Por: Renato Drummond Tapioca Neto
O século XIX também é conhecido por romper tradições do passado sob uma máscara de romantismo, característica que se tornou uma das principais marcas daquele período. Apesar dos avanços culturais e intelectuais promovidos pela época, as concepções acerca da moralidade e da religiosidade continuavam concentradas especialmente na figura da mulher. Esperava-se que ela personificasse a donzela dos romances, inalcançável em sua pureza e sempre à espera de um cavaleiro que viesse resgatá-la. A educação feminina era geralmente limitada às habilidades domésticas e às virtudes consideradas adequadas para uma boa esposa. Nesse contexto, mulheres que buscavam autonomia intelectual ou ousavam tomar decisões próprias acabavam se destacando por desafiar os padrões estabelecidos. Felizmente, a História preservou exemplos de personagens que conseguiram ultrapassar essas barreiras e construir trajetórias extraordinárias. Sem dúvida, uma das mais fascinantes foi a baiana Luísa Margarida de Barros Portugal, conhecida pelo título de Condessa de Barral. Inteligente, culta, independente e dotada de forte personalidade, ela se tornou uma das figuras femininas mais importantes do Segundo Reinado, deixando uma marca profunda tanto na educação das princesas imperiais quanto na própria vida de D. Pedro II.

Em 13 de abril de 1816, nascia em Santo Amaro, na Província da Bahia, a pequena Luísa Margarida de Barros Portugal. Filha de Domingos Borges de Barros, futuro Visconde de Pedra Branca, e de Maria do Carmo Gouveia de Portugal, ela veio ao mundo em uma família privilegiada, que possuía terras e influência política. Poucos anos depois, seu pai ingressou na carreira diplomática e foi enviado para a Europa em missões ligadas ao reconhecimento da Independência do Brasil. Dessa forma, a infância de Luísa transcorreu entre a Bahia e a França, proporcionando-lhe experiências incomuns para uma menina de sua época. Enquanto grande parte das jovens brasileiras crescia restrita ao ambiente doméstico, ela teve contato com diferentes culturas, idiomas e tradições. Essa convivência com o mundo europeu seria fundamental para moldar sua personalidade cosmopolita e ampliar seus horizontes intelectuais. A mudança para a França também a colocou em contato com círculos aristocráticos e ambientes intelectuais sofisticados, experiências que mais tarde se revelariam essenciais para o papel que desempenharia junto à família imperial brasileira.
A morte do único filho homem da família, em 1825, modificou profundamente os planos do Visconde de Pedra Branca. Sem um herdeiro masculino em quem concentrar seus investimentos educacionais, ele voltou sua atenção para Luísa, proporcionando-lhe uma formação excepcional. De menina criada em engenhos na Bahia, a futura Condessa de Barral recebeu de seu pai instrução e estímulo para os estudos — algo raro entre outras famílias abastadas da época. Era uma criança de inteligência precoce e com firmeza de caráter. A educação dela, de acordo com Mary Del Priore, seria importantíssima para a formação da mulher culta e agradável que Luísa se tornaria. Enquanto outras damas eram treinadas para as tarefas domésticas, a condessa se destacava pelos seus dotes intelectuais. Aprendeu idiomas, literatura, música, história e geografia, adquirindo conhecimentos que lhe permitiriam circular com desenvoltura tanto nos salões europeus quanto nos ambientes políticos do Brasil Imperial. Sua educação foi, sem dúvida, uma das principais ferramentas que lhe possibilitaram construir uma trajetória tão singular.

Seria na Europa que a condessa passaria a reunir todos os dotes tão fascinantes em uma mulher da aristocracia. Aos doze anos, Luísa foi prometida em casamento a Miguel Calmon du Pin e Almeida, um homem trinta e dois anos mais velho. Como acontecia com frequência entre famílias da elite, o matrimônio tinha motivações políticas e patrimoniais. Contudo, quando completou dezenove anos, ela surpreendeu o pai ao rejeitar o pretendente escolhido para ela. Em vez de obedecer às expectativas familiares, escolheu como marido Eugène de Barral, Conde de Barral e Marquês de Monferrato. Só o fato de ter contrariado as ordens paternas e se casado com o homem que queria já a destaca de outras jovens do mesmo status, que não podiam se arrogar tal privilégio. O casamento demonstrava uma independência incomum para a época e revelava uma personalidade decidida. Graças a essa união, Luísa passou a frequentar a corte francesa e ampliou ainda mais sua rede de contatos, adquirindo experiência social e diplomática que mais tarde seria extremamente valorizada.
Na França, Luísa passou a integrar o círculo da princesa Francisca de Bragança, irmã de D. Pedro II e esposa do príncipe de Joinville. Como dama de companhia da princesa, teve acesso privilegiado à corte do rei Luís Filipe, convivendo com diplomatas, intelectuais, artistas e membros da aristocracia europeia. Segundo sua biógrafa, Mary Del Priore, a condessa possuía não apenas inteligência aguçada, mas também grande carisma pessoal. A autora a descreve como dona de cabelos volumosos e escuros, pés pequenos, “olhos de veludo” e “um sorriso enigmático de Gioconda”. Essas características contribuíam para o fascínio que exercia sobre seus contemporâneos. Entretanto, sua verdadeira força estava na combinação entre cultura, refinamento e capacidade de diálogo. Fluente em vários idiomas e acostumada às discussões intelectuais dos salões franceses, Luísa desenvolveu uma habilidade rara de comunicação. Essa bagagem cultural seria determinante quando seu nome passou a ser cogitado para uma função de enorme responsabilidade junto à família imperial brasileira.

Em 1856, D. Pedro II buscava alguém capaz de assumir a educação de suas filhas, as princesas Isabel e Leopoldina. Depois que D. Amélia de Leuchtenberg recusou o convite para retornar ao Brasil e ocupar essa função, a princesa Francisca sugeriu ao irmão o nome da Condessa de Barral. O convite foi formalizado por meio de uma carta enviada pelo imperador à condessa, que então se encontrava em seu engenho na Bahia. Após algumas negociações, Luísa aceitou a proposta e partiu para o Rio de Janeiro acompanhada do filho, Dominique. A partir daquele momento, sua vida passou a se confundir com a história da monarquia brasileira. D. Pedro II lhe concedeu ampla autonomia para organizar os estudos das princesas, selecionar professores e supervisionar aspectos ligados à etiqueta e à formação moral das jovens. O imperador acreditava que suas herdeiras precisavam de uma educação sólida e moderna, e encontrou em Luísa a pessoa ideal para concretizar esse projeto.
Grande foi a influência de Luísa Margarida na formação das princesas imperiais. Ao assumir o cargo de preceptora, ela implantou uma rotina rigorosa de estudos que incluía línguas estrangeiras, literatura, história, geografia, ciências naturais, música e etiqueta. Diferentemente de muitas governantas do período, que priorizavam apenas boas maneiras, a condessa acreditava que as futuras representantes da monarquia deveriam possuir formação intelectual robusta. Isabel, em especial, desenvolveu uma relação de profundo afeto com a preceptora, a quem chamava carinhosamente de “fadinha”. A influência da condessa pode ser percebida em vários aspectos da personalidade da futura princesa imperial, sobretudo em seu interesse pela leitura e em sua dedicação aos deveres públicos. Ao mesmo tempo, Luísa conquistava a confiança de D. Pedro II. Os dois compartilhavam interesses semelhantes, especialmente pela literatura, pela ciência, pela geografia e pela filosofia. Essa afinidade intelectual logo transformou a relação entre eles em uma das mais comentadas do Segundo Reinado.

Conforme o tempo passava, o próprio monarca foi se tornando cada vez mais próximo da condessa. Na opinião de Roderick Barman, Luísa era “atraente, vivaz, inteligente, hábil nas graças sociais, afeita ao mundo da cultura e parte integrante da aristocracia francesa. Essas eram precisamente as qualidades que D. Pedro II desejava em uma mulher” (BARMAN, 2012, p. 219). A troca constante de cartas entre os dois alimentou rumores sobre um possível romance, embora os historiadores ainda debatam a verdadeira natureza desse relacionamento. O biógrafo acredita que, embora existisse forte atração, não há provas de que tenham sido amantes. Mary Del Priore também observa que as correspondências sobreviventes revelam sobretudo amizade, admiração e afinidade intelectual. Na opinião da autora, “o elo que os unia era muito forte. Ia muito além das ‘necessidades primitivas’, nome que se dava ao puro e simples desejo sexual. Era uma mistura sublime de amizade, ternura, entusiasmo pela beleza e o encontro de almas” (PRIORE, 2008, p. 11). Eram, como a própria historiadora define, “almas gêmeas”.
D. Pedro II teria passado a cortejar Luísa, algo que teria sido descoberto pela sua esposa, a Imperatriz D. Teresa Cristina. A partir de então, a soberana se juntou ao coro daqueles que se ressentiam da influência que a Barral passou a ter no Paço. Inclusive, D. Pedro apontou a Condessa como dama da imperatriz. O biógrafo Roderick Barman acredita que, embora Luísa não tenha conseguido se esquivar dos abraços de D. Pedro, certamente evitou sua cama. As cartas sobreviventes que foram trocadas entre os dois não permitem concluir que eles tenham sido amantes de fato. Provavelmente, seu relacionamento evoluiu para uma “amitié amoureuse” (amizade colorida). Luísa compreendia perfeitamente a natureza dos sentimentos de D. Pedro II por ela e soube lidar com isso da melhor forma possível, sem comprometer sua honra. Para Luísa, a amizade com o monarca também foi muito vantajosa, uma vez que ela fez vários contatos importantes dentro e fora da corte. Com o tempo, a paixão foi envelhecendo e o ardor dos primeiros anos foi dando lugar a uma sincera amizade entre os dois. A condessa passou a exercer uma preocupação quase maternal com o monarca, se interessando por sua saúde e condições físicas.

Em carta para Luísa, escrita alguns anos depois da morte do Conde de Barral, o imperador dizia ter saudades do “tempo em que estudávamos juntos e não havia mapa que não percorrêssemos juntos; não nos escapando nem mesmo um lugarejo da Herzegovina”. Poderia o imperador estar se referindo a algo além daquela região localizada ao sul da Bósnia? Suas reminiscências a respeito dos primeiros anos na companhia da condessa eram recheadas de referências a locais históricos, talvez como uma forma de comunicação sigilosa que só os dois entenderiam. Segundo Mary Del Priore, na sua biografia sobre a Condessa de Barral, o imperador, com o passar do tempo, foi ficando enfadonho na sua correspondência, fazendo referência às “noites de Atenas” que ele passou outrora ao lado de Luísa. D. Pedro II envelheceu muito em poucos anos, principalmente depois da Guerra do Paraguai. Os cabelos loiros deram lugar aos fios brancos e sua expressão, que já era séria, ficou ainda mais carrancuda e marcada por rugas. Perto dele, Luísa parecia mais conservada, apesar de ser mais velha do que o imperador em quase uma década, além de ser mais madura emocionalmente.
Após o casamento das princesas Isabel e Leopoldina, em 1864, a Condessa de Barral considerou encerrada sua missão na corte brasileira. Em 1865, retornou definitivamente para a França. Viúva desde 1868, após a morte do conde Eugène de Barral, passou a viver entre Paris e suas propriedades francesas, mantendo intensa vida intelectual e social. Frequentou os círculos aristocráticos e culturais da Europa, cultivando amizades com escritores, artistas e personalidades de seu tempo, entre eles o renomado pintor Franz Xaver Winterhalter, autor de um célebre retrato seu realizado em 1872. Apesar da distância, continuou próxima da família imperial brasileira, encontrando-se diversas vezes com D. Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e seus familiares durante as viagens que realizavam pela Europa. Também visitou ocasionalmente o Brasil para administrar seus interesses na Bahia. Adepta de ideias abolicionistas, libertou progressivamente os escravizados de suas propriedades e concedeu liberdade aos que ainda permaneciam sob sua autoridade antes mesmo da Abolição de 1888.

A amizade entre a Condessa de Barral e D. Pedro II permaneceu inalterada até o fim de suas vidas e foi registrada em vasta correspondência, hoje preservada em importantes acervos documentais, constituindo uma das mais valiosas fontes para o estudo do Segundo Reinado. Após a Proclamação da República, a condessa acolheu membros da família imperial exilada em sua residência na França, onde a Princesa Isabel, o conde d’Eu e seus filhos passaram uma temporada em 1890, poucos meses após a morte da imperatriz Teresa Cristina. Luísa Margarida faleceu em 14 de janeiro de 1891, aos setenta e quatro anos, encerrando uma trajetória singular que a tornou uma das mulheres mais influentes do Império do Brasil. Ao receber a notícia de sua morte, D. Pedro II manifestou profundo pesar pela perda daquela que fora uma de suas mais próximas amigas e confidentes ao longo de mais de três décadas. Educadora da futura herdeira do trono, interlocutora de políticos, artistas e intelectuais, e defensora de ideias avançadas para seu tempo, a Condessa de Barral deixou uma marca duradoura na história do Brasil e da monarquia brasileira.
Referências Bibliográficas:
BARMAN, Roderick J. Imperador Cidadão: D. Pedro II e a construção do Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2012.
CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, 5vols.
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO (IHGB). Documentação referente à Condessa de Barral e à Família Imperial Brasileira. Rio de Janeiro.
MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. D. Pedro II e a Condessa de Barral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1956.
MUSEU IMPERIAL. Fundo Arquivístico Condessa de Barral. Petrópolis: Museu Imperial/Ibram.
PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado. São Paulo: Martins, 1970.
REZZUTTI, Paulo. D. Pedro II: a história não contada. São Paulo: Leya, 2019.













