Catarina de Médici: livro aborda a face política daquela que ficou conhecida como a dama de ferro da França

FRIEDA, Leonie. Catarina de Médici: poder, estratégia, traições e conflitos – a rainha que mudou a França. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

O século XVI foi marcado por profundas transformações de ordem cultural, política e econômica. Enquanto o Renascimento se alastrava da Itália para os quatro cantos da Europa, Lutero dava início à reforma protestante, que, por sua vez, ganharia a adesão de muitos países, provocando uma violenta reação da Igreja Católica. Em meio a esse processo tumultuoso, o mundo ocidental também conheceria a potência do governo das rainhas, personificado por soberanas como Isabel I de Castela e Elizabeth I de Inglaterra. Contudo, a mais controversa delas foi Catarina de Médici, rainha regente da França, que entrou para a história precedida por sua lenda obscura, como envenenadora e assassinada. Criada ainda em seu tempo de vida, quando seu reino era sacudido pelas guerras de religião, tal imagem atravessou o véu dos séculos, reforçada tanto pela literatura, quanto pelas artes e o cinema. Ao som do nome de Catarina, muitos associam sua figura ao massacre de protestantes huguenotes, ocorrido em Paris no dia 24 de agosto de 1572, data tradicional em que a Igreja celebrava o martírio de São Bartolomeu. Porém, pesquisas recentes têm trazido novos fatos e interpretações sobre a vida desta filha do Renascimento, contribuído assim para desmitificar muito a seu respeito, conforme podemos apreender a partir da leitura da biografia escrita por Leonie Frieda.

Leonie Frieda

Escritora e tradutora, Leonie Frieda se tornou uma autora best-seller ao publicar seu primeiro livro em 2004, intitulado Catherine de Medici: renaissance Queen of France, que chegou às livrarias brasileiras em 2019, publicado pela editora Planeta. Frieda desenvolveu uma extensa pesquisa em arquivos ingleses, franceses e italianos, para narrar a vida da esposa do rei Henrique II da França sob os mais diversos ângulos, com a intenção de trabalhar em cima dos muitos dados parcialmente não esclarecidos sobre a trajetória política da soberana. Além deste, ela também escreveu Deadly Sisterhood: A Story of Women, Power and Intrigue in the Italian Renaissance (2012), livro que aborda a vida de algumas das mulheres mais proeminentes que viveram na Itália durante o período renascentista, e Francis I: The Maker of Modern France (2018), biografia do rei Francisco I, que já havia sido rapidamente esboçada em seus trabalhos anteriores. Contudo, foi com Catherine de Medici que ela caiu no gosto do grande público de leitores, ao apresentar uma interpretação da rainha Catarina bastante diferente daquela que a maioria das pessoas acredita conhecer. No livro, é revelada a face humanista, maternal e conciliadora da soberana que ficou conhecida como a dama de ferro da França.

 Com tradução de Luis Reyes Gil, a edição brasileira de Catarina de Médici possui 523 páginas, distribuídas em 17 capítulos, incluindo também mapas da Itália e da França no século XVI, a genealogia dos Médici, dos Guise e dos reis Valois, além de notas e índice remissivo. Sem abrir mão do rigor acadêmico, a autora conseguiu compor uma narrativa acessível ao grande público, embora a densidade de informações dificulte uma leitura mais rápida. Sendo assim, é um livro que deve ser apreciado aos poucos. Diferentemente das edições inglesas e da edição portuguesa, a versão brasileira da biografia não acompanha o caderno ilustrado, que traz complementos importantes para a obra. O leitor mais curioso precisaria, então, pesquisar algumas das imagens e telas citadas pela autora na internet, afim de melhor compreender a análise que ela desenvolve sobre o legado artístico de Catarina para a França. A meu ver, foi a única falha da edição publicada pela Planeta do Brasil. Por outro lado, a diagramação das páginas, a fonte utilizada e o papel de impressão possibilitam uma experiência de leitura bastante prazerosa. Na capa, um detalhe da tela de Francesco Bianchi Bonavita, representando o casamento de Catarina com o delfim e futuro rei, Henrique II.

Catarina de Médicis, por François Clouet.

A obra se divide em duas partes. A primeira delas (e também a mais curta) narra a trajetória de Catarina, do seu nascimento em 13 de abril de 1519, até a morte do rei Henrique em 10 de julho de 1559. A autora se esforça para fazer com que seu leitor entenda como as experiências vividas por Catarina na infância e como esposa do futuro rei da França moldaram seu caráter, transformando-a com os anos numa mulher tanto paciente, quanto pragmática. Quando criança, a jovem herdeira dos Médici assistiu ao saque de Roma pelas tropas do imperador Carlos V e o encarceramento do seu tio, o papa Clemente VII. Ela mesmo quase havia sido violentada na ocasião, enquanto era mantida sob vigilância no convento de Santa Úrsula. Uma vez posta em liberdade, deu-se prosseguimento à sua educação, que incluía o estudo de outros idiomas, arte, literatura e música. O gosto que desenvolveu em cada uma dessas áreas, por sua vez, seria de fundamental importância para país onde um dia ela se tornaria rainha. Na França, tivera que suportar com resignação a indiferença do marido, a presença da amante deste, Diana de Poitiers, e o escárnio da corte, devido às suas origens burguesas. Em outras palavras, Catarina de Médici soube desde cedo o que era ser uma outsider, o que a beneficiou sobremaneira, resguardando-a do deslumbre provocado pelo brilho da coroa.

Com efeito, a segunda parte da obra (e certamente a mais importante), abarca os reinados de Francisco II, Carlos IX e Henrique III, destacando a predominância da figura de Catarina como rainha regente. Anos antes da morte de seu marido, ela tivera a oportunidade de assumir as rédeas do governo enquanto o rei estava ausente. Agora, estava disposta a lutar com todas as armas para defender a Coroa e manter a paz no reino, algo que se mostrou muito difícil devido às guerras entre católicos e huguenotes, insufladas por disputas familiares envolvendo o clã dos Guise e dos Châtillon, duas das casas mais poderosas da França. Desconstruindo a imagem da megera coroada, Leonie Frieda demonstra como Catarina de Médici, desde o princípio, procurou adotar uma política de conciliação entre os súditos de seus filhos, sendo muito mal vista por isso, ora pelos católicos, que a acusavam de ser pró-reformista, ora pelos huguenotes, que a chamavam de papista e envenenadora. A pesquisa desenvolvida por Frieda demonstra que Catarina nunca administrada venenos, muito embora não fosse contrária à ideia de se livrar de seus inimigos através de meios sórdidos. Acima de tudo, ela temia que a herança da casa dos Valois fosse ameaçada pelas rusgas da nobreza.

Capa da edição brasileira de “Catarina de Médici”, publicada pela editora Planeta.

Foi para tentar proteger sua família e impedir que esses conflitos sangrassem ainda mais o país, que, segundo Leonie Frieda, Catarina teria ordenado a eliminação dos principais líderes huguenotes, enquanto Paris comemorava as bodas de sua filha Margarida com o rei Henrique de Navarra. A matança geral que se seguiu na ocasião fugiu ao controle de seus arquitetos e manchou a reputação de Catarina de forma indelével. Muitas interpretações sobre o que de fato aconteceu naquele dia já foram feitas, mas em todas elas faltam provas mais concretas do envolvimento da rainha-mãe. Para escrever sobre esse episódio, a autora recorre principalmente às memórias de Margarida de Valois e ao testemunho de Henrique III. O que Frieda desconsidera, contudo, é que tanto uma quanto o outro tinham motivos de sobra para jogar a culpa do ocorrido em sua própria mãe. Margot, por se ressentir de Catarina pelo seu banimento da corte anos mais tarde e Henrique, para se livrar da culpa de um crime que manchou a sua imagem como rei da França, principalmente numa época em que ele se esforçava para conquistar a confiança de Navarra e do duque de Guise. A xenofobia, portanto, fez de Catarina de Médici o bode expiatório perfeito para o que ficaria conhecido como o massacre da noite de São Bartolomeu. Nem mesmo ela, por sua vez, se esforçou para emitir uma explicação pública, que justificasse o ocorrido.

Catarina de Médici ao todo teve 10 filhos com o rei Henrique II e viveu tempo suficiente para assistir à morte de 8 deles. Essas perdas tiveram um impacto muito grande na sua constituição física. Mas, ainda que doente, ela trabalhou incansavelmente até o fim para garantir a segurança do Estado. Nas palavras da própria autora, “Catarina exibia uma poderosa mistura de acentuadas contradições: lutou por seus filhos, embora não conseguisse uma intimidade real com eles; não compreendeu as paixões religiosas, mas ateve-se rigidamente às formas da Igreja romana”. Além disso, “era uma pragmática assolada por medos supersticiosos; era majestosa, mas acessível, e nunca desceu do alto pedestal onde sua coroa a colocara” (2019, p. 486). Dessa forma, a biografia se encerra fazendo um balanço da importância de Catarina para a história, não só da França, como da Europa. Numa época em que o pensamento político era dominado por homens, ela mostrou que seu sexo não era de forma alguma impedimento para o exercício do poder, não se intimidando no momento em que uma decisão difícil precisava ser tomada, muito menos na hora de executa-la. Parafraseando sua contemporânea, Elizabeth I da Inglaterra, ela possuía o coração e o estômago de um rei, dentro do corpo de uma grande mulher.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

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