Bacamarte à Queima-roupa: Carlota Joaquina e o Crime do Catete, 1820!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A rainha D. Carlota Joaquina teria sido a mandante do assassinato de Gertrudes Pedra Carneiro Leão, esposa de seu amante, Fernando Carneiro Leão. O crime ocorreu em 8 de outubro de 1820, por volta das 23h, quando Gertrudes voltava de carruagem com as filhas Elisa, de 14 anos, e Guilhermina, de 9. Vinham da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Semanas antes, Gertrudes descobrira o caso extraconjugal do marido, presidente do Banco do Brasil, com a rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

O casamento de D. Carlota com D. João VI já estava destruído em 1820. Vivendo no Rio desde 1808, o casal real mantinha cortes rivais em casas separadas. D. João residia no Paço de São Cristóvão, em São Cristóvão. D. Carlota ocupou primeiro a Quinta da Boa Vista e, a partir de 1818, uma chácara na Rua do Catete, nº 151. Como os herdeiros já garantiam a dinastia, não precisavam mais coabitar. Livre do marido, a rainha colecionou amantes. No Brasil, o mais notório foi o militar Fernando Carneiro Leão.

Dona Carlota Joaquina de Bourbon, 1817, por Nicolas Antoine Taunay

Fernando era casado com Gertrudes Pedra, filha do rico comerciante Brás Carneiro Leão. A família Carneiro Leão foi uma das principais financiadoras da Missão Artística Francesa, trazendo Debret, Taunay e Grandjean de Montigny em 1816. Em troca, Fernando recebeu cargos, comendas e acesso à corte. D. João VI talvez ignorasse, ou preferisse ignorar, que entre as “mercês” estava a honra de ser amante da rainha. A residência dos Carneiro Leão ficava exatamente em frente à chácara de D. Carlota no Catete.

A rainha transformou a capela da chácara em oratório público. As missas do bairro aconteciam ali, com a família Carneiro Leão sempre presente. Enquanto Fernando e Carlota se encontravam nos fundos, Gertrudes, católica fervorosa, rezava na capela. Corria na corte que ela pedia absolvição pelos pecados do marido. A tensão explodiu em público. D. Carlota, famosa pela língua ferina, chamou Gertrudes de “beata fingida” e “mulher traída” diante de testemunhas.

Gertrudes não teria recuado. Em público, respondeu à altura e comparou a conduta da esposa do rei às “mulheres de vida livre” que circulavam pela corte. Relatos da época dizem que D. Carlota ficou lívida. Para muitos, naquele instante Gertrudes assinou a própria sentença. A rainha não aceitava afrontas, muito menos de uma súdita. A rivalidade entre as duas já era comentada nos salões, nos teatros e nas sacristias do Rio. A cidade inteira sabia.

Cena gerada por I.A.

Na noite de 8 de outubro de 1820, a carruagem de Gertrudes parou na ponte do Catete, em frente à casa da família. O cocheiro desceu para abrir a porta. Gertrudes pisou na calçada e foi alvejada por um tiro de bacamarte à queima-roupa. Morreu na hora, caindo nos braços da filha Elisa. O atirador desapareceu na escuridão das ruas sem calçamento. O crime abalou a elite carioca. Matar uma senhora da alta sociedade, mãe de família, na porta de casa, era inaceitável até para os padrões da época.

A investigação ficou com o intendente-geral de polícia Paulo Fernandes Viana e com o desembargador José Albano Fragoso. Em dias, prenderam o autor do disparo: um homem escravizado conhecido como “o corta-orelha”, capanga de aluguel famoso no submundo do Rio. Ele morreu na cadeia antes do interrogatório. A versão oficial foi suicídio. Para a cidade, foi queima de arquivo. A pergunta que restava era: quem pagou o corta-orelha? Toda a corte apontava para o mesmo endereço no Catete.

Guilhermina, filha mais nova de Gertrudes e futura Marquesa de Maceió, afirmou décadas depois em suas memórias que a mandante era D. Carlota Joaquina. O motivo seria duplo: calar Gertrudes, que ameaçava expor o adultério real, ou tornar Fernando viúvo e livre. Durante o inquérito, a rainha era a principal suspeita. Os relatórios chegaram a D. João VI. O rei entrou em pânico. Um escândalo de adultério e assassinato envolvendo a esposa destruiria a monarquia às vésperas da Revolução Liberal do Porto.

Cena gerada por I.A.

A ordem de D. João foi clara: abafar. O próprio rei teria queimado os papéis que incriminavam Carlota Joaquina. “Convém que desapareça para sempre mais este escândalo dessa mulher”, teria dito a um ministro. Por isso, não há prova documental da culpa da rainha. Até José Presas, secretário particular de Carlota que depois publicou uma biografia escandalosa sobre ela, silenciou sobre o caso. Silêncio comprado, medo ou cumplicidade. Nunca saberemos ao certo.

Para conter Fernando Carneiro Leão e evitar que falasse, D. João o cobriu de honrarias até o fim da vida. Ele acumulou títulos: Fidalgo cavaleiro, dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Imperial Ordem de Cristo. Em 1826, já no Primeiro Reinado, D. Pedro I o fez Conde de Vila Nova de São José. Fernando morreu em 1832, aos 50 anos, e foi sepultado no Convento de Santo Antônio, no Rio, ao lado de Gertrudes.

D. Carlota Joaquina voltou para Portugal em 1821 e nunca mais retornou ao Brasil. Morreu em 1830, no Palácio de Queluz, odiada pelo povo, isolada da família e sem o perdão do marido. O caso Gertrudes virou lenda no Rio Antigo, contado de geração em geração. Um crime sem castigo, um escândalo real enterrado junto com os papéis queimados pelo rei. O túmulo do casal Carneiro Leão ainda existe no Convento de Santo Antônio, testemunha silenciosa da noite em que a rainha mandou matar.

Bibliografia: 

AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. Carlota Joaquina na corte do Brasil.  – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CABRAL, Flavio José Gomes. Inimigos íntimos. – Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, setembro de 2013.

CHEKE, Marcus. Carlota Joaquina, a rainha intrigante. – Rio de Janeiro: José Olympio, 1949.

LIMA, M. de Oliveira. Dom João VI no Brasil, 1808-1821. – Rio de Janeiro: Typ. Do Jornal do Commercio, 1908, vol. 1.

MONTEIRO, Tobias. História do império: a elaboração da independência. – São Paulo: Edusp, 1981.

PEREIRA, Sara Marques. D. Carlota Joaquina e os espelhos de Clio. – Lisboa: Livros Horizonte, 1999.

PRESAS, José. Memórias secretas de D. Carlota Joaquina. – Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1940.

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