Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Elisabeth Marie Henriette Stephanie Gisela da Áustria nasceu em 2 de setembro de 1883, no Castelo de Laxenburg, nos arredores de Viena, em uma das famílias mais poderosas da Europa. Filha única do arquiduque Rudolf, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, e da princesa Stéphanie da Bélgica, ela veio ao mundo cercada pelas expectativas depositadas na continuidade da Casa de Habsburgo-Lorena. Neta do imperador Francisco José I e da imperatriz Elisabeth da Áustria, a célebre Sissi, recebeu na intimidade familiar o apelido de “Erzsi”, diminutivo húngaro de Elisabeth. Seu nascimento foi celebrado como a garantia da sobrevivência da linha sucessória direta do herdeiro imperial, numa época em que a monarquia austro-húngara ainda parecia sólida e inabalável. Contudo, o destino da jovem arquiduquesa seria profundamente diferente daquele imaginado para ela. Ao longo de sua vida, Elisabeth testemunharia o colapso do império de seus antepassados, o surgimento da república, duas guerras mundiais e a ascensão de ideologias que transformariam radicalmente a Europa. Mais do que uma observadora desses acontecimentos, ela se tornaria protagonista de uma das mais extraordinárias rupturas políticas já vividas por um membro da família imperial austríaca (WEISSENSTEINER, 2001).

A primeira grande tragédia de sua existência ocorreu em 30 de janeiro de 1889. Naquele dia, seu pai, o arquiduque Rudolf, foi encontrado morto ao lado da jovem baronesa Maria Vetsera no pavilhão de caça de Mayerling. O episódio abalou profundamente a monarquia e permanece até hoje cercado por debates historiográficos. Para Elisabeth Marie, então com apenas cinco anos, significou a perda da figura paterna e o início de uma infância marcada pela ausência. A morte do herdeiro alterou a linha sucessória da monarquia e influenciou diretamente os acontecimentos que culminariam décadas mais tarde na Primeira Guerra Mundial. Após Mayerling, o imperador Francisco José assumiu um papel importante na educação da neta, demonstrando por ela um afeto especial. Sua mãe, Stéphanie da Bélgica, por outro lado, tornou-se cada vez mais isolada dentro da corte. Quando se casou novamente, em 1900, com o conde húngaro Elemér Lónyay, a relação entre mãe e filha deteriorou-se profundamente. Elisabeth jamais aceitou plenamente a decisão materna e passou a cultivar um ressentimento que se prolongaria por toda a vida. Esse afastamento emocional contribuiu para fortalecer sua independência e sua crescente aversão às convenções aristocráticas que dominavam o universo em que crescera (HAMANN, 1978).
Entre todas as figuras de sua família, nenhuma exerceu maior influência sobre Elisabeth Marie do que sua avó paterna, a imperatriz Elisabeth. Conhecida por sua extraordinária beleza, pelo espírito livre e pela constante fuga dos rígidos protocolos da corte vienense, Sissi tornou-se um modelo para a neta. As duas compartilhavam traços de personalidade semelhantes, incluindo o desconforto diante da vida oficial e uma profunda desconfiança em relação à aristocracia. Quando a imperatriz foi assassinada por Luigi Lucheni, em Genebra, em 10 de setembro de 1898, Elisabeth tinha apenas quinze anos. O golpe foi devastador. Em seu testamento, Sissi deixou à neta uma parte significativa de seus bens pessoais, incluindo joias que se tornariam lendárias. Entre elas estavam as famosas estrelas de diamantes eternizadas por Franz Xaver Winterhalter no retrato mais conhecido da soberana. A herança possuía um significado que ultrapassava seu valor material. Aos olhos de muitos contemporâneos, Elisabeth transformou-se na principal guardiã da memória da imperatriz, preservando objetos e recordações ligados à mulher que, mesmo após a morte, continuava fascinando a Europa. Essa identificação com a avó contribuiria para moldar sua própria postura de inconformismo diante da tradição dinástica (HAMANN, 1981).

Ao atingir a idade adulta, Elisabeth demonstrou que não estava disposta a submeter-se passivamente às expectativas da corte. Em 23 de janeiro de 1902, casou-se com o príncipe Otto Weriand de Windisch-Graetz. Embora pertencente a uma família aristocrática importante, Otto ocupava uma posição muito inferior à de uma neta do imperador. O casamento foi autorizado por Francisco José e celebrado com grande pompa no Hofburg. Na cerimônia, Elisabeth utilizou joias herdadas de Sissi, estabelecendo uma ligação simbólica entre as duas mulheres. Da união nasceram quatro filhos: Franz Joseph, Ernst, Rudolf e Stephanie. Entretanto, a vida conjugal revelou-se muito distante do ideal romântico cultivado pela jovem arquiduquesa. O relacionamento foi marcado por infidelidades mútuas, conflitos patrimoniais e frequentes escândalos públicos. Em dezembro de 1903, durante uma crise provocada pelo envolvimento de Otto com a atriz Mizzi Kaspar, Elisabeth disparou contra a rival. A atriz sobreviveu aos ferimentos, mas o episódio ocupou as manchetes dos jornais vienenses e consolidou a reputação da arquiduquesa como uma mulher impulsiva, apaixonada e pouco inclinada a aceitar passivamente as humilhações impostas pelo marido (WEISSENSTEINER, 2001).
A eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, e os acontecimentos que se seguiram transformaram profundamente a vida de Elisabeth Marie. A morte do imperador Francisco José, em novembro de 1916, encerrou uma era. Dois anos depois, o Império Austro-Húngaro desapareceu do mapa europeu. A proclamação da República Austríaca, em novembro de 1918, marcou o fim de uma ordem política que existira durante séculos. A Lei dos Habsburgo, promulgada em abril de 1919, confiscou bens da família imperial, aboliu privilégios dinásticos e forçou muitos parentes de Elisabeth ao exílio. Ela, porém, decidiu permanecer em Viena. Diferentemente de grande parte dos Habsburgo, não demonstrou entusiasmo pelas tentativas de restauração monárquica lideradas pelo ex-imperador Carlos I. Pelo contrário, a queda do regime reforçou sua percepção de que a monarquia representava uma estrutura ultrapassada e incapaz de responder às demandas sociais do século XX. A antiga arquiduquesa observava o desaparecimento do mundo em que nascera sem demonstrar nostalgia significativa por ele (BROOK-SHEPHERD, 1968).

Essa transformação ideológica tornou-se pública em 1921, quando Elisabeth ingressou oficialmente no Partido Social-Democrata da Áustria. A decisão provocou choque tanto entre os antigos círculos cortesãos quanto entre setores conservadores da sociedade austríaca. Rapidamente, a imprensa passou a chamá-la de “Die Rote Erzherzogin” — “A Arquiduquesa Vermelha”. Enquanto muitos membros da antiga aristocracia sonhavam com a restauração da monarquia, Elisabeth participava de manifestações operárias, apoiava políticas de bem-estar social e defendia a ampliação dos direitos trabalhistas. Sua adesão ao socialismo democrático possuía enorme significado simbólico. Filha de um príncipe herdeiro, neta de um imperador e herdeira de uma vasta fortuna, ela optava por defender princípios associados à igualdade social e à redução dos privilégios de nascimento. Muitos parentes jamais lhe perdoaram essa escolha. Outros simplesmente deixaram de manter contato com ela. Ainda assim, Elisabeth manteve-se firme em suas convicções e recusou qualquer tentativa de reconciliação baseada no retorno aos antigos valores aristocráticos (WINKELHOFER, 2016).
Foi nesse contexto que Leopold Petznek entrou definitivamente em sua vida. Professor, intelectual e dirigente social-democrata, Petznek tornou-se seu companheiro durante a década de 1920. Em 1929, ambos passaram a viver juntos na villa de Hütteldorf, nos arredores de Viena. A residência converteu-se em um espaço de convivência para intelectuais, políticos republicanos e militantes ligados à esquerda austríaca. O relacionamento escandalizou os setores mais conservadores da sociedade, sobretudo porque Elisabeth ainda enfrentava uma longa disputa judicial com Otto Windisch-Graetz. Paralelamente, os conflitos com seus filhos tornavam-se cada vez mais intensos. Alguns deles permaneceram identificados com a tradição aristocrática e jamais aceitaram a transformação ideológica da mãe. A convivência familiar deteriorou-se a tal ponto que, nos anos finais de sua vida, Elisabeth encontrava-se afastada de boa parte dos descendentes. Ainda assim, recusou-se a abandonar Petznek ou a renegar os ideais políticos que havia adotado (WEISSENSTEINER, 2001).

A ascensão do nazismo representou mais uma prova para o casal. Após o Anschluss, em março de 1938, Leopold Petznek tornou-se alvo direto da perseguição promovida pelo regime nacional-socialista. Foi preso diversas vezes e acabou deportado para o campo de concentração de Dachau em 1944. Libertado pelas forças aliadas em 1945, retornou a Viena fisicamente debilitado, mas vivo. Durante aqueles anos sombrios, Elisabeth manteve posição claramente contrária ao nazismo e permaneceu próxima dos círculos social-democratas perseguidos pelo regime. Embora algumas narrativas posteriores tenham ampliado certos aspectos de sua atuação, a documentação disponível confirma sua hostilidade ao nacional-socialismo e seu apoio às redes políticas ligadas à resistência democrática austríaca. A experiência reforçou sua rejeição a qualquer forma de autoritarismo. Para uma mulher que assistira à queda de uma monarquia secular, ao surgimento de ditaduras e a duas guerras mundiais, a defesa da liberdade política tornara-se uma convicção inabalável (UNTERREINER, 2015).
Apesar de ter tido quatro filhos em seu casamento com o príncipe Otto de Windisch-Graetz, a relação de Élisabeth Marie com a maternidade foi marcada por tensões crescentes. Os conflitos conjugais, a ruptura com a corte dos Habsburgo e, posteriormente, sua adesão ao socialismo provocaram um progressivo distanciamento entre ela e os filhos, que permaneceram mais próximos do pai e dos círculos aristocráticos tradicionais. Elisabeth não queria que as crianças não fossem educadas com o mesmo requinte que ela teve na infância e, portanto, alienadas das labutas da classe trabalhista. Eles deveriam conhecer o cotidiano das fábricas e da vida dos trabalhadores de Viena. De sua parte, os filhos desaprovavam o relacionamento da mãe com Leopold Petznek. A deterioração dos vínculos familiares tornou-se particularmente evidente nas últimas décadas de sua vida. Fontes biográficas registram que, já idosa e reclusa em Viena, manteve contato restrito com a maioria dos descendentes e, pouco antes de morrer, determinou que seus bens fossem protegidos contra reivindicações dos filhos, permitindo apenas uma breve visita da filha Stephanie em seus momentos finais. Tal atitude sugere uma maternidade profundamente afetada pelas disputas patrimoniais, ideológicas e afetivas que acompanharam toda a sua trajetória pessoal.

Finalmente, em 4 de maio de 1948, após décadas de convivência e depois de concluir o processo de divórcio de Otto Windisch-Graetz, Elisabeth oficializou sua união com Leopold Petznek em um cartório de Viena. O casamento representava o desfecho simbólico de toda uma trajetória de ruptura. A neta de Francisco José e Sissi escolhia unir-se formalmente a um professor socialista, republicano e sobrevivente de Dachau. Nos anos seguintes, sua saúde deteriorou-se gradualmente. A gota limitou sua mobilidade e a obrigou a utilizar cadeira de rodas. Ainda assim, continuou acompanhando a vida política austríaca e dedicou-se à preservação da memória histórica de sua família. Antes de morrer, determinou que diversos objetos pertencentes ao patrimônio dos Habsburgo fossem destinados ao Estado austríaco. Leopold Petznek faleceu em 1956. Elisabeth sobreviveu por mais sete anos. Morreu em Viena, em 16 de março de 1963, aos setenta e nove anos. Conforme seu desejo, foi enterrada ao lado do marido no cemitério de Hütteldorf, longe da Cripta Imperial dos Capuchinhos. A mulher que nascera arquiduquesa escolheu repousar como cidadã da República. Filha de um herdeiro trágico, neta de uma imperatriz lendária e socialista por convicção, Elisabeth Marie tornou-se uma das figuras mais singulares da história europeia do século XX.
Referências Bibliográficas:
BROOK-SHEPHERD, Gordon. The Last Habsburg. London: Weidenfeld and Nicolson, 1968.
CORTI, Egon Conte. A imperatriz Elisabete (Sissi). Tradução de Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi, S/A.
HAMANN, Brigitte. Rudolf: Kronprinz und Rebell. Wien: Amalthea Verlag, 1978.
HAMANN, Brigitte. The reluctant empress: a biography of empress Elisabeth of Austria. 4ª ed. New York: Ullstein, 1997.
KANN, Robert A. A history of the Habsburg Empire (1526-1918). New York: Barnes & Noble Books, 1992.
REPUBLIK ÖSTERREICH. Habsburgergesetz vom 3. April 1919. Wien: Staatsgesetzblatt für den Staat Deutschösterreich, 1919.
STÉPHANIE DA BÉLGICA. Ich sollte Kaiserin werden: Erinnerungen der letzten Kronprinzessin von Österreich-Ungarn. Wien: Amalthea Verlag, 1935.
UNTERREINER, Katrin. Die Habsburger: Aufstieg und Glanz einer europäischen Dynastie. Wien: Ueberreuter, 2015.
WHEATCROFT, Andrew. The Habsburgs: embodying empire. Great Britain: Viking, 1995.
WEISSENSTEINER, Friedrich. Die rote Erzherzogin: Das ungewöhnliche Leben der Elisabeth Marie. München: Piper Verlag, 2001.
WINKELHOFER, Martina. Die Habsburger: Glanz und Elend einer europäischen Dynastie. Wien: Ueberreuter, 2016.
ÖSTERREICHISCHES STAATSARCHIV. Haus-, Hof- und Staatsarchiv. Viena. Disponível em: https://www.oesta.gv.at. Acesso em: 6 jun. 2026.
ÖSTERREICHISCHE NATIONALBIBLIOTHEK. Acervo digital da Casa de Habsburgo-Lorena. Disponível em: https://www.onb.ac.at. Acesso em: 6 jun. 2026.













