O enigma (do colar) de Jeanne de La Motte: filme “The Affair of The Necklace” (2001)

Jeanne de La Motte Valois permanece ainda como um dos maiores enigmas dos anos pré-revolucionários da França. Tal como acontece com a figura de Maria Antonieta, muitos costumam acusá-la por toda a culpa no caso do colar de diamantes. Porém, há alguns que ainda a vêm como uma vítima do acaso, diferentemente da vil mulher que os biógrafos da última rainha do absolutismo francês costumam pinta-la. Desse modo, faz-se necessário um novo olhar sobre a trajetória da condessa, a partir de sua própria perspectiva dos acontecimentos. Para isso, dispomos das memórias da mesma, escritas por ela em 1791, na qual a autora se põe certamente como uma vítima da monarquia. Entretanto, como julgar, então, essas duas versões tão distintas de uma mesma história? Um exercício sem dúvida extremamente interessante, que foi empreendido com destreza no ano de 2001, pelo diretor Charles Shyer, que, resolvendo brincar com esses dois pontos de vista acerca daquela mulher ambiciosa, conseguiu lançar no mercado fonográfico um dos filmes mais deliciosos acerca dos anos finais do reinado de Luís XVI.

Joely Richardson, como Maria Antonieta.

Joely Richardson, como Maria Antonieta.

Todavia, O Enigma do Colar (The Affair of The Necklace – filme com 118 minutos de duração) não se sobressai apenas por um enredo repleto de paixões e intrigas, mas também por uma excelente escolha do elenco, do qual a principal estrela é certamente Hilary Swank (mais conhecida por filmes como Menina de Ouro – 2004 – e PS. Eu te amo – 2007), na pele da intrigante Jeanne, órfã de pai e mãe, que perdera grande parte de seu tempo tentando uma audiência com a rainha da França, para reaver a propriedade de sua família. Swank empresta sua graça e astúcia para dar vida à arquiteta de um miserável plano envolvendo o nome de Maria Antonieta, vivida por Joely Richardson. Apesar de não ser a principal estrela da trama, a atuação de Joely foi muito convincente e cheia de um magnetismo próprio da referida atriz, que mais tarde interpretaria outras grandes soberanas, como Catarina Parr (The Tudors – 4ª temporada, 2010) e a jovem Elizabeth I (Anonymous – 2011). Contudo, o filme ressalta apenas algumas das características de Antonieta, como seu orgulho Habsburgo e indiferença aos demais, em detrimento da doçura e natural amor pela vida que a verdadeira rainha possuía. Entretanto, este não é um mais filme sobre a consorte de Luís XVI (interpretado por Simon Shackleton), mas sobre Jeanne de La Motte e sua culpa (ou não) no caso do colar de diamantes.

Os primeiros cenários da trama se passam na propriedade da família Valois, destruída pelos guardas do rei, e o Petit Trianon, refúgio de Maria Antonieta de todo protocolo da corte. A escolha dos lugares para rodar as cenas da trama é outro grande ponto forte da produção, uma vez que garantem ao filme certo “quê” de realidade, servindo assim como perfeito pano de fundo para o desenrolar dos acontecimentos. Foi no Trianon que Jeanne conheceria seu grande parceiro de trapaça, Rétaux de Villette, gigolô interpretado por Simon Beker. O filme, por sua vez, é narrado por ninguém menos que o Barão de Breteuil (Brian Cox), que como testemunha dos acontecimentos, relata todos os processos por que a condessa de La Motte passou até chegar às mãos do cardeal de Rohan (Jonathan Pryce), um devasso clérigo que faria de tudo para ganhar as boas graças da rainha. O destino, dessa forma, havia então unido duas grandes figuras: Jeanne, que queria recuperar a paz e a tranquilidade de sua infância; Rohan, que queria ser primeiro ministro; e o mais magnífico colar de pedras preciosas criado em toda a Europa.

Hilary Swank, como a condessa Jeanne de La Motte.

Hilary Swank, como a condessa Jeanne de La Motte.

Como na história original, a condessa apresentou ao cardeal supostas cartas assinadas por Maria Antonieta da França, mas que na verdade eram falsificações de Rétaux. Sob esse aspecto, é necessário dizer que muitos dos acontecimentos do filme são narrados de forma muito similar aos registros históricos. Desde a cena em que os joalheiros recebem a recusa da rainha em comprar o colar de diamantes originalmente criado para Madame du Barry, até o encontro entre Rohan e Nicole d’Oliva (Herminone Gulliford), que se passava pela rainha, observamos uma ótima recriação dos fatos, realçados pela excelente escolha do figurino. Com efeito, em 1785 a rainha da França já havia abandonado grande parte dos ostensivos enfeites em suas roupas e passara a adotar trajes mais leves. O filme, por sua vez, retrata muito bem essa alteração nos gostos de Antonieta, e consequentemente da corte de Versalhes. Não obstante, é importante dizer que Charles Shyer fez muitas referências na trama sobre a paixão que a soberana tinha pelo teatro, porém, essa característica passa quase despercebida aos olhos do telespectador, entretido em primeira mão pelo o plano que Jeanne concebeu para comprar o colar ciado por Boehmer, usando o cardeal como intermediário.

No entanto, é quando a vida da condessa, e de seu amante, estava deslanchando, que seu marido Nicolas resolve voltar para abocanhar a parte que lhe cabe nos lucros da mulher. Foi Adrien Brody (O Pianista – 2002) quem interpretou o conde de La Motte, charlatão que ajudou a encontrar a atriz perfeita para se passar por Maria Antonieta no encontro com o cardeal de Rohan. Sem dúvida, essa é umas cenas mais marcantes do filme, quando um vulto negro surge no meio da escuridão do bosque de Vênus e entrega ao clérigo impaciente uma rosa, perdoando-o pelos atritos passados. Esse detalhe pode ser muito bem comprovado pelo inquérito que julgou o caso do colar de diamantes em 1785, embora o quadro da rainha que serviu como referência para Jeanne disfarçar Nicole não tenha sido aquele que é mostrado no longa-metragem, e sim o La Reine em Gaulle. Convencido, então, da sinceridade da condessa, Rohan aceita comprar o colar em seu nome e o entrega para o intermediário supostamente enviado pela rainha, que na verdade era ninguém menos que Rétaux de Villette.

Jonathan Pryce, como o Cardeal Luís de Rohan.

Jonathan Pryce, como o Cardeal Luís de Rohan.

A partir desse ponto, a trama segue de forma perfeitamente compatível com a História conhecida: Jeanne, uma vez em posse do colar, desintegra os diamantes do mesmo e os vende separadamente. Conseguindo o dinheiro que precisava, compra a casa de seus pais e lá instala uma espécie de mini corte, da qual não fazia parte o cardeal de Rohan, que então estava desesperado por não mais receber cartas de Maria Antonieta. Havia sido enganado por todos, inclusive pelo conde Cagliostro (Christopher Walken). Quando então o Barão de Breteuil expôs a trama da condessa a público, logo todos os participantes da mesma foram presos. Nesse aspecto, nem é preciso dizer que a produção recriou com detalhes a capitulação de Rohan na sala dos espelhos e o conseguinte julgamento pelos membros hostis do parlamento de Paris. Contudo, é no final que os acontecimentos dramatizados no filme seguem de forma diferente dos que constam nos registros históricos, pois, como se sabe, Jeanne negou todas as alegações do cardeal, ligando-o dessa forma intrinsecamente no caso do colar. Porém, no filme a vemos negar qualquer proposta de Breteuil e da rainha de livrá-la do cárcere se concordasse em implicar Rohan pelo crime. Com efeito, se essa proposta houvesse sido feita à verdadeira Jeanne há dois séculos, ela não pensaria duas vezes em fazer o que seus algozes sugeriram.

Da esquerda para a direita: Simon Baker como Rétaux de Villette, Hilary Swank como Jeanne, e Adrien Brody, como Nicolas de La Motte.

Da esquerda para a direita: Simon Baker como Rétaux de Villette, Hilary Swank como Jeanne, e Adrien Brody, como Nicolas de La Motte.

Dessa forma, o que podemos observar é uma tentativa por parte do roteirista John Sweet de limpar a reputação maculada da condessa de La Motte, que de acordo com o filme apenas queria recobrar o conforto e a paz que lhe haviam sido tirados, embora utilizasse de meios corruptos para isso. Sendo assim, notemos como os fatos são exagerados pela trama, que inclusive cria um encontro secreto entre Jeanne e Maria Antonieta, que certamente nunca aconteceu. Condenada culpada, vemos ela (Jeanne) ser açoitada e depois marcada com ferro em brasa. Curiosamente, o mesmo ator que interpretou o carrasco da condessa, foi o mesmo que cortou a corda que segurava a lâmina da guilhotina, que, por sua vez, selaria para sempre o destino da última rainha da França. Destarte, mesmo as circunstâncias me levando a crer que Jeanne de Valois não era tão bem intencionada como mostra o filme, faz-se necessário um novo olhar para aqueles fatos, a fim de resgatar do campo de interpretações tendenciosas figuras chave no processo que desencadeou a revolução de 1789. Por fim, o que resta na cabeça do telespectador é até que ponto uma mulher ofendida pode chegar para recuperar a honra do nome de sua família, passando por momentos tumultuosos, até que no final encontra o tanto procurava: o reconhecimento.

Confira abaixo o trailer de O Enigma do Colar (2001):

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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