A Rainha do Rococó: 10 fatos sobre Maria Antonieta que talvez você não conheça.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Que Maria Antonieta de Habsburgo-Lorena é um dos nomes mais famosos da História, isso não é novidade. Que esteve no palco de um dos maiores processos revolucionários e morreu na guilhotina, também não. Mas quanto desse conhecimento é realmente verídico? Julga-se conhece-la mais pelo que falaram dela, do que sua trajetória realmente nos ensina. A última rainha do absolutismo francês ainda pode ser uma caixinha de surpresas para muitos daqueles que achavam já saber tudo a seu respeito. Sua trajetória começa em Viena, no dia 2 de novembro de 1755, e termina tragicamente em Paris, a 16 de outubro de 1793. Em quase 38 anos de vida, Antonieta deixou um impressionante legado para a posteridade, que vai muito além das peças extravagantes de roupa que costumava usar pelos salões e corredores de Versalhes. Abaixo, listamos dez fatos da vida dessa figura, que talvez sejam desconhecidos para grande parte do público.

1. ELA TINHA APENAS 14 ANOS QUANDO SE CASOU 

Por séculos, as famílias reais europeias procuraram fortificar seus laços de parentesco através de casamentos com outras nações. O destino de uma princesa era servir como peão nesse jogo de alianças da diplomacia real. Eram preparadas para isso praticamente desde o dia em que nasceram. Com as filhas da imperatriz Maria Teresa do Sacro Império não foi diferente. Uma a uma, foram mandadas para reinos distantes, tais como Parma e Nápoles. Para a mais nova, porém, estava reservado um casamento ainda mais ilustre: com a França. A união entre as duas famílias deveria colocar fim a séculos de rivalidade e cimentar uma aliança dinástica, através da união entre o delfim Luís Augusto e a arquiduquesa Maria Antonia. Assim, em 1770, a jovem de 14 anos anos foi enviada para longe do convívio dos seus, para um terra estrangeira e um noivo que nunca tinha visto antes. Ali, ela passaria a ser chamada pelo diminutivo Antoinette (Antonieta).

2. ELA QUERIA MONTAR CAVALOS, MAS SÓ PERMITIRAM BURROS

Retrato equestre de Maria Antonieta, por Louise-Auguste Brun (1781-2)

Desde os primeiros tempos, montar a cavalo se constituía num dos esportes preferidos entre os nobres. Às mulheres, porém, essa prática era um pouco restrita, especialmente se estivessem grávidas. Na corte de Versalhes, com todo o seu universo particular de protocolos e etiqueta, não acharam de bom tom que a jovem delfina se entregasse a essa prática. O embaixador austríaco na França, conde Mercy-Argenteau, condenava-lhe francamente essa vontade, assim como a imperatriz Maria Teresa, que de Viena enviava cartas virulentas à filha, condenando seu comportamento. Por algum motivo, montar burros era algo mais aceitável para uma princesa de 15 anos. Então a corte providenciou vários burrinhos para Maria Antonieta e ela os adorava. Podia ser vista com certa frequência, rodeada por uma pequena comitiva, cavalgando burros pelas florestas do parque do palácio.

3. ELA ERA MUITO GENEROSA COM AS PESSOAS

Ilustração de Maria Antonieta com a família Bellegarde, retratando o momento em que a rainha lhes garante a libertação de Monsieur de Bellegarde, preso sob acusações injustas.

A imagem criada em torno da figura de Maria Antonieta é a de uma mulher frívola, indiferente às pessoas e que pouco se importava com o sofrimento do povo. Essa distorção, contudo, esconde uma faceta simpática e gentil da soberana. Ela criara um casa de acolhimento para mães solteiras e constantemente enviava alimentos para famílias carentes, acompanhadas de sua visita pessoal em algumas ocasiões. Em uma de suas cartas à Imperatriz Maria Teresa, ela chega a comentar sobre o alto preço do pão, dizendo também: “Tenho visto as pessoas nos tratarem tão bem, apesar de suas desgraças, [que] estamos ainda mais obrigados a trabalhar pela felicidade deles”. Durante a grande fome de 1787, por exemplo, chegou ao ponto de vender a prataria do palácio para comprar grãos destinados aos necessitados. Tais atitudes eram não só condizentes com sua natureza, como também esperadas de uma rainha, uma vez que poderiam traduzir uma impressão positiva para governo de Luís XVI. Diz-se que, numa ocasião, sua carruagem atropelara um vinicultor que passava pelo caminho. Antonieta rapidamente saltou do veículo e foi prestar auxílio à vítima, pagando por seu tratamento médico e dando uma pensão à família dele, até que o vinicultor fosse capaz de trabalhar novamente.

4. SEUS GASTOS NÃO FORAM A CAUSA PRINCIPAL DA REVOLUÇÃO

Maria Antonieta posa com seu séquito para o artista, na sua câmara de dormir, em Versalhes (guache sobre papel de Jacques-Fabien Gautier d’Agoty, 1777).

É muito fácil imaginar Maria Antonieta e Luís XVI esbanjando dinheiro e comida dentro dos salões dourados de Versalhes, rodeados por uma corte decadente, enquanto o resto do país passava fome para sustentar o alto padrão de vida dos soberanos. Entretanto, a situação estava apertada até para o casal de monarcas. O desequilíbrio financeiro do país era algo que se arrastava desde o reinado de Luís XIV, devido às ambições expansionistas do assim chamado rei Sol. A situação só pirou no governo seguinte, com a derrota na guerra dos 7 anos, e chegou ao seu ápice na década de 1780, devido ao apoio militar francês à guerra de independência norte-americana. Um forte inverno e escassez de pão e alimentos deixaram ainda mais difícil uma realidade que, por si só, já era alarmante. Nessa conjuntura, dificilmente os gastos de uma rainha, por mais irresponsável que ela pudesse ser, levariam um país inteiro à miséria. As políticas monetárias do rei tampouco se mostraram eficazes para controlar a inflação, o que levou a balança comercial a pesar negativamente para a França. A propaganda revolucionária, porém, viu na imagem de Maria Antonieta a estampa perfeita para ilustrar a crítica ao antigo regime. A partir de então, ficaria conhecida entre os populares pelo título de Madame Déficit.

5. ELA NUNCA DISSE AQUILO QUE AS PESSOAS ACHAVAM

Um dos bordões mais associados à imagem de Maria Antonieta é a frase “que comam brioches”, supostamente dita quando ela ficara sabendo da escassez de pão e da fome em Paris. Um gestou como esse certamente comprovaria o descaso com que a soberana tratava a miséria do povo. Todavia, é muito improvável que ela alguma vez tivesse dito essas palavras. De acordo com Antonia Fraser:

Essa história foi contada pela primeira vez a respeito da princesa espanhola que desposou Luís XIV cem anos antes da chegada de Maria Antonieta à França; continuou a se repetir atribuída a uma série de outras princesas durante todo o século XVIII. Como clichê jornalístico muito prático, talvez nunca morra. Mas não só a história foi atribuída a Maria Antonieta; este comportamento ignorante não combinava com a personagem. Seria muito mais provável que a filantrópica Maria Antonieta, fora dos padrões da época, jogasse impulsivamente seu próprio brioche ao povo faminto à sua frente (FRASER, 2009, p. 13-14).

A história do brioche foi contada também por Jean-Jacques Rousseau, no seu livro “Confissões”: “Recordo-me de uma grande princesa a quem se dizia que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: ‘Pois que comam brioche’ (outra versão credita a autoria da frase madame Sofia, tia do rei, quando cercada por uma multidão que exigia pão ao seu irmão, Luís de Bourbon). Como clichê, talvez a frase do brioche nunca desapareça, com sua autoria erroneamente atribuída a Maria Antonieta

6. ELA TINHA UM VILAREJO CONSTRUÍDO EM VERSALHES

Le Hameau De La Reine

Com efeito, Maria Antonieta também cometeu muitos excessos em sua vida. Assim como os demais membros da realeza europeia, criados em meio ao luxo, ela tinha gostos excêntricos e caros. Uma de suas maiores extravagâncias foi a construção de um vilarejo, que imitava o aspecto externo das habitações camponesas do interior do país, dentro do parque de Versalhes, onde ela e seus amigos poderiam se vestir de forma simples e escapar de todo o protocolo da corte. Erguido em 1783, “Le Hameau De La Reine” lembrava em tudo uma pequena aldeia, exceto por seu interior opulento. Sua construção absorveu muito das rendas da família real e contribuiu para o acúmulo das de dívidas de Maria Antonieta, sendo utilizado como uma das peças acusatórias levantadas contra a rainha, no seu julgamento em 14 e 15 de outubro de 1793.

7. ELA ADORAVA CRIANÇAS

Maria Antonieta e seus filhos em 1787, por Elisabeth Vigee-Lebrun.

O casamento de Luís XVI e Maria Antonieta se mostrou estéril por cerca de sete anos, o que causou grande desconforto entre as famílias reais francesa e austríaca. Esperava-se que a delfina e depois rainha gerasse o quanto antes um herdeiro para o trono. Mas, só em 1778 que nasceu a primeira filha do casal, batizada de Maria Tereza, em homenagem à imperatriz. Apesar do desapontamento geral causado pela chegada de uma menina, a rainha ficou muito feliz. De acordo com Madame Campan, primeira dama do quarto de dormir da rainha, Antonieta teria dito sobre o nascimento de uma filha o seguinte: “pobre menininha, não és o que se desejava, mas não é por isso que és menos querida. Um filho seria propriedade do Estado. Serás minha, terás o meu carinho indiviso; dividirá comigo toda minha felicidade e aliviarás os meus sofrimentos”. A maternidade teve um efeito bastante positivo na forma como Antonieta via as coisas do mundo. À Maria Tereza se seguiu o tão desejado delfim Luís José, em 1781; Luís Carlos, em 1785; e Sophie, em 1786. Infelizmente, Sophie morreu aos 11 meses de vida e Luís José aos 7 anos. Uma informação desconhecida por muitos, entretanto, é que Maria Antonieta também foi mãe adotiva. Ela tomou para si uma das filhas de uma criada falecida e os três filhos órfãos de um porteiro. O amor pelos filhos foi o que a impediu de fugir da França sozinha, quando teve a oportunidade. “Não teria nenhum prazer no mundo se os abandonasse”, disse ela na ocasião.

8. ELA QUASE FOI RESGATADA POR UM CRAVO

Ilustração do século XIX de Maria Antonieta em sua cela na Conciergerie.

Depois da execução de Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, Maria Antonieta – então chamada Viúva Capeto e prisioneira de 280 – foi aprisionada na Conciergerie, separada de seus filhos e cunhada, que ficaram mantidos na Torre do Templo. Seu amigo, Alexandre Gonsse de Rougeville, visitou-a disfarçado carregando consigo dois cravos, um dos quais escondia uma nota prometendo o dinheiro do suborno para ajudar a rainha a escapar. Deixou-o cair na cela de Maria Antonieta, mas foi foi apanhado pelos guardas depois da prisioneira o ter lido rabiscado uma resposta incompleta para o emissor. Na noite da tentativa de fuga, os guardas foram subornados e Maria Antonieta deveria ser levada ao encontro dos seus salvadores. Porém, no momento crucial do regaste, um dos guardas frustrou todo o plano, muito embora já tivesse embolsado o valor suborno.

9. ELA PEDIU DESCULPAS AO CARRASCO

Ilustração póstuma de Maria Antonieta subindo o cadafalso, em 16 de outubro de 1793.

Para quem viveu uma vida extraordinária, as palavras finais de Maria Antonieta foram bem simples e acabaram passando uma mensagem humilde para quem as escutou. No momento em que estava subindo os degraus do cadafalso, ela sem querer pisou no pé do carrasco Sanson, ao que logo disse; “Perdoe-me, senhor. Não foi minha intensão”. Uma frase que poderia resumir toda a sua vida!  A preparação para a execução durou cerca de 4 minutos, e então, como que num piscar de olhos, a alavanca foi acionada e a lâmina da guilhotina caiu num golpe certeiro. Eram 12h15min quando Sanson apanhou a cabeça ensanguentada da vítima e a mostrou para a multidão, que gritou: “Viva a República!”

10. ELA FOI SEPULTADA NUMA COVA ANÔNIMA, MAS NÃO PERMANECEU LÁ

Memorial de Luís XVI e Maria Antonieta na Basílica de Saint-Denis

Em 1 de novembro  de 1793 (um dia antes de Maria Antonieta completar 38 anos), os restos mortais da rainha encontraram breve repouso, numa tumba não identificada no cemitério da Rue d’Anjou. Os coveiros, por sua vez, não hesitaram em enviar à secretaria cívica os custos de seus serviços: pelo caixão, 6 livres; pelo túmulo e força de trabalho, 15 livres e 35 sous. Duas décadas depois, com a ascensão de Luís XVIII (irmão de Luís XVI) ao trono, fora dada uma ordem de busca aos restos mortais do casal de monarcas. O corpo de Maria Antonieta fora encontrado primeiro, já bastante deteriorado devido à cal viva. Porém, segundo o relato de um dos membros da equipe de inspeção, a cabeça dela ainda estava inteira, reconhecível especialmente pelo seu lábio Habsburgo. Destarte, as ligas elásticas que ela usava no dia de sua execução, além de um pouco de cabelo, estavam bem preservados. Os remanescentes humanos do rei, por sua vez, foram descobertos em seguida. Depois disso, ambos foram novamente sepultados na catedral de Saint-Dennis, com toda a pompa e cerimonial dignos de um rei e rainha da França. Uma escultura, localizada no recinto principal da catedral, representa uma versão idealizada do casal real em oração.

Fonte da Matéria Original:

BEGGS, Scott. 10 Facts About Marie Antoinette. – Acesso em 14 de julho de 2018.

Bibliografia Consultada:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

HASLIP, Joan. Maria Antonieta. Tradução de Eduardo Francisco Alves. – Rio de janeiro: Zahar, 1989.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: A última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

WEBER, Caroline. Rainha da Moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. De A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. Tradução de Medeiros e Albuquerque. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

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