Julgamento e morte de Maria Antonieta, a última rainha da França – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte II – Dia 15 de Outubro de 1793.

Recolhida em sua cela na Conciergerie, Maria Antonieta se recusava a ingerir qualquer alimento. A criada que a servia, uma jovem chamada Rosalie Lamorlière, de tanto insistir, conseguiu com que ela tomasse um pouco de chocolate quente, mas sem comer alguma coisa sólida. De acordo com Joan Haslip (1989, p. 377), a ex-rainha sofria de fortes dores menstruais. Zweig (1981, p. 424) ainda afirmou que ela passava por contínuas perdas de sangue, de modo que encarar todos aqueles discursos antipáticos à sua pessoa, em sessões que pareciam intermináveis, deve ter custado muito à compleição física da ré, já bastante desgastada pelos 70 dias em que permanecera na dita prisão. Depois da curta refeição, às 09h00min da manhã de terça-feira, ela se dirigiu novamente para a Grande Câmara, onde todo o tribunal e o promotor público já estavam presentes. Com efeito, o presidente Herman iniciara seu discurso repetindo que naquele dia se poria um termo aos debates, com a declaração da sentença da acusada.

Charles-Henri d’Estaing, uma das testemunhas no processo de Maria Antonieta (retrato de 1769, por Jean-Baptiste Le Brun).

Charles-Henri d’Estaing, por Jean-Baptiste Le Brun (1769).

Fez-se, então, entrar a primeira testemunha, um almirante chamado Charles-Henri d’Estaing, que se qualifica no processo verbal como “antigo militar de terra e mar a serviço da França” (BERTIN, p. 116). Disse ele ter conhecido a acusada, mas que não sabia de nenhum plano de fuga para a família real em 5 de outubro de 1789, quando uma multidão de parisienses marchou até o palácio de Versalhes exigindo farinha dos soberanos. Contudo, ele relata uma passagem bastante interessante sobre o comportamento de Maria Antonieta nesse dia: ao ouvir os conselheiros da corte dizer para a então rainha da França de que ela precisava parti, pois o povo vinha assassiná-la, esta respondera que “se os parisienses vêm aqui para me chacinar, fá-lo-ão aos pés do meu marido, mas não fugirei”. Após essa declaração, a ré se levantou e proferiu as seguintes palavras (ibidem, p. 117):

– “É verdade. Queriam convencer-me de partir sozinha porque, segundo diziam, era apenas eu quem corria perigo. Eu dei a resposta a que a testemunha se referiu”.

Tal réplica, entretanto, agradara nem um pouco o acusador público Fouquier-Tinville, que esperava fazer por meio do depoimento de d’Estaing com que Antonieta fosse culpada de fomentar um plano de fuga desde o primeiro ano da Revolução. Para atenuar esse momento de breve satisfação da ex-rainha, então ele fizera entrar a próxima testemunha, o sapateiro Simon, tutor do Luís Carlos, desde o dia 3 de agosto. Herman perguntara a ele, se tinha conhecimento “das intrigas que se tramavam no Templo quando a acusada lá se encontrava?” (apud LIMA, 1952, p. 83). Respondendo afirmativamente, Simon inclusive citou alguns nomes pelos quais a ré tinha predileção para ajudá-la, tais como Toulan, Pétion, Lafayette, Michonis, Jobert, Dangé, entre outros. Como essa informação fora extraída através do interrogatório feito com o Delfin (assim como a do incesto), o presidente resolveu não se aprofundar mais nesse assunto, passando para o próximo tópico do auto de acusação: as supostas ordens de pagamento assinadas por Maria Antonieta à condessa de Polignac, no valor de 80.000 libras.

Maria Antonieta na Conciergerie, por Edward Matthew Ward.

Maria Antonieta na Conciergerie, por Edward Matthew Ward.

O curioso nesse assunto é que os ditos documentos com a assinatura da ex-rainha teriam se extraviado após o dissolvimento da “Comissão dos Vinte e Quatro”, de modo que a referência aos mesmos se deve ao testemunho de François Tisset, um comerciante. Ao escutar o discurso do mesmo, a ré perguntou a que data se referia tais ordens de pagamento, ao que Tisset respondeu: “Uma era datada de 10 de agosto de 1792. Quanto à outra não me lembro” (apud BERTIN, p. 123). Maria Antonieta, por sua vez, negou a afirmação da testemunha, ao questionar, de forma pertinente, “como poderia fazê-la no dia 10 de agosto, se, cerca das oito horas, fomos levados para a Assembleia Nacional?” (ibidem). Desse modo, o que fica para os olhos da posteridade, é a própria incoerência nas acusações do Tribunal Revolucionário. Sem argumentos concretos contra a ré, buscaram entre os autos do processo de Luís XVI elementos que pudessem ser aproveitados no de sua viúva, além de mais alguns depoimentos conflitantes entre si. Isso ficou claro na participação da testemunha seguinte, Jean-Fréderic La Tour du Pin, que disse não ter visto Charles-Henri d’Estaing em Versalhes no dia 5 de outubro de 1789, enquanto almirante afirmava o contrário.

Segundo Antonia Fraser (2009, p. 478) “algumas provas apresentadas eram mais patéticas do que traiçoeiras”, como, por exemplo, o pequeno embrulho que troxeram às mãos do presidente Herman contendo vários objetos apreendidos da acusada quando de sua transferência do Templo para a Conciergerie. Entre os pertences, encontravam-se cachos de cabelos dos filhos de Maria Antonieta, “mortos e vivos”; uma tabuada para ensinar Luís Carlos a contar; alguns retratos, da princesa de Lamballe e das princesas de Hesse, com que a ex-rainha fora criada em Viena; uma caderneta com nomes de algumas damas de companhia; além de um estojo de costura, contendo um pequeno pedaço de tela, com um coração bordado cercado de chamas, trespassado por uma flecha (BERTIN, p. 124-125). Sobre este último item, fez notar o acusador público Fouquier-Tinville, que ele era um sinal contra revolucionário, trazido por muitos outros acusados perante o aquele Tribunal. Entretanto, ao falar isso, ele desconsiderava o fato de que trazia em seu pescoço uma medalha da virgem, que também já fora interpretada da mesma maneira que o coração bordado da acusada (ibidem, p. 125).

Último retrato para o qual Maria Antonieta, executado por Alexandre Kucharski (1791).

Último retrato para o qual Maria Antonieta posou, executado por Alexandre Kucharski (1792).

O próximo tópico no auto de acusação refere-se ao famoso caso do colar de diamantes, ocorrido em 1785, no qual o nome da ex-rainha ficara irremediavelmente manchado pelo rótulo de Madame Déficit. Perguntaram-lhe primeiro sobre os custos para a reforma no Petit Trianon¹, ao que ela respondeu: “Talvez tenha sido gasto mais do que eu desejaria” (FRASER, 2009, p. 478). Nesse instante, um dos assessores de Herman, Douzé-Verteuil, perguntara se não fora no Trianon que ela conhecera a condessa de La Motte, responsável por toda a trapaça do colar. A ré, contudo, negara veemente, dizendo que seu desejo era apenas persistir “em dizer a verdade”. Infelizmente, nem os juízes do tribunal, ou a assistência, acreditaram nas palavras da acusada. Depois de se fazerem entrar mais algumas testemunhas para prestarem depoimento sobre as supostas ordens de pagamento à condessa de Polignac, “às 16h30min, a sessão que não tivera interrupção desde a manhã, foi suspensa por uma hora. A rainha teve apenas tempo de tomar um caldo e trocar algumas palavras com seus advogados, que se sentiam muito intimidados por ela, apesar da suavidade resignada que ela lhes demonstrava” (LEVER, 2004, p. 336).

Os debates recomeçaram com os depoimentos de outras testemunhas, entre elas Dangé, que negara qualquer participação sua em conciliábulos secretos ocorridos no Templo, de acordo com a confissão do Delfin Luís Carlos. Com efeito, Maria Antonieta respondera que “é facílimo fazer uma criança de oito anos dizer o que se quer”, aludindo, assim, às “revelações incestuosas do dia anterior” (FRASER, 2009, p. 479). Também lhe perguntaram se não se aproveitara da oportunidade de posar para o retrato em pastel de Kucharski² no Templo em 1792, para receber notícias do que estava acontecendo na Convenção (ibidem), ao que ela negou. Finalmente, Herman perguntou à acusada se ela tinha mais alguma coisa a acrescentar em sua defesa, e então ela disse o seguinte:

– “Ontem eu não conhecia as testemunhas. Ignorava que iam depor contra mim: pois bem, ninguém articulou contra mim qualquer fato positivo. Termino observando que eu era a mulher de Luís XVI, e era preciso que me conformasse com a sua vontade” (apud LIMA, 1952, p. 89).

A sessão então terminara, e Fouquier-Tinville fez um discurso no qual considerava “Antonieta inimiga declarada da nação francesa” (LEVER, 2004, p. 336). Depois disso, a palavra fora passada aos advogados da ré, que insistiram na falta de veracidade das provas levantadas contra ela. Sendo assim, a acusada se retirara da sala, a fim de que o júri pudesse se reunir para deliberar. Herman enumerara ao corpo de jurados as seguintes perguntas (ibidem, p. 337):

  1. Está demonstrado que houve conspirações e entendimentos secretos com potências estrangeiras e outros inimigos externos da república, os quais se destinaram a fornecer auxílio financeiro a esses inimigos, permitindo-lhes a entrada em território francês e facilitando o avanço de suas forças?
  2. Maria Antonieta sem dúvida cooperou com essas maquinações e manteve tais entendimentos secretos?
  3. Está demonstrado que existiu um complô e uma conspiração para deflagrar uma guerra civil na república?
  4. Maria Antonieta da Áustria… sem dúvida participou desse complô e dessa conspiração?
Maria Antonieta recebe a sua última comunhão, por Michel-Martin Drolling.

Maria Antonieta recebe a sua última comunhão, por Michel-Martin Drolling.

Feito essas considerações, o júri se retirou para avaliar o caso durante cerca de uma hora. Enquanto isso, uma multidão de pessoas se acotovelava nos muros de fora do Palácio da Justiça para ouvir o veredito. Alguns, como a própria ex-rainha, acreditavam que ela seria deportada de volta para a Áustria.³ Outros clamavam pela justiça da guilhotina. Mas na verdade o destino de Maria Antonieta já estava predeterminado antes mesmo do processo começar. Após a ré voltar para o tribunal, Herman anunciou de que já haviam chegado a uma conclusão. Fez-se então silêncio na sala e o presidente pronunciara a sentença:

– “O tribunal, segundo declaração unânime do júri, julgando de direito o requisitório do acusador público, em face das leis por ele citadas, condena a referida Maria Antonieta, chamada Lorena d’Áustria, viúva de Luís Capeto, à pena de morte…” (apud LIMA, 1952, p. 98).

Depois de proferir tais palavras, ele questionara à acusada se tinha ainda mais alguma coisa a declarar, no que ela respondeu com um aceno negativo da cabeça. Já era madrugada do dia 16 de outubro, e ela simplesmente se levantara do assento e atravessara por entre as pessoas presentes nas tribunas com a sua dignidade dos Habsburgo. Ao passar pelo corredor que levava à sua cela, muito fraca ela quase desmaiara, sem conseguir ver o caminho (LEVER, 2004, p. 338). Restava apenas uma coisa que a ex-rainha da França poderia fazer: se despedir de sua família.

Referências Bibliográficas:

BERTIN, Claude (org.). Os Grandes Julgamentos da História: Maria Antonieta/ Marechal Ney. – São Paulo: Otto Pierre, Editores.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

HASLIP, Joan. Maria Antonieta. Tradução de Eduardo Francisco Alves. – Rio de janeiro: Zahar, 1989.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: A última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

LIMA, Abdon Carvalho. O processo de Maria Antonieta. – 2ª edição – Rio de Janeiro: Laemmert, 1952.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. Tradução de Medeiros e Albuquerque. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.


¹ Refúgio campestre de Maria Antonieta.
² Pintor polonês que morou em Paris por cerca de 20 anos, e que executou o último retrato para o qual Maria Antonieta posou (FRASER, 2009, p. 478).
³ De acordo com o contrato de casamento de Maria Antonieta e Luís XVI, no caso da morte deste, ela voltava a ser uma arquiduquesa da Áustria e, portanto, deveria retornar para sua terra natal.
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