“Morte à Rainha!” – Como Vitória do Reino Unido sobreviveu a 8 tentativas de assassinato!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Numa tarde de domingo, 10 junho de 1840, a rainha Vitória e o seu jovem marido, o príncipe Albert, passeavam tranquilamente de carruagem aberta, seguindo a estrada do palácio de Buckingham até o Hyde Park Corner. Uma multidão estava ali parada para ver passar o casal real, unido em matrimônio apenas alguns meses antes. De repente, o príncipe notou a presença de “um homenzinho de aparência insignificante” entre as pessoas, fazendo um gesto suspeito. O rapaz descruzou os braços debaixo do ombro e revelou entre as mãos duas pistolas. “Meus deus! Não se assuste”, disse Albert para a sua esposa, quando o primeiro tiro foi disparado. Vitória acreditava se tratar de alguém atirando em passarinhos no parque e começou a rir. “Garanti a ele que não estava com medo, o que de fato era verdade. Depois do primeiro tiro, nunca me passou pela cabeça, nem pela dele, que era destinado a mim”, escreveu a rainha em seu diário naquele dia. Um segundo tiro então disparou pelo ar, assoviando direto por cima de Vitória, que abaixou a cabeça. Em seguida, Albert deu ordens ao cocheiro para que a carruagem continuasse seu percurso, enquanto atrás um turbilhão de gente segurava o indivíduo que quase matou a rainha. Seu nome era Edward Oxford e esse foi apenas um dos oito atentados que a soberana enfrentou ao longo da vida.

Entre os anos de 1840 a 1882, nada menos que sete homens tentaram tirar a vida da rainha. Eram, em sua maioria, jovens e desempregados, como um marceneiro, um ajudante de bar, um ex-oficial do Exército, um trabalhador rural e um assistente químico. Na época em que os crimes quase foram cometidos, seus nomes ganharam grande atenção por parte da imprensa, para logo depois cair no ocaso. As desculpas para a execução de tais atos foram as mais estapafúrdias. Na opinião da biógrafa de Vitória, Julia Baird, “houve quem atribuísse a súbita sucessão de ataques contra uma jovem poderosa a uma estranha ‘erotomania’ contagiosa, pela qual os homens que tinham alimentado fantasias de ser amantes da rainha passaram ‘aos ciúmes após contínua decepção” (2018, p. 159). Outro ponto em comum foi levantado pelo biógrafo eduardiano, Lytton Strachey: “todos, com uma única exceção, foram perpetrados por adolescentes, cujo objetivo aparentemente não era o assassinato, já que, salvo no caso Maclean, em nenhum deles a arma estava carregada” (2011, p. 330). Não obstante, a maioria desses indivíduos recebeu diagnóstico de distúrbios mentais, sendo depois deportados para o exílio na Austrália, que funcionava então como uma prisão à distância para criminosos.

Aquarela de 1840, retratando o momento em que Edward Oxford (à direita) tentou matar a rainha Vitória pela primeira vez.

Naquela tarde ensolarada de junho, porém, a maior preocupação do príncipe Albert, além da esposa, era com o herdeiro que ela carregava no ventre. Vitória já estava no quarto mês de gestação e ainda não havia produzido um sucessor para a Coroa. De volta ao palácio de Buckingham, uma multidão de londrinos tiraram seus chapéus para o casal, em sinal de respeito. Ao fechar as portas de seu quarto, a rainha se sentou na cama, pálida e abatida, considerando as consequências do que aconteceria caso o assassino tivesse êxito. Albert tentou consola-la da melhor forma que pode, elogiando sua coragem e bravura frente ao acontecimento. “Escapamos realmente por obra providencial”, disse ela mais tarde naquele dia. Enquanto isso, a política revistava os pertences de Edward Oxford em Southwark, a procura de pistas. Encontraram uma espada, balas, pólvora e alguns documentos relativos a uma associação que atendia pelo nome de “Nova Inglaterra”. As evidências indicavam que um complô havia sido armado para incriminar o duque de Cumberland, rei de Hanôver e tio da rainha, uma vez que as pistolas portadas por Edward traziam o monograma do duque. Os papeis incriminatórios, porém, pareciam ter sido escritos pelo próprio Oxford, que pretendia fomentar uma crise dinástica que desencadeasse na queda da monarquia, caso a rainha fosse assassinada.

Na delegacia, o prisioneiro chamava a atenção dos policiais pelos seus modos insolentes: ria de vez em quando e procurava saber informações sobre como o casal tinha reagido ao ataque. Quando os policiais lhe disseram que nenhum dos dois havia se assustado, Oxford deu de ombros e disse: “Ah, sei que foi o contrário, pois, quando disparei a primeira pistola, Albert estava para sair da carruagem, mas, quando me viu apresentar a segunda pistola, recuou imediatamente” (apud BAIRD, 2018, p. 159). O rapaz deu as mais diversas justificativas para seu tato. A mais expressiva delas, contudo, era de que não desejava viver numa Inglaterra governada por uma mulher. Ele foi então acusado de alta traição e despachado para a prisão de Newgate e depois para um hospício, onde permaneceu por 27 anos até ser deportado para a Austrália. Com efeito, sua ação não deve ser isolada do contexto daquela década de 1840. Por toda a Europa, grupos estudantis e anarquistas se organizaram para forçar uma alteração do equilíbrio de forças políticas no continente, estabelecido com o fim das guerras napoleônicas. Esses motins acabariam culminando com os eventos de 1848, mais conhecido como ‘Primavera dos Povos”. Pela sua experiência e estudo, a rainha Vitória sabia que a atitude de Edward Oxford não poderia deixar de ser levada em consideração.

Recorte de jornal, anunciando a tentativa de assassinato contra a rainha Vitória por John Francis, em 30 de maio de 1842.

Sendo assim, no ano de 1842, o Parlamento aprovou um decreto considerando qualquer investida contra a salvaguarda de Sua Majestade um delito passível de punição com a prisão, com ou sem trabalhos forçados, ou pelo desterro. Além disso, o culpado “poderia ser chicoteado, pública ou particularmente, da forma que a Corte determinasse, mas não mais que três vezes” (apud STRACHEY, 2001, p. 331). Nesse mesmo ano, Vitória foi vítima de mais três atentados: por John Francis, em duas ocasiões, nos dias 29 e 30 de maio, e por John William Bean, em 3 de julho. Da primeira vez em que tentou matar a rainha, Francis estava à postos observando Vitória e Albert passando de carruagem aberta. Mais uma vez, o príncipe notou um “patife moreno e malvado” apontar a pistola para a rainha e puxar o gatilho, que não disparou. O agressor então desapareceu no Greenpark, antes que Albert pudesse relatar o ocorrido à Segurança Real. No dia seguinte, o príncipe preparou uma armadilha para Francis: ele e Vitória seguiriam de carruagem pelos parques, enquanto o Primeiro-Ministro, Sir Robert Peel, e o Chefe da Polícia Metropolitana ficavam à espreita com seus agentes. Quando o primeiro tiro disparou, um policial atacou John Francis e o conduziu à prisão. Sua sentença foi enforcamento e decapitação, mas Vitória comutou a pena para exílio na Austrália.

Um mês após as tentativas fracassadas de John Francis, um rapaz de 17 anos, John William Bean, vendedor de notícias, resolveu tomar ao seu encargo a tarefa de livrar a Inglaterra de sua rainha. Ele encheu a pistola com pedaços de cano e de barro quebrado e espreitou entre os portões do palácio de Buckingham até avistar a família real. Quando Vitória e Albert apareceram, ele disparou, mas a arma não funcionou. Dois jovens que estavam ali próximos o agarraram. O oficial para qual levaram o delinquente riu daquela tentativa pífia e pediu para que soltassem o rapaz. Algumas semanas depois, quando Bean foi acusado pelo incidente, a poeta Elizabeth Barret (depois Browning), escreveu uma carta curiosa sobre “essa estranha mania popular de atirar na rainha”:

Estou muito zangada… Quem atirou em Jorge VI? Não eu, diz o pardal. Pobre Vitória! A despeito da frieza, há uma corrente oculta – ela é um ser humano e uma mulher! Além do mais, sabe muito bem que, mesmo entre seus maiores críticos, ninguém alega que ela não queira beneficiar seu povo de acordo com seu entendimento. E o resumo da história é que ela está marcada como alvo por esses garotinhos em seus domínios que gostam de brincar com pistolas! Isso é péssimo. Ouço dizer que agora as pessoas vão ver a pobre rainha sair do palácio para um passeio na expectativa de emoções, com a ideia de vê-la alvejada: todos os dias há uma multidão junto aos portões! (apud BAIRD, 2018, p. 160).

A cada nova tentativa de assassinato, a reação pública de Vitória era a mesma. Ela podia demonstrar medo e insegurança nas quatro paredes de seu quarto, mas fora delas precisava desafiar a situação e mostrar sua bravura. Em 19 de junho de 1849, um irlandês chamado William Hamilton, frustrado com a falta de apoio significativo da rainha para com a crise de fome que matou cerca de 1/3 da população irlandesa naqueles anos, sacou uma pistola e começou a atirar nela. Aparentemente, a arma estava descarregada e Hamilton foi então condenado a cinco anos de trabalho forçado em Gibraltar e o restante em Fremantle, na Austrália Ocidental.

Bengala que Robert Pate utilizou para golpear a cabeça da rainha Vitória em 27 de junho de 1850.

Com efeito, Vitória tinha razões de sobra para temer pela sua vida. Uma nova Revolução Francesa destronou os Orleans e instaurou a Segunda República apenas um ano antes. O rei Luís Felipe e a rainha Maria Amélia cruzaram o canal disfarçados de criados e pediram asilo à soberana. Alguns motins também estouraram pela Inglaterra, liderados pelos cartistas. Vitória e sua família partiram então às pressas para Windsor, até que o Primeiro Ministro, Lorde John Russel, conseguisse conter a turba. Em 27 de junho de 1850, ela foi novamente agredida por um súdito, enquanto saia de carruagem com os filhos para visitar o tio, o duque de Cambridge, que estava muito doente. De repente, um homenzinho pálido, chamado Robert Pate, passou por entre a multidão que se aglomerava em torno do veículo e conseguiu acertar um golpe na cabeça de Vitória com sua bengala revestida de cobre. A investida deixou uma marca vermelha que perdurou por anos na testa da soberana. Furiosa, ela escreveu que:

Certamente é muito duro e horrível que eu, uma mulher – uma jovem indefesa e rodeada por meus filhos, esteja exposta a insultos de tal espécie e não possa sair em paz para um passeio. Esta é, de longe, a coisa mais sórdida e covarde que já foi praticada; pois um homem bater em qualquer mulher é extremamente brutal e eu, bem como todas as pessoas, penso que isso é muito pior do que um atentado a tiros, o que, por malévolo que seja, pelo menos é mais compreensível e mais corajoso. As crianças ficaram muito chocadas, e o pobre Bertie ficou muito vermelho na hora. Foi a segunda vez que Alice e Affie presenciaram tal fato (apud BAIRD, 2018, p. 235).

Ex-oficial do Exército britânico, Robert Pate fora declarado insano pelos seus advogados, muito embora os juízes que averiguaram o caso o tivessem considerado perfeitamente são. De todos os ataques que a rainha havia sofrido até então, este foi o único que lhe causou algum dano físico. Pate foi então degredado para Tasmânia, na Austrália, mas Vitória nunca esqueceu daquele ocorrido. Em 1899, por exemplo, quando a bengala que acertou a cabeça da soberana foi anunciada num leilão, ela ficou ultrajada e ordenou que o objeto fosse retirado imediatamente das peças que estavam sendo vendidas.

No dia 29 de fevereiro de 1872, a chamada “viúva de Windsor” (alcunha pela qual Vitória ficou conhecida após a morte do príncipe Albert dez anos antes) estava preocupada com a crescente onda de republicanismo no seu reino, insuflada pela derrota de Napoleão III na guerra Franco-Prussiana, bem como pela implantação da terceira República Francesa. A legitimidade do poder da rainha ficou bastante abalada durante esses eventos. Tal sentimento antimonarquista, porém, foi sufocado graças a outra tentativa de assassinato à soberana, ocorrida após o casamento da princesa Louise com o duque de Argyll. Um rapaz de 17 anos, chamado Arthur O’Connor, se pendurou na lateral da carruagem de Vitória enquanto passava pelas cercanias do palácio de Buckingham e ficou cara a cara com ela. Só podemos imaginar o desespero da rainha ao fitar os olhos do seu possível assassino! Depois de disparar uma pistola sem munição contra a passageira, o jovem foi atirado para longe por James Brown, favorito de Vitória. O agressor foi condenado a um ano de prisão e 20 chibatadas. A defesa de O’Connor declarou insanidade, mas o júri recusou tal possibilidade. Brown foi então homenageado com uma medalha de ouro por seus serviços prestados.

Recorte de jornal, noticiando a última das oito tentativas de assassinato contra a ranha Vitória, por Roderick Maclean.

A última das tentativas de assassinato cometidas contra a rainha Vitória ocorreu no dia 2 de março de 1882. A soberana, então com 62 anos, acabava de chegar de trem a Windsor partindo de Londres, quando foi atacada por Roderick Maclean. Mas, diferentemente das outras ocasiões, dessa vez a pistola estava carregada e por pouco o agressor conseguiu cumprir seu intento, não fosse atacado imediatamente pelo condutor do trem e pelas guardachuvadas de dois estudantes de Eton. Maclean foi acusado de alta traição e o júri o considerou “não culpado, mas insano”, cabendo então à rainha decidir sobre a sentença. Vitória ficou estarrecida. Vira o homem disparar contra ela, mas o tribunal decidiu em contrário. Um ano depois, ela fez o Parlamento alterar a lei que transformava o veredito concernente aos casos de suposta insanidade. Porém, o mais interessante nisso tudo é que a cada nova tentativa de assassinato contra a soberana, sua popularidade e estima cresciam cada vez mais junto aos súditos. Vitória tinha toda o motivo para se congratular. Afinal, escapara da morte oito vezes desde que se tornara rainha e soube disfarçar o seu medo interior com capa do estoicismo. Como ela mesma escreveu sobre o caso de Maclean: “Vale a pena levar um tiro para ver o quanto alguém é amado”.

Referências Bibliográficas:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHEARMAN, Deirdre. Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SITWELL, Edith. Vitória, rainha da Inglaterra. Tradução de Solena Benevides Viana e Jaime de Barros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

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