Julgamento e morte de Maria Antonieta, a última rainha da França – Parte III

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte III – Dia 16 de Outubro de 1793.

Eram 04 da manhã quando Maria Antonieta, ex-rainha da França e de Navarra, retornou para sua cela na Conciergerie, após o veredito final que a declarava culpada por todos os crimes de que fora acusada.[i] Para a filha dos césares, a vida limitava-se apenas a algumas horas. Sem forças, não desejava comer ou fazer qualquer coisa, exceto escrever para sua família no Templo, ou seja, a cunhada, Madame Elizabeth, a filha, Maria Tereza, e o filho, Luís Carlos (HASLIP, 1989, p. 378). No pequeno quarto, ardiam duas velas, para iluminar o local sombrio. Seria ali que a prisioneira escreveria sua última carta, repleta de emoção e tristeza. Sendo assim, solicitara do carcereiro papel e tinta, algo que não lhe recusaram, talvez na expectativa de que ela confessasse algum crime por escrito (FRASER, 2009, p.481). Como ela sabia que o Delfin estava separado das demais, e supunha (erroneamente) que o mesmo acontecera à filha, então endereçou a missiva para a irmã de Luís XVI, datada no dia anterior, embora já fosse madrugada de quarta-feira, dia 16.

Segundo Stefan Zweig (1981, p. 428), a caligrafia da carta era bastante firme, bem diferente de outras da ex-rainha. A linguagem, contudo, apresentava-se pura e revelava todo o sentimento que até então a autora procurara esconder de seus algozes. Segue abaixo esse tocante texto, transcrito na íntegra da obra de Zweig (ibidem, p. 428-430).

Marie Antoinette last Letter

Umas das páginas da última carta de Maria Antonieta, endereçada à sua cunhada, Madame Elizabeth.

É a você, minha irmã, que escrevo pela última vez. Fui condenada não a uma morte vergonhosa, esta só se dá aos criminosos, mas a reunir-me a seu irmão. Inocente, como ele, espero mostrar a mesma firmeza nos últimos momentos. Estou calma como se está quando a consciência não nos acusa de nada; tenho, porém, uma dor profunda, de abandonar meus pobres filhos. Você sabe que eu não existia senão para eles e para você, minha boa e terna irmã. A você que, por amizade, tem sacrificado tudo para ficar conosco, em que situação a deixo! Soube, durante meu processo, que minha filha foi separada de você. Ai de mim, pobre menina, não ouso escrever-lhe, tanto mais que não receberia minha carta. Não sei mesmo se esta chegará à suas mãos; receba, contudo, pelos dois, a minha bênção. Espero que um dia, quando forem maiores, poderão reunir-se com você e apreciar completamente os seus ternos cuidados. Peço que eles se lembrem sempre de tudo o que lhes ensinei, que o princípio e o cumprimento exato dos próprios deveres são a primeira base da vida e que uma recíproca amizade e uma troca de confiança mútua farão a felicidade deles. Minha filha deve compreender que é seu dever, dada a sua idade, auxiliar sempre o irmão com conselhos e com a sua experiência, que é maior que a dele, e que a sua amizade lhe poderá inspirar; e meu filho, por seu lado, tenha para com a irmã todos os cuidados e lhe preste o auxílio que a amizade possa suscitar. Sintam ambos, enfim que, em qualquer posição em que se venham a achar, não poderão ser verdadeiramente felizes senão graças à sua união; tomem-nos para seu exemplo. Quanta consolação em nossas desgraças nos veio de nossa amizade. Na alegria se goza dobrado quando é possível dividi-la com um amigo. Onde se pode encontrar amigos mais ternos que na própria família? Meu filho não deverá nunca esquecer as últimas palavras de seu pai, que lhe repito expressamente: Não procure nunca vingar a nossa morte. Devo falar-lhe de uma coisa muito penosa para o meu coração: sei quanto meu filho deve tê-la feito sofrer. Perdoe-lhe, minha querida irmã, lembre-se da sua idade e de como é fácil fazer dizer por uma criança o que se quer que ela diga e que ela ainda não compreende. Dia virá, assim espero, em que ele poderá melhor avaliar toda a sua bondade e toda a sua ternura por ambos. Resta-me ainda confiar-lhe os meus últimos pensamentos: desejaria ter podido escrevê-los no princípio do processo, mas, além de não me deixarem escrever, o decorrer dos acontecimentos foi tão rápido que realmente não tive tempo.

“Morro na religião católica, apostólica, romana, na de meus pais, naquela em que fui criada e que sempre professei. Não tendo nenhuma consolação espiritual a esperar, ignorando se aqui ainda existem padres dessa religião, mas sabendo que, mesmo que existam, o lugar em que me acho exporia a grandes perigos aquele que aqui entrasse, ainda que só uma vez, peço sinceramente perdão a Deus de todos os erros que tenha cometido em toda a minha vida. Espero que, na sua bondade, Ele quererá acolher os meus últimos votos, como os que fiz sempre, recebendo a minha alma na sua misericórdia e na sua bondade. Peço perdão a todos os que conheço e a você, minha irmã, em particular, de todas as ofensas que sem querer lhe tenha feito. Perdoo a todos os meus inimigos o mal que me fizeram. Tinha amigos: a ideia de separa-me deles para sempre e o seu sofrimento são uma das maiores tristezas que levo comigo ao morrer; que ao menos saibam que até o último instante me lembrei deles.

Camisola usada por Maria Antonieta, durante o período em que ela esteve presa na Conciergerie.

Camisola usada por Maria Antonieta, durante o período em que ela esteve presa na Conciergerie.

“Adeus, minha boa e terna irmã: possa essa carta chegar às suas mãos. Lembre-se sempre de mim. Beijo-a com todo o coração, assim como aos meus pobres e queridos filhinhos. Meu Deus, como é dilacerante separar-me deles para sempre. Adeus, adeus, não me ocuparei mais agora senão dos meus deveres espirituais. Como não sou livre nas minhas ações, talvez me tragam algum padre, mas juro que não lhe direi palavra e o tratarei como a um ente absolutamente estranho…”

Nesse ponto, Maria Antonieta interrompe a carta e assina seu nome. Com efeito, não tinha mais condições físicas e mentais para continuar escrevendo, e então se atirou na cama, com as mãos no rosto, e começou a chorar (FRASER, 2009, p. 483).

Não obstante, o tipo de padre a que a condenada se referia no final da missiva era um juramentado à constituição. Sobre esse aspecto, ela mantivera a palavra, pois, no devido tempo, levaram-lhe o Abade Girard, a quem a ex-rainha rechaçara com um enérgico “peço-lhe que se cale. Não pertenço à sua religião, morro professando a religião de meu esposo e não esquecerei os princípios que tantas vezes me repetiram” (BERTIN, p. 168). Isso, por sua vez, já demonstra a diferença de tratamento dada entre Luís XVI e sua viúva. O rei, em suas horas finais, tivera o consolo espiritual do Abade Edgeworth, sacerdote não-jurado, além de poder encontrar-se com sua família na véspera da execução. Nada disso, contudo, seria concedido à Maria Antonieta, que tinha apenas a jovem criada, Rosalie Lamorlière, a fazer-lhe companhia (FRASER, 2009, p. 483).

Às 07h00min da manhã, Rosalie fora visitar a condenada em sua cela, para saber se ela precisava de alguma coisa. Com os olhos molhados de lágrimas, Antonieta respondeu: “Minha filha, não preciso de nada. Tudo acabou para mim” (ibidem). Foi só com muita insistência que ela conseguira fazer a ex-rainha tomar um pouco de caldo, mas depois de algumas colheradas, ela largara o prato (FRASER, 2009, p. 438). Há dias que Maria Antonieta não se alimentava direito. Estava muito magra, e perdendo bastante sangue. Uma hora depois, era chegado o momento de a cativa trocar de roupas. Entretanto, não lhe fora permitido envergar os trajes de luto enquanto subia o cadafalso. Segue abaixo o relato de Rosalie Lamorlière sobre os acontecimentos seguintes (apud LEVER, 2004, p. 339):

“Sua majestade ficou de pé no estreito espaço que eu geralmente deixava entre o catre e a parede. Fez um gesto para que eu ficasse diante dela a fim de que o gendarme não a visse despida; agachou-se naquele espaço e tirou o vestido para mudar a roupa de baixo pela última vez. Mas o oficial da Gendarmerie ficou de pé junto ao travesseiro e ficou olhando. Sua majestade rapidamente voltou a cobrir-se e com grande suavidade disse ao jovem: ‘Em nome da decência, monsieur, permita que mude de roupa sem testemunhas.’ ‘Não posso consentir’, respondeu o gendarme.”

Tela do pintor Joseph-Emmanuel van den Büssche, retratando o momento em que David rascunhou a última imagem em vida de Maria Antonieta.

Tela do pintor Joseph-Emmanuel van den Büssche, retratando o momento em que David rascunhou a última imagem em vida de Maria Antonieta.

Tendo que se conformar com a situação, a ex-rainha trocou-se com todo o recato possível, escondida atrás das saias de Rosalie. Com cuidado, ela tirou a camisa de baixo, muito manchada de sangue, e a escondeu dentro de uma rachadura na parede; vestindo apenas um simples vestido branco, ela colocou uma touca na cabeça e se virou com o resto: sapatos cor de ameixa e meias de seda preta (FRASER, 2009, p. 484). Entretanto, a humilhação não terminaria por aí. Quando o carrasco Carlos Henrique Sanson apareceu para cortar os cabelos de Maria Antonieta, ele amarrou com força as mãos delas, com os braços puxados para trás. Ela, então, exclamou: “Não fizeram isso com Luís XVI” (BERTIN, p. 165). Porém, o presidente do Tribunal Revolucionário, Herman, que estava presente na cena, ordenou que Sanson continuasse com o seu dever, cortando rudemente os cabelos da vítima, para, assim, deixar o pescoço dela livre para a lâmina da guilhotina.

Todavia, ao ver o carro que a conduziria até seu destino, a ex-rainha, que até agora se mostrara firme, finalmente cedeu: enquanto Luís XVI fora transportado em uma carruagem fechada, ela, por sua vez, seria levada numa carroça comum para prisioneiros. Nesse momento, fora vítima de um desarranjo intestinal, e suas mãos precisaram ser desatadas para que ela pudesse se aliviar em um canto (HASLIP, 1989, p. 380). Às 11 horas, o cortejo deixou a prisão com uma lentidão proposital, para que o povo pudesse contemplar a ruína de uma soberana da França. “Quando institivamente a ex-rainha foi sentar-se no fundo – a sua posição naquelas magníficas carruagens de Versalhes – foi rudemente corrigida e mandaram-lhe sentar-se de costas para os cavalos. Um sacolejo da carroça quase a derrubou e um dos gendarmes observou com satisfação: ‘Não há aqui nenhuma das tuas belas almofadas do Trianon” (FRASER, 2009, p. 484). Foi nesse momento, quando a procissão passava pela esquina da Rua Saint-Honoré, que o pintor Jacques-Louis David esboçou a última imagem de Maria Antonieta em vida. Um rascunho que a retrata nas condições conforme descritas acima.

Lâmina da Guilhotina que decapitou Maria Antonieta em 16 de Outubro de 1793.

Suposta lâmina da Guilhotina que decapitou Maria Antonieta em 16 de Outubro de 1793.

Durante todo o percurso, milhares de pessoas se avizinhavam, enquanto a escolta dava gritos de “Abri caminho para a austríaca!” ou “Vida longa à República!”. Outros mais maldosos, como o ator Grammont, que conduzia a cavalo a procissão, disse: “Ei-la, a infame Antonieta, ela está acabada, meus amigos!”. Entretanto, houve gestos solidários, principalmente por parte da antiga aristocracia (ibidem, p. 484-485). Na ocasião, também estava presente Virieu, o enviado de Parma, onde a irmã de Maria Antonieta, Amália, era a duquesa reinante. Ele relatou que a ex-rainha “nunca frustrou, nem por um instante, a sua grande alma nem o sangue ilustre da Casa d’Áustria. Só por um momento ela fraquejou e mostrou uma emoção súbita. Foi ao ver as Tulheiras, que trouxeram lembranças do passado e dos filhos. Os seus olhos encheram-se momentaneamente de lágrimas” (ibidem, p. 185). Contudo, quando a condução finalmente estacionou na Place de la Concorde (antiga Praça Luís XV), ela recobrara o controle emocional e descera a carroça com facilidade.

Naquele momento, Maria Antonieta estava indiferente a tudo e todos. Nem sequer parecia escutar os brados de “Abaixo a tirania!” vindo da plateia (LEVER, 2004, p. 340). Ao subir os degraus do cadafalso, ela sem querer pisara no pé do carrasco Sanson, e então pedira desculpas ao mesmo. Quanto ao Abade Girard, que lhe dissera “eis o momento, Madame, de armar-se de coragem”, ela respondera com firmeza: “O momento em que meu sofrimento vai terminar não é o momento em que me vai faltar coragem” (FRASER, 2009, p. 485). Depois disso, a outrora Deusa da Elegância se entregara aos cuidados do carrasco. A preparação para a execução durou cerca de 4 minutos, e então, como que num piscar de olhos, a alavanca foi acionada e a lâmina da guilhotina caiu num golpe certeiro. Eram 12h15min quando Sanson apanhou a cabeça ensanguentada da vítima e a mostrou para a multidão, que gritou: “Viva a República!” (LEVER, 2004, p. 340)[ii].

Confira abaixo esta cena do filme “O Enigma do Colar“, representando a execução de Maria Antonieta (interpretada por Joely Richardson): 

Referências Bibliográficas:

BERTIN, Claude (org.). Os Grandes Julgamentos da História: Maria Antonieta/ Marechal Ney. – São Paulo: Otto Pierre, Editores.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

HASLIP, Joan. Maria Antonieta. Tradução de Eduardo Francisco Alves. – Rio de janeiro: Zahar, 1989.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: A última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

LIMA, Abdon Carvalho. O processo de Maria Antonieta. – 2ª edição – Rio de Janeiro: Laemmert, 1952.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. Tradução de Medeiros e Albuquerque. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.


[i] Quanto ao guarda que lhe oferecera o braço para ajuda-la a voltar ao cárcere, este seria preso no dia seguinte.

[ii] Houve, inclusive, um homem que tentara entrar debaixo do cadafalso e molhar um lenço no sangue na vítima, mas fora rapidamente afastado pelos gendarmes (FRASER, 2009, p. 485).

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5 comentários sobre “Julgamento e morte de Maria Antonieta, a última rainha da França – Parte III

  1. gostaria de saber a história dos filhos dela, Maria Tereza e Luiz Carlos, após a morte da mãe, o que mudou na vida deles, e se eles foram bem sucedidos na vida.

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    • Elisangela, no próximo post da micro-série “Julgamento e morte de Maria Antonieta, a última rainha da França” irei tratar desse assunto, entre outras coisas que aconteceram após a morte de Antonieta 🙂

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  2. sensacional a materia,mais um grande fato historico,bem trabalhado por voces,
    grandes detalhes,que eu desconhecia,maria antonieta,outro caso excepcional da
    historia,muito obrigado por me responderem tao rapido,complemento aqui,
    que possuo certa habilidade em desenhar,e que por contemplar a vida desses
    personagens,pintei uma tela sobre Joana Darc,e que se voces quizerem
    ver ela esta postada no meu album no facebook,e no flick,e se voces quizerem
    uma foto desta tela terei o maior prazer em enviar,nunca li nada com tanta
    riquesa de detalhes sobre maria antonieta como acabei de ler,valeu por
    colocar um site assim repleto de cultura,adoro historia,espero continuar mais
    a usar este site para meus estudos,muito obrigado, e uma boa noite.

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    • Muito obrigado pelo interesse, Abrao. Maria Antonieta é uma das figuras mais interessantes da história, e também uma das mais mal tratadas. Pesquisar sobre ela, e sobre a vida de tantas outras heroínas trágicas, é um desafio e tanto…! Se quiser enviar o quadro que você pintou da Joana D’Arc, envie para o nosso e-mail: rainhastragicas@gmail.com. Então o postaremos na nossa página no facebook com todos os créditos que lhe são devidos pela imagem. Espero que retorne sempre. Até mais 😀

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