Teresa Cristina e a Condessa de Barral: entre o dever, o ciúme e a construção da memória histórica

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em setembro de 1856, a imperatriz do Brasil, D. Teresa Cristina, passava um dia feliz admirando e catalogando as peças de seu pequeno museu particular, instalado nos aposentos do Paço de São Cristóvão. Apaixonada pelas antiguidades clássicas e pelas artes, a soberana costumava dedicar parte de seu tempo livre à organização de objetos arqueológicos e obras que recebia da Europa, especialmente de seus parentes do Reino das Duas Sicílias. Nascida em Nápoles, em 14 de março de 1822, Teresa Cristina fora criada em um ambiente profundamente marcado pela religiosidade, pela música e pelo legado da Antiguidade clássica. Educada sob a orientação de monsenhor Olivieri, desenvolveu desde cedo interesse pelas artes, pela arqueologia e pelos estudos históricos. Enquanto organizava suas coleções naquele dia aparentemente comum, não poderia imaginar que uma nova personagem estava prestes a ingressar na vida da família imperial, alterando profundamente as relações dentro do Paço de São Cristóvão.

A visitante era Luísa Margarida Portugal e Barros, condessa de Barral e de Pedra Branca. Nascida em Salvador, em 13 de abril de 1816, a aristocrata baiana era quase seis anos mais velha do que a imperatriz e possuía uma formação incomum para os padrões femininos de seu tempo. Após viver na Europa, familiarizou-se com os círculos culturais franceses e adquiriu uma educação cosmopolita que impressionava contemporâneos. Recém-chegada da França, trazia consigo o domínio de vários idiomas, vasta cultura literária e conhecimento dos costumes da corte de Luís Felipe de Orléans, último rei dos Franceses. Naquele momento, D. Pedro II procurava alguém capaz de conduzir a educação das princesas D. Isabel e D. Leopoldina segundo padrões modernos e rigorosos. Como a herdeira do trono precisava ser preparada para governar um Império, a escolha da condessa pareceu ideal. O que Teresa Cristina não imaginava era que aquela aristocrata baiana acabaria exercendo uma influência tão profunda sobre a família imperial que se tornaria uma das figuras mais controversas do Segundo Reinado.

A Imperatriz Dona Teresa Cristina por volta dos 30 anos, em daguerreótipo digitalmente colorido da década de 1850, feito por Abram-Louis Buvelot.

A ascensão da condessa de Barral dentro da Corte foi rápida e constante. D. Pedro II não apenas a nomeou preceptora das princesas, mas também lhe concedeu ampla liberdade para organizar o cronograma diário das futuras herdeiras do Império. Horários de estudo, leituras, atividades recreativas e momentos de convivência familiar passaram a ser regulados pela educadora. O imperador também lhe conferiu o título de dama da imperatriz, embora essa função já fosse desempenhada por Josefina Fonseca da Costa. Como Isabel estava destinada ao trono, sua formação era considerada uma questão de Estado. Pedro II acreditava que somente uma mulher culta e cosmopolita poderia preparar adequadamente suas filhas para os desafios do governo. Teresa Cristina, por sua vez, assistia à crescente influência da condessa sobre o cotidiano das meninas e via diminuir progressivamente o tempo que passava com elas. Embora aceitasse a situação em nome da autoridade do marido e do interesse da monarquia, não deixava de perceber que uma nova força passava a atuar dentro dos muros do Paço.

Mulher elegante, refinada e dotada de grande inteligência, Luísa logo conquistou a admiração das princesas, que a apelidaram de “fadinha”. Também conquistou a estima do próprio imperador. D. Pedro II encontrou nela uma interlocutora capaz de acompanhar seus interesses por literatura, ciência, filosofia e política internacional. Aos poucos, tornou-se frequente sua presença durante as lições ministradas às filhas. Foi nesse contexto que ocorreu um dos episódios mais comentados da historiografia imperial. A princesa D. Leopoldina, então com apenas dez anos, observando uma intimidade incomum entre o pai e a preceptora, perguntou à mãe: “Por que é que, durante as lições, pisa no pé da condessa?”. A pergunta infantil talvez fosse inocente, mas dificilmente o significado do gesto passaria despercebido aos adultos. No século XIX, os pés femininos eram frequentemente associados ao erotismo e à intimidade, aparecendo inclusive como elemento central em romances como A Pata da Gazela, de José de Alencar. O comentário da pequena Leopoldina parece ter confirmado aquilo que Teresa Cristina já começava a suspeitar: a proximidade entre o imperador e a condessa ultrapassava os limites da mera cordialidade.

Apesar desse desconforto crescente, a relação entre Teresa Cristina e Luísa de Barral permaneceu cordial durante muitos anos. A imperatriz era uma mulher profundamente consciente das exigências impostas ao seu papel institucional e evitava qualquer comportamento que pudesse gerar escândalos. Seu tratamento para com a condessa continuou irrepreensível, mesmo quando os rumores sobre a ligação desta com o imperador se intensificavam. Em carta datada de 18 de dezembro de 1859, Luísa escrevia à soberana: “Os favores de Vossa Majestade são tantos que já nem sei como os deva agradecer. Curvada, beijo a augusta mão de Vossa Majestade e tenho o gosto de Lhe poder dizer que as Augustas Princesas estão muito boas”. A correspondência revela que, pelo menos oficialmente, existia respeito mútuo entre ambas. Teresa Cristina compreendia que sua posição exigia discrição e domínio de si mesma. Em uma Corte onde a aparência possuía enorme peso político, a manutenção do decoro tornava-se uma forma de proteger não apenas sua dignidade pessoal, mas também a própria imagem da monarquia.

Retrato da Condessa de Barral, pintado na década de 1850. Por artista desconhecido.

Durante a viagem dos imperadores às províncias do Nordeste, em 1860, um episódio curioso demonstrou o forte vínculo afetivo existente entre Teresa Cristina e as filhas. Antes de partir, a imperatriz deixou um retrato seu no gabinete de estudos das princesas. Pouco tempo depois, a condessa escreveu relatando: “Desde que Vossa Majestade mandou seu retrato às Princesas, nunca mais elas se separaram dele […]. O maior castigo que eu tenho prometido e de que tenho tirado o maior proveito, é dizer: que ficará privada de olhar o retrato Aquela que não trabalhar bem”. A passagem mostra que Barral utilizava o apego das meninas à mãe como instrumento disciplinar. Das duas irmãs, Isabel costumava ser mais dócil e obediente, enquanto Leopoldina possuía um temperamento independente e impulsivo. Essa diferença de personalidade frequentemente aparecia nas cartas da condessa, que mantinha a imperatriz informada sobre o progresso das pupilas e sobre os desafios encontrados no exercício de sua função.

A mais nova das princesas raramente se submetia sem resistência à autoridade da preceptora. Em carta datada de 7 de janeiro de 1860, Luísa escreveu: “Eu não queria hoje escrever para Vossa Majestade porque não desejava causar-lhe o desprazer de Lhe dizer que não estou contente do comportamento de Sua Alteza a Senhora Princesa D. Leopoldina”. Em seguida, relatava os conflitos envolvendo Mademoiselle Templier e outras pessoas do convívio palaciano. Foi também nesse período que Teresa Cristina passou a se abrir mais livremente com a filha mais nova sobre seus sentimentos em relação à condessa. O que não imaginava era que Leopoldina frequentemente reproduzia essas conversas. Em carta de 25 de dezembro de 1859, a própria princesa contou à mãe que Barral havia montado uma árvore de Natal decorada com quatro palmatórias: “para a mais preguiçosa (eu), para a mais teimosa (mana), para quem não sabe tabuada (Dominique) e para quem troca as letras (Francisca)”. Sem perceber, a jovem transformava-se em mensageira involuntária de comentários e confidências que acabariam alimentando novos atritos entre as duas mulheres.

A situação atingiu seu ápice em 31 de janeiro de 1864. Naquela data, Teresa Cristina registrou em seu diário um dos episódios mais dolorosos de toda a convivência com a condessa de Barral. Segundo a imperatriz, Luísa declarou que não possuía autoridade suficiente para educar as princesas e acrescentou que Leopoldina lhe revelava tudo o que a mãe dizia em particular. O relato prossegue em tom profundamente melancólico: “Hoje a Condessa de Barral disse que não tinha todo o poder para a educação das minhas filhas, portanto não as educava, mas somente dava lições […]. A Condessa disse que aproveitava para ter um juízo sobre mim e disse que eu era muito falsa. Paciência, tudo neste mundo se tem que suportar. Mas é bem triste para o coração de uma Mãe ver que não se pode ter confidência com uma filha”. Nessa passagem, a soberana deixa de ser apenas a imperatriz do Brasil para tornar-se uma mulher ferida. A dor expressa em suas palavras revela a dimensão emocional de um conflito frequentemente reduzido pelos historiadores a simples rivalidade feminina.

A condessa foi contratada para supervisionar a educação das princesas Isabel e Leopoldina. Das duas, a mais jovem era a mais intrépida e foi a razão da briga entre a imperatriz e Luísa. (Fotografia digitalmente colorida).

Ao ciúme das filhas somava-se o do marido. A atenção que D. Pedro II dedicava à condessa tornava-se cada vez mais evidente ao longo dos anos. Em carta escrita das termas de Gastein, na Áustria, em 12 de agosto de 1876, Teresa Cristina confessou: “[…] Como tu me disseste honte de te escrever tudo non te posso negar que senti uma inveja vedo que mandaste uma flor a Condessa antes que a tua pobre mulher”. O trecho é particularmente revelador porque mostra uma imperatriz muito diferente daquela figura passiva frequentemente retratada pela historiografia. Havia ali uma mulher consciente da posição ocupada por Barral na vida do marido e profundamente magoada por isso. Curiosamente, nessa ocasião, a própria condessa encontrava-se acompanhando a comitiva imperial na Europa. Anos antes, em 2 de setembro de 1865, Teresa já havia escrito a Pedro II: “Recebi também uma carta da Condessa […]. Digo-lhe que estou contentíssima por ela estar em Paris, já é suficiente tudo o que me aflige”. São desabafos raros, mas extremamente humanos.

Mais tarde, Tobias Monteiro resumiria a situação afirmando que “a imperatriz não pôde dissimular que detestava a Barral”. Entretanto, a relação entre as duas não se resume ao ressentimento. Talvez a obra em que possamos encontrar a figura da Imperatriz D. Teresa sob um ângulo mais pessimista seja Condessa de Barral (Objetiva, 2008), da historiadora Mary Del Priore. Em sua extensa bibliografia, a referida pesquisadora, no presente livro, não cansa de rebaixar a soberana para exaltar as qualidades daquela a quem chama de “a paixão do imperador”, ou seja, Luísa Margarida Portugal e Barros. Referindo-se a Teresa Cristina como invejosa e ciumenta, Del Priore diz que ela fitava a rival com um olhar de cobra e que “devolvia seu ódio à traidora [a condessa], com um terço na mão”. Em contrapartida, Luísa teria pela mulher de seu suposto amante “um misto de compaixão e desprezo”, uma vez que “a imperatriz nunca chegou aos seus pés”. Por meio de livros como esse, dificilmente o leitor desenvolverá qualquer simpatia pela figura de Teresa Cristina, interpretando-a como uma mulher ressentida e mal-amada.

Não obstante, a própria descrição que Mary Del Priore faz da soberana é tão severa que, através dela, é possível sentir nada senão compaixão por D. Pedro II quando este subiu a bordo da fragata Constituição, em setembro de 1843, e decepcionou-se ao constatar que sua consorte pouco se parecia com o retrato enviado anteriormente. Diz a autora: “…Tinha o nariz dos ancestrais – em formato de berinjela –, olhos miúdos, lábios estreitos e queixo duro. Os cabelos escuros amarrados em bandós sobre a orelha acentuavam o perfil comprido. Talvez por tudo isso, sorria pouco. As pernas excessivamente arqueadas por debaixo das saias davam a impressão de que ela mancava. Elegância? Nenhuma. Graças? Poucas. Só a voz de contralto que exercitava em pequenos trechos de óperas italianas e a facilidade com que se acompanhava no piano…” (PRIORE, 2008, p. 167). Em seguida, a historiadora afirma que a educação da imperatriz teria sido “limitada à cesta de costura, ao piano e ao canto” e que suas ideias religiosas constituíam um obstáculo para sua inteligência. Tais observações, entretanto, merecem ser confrontadas com outras evidências documentais produzidas pela própria soberana ao longo de sua vida.

D. Teresa Cristina e a Condessa de Barral discutindo no Paço de São Cristóvão. Cena gerada por I.A.

Todavia, como uma mulher que compreendia literatura e poesia, mas não conseguia memorizar nada, pôde deixar um acervo documental tão vasto quanto aquele hoje preservado pelo Museu Imperial de Petrópolis? Seus diários pessoais, que registram a vida cotidiana na Corte, as viagens realizadas pelo Brasil e pela Europa, as óperas a que assistia e os acontecimentos políticos de seu tempo, constituem mais do que prova suficiente de sua capacidade intelectual. Além disso, como uma pessoa de “inteligência limitada” devido à religiosidade pôde desenvolver uma paixão tão profunda pela arqueologia clássica, a ponto de negociar com parentes em Nápoles a aquisição de numerosas peças antigas destinadas a enriquecer coleções brasileiras? Como uma imperatriz que supostamente não fazia qualquer contribuição nas rodas sociais pôde exercer influência relevante sobre a imigração italiana para o Brasil? São perguntas fundamentais para desconstruirmos certos estereótipos historiográficos ainda reproduzidos por parte da literatura especializada.

É conhecido, por exemplo, o grande interesse de Teresa Cristina pelas inovações científicas do período, especialmente pela fotografia. Em muitas imagens da época podemos observá-la acompanhada do marido e das filhas, cercada de livros, numa representação que reforça seu apreço pela erudição. Não obstante, apesar de o Reino das Duas Sicílias não ser tão desenvolvido quanto as grandes monarquias da Inglaterra, França, Espanha ou Áustria, a futura imperatriz cresceu praticamente ao lado de um imenso sítio arqueológico que preservava os vestígios da antiga Magna Grécia. Sendo assim, seria bastante equivocado supor que uma mulher, mesmo profundamente religiosa, permanecesse insensível à extraordinária atmosfera cultural que a cercava desde a infância. Nascida em 14 de março de 1822, Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias foi educada por monsenhor Olivieri e, segundo Guimarães (2011, p. 5), “possuía uma natureza sensível, inteligência apurada e inclinada ao culto das artes”. Diante disso, a imagem de uma imperatriz intelectualmente apagada parece dizer muito mais sobre determinados preconceitos historiográficos do que sobre a verdadeira personalidade da soberana.

Apesar das tensões, ressentimentos e ciúmes que marcaram boa parte de sua convivência, a relação entre Teresa Cristina e a condessa de Barral tornou-se consideravelmente mais harmoniosa após o retorno definitivo de Luísa à França. A distância contribuiu para dissipar antigas disputas e permitiu que ambas passassem a se relacionar de maneira mais cordial. Continuaram trocando cartas, presentes e demonstrações de estima, enquanto os reencontros aconteciam sempre que a família imperial viajava para a Europa ou quando a própria condessa regressava temporariamente ao Brasil. Com o passar dos anos, a rivalidade foi cedendo lugar ao respeito mútuo e à memória de uma longa história compartilhada. Afinal, Teresa Cristina e Luísa Margarida foram mulheres muito diferentes, mas igualmente marcadas pelas exigências de seu tempo. Uma brilhou nos salões da Corte com a força da inteligência e do espírito; a outra sustentou silenciosamente o peso da Coroa com a serenidade do dever. E quando o Império desapareceu nas brumas da História, permaneceram as cartas, os retratos e as lembranças de ambas, como duas vozes que ainda ecoam através do tempo. Não mais como rivais, mas como personagens inseparáveis de uma mesma narrativa, unidas para sempre pelas delicadas contradições do coração humano e pelas sombras douradas do Segundo Reinado.

Fotografia da Condessa de Barral, a “fadinha”, em pé, ao lado da princesa Imperial D. Isabel e dos filhos dela, D. Pedro, D. Luís e D. Antônio.

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina Maria de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos (1843-1889). Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014.

BARRAL, Luísa Margarida Portugal e Barros. Cartas às Suas Majestades. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.

DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

GUIMARÃES, Lúcia Maria Paschoal. Teresa Cristina: uma imperatriz arqueóloga nos trópicos. Petrópolis: Museu Imperial, 2011.

MONTEIRO, Tobias. História do Império. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1939.

MUSEU IMPERIAL. Fundo Casa Imperial do Brasil. Diários e correspondência de D. Teresa Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro II: a história não contada. São Paulo: Leya, 2019.

TJÄDER, Rogério da Silva. Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança: a Mãe dos Brasileiros. Valença: Edição do Autor, 2014.

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