Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Poucas acusações lançadas contra Ana Bolena atravessaram os séculos com tanta força quanto a de incesto com seu irmão, George Bolena. A ideia de que os dois teriam mantido uma relação ilícita foi amplamente difundida pela literatura de ficção histórica e por produções cinematográficas como A Outra (2008), que apresentou ao grande público uma versão dramatizada dos acontecimentos ocorridos em 1536. A cena em que Ana, desesperada por não conseguir gerar um herdeiro homem para Henrique VIII, supostamente recorre ao próprio irmão tornou-se uma das imagens mais conhecidas da cultura popular sobre os Tudor. No entanto, quando se analisam os documentos contemporâneos, os registros judiciais, as correspondências diplomáticas e os estudos historiográficos produzidos ao longo dos últimos cem anos, percebe-se que a realidade foi muito mais complexa. Embora George Bolena tenha sido formalmente acusado de adultério e incesto com a rainha, a consistência das provas apresentadas contra ele permanece extremamente questionável. Mais do que uma investigação criminal legítima, o episódio parece ter sido parte de uma operação política destinada a destruir Ana Bolena, anular seu casamento com Henrique VIII e abrir caminho para uma nova rainha.

A importância da acusação de incesto dentro do processo contra Ana Bolena não pode ser subestimada. Para Henrique VIII, não bastava apenas eliminar uma esposa que já não correspondia às suas expectativas dinásticas. Era necessário desacreditá-la moralmente perante a corte, a nobreza e a população inglesa. O adultério, por si só, permitia condenar a rainha por traição; entretanto, o incesto tinha uma função ainda mais poderosa, pois transformava Ana numa figura supostamente corrompida em sua essência. Ao envolver George Bolena, um dos homens mais influentes da corte, a acusação também atingia toda a família. A consequência política era evidente: se Ana tivesse realmente vivido uma relação incestuosa, o casamento com Henrique VIII poderia ser considerado nulo desde o início, tornando a princesa Elizabeth ilegítima. Como observou Antonia Fraser, o objetivo era construir uma imagem tão monstruosa da rainha que sua queda se tornasse inevitável. Assim, antes mesmo do início dos julgamentos, a narrativa da culpa já estava sendo cuidadosamente elaborada pelos inimigos dos Bolena.
George Bolena nasceu por volta de 1504 e era o único filho homem sobrevivente de Thomas Bolena e Elizabeth Howard. Inteligente, culto e fluente em francês, destacou-se desde cedo na corte de Henrique VIII. Compartilhava com a irmã Ana uma educação refinada, gosto pelas letras e interesse pelas ideias reformistas que circulavam na Europa. Enquanto Maria Bolena ficou conhecida por seus relacionamentos amorosos, Ana e George se destacaram pela capacidade intelectual e pela habilidade política. Em 1525, George casou-se com Jane Parker, futura Lady Rochford, numa união que reforçou a posição da família na aristocracia inglesa. Ao contrário do que sugerem muitas obras de ficção, não existe documentação contemporânea que comprove um casamento desastroso ou marcado por hostilidade permanente. Pelo contrário, registros administrativos mostram George preocupado com os interesses financeiros da esposa. Essa constatação é importante porque, séculos depois, surgiria a lenda de que Jane teria denunciado o marido por vingança ou ciúme, uma versão que os documentos disponíveis não sustentam.

Durante a década de 1530, George alcançou o auge da carreira política. Tornou-se Visconde Rochford, membro do Conselho Privado, diplomata e representante do rei em missões delicadas junto à corte francesa. Sua proximidade com Henrique VIII era tamanha que frequentemente participava de negociações relacionadas ao divórcio do monarca e à consolidação do casamento com Ana Bolena. Contudo, a ascensão da família estava intimamente ligada à permanência de Ana no favor real. Quando a rainha passou a enfrentar dificuldades para gerar um herdeiro homem e Henrique voltou sua atenção para Jane Seymour, o destino dos Bolena começou a mudar. Em abril de 1536, Thomas Cromwell iniciou uma investigação que rapidamente assumiu contornos de conspiração política. A denúncia inicial partiu de Elizabeth Browne, Lady Worcester, descrita por Eustace Chapuys como “a primeira acusadora da rainha”. A partir daquele momento, rumores, comentários de corte e depoimentos fragmentados foram reunidos para construir um caso que justificasse a eliminação da segunda esposa do rei.
Entre as pessoas interrogadas por Cromwell estava Jane Boleyn, Lady Rochford. O principal assunto discutido durante seu depoimento não foi o incesto, mas uma conversa delicada que tivera com Ana Bolena sobre a capacidade sexual de Henrique VIII. Segundo Antonia Fraser, Ana teria afirmado que “le Roy n’estoit habile en cas de soy copuler avec femme et qu’il n’avoit ne vertu ne puissance” (FRASER, 2010, p. 336). Em outras palavras, a rainha insinuava que o rei não possuía vigor sexual suficiente para satisfazer uma mulher. Jane comentou o assunto com George e, posteriormente, foi obrigada a relatar o episódio durante os interrogatórios. Durante séculos, esse depoimento foi interpretado de forma equivocada como prova de que ela teria denunciado o marido e a cunhada por incesto. Contudo, Julia Fox demonstra que a confusão surgiu da mistura de relatos produzidos décadas depois dos acontecimentos. Segundo a autora, Jane e Lady Worcester foram transformadas numa única personagem pela tradição histórica posterior, o que contribuiu para consolidar a imagem injusta de Lady Rochford como a grande responsável pela tragédia dos Bolena.

Em 2 de maio de 1536, Ana e George foram presos e conduzidos à Torre de Londres. A partir desse momento, a máquina judicial organizada por Cromwell avançou rapidamente. Entretanto, uma carta preservada entre os documentos da Torre lança nova luz sobre o relacionamento entre George e sua esposa. Sir William Kingston, condestável da fortaleza, relatou a Thomas Cromwell que Jane havia perguntado pelo estado do marido e prometido que “humildemente suplicaria a Sua Alteza o Rei” em seu favor. A resposta de George foi imediata: pediu que transmitissem seus agradecimentos à esposa. O documento, parcialmente danificado pelo incêndio da Ashburnham House em 1731, sobreviveu e constitui uma das mais importantes evidências contra a imagem tradicional de Jane como traidora. Se realmente desejasse a destruição do marido, dificilmente tentaria interceder por ele junto ao rei. O episódio sugere exatamente o contrário: num momento em que até parentes próximos abandonavam os acusados para preservar a própria segurança, Jane demonstrava preocupação genuína com George.
O julgamento ocorreu em 15 de maio de 1536 e foi presidido por Thomas Howard, Duque de Norfolk, tio de Ana e George. Desde o início, o resultado parecia determinado. Os jurados pertenciam à elite política alinhada aos interesses do rei, e a pressão para condenar os réus era enorme. As acusações de incesto apresentavam fragilidades evidentes. Não existiam testemunhas oculares, provas materiais ou confissões confiáveis. Quando confrontado com a principal alegação contra si, George reagiu com indignação. Segundo Fraser, declarou diante do tribunal: “com base no depoimento de apenas uma mulher, os senhores estão dispostos a acreditar que cometi esse grande pecado” (FRASER, 2010, p. 336). Em seguida, leu em voz alta as observações atribuídas a Ana sobre a impotência do rei, expondo Henrique VIII ao ridículo perante toda a assembleia. Foi um gesto ousado e desesperado. George compreendia que dificilmente escaparia da condenação, mas recusava-se a aceitar em silêncio uma acusação que considerava absurda.

Os problemas do processo tornam-se ainda mais evidentes quando analisados à luz da pesquisa historiográfica moderna. Eric Ives, considerado por muitos o maior especialista em Ana Bolena, examinou cuidadosamente as datas apresentadas na acusação e concluiu que a maior parte delas era impossível. Segundo ele, “A careful investigation shows that at least three-quarters of the charges could be refuted. The documentation proves that in twelve cases Anne Boleyn was in different places and in the company of other people” (IVES, 2010, p. 344). Em vários episódios, os registros da corte demonstram que Ana estava em locais diferentes daqueles mencionados pelos acusadores. Em outros casos, encontrava-se cercada por damas, criados e oficiais, tornando improvável qualquer encontro secreto. Ives observa ainda que apenas três acusações não podiam ser completamente refutadas por documentação contemporânea. Contudo, como o próprio historiador adverte, “Lack of an alibi is not proof of guilt” (IVES, 2010, p. 346). A ausência de um álibi não constitui evidência de culpa, sobretudo quando todo o restante do processo apresenta inconsistências tão profundas.
Nem todos os historiadores concordam integralmente com essa interpretação. G. W. Bernard, em Anne Boleyn: Fatal Attractions, publicou uma das análises mais controversas sobre o tema. Segundo ele, “On the balance of probabilities, Anne had been guilty of adultery, most likely with Norris” (BERNARD, 2010, p. 199). Bernard argumenta que Henrique VIII dificilmente teria destruído a legitimidade da própria filha sem acreditar na veracidade de parte das acusações. Sua tese, entretanto, recebeu críticas severas de especialistas como Eric Ives, Alison Weir e Elizabeth Norton. Para esses autores, Bernard inverte o ônus da prova ao partir do pressuposto de que a decisão do rei seria necessariamente baseada em fatos concretos. Além disso, nenhuma carta amorosa, testemunho direto ou confissão espontânea foi encontrada para corroborar a hipótese do adultério. Mark Smeaton confessou apenas após intenso interrogatório e posteriormente negou a culpa. Norris, Weston, Brereton e George morreram insistindo em sua inocência.

A acusação de incesto também precisa ser compreendida dentro da cultura política do século XVI. Retha Warnicke observa que Ana e George mantinham uma relação de grande proximidade intelectual e emocional, algo relativamente incomum para irmãos aristocráticos adultos, mas perfeitamente explicável pelas circunstâncias de sua educação e atuação política conjunta. Essa intimidade foi reinterpretada por Cromwell como evidência de comportamento criminoso. A historiadora sugere ainda que a ausência de filhos no casamento de George levou alguns autores a especular sobre sua orientação sexual, hipótese que permanece sem comprovação documental. O fato é que nenhuma evidência contemporânea demonstra a existência de uma relação física entre os irmãos. Pelo contrário, tudo indica que George frequentava os aposentos da rainha principalmente como conselheiro político e aliado dentro da corte. A acusação de incesto servia perfeitamente aos interesses do governo porque transformava uma relação familiar próxima em instrumento de destruição política.
Em 17 de maio de 1536, George Bolena foi executado em Tower Hill. Dois dias depois, Ana Bolena subiria ao cadafalso dentro da Torre de Londres. Nenhum dos dois confessou o crime de incesto. A morte dos irmãos marcou o fim de uma das famílias mais influentes da Inglaterra Tudor e inaugurou uma das maiores controvérsias da historiografia inglesa. Desde o século XVI, autores como John Foxe e George Wyatt defenderam a inocência da rainha. Wyatt, que entrevistou pessoas que conviveram com Ana, concluiu: “Truly I must say that this noble lady was condemned without cause” (WYATT, 1817, p. 42). Cinco séculos depois, os documentos continuam sugerindo que George e Ana foram vítimas de uma combinação devastadora de ambição política, conveniência dinástica e manipulação judicial. Talvez nunca seja possível responder de forma absoluta a todas as perguntas deixadas por 1536. Ainda assim, entre as pedras silenciosas da Torre de Londres e os fragmentos sobreviventes das cartas queimadas pelo tempo, permanece a impressão de que os Bolena não morreram por aquilo que fizeram, mas por aquilo que era necessário que todos acreditassem que haviam feito. Como tantas figuras trágicas da História, foram condenados não apenas pelo veredicto dos homens, mas pela persistência das lendas que sobreviveram à sua morte.
Referências Bibliográficas:
BERNARD, G. W. Anne Boleyn: Fatal Attractions. New Haven: Yale University Press, 2010.
FOX, Julia. Jane Boleyn: The True Story of the Infamous Lady Rochford. London: Weidenfeld & Nicolson, 2007.
FRASER, Antonia. The Six Wives of Henry VIII. London: Weidenfeld & Nicolson, 2010.
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Lisboa: Livros do Brasil, 1950.
IVES, Eric. The Life and Death of Anne Boleyn. Oxford: Blackwell Publishing, 2010.
NORTON, Elizabeth. Anne Boleyn: Henry VIII’s Obsession. Stroud: Amberley Publishing, 2008.
WARNICKE, Retha M. The Rise and Fall of Anne Boleyn. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
WEIR, Alison. The Lady in the Tower: The Fall of Anne Boleyn. London: Jonathan Cape, 2009.
WYATT, George. The Life of Queen Anne Boleigne. London: Pickering, 1817.













