Nos tempos do Imperador: quão fiel é a caracterização da família imperial na próxima trama da Rede Globo?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na última segunda-feira, dia 03 de fevereiro, o portal Gshow divulgou o enredo e o elenco principal da nova novela da rede Globo, ambientada no Rio de Janeiro da década de 1850. Escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson (entre outros), e com um figurino de tirar o fôlego, a trama tem como pano de fundo o reinado de Pedro II (interpretado por Selton Mello), com personagens interagindo num dos momentos mais conturbados da história do Brasil, marcado ora pelo desenvolvimento cultural e urbano, ora pelos horrores do regime escravocrata. Esse apelo ao período imperial, segundo Vinícius Coimbra, diretor artístico da novela, se mistura “às tramas envolventes e inspiradoras dos protagonistas”, construindo, desse modo, um enredo “com muita brasilidade, que promete gerar identificação com o público e abrir discussões para temas contemporâneos”. Marson, por sua vez, ressalta que “vamos falar sobre a importância de pensar no coletivo e não no desejo individual”. Sendo assim, a história servirá como alicerce para uma trama que traz em seu bojo problemáticas pertinentes aos tempos atuais, sem, contudo, abandonar a referência aos fatos e acontecimentos do período que lhe serve de cenário, embora misturados com uma boa dose de ficção, como é natural em produções desse tipo.

Em 2017, a Rede Globo transmitiu a novela Novo Mundo, que abordava o tema da formação do Brasil independente. Mesmo com as várias distorções factuais, cometidas em prol da licença poética, o público se conectou um pouco mais com as personagens que marcaram a história do nosso país, como a imperatriz D. Leopoldina, interpretada na época por Letícia Colin. Em Nos Tempos do Imperador, que tem estréia prevista para março, o enredo se passa 30 anos após os acontecimentos de Novo Mundo, quando o Brasil dava um salto rumo à sua modernização. Vivíamos naquele momento o que os livros de história costumam chamar de Era Mauá, marcado pela efervescência da vida social, pelo boom do teatro, da ópera, dos cafés e bailes no Cassino. A Rua do ouvidor vivia repleta das últimas modas de Paris, enquanto o piano ganhava a adesão da chamada “boa sociedade”. Artistas e literatos, como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, por sua vez, estavam envolvidos num projeto para dar uma identidade a essa nação emergente. Se da Inglaterra chegavam os produtos industrializados, era na França do Segundo Império onde se procurava copiar os modos e os costumes de uma burguesia em ascensão, difundidos através dos inúmeros manuais de etiqueta que eram vendidos nas livrarias do Sr. Garnier.

À esquerda, Selton Mello, caracterizado como D. Pedro II, à direita. (Foto: Divulgação).

Mas, acima disso tudo, figurava a imagem de D. Pedro II, com sua expressão altiva e olhar pensativo. A caracterização de Selton Mello como o segundo imperador do Brasil, divulgada numa foto oficial no dia 03, ficou bastante convincente. O olhar distante, encimado por sobrancelhas do mesmo tom dos seus cabelos grisalhos, passa a impressão de um homem a contemplar um ponto perdido, talvez a imagem de um país que ainda só exista na sua cabeça. A barba longa e branca, deixada propositadamente para esconder o queixo protuberante, herança genética dos Habsburgo austríacos, completa assim um quadro bastante austero. Sobre sua atuação, resta-nos esperar, na qualidade de expectadores, grandes surpresas. Afinal, Mello é reconhecido como um dos melhores intérpretes de nossa teledramaturgia, já tendo encarnado personagens que ficaram eternizados no imaginário popular. Será realmente um deleite vê-lo no papel do enigmático imperador do Brasil, um homem de gestos e gostos simples, que adorava a ciência e as artes, mas que, acima de tudo, nutria um profundo carinho e identificação para com seu povo, dedicando quase 50 anos de sua vida ao serviço público e trabalhando pelo reconhecimento internacional do Brasil.

Ao lado do nosso imperador, temos Teresa Cristina Maria, a princesa napolitana com quem se casou por procuração em 1843 e que lhe deu 4 filhos, entre eles a princesa Isabel. Na pele da terceira imperatriz do Brasil, temos a atriz Letícia Sabatella. Apesar de seu longo currículo e excelência, a escolha da atriz foi criticada por alguns internautas, que não a acharam parecida com a soberana. A historiografia brasileira mais tradicionalista foi muito cruel no tratamento da imagem da imperatriz do Brasil. Baixa, gorda, manca e feia são alguns dos adjetivos nada lisonjeiros atribuídos a Teresa Cristina. É corriqueira também a falácia de que, em 3 de setembro de 1843, quando a fragata Constituição aportou na Baía de Guanabara trazendo a noiva do imperador, ele a teria desprezado, sendo encontrado horas depois chorando nos braços de sua babá, reclamando de que fora enganado por um falso retrato. Porém, o professor Aniello Angelo Avella, biógrafo da imperatriz, ressalta que esse episódio não foi reportado diretamente por nenhum daqueles que estavam presentes na primeira entrevista dos imperadores. Tais boatos, segundo Avella, foram espalhados pela comissão austríaca, que via com desdém o casamento napolitano. Tanto D. Pedro II (mais novo três anos que sua esposa), quando D. Teresa Cristina, sabiam perfeitamente que uma união dinástica, movida por fins políticos, desprezava a opinião dos cônjuges quanto ao seu aspecto físico e/ou sentimental.

À esquerda, Letícia Sabatella, caracterizada como D. Teresa Cristina, à direita. (Foto: Divulgação).

Dessa forma, é preciso olhar para D. Teresa Cristina com mais interesse, uma vez que seu casamento com D. Pedro II abriu uma importante rota marítima para o sul da Itália, de onde vieram muito mais do que imigrantes para trabalhar nas fazendas cafeeiras. Por intermédio de D. Teresa, a ópera italiana atingiu em cheio o gosto da sociedade carioca, sendo que a própria imperatriz possuía uma voz soprano bastante agradável. Era uma leitora assídua e adorava se deixar fotografar ao lado de livros. Foi também por meio dela que muitos artigos e objetos oriundos da antiga Magna Grécia vieram a adornar os salões cariocas. Sendo assim, a escolha de Letícia Sabatella para o papel da soberana foi muito bem pensada e acredito que ela pode fazer um trabalho muito bom em prol do reconhecimento da memória de D. Teresa Cristina, pejorativamente lembrada como “a imperatriz silenciosa”. Quanto ao aspecto físico, é preciso lembrar de que a novela se trata de uma adaptação e, como produto de ficção, não possuí a obrigação de seguir à risca a histórica factual. Enquanto representação do tempo vivido, o enredo da novela estabelece uma relação homóloga para com seu objeto, mas de forma alguma deve ser limitado por ele. Os autores e diretores possuem liberdade para criar situações desconhecidas, incluir personagens, modificar aquilo que já se sabe, e assim convencer o interlocutor da mensagem que se deseja transmitir.

Uma outra caracterização que chamou a atenção dos chamados “puristas”, termo que uso para me referir àqueles que esperam uma adaptação à risca da história dita factual, foi a de Mariana Ximenes como Luísa Margarida de Barros Portugal, mais conhecida como condessa de Barral. Nascida em Santo Amaro, na Bahia, no ano de 1819, Luísa era sete anos mais velha que D. Pedro II e três anos mais velha que a imperatriz. Devido à sua fluência em vários idiomas e experiência adquirida vivendo na corte francesa, foi convidada pelo imperador para ser preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, com quem passou a nutrir uma relação bastante afetuosa. É possível também que Luísa e Pedro II tenham desenvolvido um caso extraconjugal, embora os detalhes mais íntimos, que revelavam a real natureza desse relacionamento, tenham sido destruídos por eles. A D. Pedro encantava, acima de tudo, o charme, a inteligência e a delicadeza de Luísa, que tinha pelo imperador profunda amizade, o que causava certo ciúme na imperatriz, conforme ela mesma registrou nos seus diários. É quase certo que os autores de Nos Tempos do Imperador vão explorar essa relação, dando a ela uma caráter de amor-paixão, semelhante ao que foi feito em Novo Mundo, com D. Pedro I e a Marquesa de Santos.

À esquerda, Mariana Ximenes, caracterizada como a condessa de Barral, à direita. (Foto: Divulgação).

Contudo, para além da história da família imperial, a novela também promete abordar questões raciais, como o envolvimento da personagem Pilar, interpretada por Gabriela Medvedovski, e o escravo Jorge/Samuel, vivido por Michel Gomes. O casal de protagonistas precisará enfrentar questões de raça, gênero e classe para viver um amor considerado impossível dentro das regras sociais vigentes no Brasil oitocentista. O relacionamento dos dois terá por objetivo desnudar os alicerces racistas nos quais nossa sociedade se fundamentou e que estão presentes até os dias de hoje. Para o telespectador que procure em Nos Tempos do Imperador uma trama completamente fiel à história, sinto informar que, aparentemente, não é essa a intenção de seus autores, conforme exposto anteriormente, e sim conectar o povo brasileiro com uma parte importante de seu passado através de questões e debates mais atuais. Por outro lado, assim como aconteceu com Novo Mundo (2017), a novela pode ser um bom catalizador para aquele que queira se informar mais e descobrir um pouco acerca de um dos períodos mais ricos da história do Brasil. Assim sendo, deixo abaixo algumas dicas de livros, que podem ajudar a compreender a trama que em breve será exibida!

Bibliografia consultada:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.

BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão. São Paulo: Editora UNESP, 2012.

BARMAN, Roderick J. Princesa Isabel: gênero e poder no século XIX. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, 5vols.

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro II: a história não contada. São Paulo: Leya, 2019.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TJÄDER, Rogerio da Silva. Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança. Editora Capivara, 2015.

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