“Você perdeu seu autocontrole”: as cartas repreensivas do príncipe Albert para a rainha Vitória!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 9 de setembro de 2015, Elizabeth II do Reino Unido ultrapassou sua trisavó, Vitória, como a monarca mais longeva da Grã-Bretanha. Em 12 de junho de 2022, seu reinado se tornou o segundo mais antigo já registrado no mundo, ficando atrás apenas de Luís XIV da França. A atual soberana quebrou assim uma série de recordes na história do regime monárquico e é possível que ela ultrapasse muitos outros. A  despeito dessa marca impressionante, viver por tanto tempo implica ter que lidar com a dor da perda de muitos entes queridos. Ao longo de sua permanência no trono, Elizabeth (que se tornou rainha imediatamente após a morte de seu pai, o rei George VI, em 6 de fevereiro de 1952), sepultou sua irmã e mãe, a princesa Margaret e a rainha Elizabeth Bowes-Lyon, no mesmo ano, em 2002, e há um ano ela disse adeus ao seu companheiro por 73 anos, o príncipe Philip. Mas, diferentemente de Vitória, sua descendente não adotou o preto em sinal de luto pela morte do consorte. O falecimento do príncipe Albert em 1861 foi um divisor de águas no reinado de sua esposa, que passou a ser pejorativamente conhecida como a “viúva de Windsor”. A partir de então, a soberana oitocentista dedicou parte de sua existência ao enaltecimento da memória do marido. Porém, um conjunto de correspondências trocadas entre os dois nos permite concluir que sua convivência deles nem sempre foi tão harmônica.

Fotografia da rainha Vitória e do príncipe Albert, tirada em 1854 por Roger Fenton.

O príncipe Albert de Saxe-Coburgo-Gota se casou com sua prima em primeiro grau, Vitória do Reino Unido, em 10 de fevereiro de 1840. Na ocasião, ambos tinham 20 anos de idade e haviam se visto pessoalmente em poucas ocasiões antes da rainha lhe propor casamento, em 15 de outubro de 1839 (na qualidade de soberana, o pedido tinha que partir dela, não dele). Até então, Albert havia recebido uma excelente educação, cujo programa incluía viagens pelo continente, para melhor prepará-lo para a tarefa de consorte real, uma vez que a intenção de uni-lo em matrimônio com sua prima já era cogitada por sua família há algum tempo. Esses fatos, por sua vez, ajudam a desconstruir a ideia de amor romântico estabelecido entre o casal, que Vitória ressaltou após a morte do pai de seus filhos. Não obstante, a filha mais nova da rainha, princesa Beatrice, destruiu uma série de documentos importantes, referentes à vida pessoal de sua mãe, para que a posteridade jamais soubesse do que se passava por trás das portas dos aposentos reais. Contudo, um arquivista desconhecido conseguiu fazer uma cópia de alguns desses documentos (que costumavam ficar preservados nos Arquivos Reais), antes que eles fossem queimados. Tal acervo, por sua vez, lança um pouco de luz acerca da natureza do relacionamento do casal.

Escritas entre os anos de 1855 e 1861, as cartas de Albert o apresentam admoestando Vitória por seu “mal” comportamento durante as discussões entre o casal, aconselhando-a a “melhorar” seu temperamento, “ficando menos ocupada consigo mesma”. Parte dessa correspondência era escrita em alemão (uma forma de proteger seu conteúdo de olhares indiscretos). Em uma delas, Albert diz:

Você perdeu novamente seu autocontrole desnecessariamente. Eu não disse uma palavra que pudesse lhe ferir e não iniciei a conversa, mas você me seguiu e continuou de sala em sala. […] Não há necessidade de que eu prometa confiar em você, pois não se trata de uma questão de confiança, mas de sua natureza inquieta, que lhe faz insistir em entrar, com febril avidez, em detalhes sobre ordens e desejos que, no caso de uma rainha, são comandos dados a quem quer que seja. […] Eu cumpro meu dever para com você, mesmo que isso signifique que a vida seja amargurada por “cenas”, quando deveria ser governada pelo amor e pela harmonia. Encaro isso com paciência, como um teste a ser submetido, mas você me feriu desesperadamente e, ao mesmo tempo, não ajuda a si própria.

Em outra missiva, o príncipe oferece à sua esposa conselhos de natureza paternal, quando ele diz: “É realmente uma pena que você não encontre consolo na companhia de seus filhos. A raiz da dificuldade está na noção equivocada de que a função de uma mãe é estar sempre corrigindo, repreendendo, ordenando-lhes e organizando suas atividades”. Para Albert, não era possível ter “uma relação feliz e amigável com as pessoas que você acabou de repreender, pois isso incomoda tanto o repreendedor quanto o repreendido”.

Por quarenta anos após o falecimento do marido até sua própria morte, em 22 de janeiro de 1901, Vitória manteve essas cartas guardas nos Arquivos Reais do Castelo de Windsor. Alguns anos depois, quando a princesa Beatrice estava editando os diários de sua mãe e apagando passagens consideradas inadequadas para a imagem póstuma da rainha, ela se deparou com esses documentos e os destruiu juntamente com os cadernos originais mantidos pela soberana desde 1832, quando ela tinha 13 anos e era conhecida como princesa Alexandrina Vitória de Kent. O que dispomos hoje, portanto, são versões com vários cortes dos escritos da monarca, que não se esquivava de transpor para o papel suas opiniões sobre quem quer que fosse. Dessa forma, Beatrice procurava esconder a mulher Vitória Hanôver por trás da imagem da Vitória Regina. O corpo político da rainha ganhava assim a batalha sobre seu corpo pessoal. Em 2012, por ocasião das comemorações do Jubileu de Diamante de Elizabeth II, os diários editados de sua trisavó foram digitalizados e colocados à disposição de acadêmicos para pesquisas online. O projeto, por sua vez, teve continuidade no ano passado, quando mais de 22.000 documentos, incluindo gravuras e fotografias dos Arquivos Reais referentes ao ano de 1851, foram disponibilizadas para apreciação pública.

Fotografia da rainha Vitória e do príncipe Albert, tirada em 1861 por John Jabez Edwin Mayall.

Intitulada “The Prince Albert Digitisation Project” (O Projeto de Digitalização do Príncipe Albert), a iniciativa foi idealizada por Sir Hugh e Lady Stevenson, em memória da ex-bibliotecária e arquivista do príncipe Philip, duque de Edimburgo, Dame Anne Griffiths (irmã de Sir Hugh). Além dos documentos que fazem parte do corpus do projeto, a coleção de papeis contempla uma lista de candidatos sugeridos pelo próprio príncipe Albert para o cargo de Master of the Household (Mestre da Governança). Ao lado de cada um dos nomes, o marido da rainha Vitória colocava suas considerações acerca deste ou daquele candidato: “Muito velho”, “muito útil na Marinha”, “mau temperamento” ou “amante francesa”. No ano passado, uma exposição das aquarelas pintadas pelo casal rodou pelo Reino Unido, contendo cenas de sua vida familiar, do crescimento de seus filhos e das viagens feitas por eles. Agora, o público pode conhecer um pouco mais da intimidade da rainha Vitória e do príncipe Albert, problematizando aspectos de sua vida conjugal, tais como o temperamento da soberana e suas dificuldades para conciliar seu papel como esposa e mãe com seus deveres como Chefe de Estado.

Fonte: Express UK. 2022 – Acesso em 14 de junho de 2022.

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