Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Separadas por 118 anos, Alexandra da Dinamarca e Diana Spencer parecem personagens de um curioso espelho da História. Ambas chegaram à Família Real Britânica muito jovens, receberam o título de Princesa de Gales aos dezenove anos e assumiram uma função que, por séculos, foi considerada a principal missão das esposas dos herdeiros da Coroa: garantir a continuidade da dinastia. Alexandra casou-se com o Príncipe Albert Edward, futuro Edward VII, em 10 de março de 1863. Diana tornou-se esposa do então Príncipe Charles em 29 de julho de 1981. Embora tenham vivido em épocas profundamente diferentes, as duas seriam transformadas em símbolos nacionais, observadas constantemente pelo público e pela imprensa. Eram mulheres admiradas por sua beleza, copiadas por milhões e celebradas como a renovação de uma monarquia que atravessava momentos delicados. Mais do que princesas, tornaram-se fenômenos culturais capazes de ultrapassar as fronteiras do Reino Unido e conquistar uma projeção internacional raramente alcançada por integrantes da realeza.

As coincidências não terminam no título. Alexandra, filha do futuro Rei Christian IX da Dinamarca, e Diana, filha do 8º Conde Spencer, pertenciam a antigas linhagens aristocráticas e possuíam ancestrais comuns na nobreza medieval inglesa. Ambas descendiam de Sir Ralph Neville, 1º Conde de Westmorland, por diferentes ramos familiares. Quando chegaram à Corte, foram recebidas como figuras capazes de devolver prestígio e encanto à monarquia. O casamento de Alexandra ajudou a restaurar a popularidade da instituição após anos de retraimento da Rainha Vitória, mergulhada no luto pela morte do Príncipe Albert. Já o casamento de Diana foi apresentado ao mundo como um conto de fadas moderno, oferecendo juventude e glamour a uma Família Real frequentemente considerada distante e excessivamente formal. Em ambos os casos, o entusiasmo popular foi imediato, e as duas mulheres rapidamente conquistaram um espaço afetivo que ultrapassava o protocolo e a própria função que exerciam.
A popularidade, entretanto, trouxe consequências complexas. Alexandra tornou-se uma referência absoluta de elegância durante a Era Vitoriana. Vestidos, joias, penteados e até mesmo sua forma de caminhar eram reproduzidos por mulheres em toda a Europa. Diana alcançaria um fenômeno semelhante mais de um século depois, transformando-se numa das mulheres mais fotografadas do planeta e numa das maiores influenciadoras de moda do século XX. Mas a admiração pública escondia inseguranças profundas. Após sofrer um grave episódio de febre reumática em 1867, Alexandra desenvolveu uma claudicação permanente e perdeu parte da audição. Sentindo-se desconfortável com uma pequena cicatriz no pescoço, passou a usar gargantilhas e golas altas que acabaram se tornando tendência internacional. Diana, por sua vez, enfrentou durante anos a bulimia nervosa, problema agravado pela pressão estética, pela exposição constante e pelas dificuldades emocionais vividas dentro do casamento. Em diferentes épocas, ambas descobriram que a beleza admirada pelo mundo nem sempre era suficiente para silenciar as próprias inseguranças.

As semelhanças também se estendem à vida conjugal. O casamento de Alexandra foi marcado pelas inúmeras infidelidades do Príncipe Albert Edward, conhecido pela família como Bertie. Entre suas amantes mais famosas estava Alice Keppel, bisavó de Camilla Parker Bowles, atual Rainha Consorte. Embora sofresse em silêncio, Alexandra manteve uma postura pública de dignidade e discrição, características esperadas de uma princesa vitoriana. Diana enfrentaria um drama semelhante mais de cem anos depois. O relacionamento entre Charles e Camilla tornou-se uma sombra permanente sobre seu casamento, contribuindo para um desgaste emocional que acabaria exposto diante do mundo inteiro. As duas princesas experimentaram a dor de ver os próprios casamentos ameaçados por relações paralelas amplamente comentadas nos círculos sociais e pela imprensa. Ainda assim, a empatia popular por ambas cresceu justamente porque o público enxergava nelas mulheres vulneráveis vivendo dramas profundamente humanos por trás das paredes dos palácios.
Apesar das dificuldades pessoais, Alexandra e Diana revolucionaram silenciosamente a maneira como a maternidade era exercida dentro da monarquia. No século XIX, era comum que crianças reais fossem criadas principalmente por amas e governantas, mantendo uma convivência limitada com os pais. Alexandra contrariou essa tradição ao dedicar tempo aos filhos, brincar com eles, fotografá-los e participar ativamente de sua educação. Um século mais tarde, Diana faria o mesmo com William e Harry. Foi a primeira Princesa de Gales a dar à luz em um hospital, o St. Mary’s Hospital, e fez questão de proporcionar aos filhos experiências comuns à maioria das crianças. Levava-os a parques de diversão, restaurantes, cinemas e eventos esportivos. Conversava com professores, frequentava reuniões escolares e procurava mostrar aos meninos uma realidade além dos muros dos palácios. Em épocas distintas, ambas ajudaram a humanizar a Família Real por meio de algo simples, mas revolucionário: a demonstração pública de afeto materno.

Foi também na filantropia que as duas encontraram um propósito capaz de transcender as limitações impostas pela vida pessoal. Alexandra dedicou grande parte de sua existência ao apoio de hospitais, instituições de assistência social, organizações para deficientes visuais e projetos ligados ao bem-estar dos militares britânicos. Seu nome tornou-se associado ao serviço de enfermagem militar que mais tarde seria conhecido como Queen Alexandra’s Royal Army Nursing Corps. Diana, por sua vez, abraçou algumas das causas mais estigmatizadas do final do século XX. Em plena epidemia de AIDS, quando o preconceito ainda era enorme, ela apertou as mãos de pacientes sem usar luvas, demonstrando publicamente que a doença não era transmitida pelo contato físico. Pouco antes de sua morte, chamou a atenção do mundo para o drama das minas terrestres ao caminhar por áreas contaminadas em Angola. Ambas compreenderam que a verdadeira influência não estava nos títulos que carregavam, mas na capacidade de usar a própria visibilidade para aliviar o sofrimento alheio.
Entretanto, os caminhos das duas mulheres seguiram rumos diferentes. Alexandra tornou-se Rainha Consorte em 1901 e continuou sendo uma figura respeitada até sua morte, em 20 de novembro de 1925, aos oitenta anos de idade. Viveu o suficiente para acompanhar transformações profundas na Europa, testemunhar o casamento dos filhos e ver uma nova geração ocupar os tronos do continente. Diana, ao contrário, teve a trajetória interrompida de forma abrupta. Após o divórcio de Charles em 1996, parecia iniciar uma nova fase de independência e reinvenção pessoal. Porém, em 31 de agosto de 1997, morreu em um acidente de carro em Paris, aos trinta e seis anos. A notícia provocou uma comoção sem precedentes na história moderna da monarquia britânica. Milhões de pessoas acompanharam seu funeral e transformaram o luto coletivo em uma demonstração de afeto que ultrapassou fronteiras, idiomas e diferenças culturais.

Com efeito, Alexandra e Diana representam dois momentos distintos da condição feminina dentro da monarquia britânica. Alexandra simbolizou a discrição, a paciência e a resignação esperadas de uma princesa do século XIX. Diana iniciou sua trajetória dentro desse mesmo modelo, mas gradualmente tornou-se uma mulher que buscou construir a própria voz e controlar a própria narrativa. Uma serviu à instituição até o fim da vida; a outra ajudou a obrigá-la a mudar. Alexandra permanece como a mulher que por mais tempo usou o título de Princesa de Gales, durante trinta e oito anos. Diana jamais chegou a ser rainha, mas conquistou algo que nenhuma coroa poderia garantir. A História reservou-lhe um lugar único na memória coletiva. E talvez seja justamente nesse ponto que as duas se encontrem. Porque os títulos desaparecem, as gerações passam e os palácios sobrevivem ao tempo. Mas algumas mulheres permanecem. Como estrelas que brilham em séculos diferentes, Alexandra e Diana continuam iluminando a História com a mesma luz delicada de quem conheceu a dor, transformou sofrimento em compaixão e fez da própria existência uma forma silenciosa de esperança.
Referências Bibliográficas:
BATTISCOMBE, Georgina. Queen Alexandra. London: Constable, 1969.
BRADFORD, Sarah. Diana. London: Viking, 2006.
DUFF, David. Alexandra: Princess and Queen. London: Collins, 1978.
MORTON, Andrew. Diana: Her True Story. London: Michael O’Mara Books, 1992.
ROYAL COLLECTION TRUST. Queen Alexandra. Disponível em: https://www.rct.uk. Acesso em: 7 jun. 2026.
NATIONAL ARMY MUSEUM. Queen Alexandra’s Royal Army Nursing Corps. Disponível em: https://www.nam.ac.uk. Acesso em: 7 jun. 2026.
TERRANCE HIGGINS TRUST. How Princess Diana Challenged HIV Stigma. Disponível em: https://www.tht.org.uk. Acesso em: 7 jun. 2026.













