Princesa do Brasil: Carlota Joaquina, a família real e a corte nos trópicos

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A possibilidade de atravessar o Atlântico rumo a uma terra desconhecida, de clima tropical, era aterrorizante para Carlota Joaquina. A ideia de ser uma rainha colonial era algo com o qual ela não podia lidar. Por outro lado, o medo de permanecer em Portugal, nas atuais circunstâncias, também era grande. À mãe, ela escreveu desesperada: “livre a mim de morrer, e às inocentes filhas, e também livra-me de algum insulto”, pois “meus filhos estão por ir e ter tudo embarcado. É melhor que eu vá pedindo a VV.MM. do que ir atropeladamente por vontade daqueles que movem toda a discórdia”, uma vez que, “para satisfação dos ingleses”, o príncipe e “os pequenos vão para a América”[1]. Infelizmente, a rainha Maria Luisa nada podia fazer por sua filha e netos, visto que “a distância e as relações políticas reduzem a ação de nossos desejos”. Possivelmente, ao tomar conhecimento dessa correspondência, D. João, que inicialmente pretendia partir apenas com os filhos varões, decidiu levar consigo para o Brasil toda a família. Além disso, os conselheiros do príncipe regente ficaram muito preocupados com a possibilidade de deixar D. Carlota na Europa, onde ela poderia aplicar um golpe para destituir o príncipe e tentar governar Portugal, como ela já havia tentado antes.

Na iminência de partir para o Brasil, Carlota Joaquina tentou convencer seus pais a intervirem na situação. Mas, para frustração da princesa, Carlos IV lhe negou a ajuda solicitada, alegando certos compromissos políticos e diplomáticos. Assim, diante da ameaça de uma invasão francesa pelas tropas do general Junot, os navios portugueses, protegidos pela esquadra britânica, partiram às pressas do cais de Belém rumo à América do Sul no dia 27 de novembro de 1807. A frota era composta por 35 navios, que abrigavam cerca de 15 mil pessoas. Por não considerar seguro que os filhos do casal viajassem todos juntos, a princesa distribuiu as crianças em embarcações diferentes. A travessia não foi fácil, devido às tormentas e privações da viagem. Desembarcaram na cidade de Salvador, na Bahia, no dia 22 de janeiro de 1808 e no dia 9 de março, aportaram no Rio de Janeiro. Poucos meses depois, receberam a notícia de que Carlos IV havia sido feito prisioneiro por Napoleão e, juntamente com seu filho, Fernando VII, forçado a abdicar do trono, que foi entregue ao irmão do imperador dos franceses, José Bonaparte.

A família real sendo recepcionada no Brasil.

A família real sendo recepcionada no Brasil.

A realidade da colônia, por ocasião da chegada da corte portuguesa, era bastante precária. Muitas ruas sequer eram calçadas e a sujeira estava espalhada por todos os cantos da cidade do Rio Janeiro. Assim, D. João se viu na urgência de reorganizar o perímetro urbano, deixando-o mais de acordo com os parâmetros europeus. Esse processo de transformação havia começado desde quando as notícias da vinda da família real chegaram ao Rio. Logo de início, a preocupação maior foi em acomodar o grande séquito de cortesãos que viajava junto com a família real. Para tanto, muitos dos moradores das cidades tiveram suas residências confiscadas pela coroa. As portas das casas foram carimbadas com um P. R., de “propriedade real”, embora muitos tenha satirizado a situação ao interpretar a sigla como “ponha-se na rua”. Conforme nos diz Kirsten Shults, autora de Versalhes Torpical (2008), “embora os residentes vissem a perspectiva de servir como a nova residência real com alegria e orgulho, como insistiram os memorialistas da cidade, acomodar o príncipe regente, a família real e os demais exilados era, todavia, uma tarefa assustadora”[2]. As demandas eram muito grandes e os custos altíssimos.

Não obstante, entre os brasileiros não existia uma noção clara das regras de etiqueta da corte, o que causou vários incidentes. As pessoas deveriam se ajoelhar diante da presença da família real, mas muitos desconheciam essa parte do protocolo. Isso aborrecia bastante D. Carlota Joaquina, cujos ideias monarquistas lhe foram inculcados em tenra idade. Vestida como uma amazona, a princesa saia pelas ruas do Rio de Janeiro montada em seu cavalo, ensinando aos transeuntes como se comportar diante de um membro da realeza. Não raro ela aplicava o chicote àqueles que não lhe faziam a devida mesura. Esse traço do comportamento da esposa de D. João causou alguns problemas para ele, especialmente após D. Carlota ter exigido que o ministro dos Estados Unidos, Thomas Sumpter, que passeava pelo bairro de Botafogo, onde ela morava, se ajoelhasse, conforme ditava o protocolo. Como Sumpter, um republicano convicto, se recusou a fazer o que lhe era solicitado, a princesa ordenou aos seus guardas que o ameaçassem com o chicote, ao que o diplomata sacou duas pistolas e avisou que mataria quem o chicoteasse. Pouco depois, foi se queixar com D. João. Consta também que Lord Strangford, embaixador da Inglaterra, chegou a levar algumas chicotadas, a mando de D. Carlota.

Prática quase em desuso entre outras cortes europeias, a cerimônia do beija-mão era algo que Dona Carlota Joaquina detestava. Nessa imagem, o casal de monarcas recebe os súditos do Paço da Cidade. Repare na expressão de repulsa, captada pelo artista, em Dona Carlota.

Prática quase em desuso entre outras cortes europeias, a cerimônia do beija-mão era algo que Dona Carlota Joaquina detestava. Nessa imagem, o casal de monarcas recebe os súditos do Paço da Cidade. Repare na expressão de repulsa, captada pelo artista, em Dona Carlota.

Diante de tantas reclamações, vindas de mais de um diplomata, o príncipe regente resolveu isenta-los de qualquer gesto de deferência para com a família real. Em seu forçado exílio tropical, a princesa sonhava com o dia em que retornaria para a Europa. Tudo no Brasil lhe irritava, desde o clima, acomodações e até os próprios súditos. Com as notícias da prisão de sua família por Napoleão Bonaparte, uma ideia perpassou pela cabeça, dando-lhe ânimo para seguir em frente: a de se tornar responsável pelas colônias espanholas na América. Uma vez que seu marido governava o vasto império português, a possibilidade de ela vir a administrar as possessões dos Bourbon se afigurava como uma forma de se emancipar da tutela do príncipe e se fixar como rainha de seu próprio reino. Aqui, a conspiradora nata que havia em D. Carlota emergiu mais uma vez e com mais ânimo do que nunca. Caso seus planos se realizassem, então uma nova união ibérica, sob o domínio de D. João e sua esposa, poderia se concretizar. A perspectiva, porém, assustava tanto ao príncipe regente, quanto a Inglaterra, especialmente por causa do gênio imperioso da princesa.

Justificando suas ações com base no fato de ser o único membro da família Bourbon espanhola em liberdade, “Carlota Joaquina montou um verdadeiro bunker na defesa e na ampliação da sua base de apoio”[3]. Para tanto, ela contou com a ajuda de José Presas, um advogado espanhol refugiado no Rio de Janeiro e que acabou se tornando secretário da princesa por indicação de Sidney Smith. Auxiliada pelos dois, Carlota começou a entrar em contado com alguns refugiados que, assim como Presas, haviam apoiado a invasão inglesa em Buenos Aires, criando assim uma base de apoio para o seu plano de desembarque no vice-reino do Rio da Prata, onde pretendia ser aclamada regente. Os criollos, filhos de espanhóis nascidos na América, demonstraram adesão ao partido da princesa, os “carlotistas”, por verem nisso a possiblidade de realização de seus planos de livre-comércio. Em carta a um amigo, Saturnino Rodrigues Peña, um dos exilados de Buenos Aires, fez uma descrição das qualidades de Carlota Joaquina e explicou porque acreditava que ela era capaz de governar as possessões de sua família no continente americano:

[…] A senhora d. Carlota, Princesa de Portugal e do Brasil e Infanta de Espanha, tem uma educação ilustrada e os sentimentos mais heroicos. Esta mulher singular, tanto assim que acredito que seja a única em sua classe, me parece disposta a sacrificar tudo para alcançar a nobre satisfação de servir de instrumento à felicidade de seus semelhantes. É impossível ouvir falar dessa princesa sem ama-la; não possui uma só ideia que não seja generosa e jamais deu lugar às que são infundidas com tanta facilidade nessas pessoas – a adulação e o despotismo: em uma só palavra, parece prodigiosa a vinda da digna princesa […][4].

Saturnino certamente exagerava nos atributos de sua senhora, ao passar para o amigo a imagem dela como uma mulher extremamente benevolente e desprovida de ambição pessoal. Juntamente com seu irmão, Nicolás Rodrigues Peña, foi um defensor entusiasta do movimento “carlotista” no Rio da Prata.

A moda no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1810 e 1820, por Debret. No quadro acima, podemos ver os bustos de Dona Leopoldina, Dona Carlota e Dona Amélia de Leuchtenberg. Abaixo, Dona Carlota e Dona Leopoldina aparecem em seus trajes de gala.

A moda no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1810 e 1820, por Debret. No quadro acima, podemos ver os bustos de Dona Leopoldina, Dona Carlota e Dona Amélia de Leuchtenberg. Abaixo, Dona Carlota e Dona Leopoldina aparecem em seus trajes de gala.

Entretanto, da mesma forma como em outras ocasiões, as pretensões de D. Carlota esbarraram em forças mais poderosas, como o governo inglês e o francês, que temiam uma nova união ibérica, que formasse uma nova potência europeia. Como disse Fábio Ferreira, “os inimigos de Carlota eram variados e poderosos, e tiveram êxito em frustrar as suas pretensões”[5]. Além de setores da resistência espanhola, que não queriam se submeter à coroa portuguesa, haviam inimigos dentro da própria corte no Brasil, trabalhando contra a princesa. Um deles era o conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, que possuía ligações com o embaixador inglês no Rio, Lorde Strangford. Juntos, eles convenceram D. João a impedir a esposa de desembarcar no Prata. Por temer a ascensão da D. Carlota, D. Rodrigo tratou de afastar todas as pessoas que apoiavam a sua causa e cortou sua mesada, deixando-a numa grave situação financeira. Sem recursos e pessoas confiáveis do seu lado, os sonhos da princesa de governar o vice-reino do Prata estavam se esvaindo. Mesmo assim, ela acalentou essa esperança por mais algum tempo, apesar de todos os antagonistas que agiam contra si.

Em maio de 1810, uma revolução eclodiu em Buenos Aires, com o objetivo de criar um autogoverno que pudesse controlar os territórios que hoje pertencem ao Paraguai, Uruguai e algumas partes da Bolívia. Para enfrentar esse movimento de independência, Carlota Joaquina pediu auxílio ao general do exército espanhol em Montevidéu, Gaspar de Vigodet. Como não tinha dinheiro para financiar sua empresa, ela decidiu vender suas melhores joias, a exemplo da rainha Isabel I de Castela na época das viagens de Cristóvão Colombo. Contudo, os ourives do Rio de Janeiro, certamente por pressão do D. João, se recusaram a adquirir as peças, alegando falta de dinheiro. Sendo assim, ela decidiu entregar as joias ao marquês de Casa Irujo, embaixador espanhol na corte, para que este as vendesse. Admirado com a atitude da princesa, o diplomata se referiu a ela como a “Isabella de nuestro tiempo”[6]. Infelizmente, seus esforços não obtiveram êxito, pois em 1814 Montevidéu se rendeu. D. Carlota foi então forçada a assistir ao desmembramento do império colonial de sua família, tanto por parte de seu marido, quando por parte dos rebeldes que aderiram ao movimento de maio.

D. João é aclamado rei de Portugal, Brasil e Algarve, por Debret.

D. João é aclamado rei de Portugal, Brasil e Algarve, por Debret.

Com efeito, a princesa ainda podia encontrar algum conforto no seu exílio tropical com a notícia da restituição do irmão, Fernando VII, ao trono espanhol. Ela logo enviou inúmeras cartas à família, parabenizando-os pelo seu retorno ao poder. Do rei, ela recebeu linhas afetuosas, escritas em 19 de abril de 1814: “acredita que sempre lembro de ti, de quando nos vimos em Badajoz há dezenove anos, e que te amo muito, e desejaria poder te dar um abraço”[7]. Foi nesse período que Carlota começou a discutir a possibilidade de casamento entre suas filhas Maria Isabel e Maria Francisca de Assis com os tios das infantas, Fernando VII e Carlos Isidro. Na opinião de Francisca L. Nogueira de Azevedo[8], é possível que, ao projetar o duplo matrimônio, a princesa estivesse novamente pensando na ideia de uma união ibérica, a longo prazo. Uma vez que o enlace foi aprovado por ambas as cortes, as princesas viajaram em 1816 para Madri para contrair as bodas com os tios. Sua mãe, porém, não pôde acompanha-las, devido aos agravantes políticos ocasionados pela morte de D. Maria I em abril daquele ano. O príncipe regente finalmente se tornou rei D. João VI de Portugal, Brasil e Algarves, e sua esposa, rainha.

Referências e Notas:

[1] JOAQUINA, Carlota, 1806, apud AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Op.cit. 2008, p. 89.

[2] SCHULTZ, Kirsten. Versalhes tropical: império, monarquia e a Corte real portuguesa no Rio de Janeiro, 1808—1821. Tradução de Renato Aguiar. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 155.

[3] AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Op.cit. 2008, p. 44.

[4] PEÑA, Saturnino Rodrigues, 1808, apud AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Op.cit. 2008, p. 48.

[5] FERREIRA, Fábio, Sonhos de uma rainha frustrada. – Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, setembro de 2013, p. 29.

[6] AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Op.cit. 2008, p. 52.

[7] FERNANDO VII, 1814, apud AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Op.cit. 2008, p. 96.

[8] Ibid. p. 52.

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Um comentário sobre “Princesa do Brasil: Carlota Joaquina, a família real e a corte nos trópicos

  1. Acho muito compreensível o desgosto da princesa em estar no Brasil, não devia mesmo ser fácil uma mudança de tal magnitude em circunstâncias felizes, ainda mais com o reino em guerra, invadido, com os pais e irmãos presos e um marido que lhe tolhe todas as iniciativas.

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