Tão perfeitas que parecem reais: as incríveis estátuas de rainhas no Museu de Cera Madame Tussauds

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das figuras mais interessantes dos séculos XVIII e XIX, Anne Marie Tussaud, ou simplesmente Madame Tussaud, se tornou famosa pelos belíssimos trabalhos em cera que executou durante a vida, tais como os moldes das cabeças de grandes personalidades, a exemplo de Voltaire e Maria Antonieta. Sua celebridade, porém, atravessou os séculos e se tornou referência mundial. Turistas de todos os lugares viajam para Londres, entre outras cidades, para visitar o famoso Museu e tirar uma foto junto ao seu ídolo favorito. É possível posar ao lado da rainha Elizabeth II, do presidente Obama, Lady Gaga, Madonna, de William e Kate e até mesmo de pessoas que não mais existem, como a princesa Diana. O trabalho desenvolvido pelos responsáveis pela construção e manutenção das estátuas é tão impressionante, que nos passa a impressão de estarmos contemplando um indivíduo de carne e osso. Pele, cabelo, olhos, unhas; até os poros da pele são copiados nos seus mínimos detalhes, criando verossimilhança e assim alimentando o sonho público de que é possível tocar em alguém que apenas se viu por fotos ou nas páginas de um livro. Nessa matéria, selecionamos algumas das rainhas de cera expostas nas filiais do Museu Madame Tussauds, que certamente vão te impressionar.

Estátua de Madame Tussaud confeccionando um de seus modelos, exposta na filial do Museu em Berlim.

Possível modelo de cera que o Dr. Philippe Curtius criou para Madame du Barry, em 1766.

Estátuas de Henrique VIII e suas seis esposas, expostas na filial de Londres. As feições do monarca e as de suas rainhas foram criadas com base nos seus retratos pintados. As roupas também foram costuradas com fidelidade aos costumes da época.

Nascida em 1 de dezembro de 1761, em Strasbourg, na França, Madame Tussaud era filha de Joseph Grosholtz, que morrera na Guerra dos Sete Anos apenas alguns meses antes dela vir à luz. Sua mãe, Anne-Marie Walder, de quem herdou o nome, precisou então trabalhar fora para garantir o sustento da criança. Ela foi contratada como governanta na casa do Dr. Philippe Curtius (1741–1794), um médico que também era escultor de cera. Seus talentos eram aplicados na confecção de peças anatômicas, utilizadas por ele no seu trabalho, mas também em alguns retratos de pessoas. Com a convivência, Marie desenvolveria um carinho filial por Philippe, passando a chama-lo de tio. Este, por sua vez, podia ser admirado pela pequena enquanto trabalhava no seu ateliê esculpindo modelos, cuja técnica mais tarde seria dominada pela jovem pupila. O interesse de Marie pelo trabalho de seu tio o motivou a ensina-la a como modelar a cera e assim criar resultados fieis. Quando a jovem demonstrou talento para o ofício, passou a auxilia-lo na confecção de alguns figuras. Dentro de algum tempo, Marie já era capaz de criar os seus próprio modelos. Em 1777, por exemplo, ela obteve sucesso na criação de uma estátua de cera de Voltaire, o famoso filósofo iluminista, cujos escritos eram debatidos em vários salões literários pela Europa e até mesmo entre monarcas absolutistas.

No ano de 1765, o Dr. Philippe Curtius se mudou para Paris, onde montou o seu cabinet de portraits en cire (gabinete de retratos em cera). Logo, ele começou a receber clientes dos mais variados estratos sociais e sua fama chegou aos ouvidos de Madame Du Barry, no palácio de Versalhes. A amante do rei Luís XV queria um molde do seu próprio rosto feito por Curtius e em 1766 o médico teve autorização para gravar as feições da maîtresse em cera. Este, por sua vez, acabou se tornando o modelo mais antigo produzido por Philippe que sobreviveu até os dias atuais, assim como a estátua de Voltaire que Madame Tussaud criaria mais tarde. No ano seguinte, Anne-Marie Walder e sua filha se juntaram ao Dr. Philippe na França e o ajudaram na preparação de uma grande exposição de estátuas em cera que o doutor planejava para 1770. Curiosamente, não muito distante dali, um acontecimento importantíssimo tinha lugar no palácio do Rei Sol: a corte real recebia sua nova delfina, a arquiduquesa Maria Antonieta da Áustria, que se casou por procuração em Viena com o herdeiro do trono, Luís Augusto. O que aquela jovem loira e de expressões meigas não poderia imaginar, contudo, é que a simplória Anne Marie Tussaud seria a última pessoa no mundo a tocar na sua cabeça.

Estátua de cera de Mary Stuart, exposta na filial de Londres. A peça foi confeccionada tendo como base o retrato em miniatura da soberana, pintado por Nicholas Hilliard.

Estátua da rainha Elizabeth I da Inglaterra, confeccionada com base no famoso “Retrato do Arminho”. A peça se encontra exposta na filial de Londres.

Escultura em cera de Voltaire, feita originalmente por Anne Marie Tussaud em 1777.

Embora a confecção de trabalhos em cera fosse considerada na época um ramo inferior da arte, a exibição do Dr. Philippe Curtius em Paris foi um enorme sucesso e cinco anos depois foi transferida para o Palais Royal, residência da família Orleans. Uma segunda exposição foi organizada em 1782 no Boulevard du Temple, chamada de Caverne des Grands Voleurs (Caverna dos Grandes Ladrões), que pode ser considerada uma precursora da atual Câmara dos Horrores, na qual o visitante pode conferir reproduções das cabeças ensanguentadas dos líderes revolucionários decapitados durante a fase do Terror jacobino, incluindo as de Luís XVI e Maria Antonieta. De 1780 até a Revolução, em 1789, Anne Marie Tussaud criou algumas de suas peças mais famosas, como uma figura de Benjamin Franklin, além da já mencionada figura de Voltaire. Conforme podemos ler nas memórias de Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun, principal retratista de Maria Antonieta, havia na época certo preconceito com mulheres artistas. Porém, isso não impediu que Anne Marie se tornasse popular entre a realeza, da mesma forma que a pintora da rainha. Foi dito também que Marie havia sido contratada para dar aulas de escultura em cera para a irmã do rei, Madame Elisabete, que queria aprender a técnica da arte para confeccionar imagens de santos.

Graças ao seu contato com Madame Elisabete, Anne Marie manteve algumas conexões com outros membros da nobreza, caso possamos acreditar nas informações contidas em suas Memórias, escritas muitas décadas depois, em 1832. Nesse documento, a autora diz que vivia em bons termos com a família real e que teria sido convidada pelo rei para fixar residência em Versalhes. Verdade ou não, o fato é que Anne Marie acabaria se envolvendo com os revolucionários. Dois dias antes da queda da Bastilha, em 12 de julho de 1789, cabeças de cera de Jacques Necker, ministro das finanças de Luís XVI, e do duque de Orleans, foram feitas pelo Dr. Philippe Curtius e depois espetadas na ponta de lanças e carregadas pela multidão no saque que derrubou aquela fortaleza medível, símbolo do poder absolutista do rei. Em 1793, quando o Terror jacobino foi instaurado, muitos partidários da monarquia foram entregues à lâmina da guilhotina. Durante essa fase, Anne Marie foi acusada de ser uma realista e presa, juntamente com Joséphine de Beauharnais, futura esposa de Napoleão e imperatriz dos franceses. Na época ela tinha 33 anos e seus cabelos chegaram a ser cortados para deixar o pescoço livre para a chamada “navalha nacional”. Mas, graças à intervenção de Collot d’Herbois, amigo do Dr. Curtius, ela foi solta e designada para fazer máscaras mortuárias das vítimas do Terror.

Estátua de cera da imperatriz Maria Teresa da Áustria (a Grande), exposta na filial de Viena.

Estátua de Maria Antonieta, feita com base no retrato pintado por Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun. A peça se encontra exposta na filial de Viena.

Possível máscara mortuária que Madame Tussaud fez de Maria Antonieta, a partir do rosto sem vida da soberana.

Assim sendo, Anne Marie podia ser vista constantemente entre os corpos decapitados que esperavam sepultamento no cemitério da Rue d’Anjou, para tirar moldes de cera de suas feições. Uma delas foi a de ninguém menos que Maria Antonieta, condenada pelo Tribunal Revolucionário no dia 16 de outubro daquele ano e executada em praça pública. A versão que Marie criou da cabeça da rainha acabaria servindo de base para a construção de muitas das estátuas de cera modernas da soberana, espelhadas pelas filiais do Museu. Seus moldes para as cabeças de Luís XVI, Marat e Robespierre também se tornaram famosos (réplicas dos mesmos podem ser contempladas na chamada Câmara dos Horrores do Museu de Londres). Quando Philippe Curtius morreu em 1794, deixou para a sobrinha toda a sua coleção de figuras de cera. No ano seguinte, ela se casou com François Tussaud, com quem teria dois filhos, batizados de Joseph e François. A partir de então, a vida de Madame Tussaud se tornou ainda mais intensa. Ela deu continuidade à sua carreira como modelista e em 1802, depois da assinatura do Tratado de Amiens, foi para a Inglaterra na companhia de seu filho de quatro anos, Joseph, para apresentar sua coleção de trabalhos à sociedade londrina. Foi quando recebeu um convite do ilusionista Paul Philidor para exibir suas figuras de cera no Lyceum Theatre.

Com efeito, Madame Tussaud ganhou uma ala separada no Lyceum, reservada exclusivamente para a exibição de suas criações. Foi ali que ela mostrou pela primeira vez ao público londrino as cabeças de Maria Antonieta e de Luís XVI, assim como as de Madame du Barry, Marat, Robespierre, Hébert, Carrier e Fouquier-Tinville, expostas ao lado da múmia pertencente a Paul Philidor. Muito comuns no século XIX, esses shows de horrores, ou freak shows, atraíam bastante público. Até mesmo pessoas com alguma característica especial e animais podiam ser exibidos em situações humilhantes, para provocar o riso do expectador. Apesar disso, o sucesso do trabalho de Madame Tussaud foi tão grande que ela resolveu permanecer em Londres, uma vez que seu retorno à França estava dificultado em decorrência das guerras napoleônicas. Dessa forma, ela decidiu viajar por vários lugares da Grã-Bretanha e da Irlanda, mostrando seu trabalho e assim angariando contatos importantes. Durante a embaixada de Chateaubriand, em 1822, seu outro filho, François, juntou-se à mãe na Inglaterra, onde ela pretendia criar uma exposição permanente.

Estátua em cera da imperatriz Elisabete (Sissi) da Áustria, feita com base no seu retrato pintado por Franz Winterhalter. A peça se encontra exposta da filial do Museu em Viena.

Estátua em cera da rainha Vitória, exposta na filial de Londres. Repare nas rugas e marcas de expressão que foram reproduzidas no rosto da idosa monarca.

Versão da rainha Elizabeth II, exposta na filial do Museu em Londres.

Estátua em cera da princesa Diana. Os detalhes realistas da peça são impressionantes!

Em 1835, quando Anne Marie Tussaud já tinha 73 anos, ela finalmente realizou o seu sonho: sua “Câmara dos Horrores” se transformou num Museu de figuras de cera, localizado no andar superior do Baker Street Bazaar. Com o tempo, sua coleção foi aumentando consideravelmente, incluindo moldes de Colonel Despard, Arthur Thistlewood, William Corder e Burke e Hare. Em 1842, ela confeccionou uma escultura de si mesma, aos 81 anos, que atualmente pode ser contemplada na entrada do Museu de Londres, juntamente com outras de suas criações originais. Anne Marie se dedicou ao seu trabalho até o final de seus dias, falecendo em 16 de abril de 1850, aos 88 anos de idade. Sobrevivera à Revolução Francesa, às Guerras Napoleônicas e deixou para trás uma grande quantidade de peças que contam um pouco da história daqueles anos turbulentos que marcaram a passagem do século XVIII para o XIX. Após sua morte, seus filhos Joseph e François passaram a administrar o Museu da mãe e confeccionaram novas estátuas, graças aos ensinamentos que receberam dela. Hoje em dia, o Museu Madame Tussauds pertence ao Merlin Entertainments Group e possui filiais em cidades de diversos países, tais como Amsterdã, Berlim, Bangcoc, Hong Kong, Xangai, Las Vegas, Washington D.C, Hollywood e Nova York.

Versão em cera que Anne Marie Tussaud criou de si mesma, aos 81 anos, em 1842.

Referências:

CAREY, Edward. Madame Tussaud: the astounding tale of survival behind the woman who made history. 2018. – Acesso em 29 de maio de 2020.

CAVENDISH, Richard. Death of Madame Tussaud. 2000. – Acesso em 29 de maio de 2020.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

INTERNET. Madame Marie Tussaud. 2015. – Acesso em 29 de maio de 2020.

MARÉGA, Camila. Madame Tussaud – A Mulher que Sobreviveu à Revolução. 2016. – Acesso em 29 de maio de 2020.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

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