A Jornada de Maria Antonieta

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Uma das rainhas mais biografadas de todos os tempos, Maria Antonieta segue sendo uma interrogação no contexto da revolução francesa. Ultimamente tem-se ouvido muito falar sobre seu protagonismo nesse processo turbulento, porém não como ela chegou a personificar este papel. Lembrada mais por seus vestidos extravagantes e comportamento fútil, do que por suas virtudes, tornou-se um eterno símbolo do luxo e despotismo da aristocracia; alguém pouco interessada pela situação do reino e indiferente quanto às massas populares. A propaganda maliciosa feita em torno da imagética dessa senhora foi elaborada de forma tão demasiada, que até hoje está relacionada a frases como “se não tem pão, então que comam brioches”. No intuito de desmitificar e desmistificar esse ícone, revelando assim a mulher por tras da lenda, Antonia Fraser, uma das mais bem sucedidas historiadoras da atualidade sobre a monarquia europeia, compreende uma exaustiva viagem em torno do passado dessa personalidade, revelando sua infância feliz em Viena, e os desafios que enfrentaria na mais extravagante corte da Europa.

Antonia Fraser

Antonia Fraser

Em “Marie Antoinette, The Journey” vemos a autora, por meio de uma extensa narrativa factual, tratar com riqueza de detalhes muitos aspectos singulares da vida da arquiduquesa Antoine, como sua educação e perspectivas de futuro. Isso, por sua vez, dota a obra de um caráter singular, quando a comparamos com outras biografias da rainha, em cujo enredo os escritores preferem iniciar a partir da ida desta para a França. Já em Fraser, notamos certo primor pelas particularidades de cada fase daquela mulher. Logo na introdução, ela demonstra o cuidado em ressaltar que um de seus principais objetivos foi não tentar fazer com que a sombra da guilhotina se apresentasse muito cedo, de forma que os acontecimentos de futuro, não nos forcem a fazer uma análise antecipada dos que ainda estão sendo relatados. “Num livro escrito em inglês sobre um tema em francês (e austríaco)”, ressalta, “há um problema óbvio relativo à tradução”. Sendo assim, a autora preza pela clareza, acima da exatidão, ao adaptar alguns dos termos referentes a nomes e títulos pelos seus similares atuais.

É notável perceber como Antonia Fraser tenta manter em “Maria Antonieta” alguma relação com a primeira biografia que escreveu: “Mary, Queen of Scots” (Maria, rainha dos escoceses). Isso se torna evidente já nas primeiras páginas no livro, quando ela elabora a árvore genealógica da família de Maria Teresa e Francisco Estêvão de Lorena, regressando até a trágica monarca, em cuja morte ela estaria intimamente ligada à filha dos dois imperadores. Um dos pontos mais ricos também deste compêndio biográfico é o caderno ilustrativo que o acompanha, com retratos dos principais atores da história ali contada, objetos e fotocópias de documentos importantes, como o contrato de casamento entre a arquiduquesa e o Delfim da França. Não obstante, nota-se a presença de mapas contemporâneos ao período, para que se tenha uma ideia mais precisa de como o continente europeu estava geográfica e politicamente distribuído nas últimas décadas do século XVIII.

 Através de uma vasta pesquisa documental, a autora dota os personagens ali destacado de falas e ações, de forma que eles mesmos contem sobre o presente que viverem e não permitam que um narrador o faça por eles. Fraser, em sua escrita extremamente romântica, elabora toda uma cadeia de argumentos fortes que defendam Maria Antonieta das más línguas da época. Contudo, não a exime totalmente de pecados, entre os quais os gastos estrondosos com vestuário e demais artigos de luxo. O patronato que legara a nobres como a Princesa de Lamballe e a duquesa de Polignac, tornara-se insuportável para a população. Através da relação entre a rainha e suas duas melhores amigas, fica evidente o porquê de muitos definirem Antonieta como lésbica. De acordo com Fraser, ela era uma mulher às vezes muito meiga, e que gostava de tratar aqueles por quem tinha apreço com palavras gentis e gestos amorosos, o que muitas vezes era mal interpretado pelos súditos. Em realidade, por maior que tenha sido a ovação quando chegara à França, o populacho nunca vira com bons olhos uma aliança com o sacro-império, inimigo de longa data do país.

Maria Antonieta, por Joseph Krantzinger (1771).

Maria Antonieta, por Joseph Krantzinger (1771).

Dividido em seis momentos, no livro Fraser lança mão de referências bibliográficas importantíssimas para contar a história, como as memórias de Madame Campan e o ensaio de Edmond e Jules de Goncourt, “Histoire de Marie-Antoinette”, fundamentais para qualquer análise biográfica sobre a vida de Antonieta, assim como as obras de Stefan Zweig, Evelyne Lever e Johan Haslip. A autora assina o prefácio em uma data muito peculiar para a tradição europeia: primeiro de novembro não é só dia de todos os santos, como também véspera do aniversário da arquiduquesa (sempre comemorado antes para se evitar fazer festa no dia de finados, quando todos os católicos estavam de luto). Na primeira parte, intitulada de “Madame Antoine”, observamos com detalhes todos os preparativos para o nascimento da mais conhecida das filhas de Maria Tereza. Aquele acontecimento, por sua vez, marcou o rompimento de uma tradição secular, pois a imperatriz proibiu que a nobreza palaciana assistisse ao parto, uma prática que mais tarde seria adotada pela própria rainha da França, quando deu à luz ao Delfim Luís José.

Quando surgiu a proposta de união entre a França e o Sacro Império através do matrimônio, a pequena Antoine era a única opção para a viúva Maria Teresa entre suas outras filhas. Então, ela sofre um processo de “afrancesamento”, para se adequar aos padrões estéticos daquela corte. Descrever sua vida como Delfina é uma tarefa que a autora empreende na segunda parte da obra. Nessa fase, o leitor é brindado com os perniciosos escândalos provocados por uma personagem nada querida pelos súditos: Madame Du Barry, amante do rei Luís XV, e antipatizante do Ministro Choiseul. Havia também as tias do Delfim, que não suportavam a arquiduquesa, e tramaram jogos para que ela caísse no desagrado do rei e de seu marido, porém sem obterem sucesso. Todavia, o júbilo delas consistia no fato de que os herdeiros da coroa não tinham consumado o casamento, sendo por isso motivo de chacota em todo país. Essa situação só iria amenizar quando Luís Augusto assumisse o trono como Luís XVI, e Maria Antonieta como sua “Rainha Consorte” (nome da terceira parte do livro).

A partir do Capítulo “Em verdade uma deusa”, vemos com humor e bom gosto uma ótima observação acerca dos modos de Maria Antonieta e o mundo por ela transformado. É nessa fase que entra em cena também o famoso conde Fersen, que, segundo Antonia Fraser, foi o único amante da rainha, contribuído como prova disso os diários do mesmo, em que relatava encontros amorosos com ela (embora utilizasse uma incógnita para não mencionar o nome da amada). O conde sueco seria um dos membros da corte particular de Antonieta em sua fase no Trianon, quando ela brincava de ser pastora e encenava peças contextualizadas em um clima bucólico. Sua felicidade se completaria quando engravidara de Madame Royale, sete anos após o casamento com Luís XVI. A corte Palaciana estava extasiada, mas em seu seio ainda persistiam invejosos como o duque de Orléans e o cardeal Luís, príncipe de Rohan, que estaria ligado ao escandaloso caso do colar de diamantes. Para a autora, essa foi uma peça chave para o ódio que o povo, castigado pela fome, passou a nutrir por Antonieta e por tudo o que ela representava.

Maria Antonieta - Antonia Fraser

Maria Antonieta – Antonia Fraser

Nas partes finais da trama (“A Austríaca” e “Viúva Capeto”) temos um perfeito exemplo de como uma estrela, que antes era luminosa, perde todo o seu brilho e passa a ser acusada de coisas que não fizera. Com a derrubada da bastilha (1789) e a fuga frustrada da família real das Tulheiras (1791), Maria Antonieta é responsabilizada por todo insucesso do primeiro e segundo estado. A população de Paris queria sangue, independente de ela apelar para as mulheres em seu julgamento (quando acusada de incesto com o próprio filho, ela respondeu “apelo para todas as mães aqui presentes”). Com o passar dos anos, muitos historiadores tentaram limpar a reputação da rainha, e nesse processo, o livro de Antonia Fraser possui um aspecto fundamental, pois além de ter vencido o Franco-Briitsh Literary Prize, ele prima por defender Antonieta de muitos desvios de conduta que ficaram extremamente ligados a sua imagem. Se ela cometera pecados, conclui a autora, com certeza já os expiou!

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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