Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Entre 21 de outubro e 11 de dezembro de 1826, D. Leopoldina viveu seus últimos 50 dias. Foram sete semanas de humilhação, confronto e agonia no Paço de São Cristóvão. Pela primeira vez em três anos, a imperatriz do Brasil enfrentou D. Pedro I e mandou despachar as roupas do marido para a casa da Marquesa de Santos. Ele voltou furioso, ajoelhou-se aos prantos, pediu perdão. Ela o perdoou. E morreu. Aos 29 anos, vítima de infecção generalizada e de um casamento que a consumiu lentamente.
No final de outubro, a situação na Quinta da Boa Vista era insustentável. D. Pedro I mal aparecia no Paço de São Cristóvão. Entre 19 e 21 de outubro de 1826, ausentou-se completamente para acompanhar a agonia de João de Castro Canto e Melo, pai de Domitila, que agonizava no Rio de Janeiro. Para a imperatriz, o abandono era político e pessoal. O chefe de Estado negligenciava seus deveres constitucionais para velar o futuro sogro da amante, enquanto o país enfrentava a Guerra da Cisplatina e uma grave crise financeira.
Nesse contexto surgiu a carta de 21 de outubro, atribuída a D. Leopoldina. Nela, a imperatriz cobrava uma definição: “Senhor, faz um mês que o Senhor não dorme mais em casa; desejarei que o Senhor reconhecesse uma das duas […] ou me dará licença de me retirar para junto de meu pai, na Alemanha” (apud OBERACKER, 1973, p. 420). Assinou como Maria Leopoldina d’Áustria, recordando a D. Pedro sua origem habsburga, filha de Francisco I da Áustria. A autenticidade é questionada. O documento consta nos despachos do barão von Mareschal, que ouviu o relato do cozinheiro francês François Pascal Bouyer.

Contudo, D. Leopoldina dificilmente assinaria como Maria Leopoldina d’Áustria. Em outras cartas, ela assinava simplesmente como Leopoldina ou Maria Leopoldina, Imperatriz em documentos oficiais, como no seu juramento à Constituição de 1824. Além disso, o cozinheiro francês não é uma fonte imparcial dos eventos e sua informação sobre o conteúdo da carta soa como duvidosa. O mais provável é que von Mareschal, ouvindo o relato dele, tenha acrescentado algum tempero à situação, para torná-la ainda mais tensa.
Diante da indiferença do marido, Leopoldina tomou atitude inédita. Conforme Mello Moraes, citado por Oberacker, chamou o criado particular de D. Pedro e ordenou: “Apronte toda a roupa do imperador e meta-a em baús, ou como quiser, enquanto eu escrevo, para que o imperador se mude para a casa da marquesa de Santos” (apud OBERACKER, 1973, p. 420-1). O criado, porém, traiu sua senhora. Correu ao palacete de Domitila, na atual Avenida D. Pedro II, em São Cristóvão, e alertou o imperador. D. Pedro retornou furioso ao Paço na mesma noite.
No Paço de São Cristóvão, o imperador arrancou das mãos da esposa a carta que ela redigia. Acusou-a de alimentar-se de intrigas de criadas e de desrespeitar sua autoridade. Leopoldina, pela primeira vez, não recuou. Expôs anos de queixas reprimidas: a exposição pública, o confisco de seu salário, as dívidas contraídas para socorrer famílias pobres do Rio, enquanto Domitila recebia palacetes, joias e o título de Duquesa de Goiás. O teor exato da discussão não foi registrado, mas testemunhas afirmaram que D. Pedro terminou ajoelhado, aos prantos, implorando perdão.

No dia seguinte, 22 de outubro, Leopoldina escreveu à amiga Maria Graham: “Estou numa melancolia realmente negra”. Estava grávida de aproximadamente três meses e enfrentava um quadro depressivo profundo, agravado por febres intermitentes e dores abdominais. Foi desse episódio que nasceu o boato mais infame do Primeiro Reinado: que D. Pedro teria agredido a esposa com um pontapé, provocando o aborto. Mello Moraes classificou a história como “insultuosas palavras”, criada por adversários políticos após a Abdicação, em 1831.
Em 2 de novembro de 1826, faleceu João de Castro Canto e Melo, no Rio de Janeiro. As desavenças do casal imperial intensificaram-se durante as missas de sétimo dia. Von Mareschal atribuía parte das brigas às dívidas de Leopoldina, que financiava orfanatos e distribuía esmolas sem autorização do marido. D. Pedro, por sua vez, mantinha a imperatriz sem recursos, retendo sua dotação anual de 12 contos de réis, enquanto concedia à amante uma pensão de 6 contos e o Palacete do Caminho Novo, avaliado em 60 contos.
Com a situação na Cisplatina deteriorando, D. Pedro decidiu assumir pessoalmente o comando das tropas no sul. Antes da partida, marcou um beija-mão de despedida para 20 de novembro. Segundo relatos do marquês de Gabriac, embaixador francês, e do encarregado de negócios prussiano, Theremin, o imperador exigiu que Leopoldina e Domitila comparecessem juntas à cerimônia. Debilitada pela gravidez e por fortes dores, a imperatriz recusou-se. D. Pedro teria tentado arrastá-la à força, deixando-lhe hematomas nos braços.

Outro boato, sem confirmação documental, sustenta que D. Pedro empurrou Leopoldina escada abaixo no Paço. Uma queda daquelas causaria fraturas graves. A hipótese foi descartada em 2012, quando a arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel analisou os remanescentes ósseos da imperatriz, hoje no Monumento do Ipiranga, em São Paulo. Não foi constatada fratura, fissura ou sinal de trauma ósseo. Tampouco havia indícios de reumatismo, doença que a afligia segundo alguns relatos da época.
O aborto espontâneo ocorreu em 2 de dezembro de 1826. Os boletins médicos do Dr. Vicente Navarro de Andrade e do cirurgião-mor João Fernandes Tavares atestaram que o feto tinha entre dez e doze semanas. Conforme explica o biógrafo Paulo Rezzutti, nessa fase gestacional o útero está totalmente protegido pela estrutura óssea da pelve: “Um simples pontapé, por mais forte que D. Pedro fosse, não destruiria esses ossos nem atingiria o útero, provocando o abortamento. Mesmo que fosse o caso, o óbito e a expulsão do feto teriam ocorrido em questão de horas, e não de dias” (REZZUTTI, 2013, p. 128).
O último encontro do casal deu-se em 23 de novembro, véspera do embarque de D. Pedro para Santa Catarina. Leopoldina, já febril e acamada, disse ao marido: “Eu estou morrendo […] quando você voltar do Rio Grande, eu não estarei mais aqui. Os que são separados na vida serão unidos depois da morte”. Abraçaram-se em lágrimas. Ela o perdoou. D. Pedro partiu no dia 24. Foi a última vez que se viram. Ele só retornaria ao Rio em 15 de janeiro de 1827, mais de um mês após a morte da esposa.

A apreensão tomou a Corte em 29 de novembro, quando o “Diário Fluminense” publicou o aviso de João Valentim de Faria Souza Lobato, porteiro da Imperial Câmara: “Em consequência de continuar o incômodo de Sua Majestade a Imperatriz, não há beija-mão nos dias 1 e 2 do próximo mês de dezembro”. Na sequência, o mesmo periódico informou que, em 1º de dezembro, quarto aniversário da Coroação de D. Pedro I, fortalezas e embarcações permaneceriam embandeiradas e dariam as salvas de praxe, mas sem o cortejo habitual. A suspensão devia-se à ausência do imperador, no sul, e “pela continuação da enfermidade de Sua Majestade a Imperatriz”.
No dia seguinte, outra solenidade foi sufocada: o primeiro aniversário do herdeiro do trono, D. Pedro de Alcântara. A verdade espalhou-se pela cidade com o “Boletim de três de Dezembro, pelo meio dia”, assinado pelo Dr. Vicente Navarro de Andrade, barão de Inhomerin: “S.M. a Imperatriz passou a tarde de ontem com pouco cômodo; a febre conservou-se do mesmo modo que dantes, as evacuações biliosas, abundantes e numerosas, a tosse gutural teimosa, o sono pouco e não suficiente; pelas oito horas da noite houve um ligeiro espasmo de garganta com algum suor durante o mesmo espasmo”. À noite, após medicação, houve leve melhora. Ainda assim, “em ocasião de acessos que teve de noite, notou-se alguma incoerência no que dizia, por cujo motivo se lhe puseram sinapismos”.
Da noite de 4 para 5 de dezembro, D. Leopoldina sofreu “treze evacuações biliosas com mau cheiro”. A febre levou-a ao delírio em várias ocasiões. Chegou a suspeitar que estava sendo envenenada pelos médicos e amaldiçoou o marido e a amante dele. Conforme Mareschal anotou em 9 de dezembro, recuperada dos nervos na manhã do dia 8, mandou chamar os filhos para despedir-se. Após receber os últimos Sacramentos, “ela chamou todos os criados de sua casa em redor de si, e enquanto eles choravam, perguntou a cada um se o tinha ofendido”. Despedia-se com piedade cristã, traço comum às mulheres da Casa de Habsburgo.

Enquanto isso, as igrejas não cessavam as preces. A cada boletim médico com notícias graves, crescia o número de fiéis rogando pela monarca. O representante da Prússia, Theremin, registrou: “a consternação do povo era indescritível; nunca desde a morte de Luís XV, rei da França, sentimento mais unânime foi visto”. Os súditos, afirmava o diplomata, “se encontravam literalmente de joelhos implorando ao Todo-poderoso pela conservação da imperatriz”.
Em 10 de dezembro, D. Leopoldina confessou-se com o bispo D. José Caetano da Silva Coutinho e recebeu a extrema unção. No dia 11, os médicos publicaram o 17º e último boletim: “pela maior das desgraças se faz público que a enfermidade de S.M. a imperatriz resistiu a todas as diligências médicas, empregadas com todo o cuidado por todos os médicos da Imperial Câmara”. Mareschal descreveu os momentos finais: “S.M. continuava a estar num estado convulsivo, o desânimo aumentando a cada momento e não lhe permitindo mais do que tons fracos de gemidos; a respiração extremamente curta, o pulso muito fraco depois de 24 horas”. Às 10h15, a morte pôs termo aos sofrimentos, “sem esforço, sem estertor, suas feições de modo algum eram alteradas e ela parecia ter adormecido pacificamente e na posição mais natural”.
Naquele 11 de dezembro, o “Diário Fluminense” circulou com a primeira página tarjada de preto. A comoção foi imediata e geral. O marquês de Paranaguá escreveu a D. Pedro I: “perdeu v.m.i. a mais digna e virtuosa de todas as esposas, e nós a melhor de todas as soberanas”. D. Leopoldina era estimada por todas as classes, inclusive pelos escravizados, cuja condição sempre a horrorizou. Maria Graham registrou o lamento que ouviu deles: “quem tomará o partido dos negros? Nossa mãe se foi”. Mareschal confirmou: “uma dor muda de desespero tomava todas as fisionomias; negros, mulatos, portugueses, ingleses, italianos, alemães todos choravam em comum a morte da imperatriz”. Partia deixando cinco órfãos no Paço de São Cristóvão e, para o Brasil, a herança de uma luta pela liberdade que atravessaria gerações.

Referências Bibliográficas:
AMBIEL, Valdirene Do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense Aplicados aos Remanescentes Humanos dos Primeiros Imperadores do Brasil Depositados no Monumento à Independência. 2013. 235 f. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – MAE, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2013.
FRANÇA, Mario Ferreira. A doença que vitimou Dona Leopoldina. In: D. Pedro I e Dona Leopoldina perante a história: vultos e fatos da Independência. – São Paulo: Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1972, p. 279-314.
KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
PRANTNER, Johanna. Vida e morte de D. Leopoldina na Áustria e no Brasil. In: 200 anos Imperatriz Leopoldina. – Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1997, p. 155-171.
OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.
REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da Marquesa de Santos. – São Paulo: Geração Editorial, 2013.













