Uma filha de Catarina de Médicis: Margarida de Valois, a famosa rainha Margot – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Margarida de Valois, rainha de Navarra, viveu numa época de turbulências civis, desencadeadas pelas sucessivas guerras de religião que deixaram a França ensanguentada. Como válvula de escape para aqueles tempos “miseráveis”, ela se entregou aos prazeres da vida, cultivando um gosto pelas coisas belas e que aguçassem seu intelecto. Seus adoradores eram geralmente rapazes bonitos e elegantes, como o conde de La Mole, que se envolveu numa conspiração, arquitetada na iminência da morte de Carlos IX, para desautorizar a rainha-mãe e colocar no trono o duque de Alençon, filho mais novo de Catarina de Médicis. O plano continha o apoio da própria Margarida, que desde a fatídica noite de São Bartolomeu passou a nutrir um especial rancor pela mãe. A conjura falhou e La Mole foi preso e torturado para revelar o nome dos seus cúmplices. Apesar do conde não ter mencionado a rainha de Navarra, todos sabiam que ela estava de alguma forma envolvida na conspiração. Seu amante foi condenado à decapitação em praça pública. Dizem que a caminho do patíbulo ele confiou à multidão de espectadores uma última mensagem para sua amada, Margarida. Porém, ela faz apenas uma breve na suas Memórias à La Mole e ao seu trágico fim.

Margarida de Valois em 1573 (rascunho de François Clouet).

Margarida de Valois em 1573 (rascunho de François Clouet).

Outro homem que estaria ligado à vida de Margarida de Valois seria Bussy d’Amboise, embora ela negasse veementemente, anos depois, os rumores de uma possível ligação amorosa entre eles. Mesmo assim, o entusiasmo com que a rainha de Navarra falava de Bussy nas suas Memórias nos dão uma pista do tipo de sentimento que ela nutria por ele. D’Amboise encarnava aos olhos de Margarida o perfeito gentil-homem: “homem de armas intrépido, cultivava as letras, exprimia-se com eloquência, versejava com graça, era elegante, refinado, espirituoso” (CRAVERI, 2007, p. 75). Para admiração de Margarida, seu eleito ainda por cima trocou de lado e passou a apoiar o duque de Alençon, apesar de gozar dos favores de Henrique III. Mas faltavam a Bussy duas qualidades essenciais: discrição e prudência, algo que compartilhava com a sua amada. Ele não perdia qualquer oportunidade de insinuar que era amante de Margarida de Valois que, a priori, não o desmentiu e ainda por cima cobriu-o de presentes e joias, contribuindo assim para a crença popular de uma ligação amorosa. Entretanto, esse comportamento imprudente e indiscreto por parte de ambos logo se mostraria fatal para os dois.

Depois de ter perdido o apoio de Bussy d’Amboise, Henrique III passou a se vingar na pessoa de sua irmã, recriminando-a pela conduta escandalosa, indigna de uma princesa de sangue real. Ao mesmo tempo, o rei instava Henrique de Navarra a pôr um basta nesse comportamento da esposa. Essas reclamações tiveram o efeito oposto em Margarida, que não fez questão de manter qualquer sigilo sobre seu partidarismo ao irmão mais novo, o duque de Alençon, em detrimento dos interesses do rei e de seu marido. Bussy, por sua vez, continuava a frequentar a corte “com um ar alegre e fanfarrão”, apesar de quase ter sido vítima de uma tentativa de assassinato. Catarina de Médicis, temendo um novo conflito entre seus dois filhos, exortou d’Amboise a se afastar por algum tempo da capital. Nisso, a rainha-mãe contou com a ajuda de sua filha, que temia pela vida do favorito. O relacionamento entre os dois se prolongou de forma clandestina por mais algum tempo e possível que Margarida tenha gerado um filho ilegítimo dele. Porém, a vida de Bussy acabou de forma trágica: foi atraído para uma embosca, organizada pelo marido de uma de suas amantes. Ao chegar no local de encontro, ele foi cercado por quinze homens armados, lutou até quando conseguiu, mas foi vencido pela superioridade numérica.

Henrique de Navarra.

Henrique de Navarra.

Conforme percebemos até aqui, os adoradores de Margarida de Valois possuíam uma tendência a ter um triste fim. Ela ainda se envolveu com Jacques Harley, senhor de Champvallon, que também estava a serviço do duque de Alençon. Delicado, discreto e condescendente, Harley estava disposto a se submeter às vontades de sua amada. As cartas trocadas entre os dois fornecem um testemunho do estado de espírito de Margarida durante aquele relacionamento: “o amor nada mais é do que o desejo da beleza” (CRAVERI, 2007, p. 78), escrevia ela na tentativa de educar seu amante no espírito da filosofia neoplatônica. “Tanto é verdade que o amante se transforma no amado, que não posso mais possuir-me sem ser através de vós. Não vivo mais que em vós, e somente vós governais minha alma” (ibid.).  Porém, esse clima de romance logo seria quebrado pelo seu dever para com o marido. Margarida de Valois precisava reconquistar Henrique de Navarra e trazê-lo para o lado da coroa francesa. Mas essa tarefa não seria nada fácil, pois além dos escândalos extraconjugais por parte de ambos, as relações sexuais entre o casal já haviam cessado e Henrique tinha abandonado a esposa na França, quando finalmente conseguiu fugir de Paris e retornou para o seu reino.

De acordo com o relato de uma das aias do séquito de Catarina de Médicis, que estava acompanhando a filha de sua ama na viagem rumo a Navarra, Margarida estava bastante aplicada nos planos de reconquista do marido:

Faz três dias que [Margarida] está trancada em seu quarto, sozinha com três aias, uma armada com uma navalha, a outra com cremes, a outra com fogo. Está sempre imersa na água, branca como um lírio, toda perfumada, se esfregando e tornando a se esfregar, envolta numa nuvem de incenso como uma fascinante feiticeira na fumaça dos seus alambiques e, a crer no que diz aos seus íntimos, sustenta que faz tudo isso para agradar a si mesma (apud CRAVERI, 2007, p. 79-80).

Aparentemente os esforços de Margarida de Valois deram resultado, pois seu marido reservou para ela uma boa acolhida e, inclusive, compartilhou o leito com a esposa desde a noite da chegada. Esse período de pacificação conjugal, por sua vez, seria descrito pela rainha como o mais feliz da sua vida. A partir de então ela se dedicou ao embelezamento da corte e à modernização de certos palácios reais.

Henrique III da França, por Étienne Dumonstier (c. 1578).

Henrique III da França, por Étienne Dumonstier (c. 1578).

Como filha de uma Médicis e pertencente à casa dos Valois, Margarida nutria um grande entusiasmo pela arte e passou a patrocinar vários artistas, poetas, eruditos e músicos. Nesse cenário de elegância e harmonia, as diferenças entre ela e o marido foram quase esquecidas. O escritor huguenote Agrippa d’Aubgné chegou a dizer que “a corte de Navarra era tão florescente que não se considerava de modo nenhum inferior à outra, em todo tipo de vantagens naturais e adquiridas” (CRAVERI, 2007, p. 82). Porém, o castelo dos sonhos de Margarida teria curta duração, pois em 1582 eclodiu um novo conflito entre católicos e protestantes. Henrique III e Catarina de Médicis instaram Margarida a retornar para Paris, na esperança de que ela trouxesse o marido consigo. Como isso não aconteceu, a rainha de Navarra ficou mais uma vez à deriva na França, onde constituía um embaraço para o irmão e a mãe. Utilizando como pretexto a relação dela com Campavillon e o suposto nascimento de um filho bastardo, Henrique III conseguiu mandar Margarida embora da corte. Seu marido, por sua vez, a recebeu de volta “em troca da partida das guarnições francesas de três cidades huguenotes de notável valor estratégicos” (idem, p. 83). Porém, dessa vez a acolhida que a rainha receberia seria bastante diferente da primeira. Não só foi ignorada pelo rei, que estava acompanhado de sua amante, a bela Diane d’Andois, como também foi proibida de compartilhar o leito real.

Sendo assim, parecia evidente que Henrique de Navarra pretendia se divorciar da esposa e o fato de que em 1584 o principal aliado de Margarida, o duque de Alençon, morreu, só fez piorar as coisas para ela. O passo seguinte seria o derradeiro erro político de sua vida: em vez de desempenhar um papel de mediação entre o irmão e o marido na oitava guerra religiosa, Margarida de Valois passou para o lado do inimigo comum de ambos: a Espanha. Num ato de rebeldia, a rainha “abandonou” o teto conjugal em 19 de março de 1575 e se refugiou em Argen. Um ano depois, após ter viajado de uma cidade para outra, finalmente se rendeu aos seus perseguidores, contratados pelo irmão e a mãe, e foi encarcerada no castelo de Usson. Ali, Margarida passaria os 20 anos seguintes de sua vida, a princípio como prisioneira e depois como castelã e assistiria à distância ao fim de sua dinastia, “com o massacre dos Guise, a morte de Catarina e o assassinato de Henrique III” (idem, p. 84). Foi em Usson que ela decidiu escrever suas Memórias, “consumando assim um gesto duplamente inaugural: foi a primeira mulher a ter a audácia de contar a própria vida e, ao mesmo tempo, abriu caminho para a autobiografia moderna” (ibid.).

Margarida de Valois em seus últimos anos de vida. Detalhe da tela de Peter Paul Rubens (c. 1622-1625).

Margarida de Valois em seus últimos anos de vida. Detalhe da tela de Peter Paul Rubens (c. 1622-1625).

A autobiografia de Margarida de Valois, fonte indispensável para se compreender o cenário político e religioso da França naquele período, foi escrita em 1594 em resposta ao Discurso sobre a rainha da França e de Navarra, da autoria do historiógrafo Brantôme, que celebrava os anos da juventude de Margarida, embora com alguns erros que ela mais tarde corrigiu na sua própria versão dos fatos. Seria uma digna saída de cena para ela, mas o destino ainda lhe reservava mais alguns problemas. Tendo subido ao trono da França em 1593, Henrique de Navarra (agora Henrique IV) desejava a anulação do casamento. A conduta escandalosa da esposa, aliada ao fato de ela não ter gerado um herdeiro varão para a coroa, tornavam-na indesejável como a consorte de um rei. Apesar disso, Margarida soube conduzir essa situação de forma brilhante. Em troca do divórcio, ela recebeu a reintegração de suas antigas posses e o direito de deixar Usson conservando o título de rainha. Em 1605, ela finalmente voltou para Paris, onde se reencontrou com o ex-marido e foi recebida com honras por ele e pela nova esposa, Maria de Médicis. Já tendo mais de 50 anos e corpulenta, a última dos Valois manteve um comportamento verdadeiramente régio e deu à França um último vislumbre do fulgor da recém-deposta dinastia de reis.

No final, Margarida de Valois e Henrique IV mantiveram uma ótima relação de amizade. Hospedada no Hôtel de Sens, em Paris, ela mais uma vez reuniu à sua volta um seleto grupo de artistas, “transmitindo à nascente civilização mundana um exemplo do mecenato renascentista” (idem, p. 86). Em 1614, ela escreveu seu Discurso douto e sutil, onde discutia a situação da mulher na sociedade, afirmando que os homens não prestavam honras às mulheres pela “enfermidade ou fraqueza”, pois estas só geravam “desprezo e piedade”, mas sim à “excelência” do caráter feminino. Dessa forma, Margarida transformava seu status de esposa repudiada num escudo e ao mesmo tempo consolidava a posição do novo soberano. Ela morreu em 27 de março de 1615 e, não fosse pela lei sálica, teria sido a legítima rainha reinante da França. Séculos mais tarde, a chamada era romântica iria prestar uma grande homenagem àquela mulher. Graças à pena de escritores como Alexandre Dumas, Margarida de Valois passou a ser conhecida como “a rainha Margot”, apelido pelo qual era chamada apenas pelo seu irmão, Carlos IX. Assim, ela se tornou uma personagem que migrou do campo da história para o da literatura, um universo onde ela seria eternamente admirada por súditos fieis que nunca se cansam de lhe render entusiasmada homenagem e admiração.

PARTE I

Referências Bibliográficas:

ASTUTO, Bruno. Catarina de Médicis. – Rio de Janeiro: Lacerda, 2001.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  

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