Uma filha de Catarina de Médicis: Margarida de Valois, a famosa rainha Margot – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No antigo regime das monarquias europeias, cada membro das famílias reais tinha uma função específica. Enquanto dos reis e príncipes se esperavam que fossem um modelo de força e virilidade, requisitos necessários para compor a imagem de soberania masculina, das rainhas e princesas se exigiam um comportamento virtuoso e acima de quaisquer suspeitas, pois seus atos refletiam diretamente na pessoa do monarca reinante. Para conservar a coroa, uma rainha consorte precisava zelar pela sua reputação e ser um exemplo para as outras mulheres do reino. Catarina de Médicis, esposa de Henrique II da França, por sua vez, seguiu esse preceito à risca, mas não sua filha, Margarida de Valois. Por ter desobedecido essa regra, aquela que ficaria posteriormente conhecida como “a rainha Margot” deixou escoar pelas mãos um destino glorioso, graças a um comportamento considerado promíscuo. O drama desta princesa, que foi neta, filha, irmã e esposa de reis, já foi contado de muitas formas ao longo dos séculos. Por meio de obras como La Reine Margot, romance escrito em 1845 por Alexandre Dumas, e do filme homônimo lançado em 1994, Margarida se tornou uma das mulheres mais celebradas da história, famosa pelos vários escândalos que protagonizou na sua vida, em meio a um cenário de conspirações e intrigas na corte mais requintada da Europa.

Margarida de Valois aos 19 anos, por François Clouet.

Margarida de Valois aos 19 anos, por François Clouet.

Nascida em 14 de maio de 1553, Margarida de Valois foi a sétima filha de Catarina de Médicis com Henrique II. Naquele período, o casal de monarcas já eram pais de seis infantes: quatro príncipes e duas princesas (embora um deles, Luís, tivesse morrido antes de completar seu primeiro aniversário, em 1549). O destino daquela criança, a priori, era ser usada no mercado matrimonial europeu para selar alianças políticas vantajosas ao reino da França, assim como seria feito com suas irmãs mais velhas, Elisabete e Cláudia. Sob esta perspectiva, a infância desta princesa não foi tão tranquila quanto a de outras garotas de posição social inferior. Tendo perdido o pai muito cedo, em 1559, Margarida permaneceu sob a tutela da mãe dominadora. Nas suas Memórias, ela diz que quando estava diante de Catarina “não apenas eu não ousava falar, como bastava um só olhar dela para me fazer estremecer com medo de ter feito alguma coisa que não houvesse lhe agradado”. A rainha encarnava aos olhos dos filhos a fusão da autoridade matriarcal com a autoridade monárquica, sendo para eles um modelo de gestora da máquina governamental e artífice da política interestatal. Se a perspectiva de uma reprimenda por parte da soberana era o suficiente para fazer sua filha tremer, por outro lado, um sinal de aprovação bastava para deixa-la feliz.

Sendo assim, Catarina de Médicis foi a figura dominante na infância de Margarida de Valois. A reverência com que a princesa tratava a rainha-mãe era acompanhada por uma pitada de ressentimento, uma vez que Catarina não fazia questão de esconder sua preferência por Henrique, que após a morte do irmão, Carlos IX, se tornou o rei Henrique III. Com o tempo, esse ressentimento se transformou em rancor, devido às suas bodas sangrentas com Henrique de Navarra. Margarida se sentiu usada como uma isca dentro de uma emboscada para assassinar os líderes huguenotes, correndo sério risco de vida. Depois da fatídica noite de São Bartolomeu, ela jamais perdoaria a mãe. Nas suas Memórias, ela fez um relato daquele evento:

…quando eu dormia profundamente, um homem bateu na porta com as mãos e com os pés, gritando: “Navarra! Navarra!”. Minha aia, pensando tratar-se do meu marido, foi correndo abrir. Era um gentil-homem… ferido a sabre no cotovelo e por uma alabarda no braço. Seguiam-no quatro arqueiros, que entraram atrás dele no quarto. Buscando esconder-se, ele pulou na minha cama. Eu, sentindo aquele homem cair sobre mim, escondi-me entre a cama e a parede, e ele me seguiu, sempre agarrado a mim… Ambos gritávamos, cada um mais apavorado do que o outro. Enfim, graças a Deus, apareceu o capitão de guarda, Monsieur de Nançay, que, vendo-me naquele estado, apesar da compaixão, não pôde conter o riso. Irritou-se muito com os arqueiros pela indiscrição, mandou-os embora e me concedeu a vida daquele pobre homem que continuava agarrado a mim. Mandou-o deitar-se e fez que o tratassem no meu gabinete, onde o manteve até ele estar completamente recuperado. Enquanto eu trocava a camisola, toda manchada de sangue, Monsieur de Nançay me contou o que estava acontecendo e me garantiu que meu marido estava no quarto do rei e que não lhe fariam nenhum mal. Depois cobriu-me com um manto e acompanhou-me ao quarto de minha irmã, a duquesa de Lorena, aonde cheguei mais morta do que viva. Ao entrar na antecâmara, que estava com as portas escancaradas, vi um gentil-homem de nome Bourse, perseguido pelos arqueiros, quedar atravessado por uma alabarda, a três passos de mim. Caí semidesfalecida nos braços de Monsieur de Nançay e pensei que a alabarda tinha trespassado nós dois. Quando me recompus um pouco, entrei no quartinho aonde dormia minha irmã. Enquanto eu estava ali, Monsieur de Miossens, primeiro gentil-homem do rei meu marido, e Armagnac, seu primeiro camareiro, vieram rogar a mim que salvasse a vida deles. Atirei-me aos pés do rei e da rainha minha mãe para pedir essa graça, que por fim me foi concedida (apud CRAVERI, 2007. P. 66-67).

A passagem citada acima constitui-se no único relato de um membro da família real, acerca dos eventos sangrentos ocorridos na França entre 23 e 24 de agosto de 1572. Porém, ela não faz qualquer referência ao fato de que seu marido foi forçado a uma conversão ao catolicismo e de que, apesar de ter conseguido salvar três vidas, milhares de huguenotes foram massacrados e seus cadáveres jogados no rio sena. Essa experiência marcou profundamente a vida de Margarida de Valois e deixara sob ela uma impressão muito negativa de sua mãe e irmão, rei Carlos IX. Em todo caso, esse novo casamento coroado pelo banho de sangue provocado pelo massacre de São Bartolomeu deixou Margarida numa situação muito complicada. Anos mais tarde ela diria que “eu era suspeita aos huguenotes por ser católica, e aos católicos por ter me casado com o rei de Navarra”. Alguns dias depois da fatídica noite, ela teve de confrontar sua mãe, que queria anular o casamento da filha com base na não consumação carnal da união. Contudo, a princesa estava disposta a permanecer dentro do estado do matrimônio e a proteger o marido, que era mantido prisioneiro no Louvre, pois “se queriam me separar dele, era para lhe desferir algum golpe sujo.

Tela de Alexandre-Évariste Fragonard, retratando o quarto de Margarida de Valois, durante o massacre de São Bartolomeu (1836).

Tela de Alexandre-Évariste Fragonard, retratando o quarto de Margarida de Valois, durante o massacre de São Bartolomeu (1836).

Com efeito, essa cena marcou o início da rebeldia de Margarida de Valois contra a autoridade materna e também um vínculo de simpatia e solidariedade com seu esposo. Por outro lado, enquanto Henrique planejava a reconquista de sua liberdade, trabalhava em prol da reorganização do movimento huguenote e lutava pela autonomia do seu reino, Margarida permanecia praticamente alheia aos esforços do cônjuge. Para a professora Benedetta Craveri,

O que de tempos em tempos determinava sua conduta e suas escolhas eram as imperiosas e mutáveis razões do seu eu: o orgulho, a indignação, o rancor, a vontade de desforra, o desejo amoroso. Dando-se ao luxo de viver em função do presente, Margarida não percebia, no entanto, que assim comprometia gravemente seu futuro, como nunca percebeu até que ponto eram sempre os outros – a mãe, os irmãos, o marido – que continuavam a decidir sua vida (2007, p. 70-71).

Depois da grande provação pela qual passou, Margarida de Valois pretendia viver a vida da forma como lhe aprouvesse, desconsiderando que com isso estava destruindo sua própria imagem como rainha. Porém, ainda continuava sendo usada pela sua família como um instrumento político, ora a favor do marido, ora a favor da mãe.

Ilustração do livro de horas de Catarina de Médicis, retratando Henrique de Navarra e Margarida de Valois.

Ilustração do livro de horas de Catarina de Médicis, retratando Henrique de Navarra e Margarida de Valois.

Rainha católica num país protestante, Margarida foi considerada um dos grandes espíritos daquela época. Sua conduta liberal logo virou bordão: vivre à la franche Margueritte (viver à maneira livre de Margarida). Ela amava os prazeres da vida e não fazia questão de esconder isso de quem quer que fosse. Em tese, a fidelidade conjugal só era exigida para as mulheres, mas a nova rainha de Navarra decidiu ignorar isso e dar vazão aos seus sentimentos. Suas aventuras amorosas só eram superadas pelas do próprio marido. A princípio, Henrique nada podia fazer quanto à conduta da esposa, pois era mantido encarcerado pela família dela. Mas quando esse período de cativeiro terminou, em 1576, ele fez questão de ostentar a sua infidelidade, desfrutando dos favores de Charlotte de Sauves, dama do séquito de Catarina de Médicis. É provável que estes casos extraconjugais de ambas as partes não fossem praticados com a intenção de provocar escândalo, mas num mundo em que os olhos e ouvidos dos cortesãos estavam atentos ao mínimo deslize cometidos por membro da família real, seria quase impossível esconder relações de adultério, por mais cautelosos que os indivíduos fossem. Para Margarida, essa situação era ainda mais preocupante, pois uma rainha adúltera era condenada à morte.

Entretanto, a rainha de Navarra se considerava acima de tais penalidades, devido ao orgulho que tinha de sua linhagem. Era uma mulher, se não bonita, pelo menos atraente. Como seu marido estava sob ameaça da coroa francesa, então qualquer ação tomada por ele para castigar Margarida poderia gerar consequências graves para si e para o seu reino. As relações entre os dois já estavam tensas por ocasião da fuga de Henrique da corte francesa, em 1576. A algum tempo que ele e sua mulher já não mantinham relações conjugais e ele passou a encara-la como uma espécie de estorvo. Mas a utilidade de Margarida de Valois como moeda de troca ainda não havia chegado ao fim. Henrique III, que compartilhava com a irmã muitas coisas, como a inteligência, arrancou dela a promessa de que continuaria a servir os interesses da coroa francesa e que iria se esforçar para “induzir o rei [seu] marido a respeita-los”. Sendo assim, Margarida recebeu autorização para se juntar ao cônjuge, com o intuito de reconquista-lo. Seria ela capaz de tal empreitada? Estaria ela agindo em benefício da França ou de si própria? O fato é que a rainha estava entrando num jogo bastante arriscado, para o qual ela teria que demonstrar muita astúcia, se não quisesse acabar como vítima de mais um complô arquitetado pela sua própria família.

PARTE II

Referências Bibliográficas:

ASTUTO, Bruno. Catarina de Médicis. – Rio de Janeiro: Lacerda, 2001.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  

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7 comentários sobre “Uma filha de Catarina de Médicis: Margarida de Valois, a famosa rainha Margot – Parte I

  1. Já acompanho o blog há alguns anos e sou completamente apaixonada! Seus textos são sensacionais e eu adoro a bibliografia no final. Estou no último período de História e minha monografia é sobre a Maria Antonieta, então me sinto em casa aqui. Quando li o post falando sobre o que vem em 2016, fiquei animada. E esse texto muito bem escrito sobre a rainha Margot abriu o ano da melhor maneira possível. Continue com o excelente trabalho!

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    • É sempre muito bom ler comentários como esse, Carol. Espero que os textos postados no Rainhas Trágicas sobre Maria Antonieta lhe sirvam de alguma ajuda para a sua monografia. Muito obrigado pelo reconhecimento. Abraços!

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