa, os Guise e o rei de Navarra. Para completar esse quadro de preocupação, em 1575 a princesa Cláudia faleceu em Lorena, o que deixou sua mãe bastante triste. Um a um, os filhos de Catarina de Médicis estavam morrendo antes de completarem 30 anos e ela nada podia fazer para impedir isso, a não ser rezar para que ela mesma não vivesse o suficiente para ver o último deles chegar ao fim. Além disso, o constante desentendimento entre os partidários dos filhos obrigou o mais novo deles, o duque de Alençon, a fugir. O rei havia se cercado de um grupo de rapazes arrogantes, conhecidos como mignons, que em muito desagradavam a rainha-mãe. O monarca “introduziu no seu estilo de governo os arroubos de humor, as oscilações de uma natureza contraditória e instável”, alternando entre “o hedonismo mais desenfreado com a mais austera penitência, o culto do efêmero com o fascínio pela morte, a consciência de suas prerrogativas reais com o patente desinteresse pelos assuntos de governo” (ibid.).

Com efeito, todos esses fatores acima descritos contribuíram para que Henrique III não foi um soberano muito popular. Vendo que o país estava à beira de uma guerra civil, provocada pelos desentendimentos entre seus dois filhos, Catarina de Médicis agiu como intermediária entre ambos e deu início a infatigáveis negociações de trégua. Em 7 de maio de 1576, foi assinado o Edito de Beaulieu[1], cujas cláusulas eram favoráveis aos partidários de Alençon e, além disso, concedia liberdade de culto aos protestantes, “restituição dos bens usurpados, paridade na justiça, nas escolas, nos hospitais e a oficialização da Noite de São Bartolomeu como um crime, com reabilitação e indenização das vítimas” (ASTUTO, 2001, p. 141). Essas concessões, porém, deixaram os católicos bastante inconformados. Temendo uma insurreição destes últimos, Catarina e o rei solicitaram aos nobres que assinassem uma declaração na qual se comprometiam a não participar de nenhuma conjura contra a coroa. Alguns, como o duque de Nemours, simplesmente abandonaram a corte para escapar dessa situação. Outros, como o duque de Guise e seu tio, Mayenne, se recusaram a assinar, com a desculpa de que aquele papel era uma ofensa à sua fidelidade para com o rei.

Catarina de Médicis, por sua vez, disse que se os nobres não assinassem o documento, seriam considerados rebeldes, deixando-os assim sem escolha a não ser se concordar. Em janeiro de 1577, o rei e o conselho privado se reuniram para tomar uma decisão quanto ao rumo do protestantismo na França. Enquanto todos eram a favor da Guerra, Catarina emitiu a seguinte opinião:

O melhor modo de restaurar uma única religião e o melhor agrado a Deus, que não ama nem a vingança nem a crueldade, seria consegui-la sem o uso de armas. Para chegar a isso, é necessário atentar para três homens: o rei de Navarra, o príncipe de Condé e o marechal de Damville. É necessário mandar-lhes enviados e delegados do Estado (apud ASTUTO, 2001, p. 144).

Porém, ninguém deu ouvidos à opinião sensata da rainha-mãe. Ela teve então que usar do seu poder de persuasão para atrair boa parte dos líderes descontentes e dos católicos moderados para o lado do rei. Para celebrar seu sucesso e a reconciliação dos filhos, Catarina ofereceu vários bailes na corte, que terminaram numa série de orgias escandalosas, com jovens damas seminuas servindo os convidados e com o próprio rei dentro de um vestido de damasco, abarrotado de joias e pérolas.

Francisco, duque de Alençon, por François Clouet (1572).

Francisco, duque de Alençon, por François Clouet (1572).

A péssima situação financeira da França, agravada pelas guerras de religião, também contribuíram para o desprestígio do governo. Mesmo tendo vendido alguns bens da Igreja, com autorização do papa Gregório XIII, por cerca de 4,8 milhões de libras, a dívida ainda era muito alta: 101 milhões. A alternativa da coroa foi aumentar os impostos, com a anuência dos Estados Gerais. Tendo se reconciliado com o irmão, o duque de Alençon, Henrique III precisa atrair o rei de Navarra para o seu lado com a ajuda da esposa deste, sua irmã Margarida. A política de pacificação defendida pela rainha-mãe estava dando resultados. Apesar de ser uma mulher bastante odiada pela população, era inegável o fato de que, em suas vestes negras de viúva, ela impunha respeito por qualquer lugar em que passasse. Seus acordos diplomáticos visavam até mesmo as potências estrangeiras: para firmar uma aliança com a Inglaterra, Catarina de Médicis deu início a negociações de casamento entre seu filho mais moço, Alençon, e a rainha Elizabeth I. Para o jovem, a perspectiva de se tornar rei e garantir o apoio da monarca à sua guerra travada nos países baixos era bastante tentadora. O casal se encontrou em Greenwich no dia 17 de agosto de 1579, mas aquela empreitada estava fadada ao insucesso, visto que o duque era 23 anos mais jovem do que a soberana.

Não obstante, é consenso entre alguns biógrafos de Elizabeth I que a rainha usava a perspectiva de um possível casamento apenas para atrair aliados, visto que em seu íntimo não deseja contrair matrimônio com ninguém. Como a proposta de casamento não deu certo e depois de algumas derrotas na guerra pela independência da Holanda, Catarina convenceu Alençon a retornar para a França. Ele chegou em 12 de fevereiro de 1584, mas quatro meses depois faleceu vítima de tuberculose. A rainha-mãe sofreu muito pela morte de mais este filho. Agora restavam-lhe apenas Henrique III e Margarida. Com a morte do duque de Alençon, o sucessor natural do trono passou a ser Henrique, rei de Navarra, o príncipe de sangue mais próximo da linhagem dos Valois. Porém, como Navarra era um protestante, a possibilidade de ele vir a assumir o trono de São Luís deixava os católicos aterrorizados. Para impedi-lo, cogitou-se esquecer a lei sálica e passar a coroa para Margarida ou uma das filhas de Elisabete de Valois e Felipe II de Espanha. Mas, como afirma Bruno Astuto, “essa alternativa era impensável para uma cultura impregnada ao longo de séculos de uma tradição ultramachista” (2001, p. 157). Sendo assim, a solução seria manter Henrique como sucessor, contanto que ele abandonasse de uma vez por todas os ideais de Calvino e abraçasse o catolicismo.

A candidatura do rei de Navarra ao trono da França despertou grande insatisfação entre os principais líderes católicos, como o duque de Guise, que aderiram à Liga Santa, apoiada pelo rei da Espanha. Henrique III nunca se achou numa posição tão difícil. “Consciente de sua fraqueza política e militar, humilhado na sua dignidade de soberano e tendo constatado a falência na sua política de conciliação empreendida por sua mãe”, o rei decidiu agir por conta própria (CRAVERI, 2007, p. 59). Enquanto Catarina de Médicis, já velha e doente, continuava a empreender viagens cansativas em prol de negociações quase impraticáveis, o rei cogitava uma maneira de derrubar os Guise de uma vez por todas, assim como a Liga. Em 16 de setembro de 1588, ele prestou uma homenagem pública a Catarina, durante a convocação dos Estados Gerais, na qual disse que ela não deveria ser conhecida apenas como rainha-mãe, e sim como a matriarca do reino. Os Guise, que estavam presentes na ocasião, fizeram expressões de sarcasmo diante de tal afirmação vinda dos lábios do monarca. Por contarem com o apoio de Felipe II, eles se sentiam intocáveis, tanto que nem deram ouvidos aos rumores de que o rei pretendia assassina-los.

Henrique III da França.

Henrique III da França.

Em 23 de dezembro, o duque de Guise aceitou o convite de Henrique III para um jantar em seus aposentos. Quando estava a subir os degraus que levavam para a câmara do monarca, ele foi cercado pela guarda pessoal do rei e apunhalado até a morte. No mesmo dia, oito membros da família foram encarcerados, incluindo o cardeal de Guise, irmão do duque, que foi assassinado na prisão. Catarina de Médicis, por sua vez, permanecia ignorante dos planos do filho. Estava bastante doente e deitada na cama quando ouviu dos aposentos do rei, que ficavam acima dos seus, um barulho de espadas e gritos. Logo em seguida, o próprio Henrique desceu para dar a notícia a sua mãe, dizendo que “A partir desse momento, não sou mais escravo… volto a ser rei e senhor” (CRAVERI, 2007, p. 60). O desagrado e a perplexidade de Catarina diante da atitude do rei ficaram expressos numa frase que ela disse a um monge, no dia de Natal: “Ah, infeliz, o que ele fez! Orai por ele, que precisa mais do que nunca da vossa oração e que vejo precipitar-se rumo à ruína, e temo que perca com isso o corpo, a alma e o reino!” (ibid.). A notícia dos assassinatos piorou consideravelmente o estado de saúde da rainha-mãe. Apesar disso, ela ainda conseguiu reunir forças para visitar o cardeal de Bourbon na prisão, em nome do filho, e avisar que ele estava livre.

No dia 5 de janeiro de 1589, porém, Catarina de Médicis mal conseguia falar e, com grande dificuldade, ditou um testamento na presença do filho e da rainha Luísa. Segundo Bruno Astuto:

A grande beneficiária seria a neta Cristina, cuja cerimônia de casamento se daria em Florença, no dia seguinte. Catarina confirmou sua doação dos bens da Toscana e acrescentou outros. Ao filho bastardo de Henrique II e ao de Carlos IX, ela deixou os bens de sua mãe em Tour e Auvergne, à rainha Luísa, o castelo de Chenonceaux e ao filho rei, o restante dos bens e uma exorbitante dívida, que nem a venda de suas joias e de seus palácios conseguiu cobrir. Aos serviçais, aos anões de estimação, às instituições de caridade, uma fortuna. Para Margot, nada. Nem mesmo uma pequenina menção. Seu maior desejo era ser enterrada ao lado do marido em Saint-Denis, no belíssimo túmulo que fizera construir (ASTUTO, 2001, p. 173-174).

No leito de morte, Catarina pôde constatar a veracidade das profecias feitas por Nostradamus sobre o fim de sua dinastia. Felizmente para ela, não viveu o suficiente para enterrar o corpo de seu filho, Henrique III, assassinado oito meses depois por um fanático religioso. Ela morreu naquele dia 5 de janeiro, à uma e meia da tarde, em decorrência de uma bronquite pulmonar[2].

Túmulos de Catarina de Médicis e Henrique II na Basílica de Saint-Denis.

Túmulos de Catarina de Médicis e Henrique II na Basílica de Saint-Denis.

Com a morte de Henrique III, quem herdou a coroa francesa foi o rei de Navarra, agora Henrique IV. Atendendo às exigências, ele abraçou a religião católica com o sínico argumento: “o trono da França vale bem uma missa”. A dinastia dos Valois finalmente chegava ao fim, sendo substituída pelos Bourbon, que governariam até o ano de 1792, e depois de 1814 até 1848. Ficou do período passado a lembrança de célebres personagens, como o rei Francisco I ou a rainha Margot. Nenhum, porém, foi tão maltratado pela posteridade quanto Catarina de Médicis. A história geralmente se recorda dos crimes a que seu nome esteve ligado, mas ignora o fato de que ela foi um dos maiores gênios políticos do seu tempo. Ridicularizada na corte devido à sua ascendência Médicis, quando o momento chegou ela mostrou a todos que era uma mulher a ser respeitada, tomando todas as medidas que achou necessárias para preservar a herança dos seus filhos. Além do mais, seu legado cultural para o país se manifestou através das muitas obras de arte que ela patrocinou, dos palácios que mandou reformar e construir e nos vários livros raros e manuscritos antigos que hoje fazem parte da Biblioteca Nacional da França. Mas recaiu sobre ela a lenda negra da megera assassina de protestantes. Quanto a isso, deixemos que a própria Catarina fique com a última palavra: “Sim, fui eu a mandante da famosa Noite de São Bartolomeu. Terei sido, por isto, a única responsável? Não sei”.

Referências Bibliográficas:

ASTUTO, Bruno. Catarina de Médicis. – Rio de Janeiro: Lacerda, 2001.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  

Notas:

[1] Também conhecido como a paz de “Monsieur”, tratamento concedido o irmão do monarca reinante da França. (ASTUTO, 2001, p. 141).

[2] Logo após a morte de Catarina, começou a correr o boato de que ela teria sido envenenada. Para dissipar esse tipo de comentário, Henrique III autorizou uma autópsia no corpo da mãe, onde se confirmou a morte por infecção pulmonar (ASTUTO, 2001, p. 175).

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