Luísa, Clementina, Carolina e Ana: as irmãs da Imperatriz Dona Leopoldina!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 6 de abril de 1807, a Imperatriz Maria Teresa da Áustria (nascida princesa de Nápoles e da Sicília), entrava em trabalho de parto pela 12ª vez. Ela tinha apenas 34 anos quando deu à luz um bebê do sexo feminino, batizado de Amélia Teresa. Infelizmente, a criança veio antes do tempo previsto e não sobreviveu por muitas horas, falecendo três dias depois. Para o pai da criança, o Imperador Francisco I, a perda de um recém-nascido não se constituía em algo inusitado, uma vez que a medicina obstetra não estava tão evoluída no período. Sua própria esposa já havia passado por essa experiência anos antes, quando a morte levou embora duas de suas filhas, Maria Carolina e Carolina Luísa, falecidas em 1795 e 1799, respectivamente. Porém, essa última gravidez cobrara um preço muito alto na compleição física de Maria Teresa, que adoeceu em decorrência do parto da pequena Amélia. No dia 13 de abril, suas forças não resistiram e ela acabou falecendo no Palácio de Hofburg, deixando nove filhos órfãos, incluindo a futura Imperatriz do Brasil, Dona Leopoldina. Num triste eco das causas que levaram sua mãe à óbito, a própria Leopoldina acabaria falecendo por razões semelhantes no Rio de Janeiro, para imensa tristeza de sua família na Europa, especialmente suas irmãs: Maria Luísa, Maria Clementina, Maria Carolina e Maria Ana.

Maria Luísa, Imperatriz dos Franceses e Duquesa de Parma

Retrato da arquiduquesa Maria Luísa da Áustria, pintado em 1810 por François Gérard. Nascida no Palácio Imperial de Hofburg, em Viena, no dia 12 de dezembro de 1791, Luísa foi a mais querida entre as irmãs de Dona Leopoldina. Seis anos mais velha do que a futura Imperatriz do Brasil, ela ocupou quase um lugar materno no coração da menor, especialmente após a morte de sua mãe, em 1807. Ao longo de suas vidas, ambas jamais deixaram de corresponder-se, mesmo quando a política matrimonial levou Luísa para a França e Leopoldina para o outro lado do Oceano Atlântico. Como muitos membros de sua família, Leopoldina viu com horror a partida de Luísa para a França em 1810, onde ela deveria tomar seu lugar como segunda esposa de Napoleão I e Imperatriz consorte dos Franceses. Os esponsais foram copiados à risca daqueles planejados para outra arquiduquesa austríaca, que em 1770 se casou com o herdeiro do trono da França: Maria Antonieta. De seu relacionamento com Napoleão, Maria Luísa deu à luz em 20 de março de 1811 a Napoleão II, chamado de “rei dos romanos”.

Com efeito, um fato pouco conhecido na biografia da arquiduesa é que, durante as campanhas militares de seu marido de 1812 a 1814, a Imperatriz atuou na qualidade de regente, função para a qual sua educação a preparou perfeitamente. Afinal de contas, uma princesa Habsburgo era mais do que um ventre que deveria carregar o futuro da monarquia. Elas eram treinadas para agirem como representantes da Casa d’Áustria em solo estrangeiro. Após a derrocada de Napoleão, Maria Luísa regressou à Áustria, onde era vista com suspeita pela corte. Enquanto seu filho era mantido em Viena sob tutela do avô, o Imperador Francisco I, a arquiduquesa recebeu como “recompensa” a regência do ducado de Parma, uma posição que já havia sido ocupada por outras mulheres de sua família em gerações passadas. Com a morte de Napoleão em 1821, ela estava livre para se casar com seu amante, o general Neipperg, com quem teve três filhos. Antes de falecer, em 17 de dezembro de 1847, aos 56 anos, ela havia contraído matrimônio pela terceira vez com Charles-René de Bombelles. Seu corpo se encontra sepultado na Cripta Imperial, em Viena.

Maria Clementina, princesa de Salerno

Em 1 de março de 1798, a Imperatriz Maria Teresa do Sacro-Império dava à luz mais uma criança nascida de seu casamento com o primo, Francisco II (mais tarde Francisco I da Áustria), a arquiduquesa Maria Clementina de Habsburgo-Lorena. Durante a infância, ela e suas irmãs, Maria Luísa, futura Imperatriz dos Franceses, e Leopoldina, futura Imperatriz do Brasil, cresceram privados em boa parte do contato com o mundo para além das belas aleias do Palácio de Hofburg ou Laxenburg. Isso não impediu, contudo, que seu cotidiano fosse abalado pelas guerras napoleônicas e pela morte precoce da mãe, em 1807. Leopoldina e Clementina acabaram se tornando muito próximas. A princípio, assistiam aulas com os mesmo tutores, até que passaram a cursar disciplinas diferentes. Mas, com o fim do Império Napoleônico, o destino jogou Leopoldina nos braços do Oceano Atlântico, em direção ao Brasil, onde ela se casou com o herdeiro da Coroa portuguesa, o príncipe D. Pedro, tornando-se soberana consorte e figura fundamental na criação de um novo Estado.

Clementina, por sua vez, teria um destino bastante infeliz no casamento, assim como a irmã. Fazendo eco a uma frase que Leopoldina escreveu para Maria Luísa, de que “nós, pobres princesas, somos tais quais dados, que se jogam e cuja sorte ou azar depende do resultado” (17/9/1826), ela acabou desposando o próprio tio, o arquiduque Leopoldo, príncipe de Salerno, a quem Leopoldina considerava “atacado pelo terrível mal da grossura”. Como era de se esperar, dessa união endogâmica, tão comum na história da dinastia Habsburgo, não resultou bons frutos. O casamento demorou a ser consumado e a indiferença existente entre o casal chegou ao conhecimento de Leopoldina no Rio de Janeiro, que em cartas se preocupava bastante com a situação da irmã. Dos quatro filhos que ela teve com o tio, apenas a princesa Maria Carolina sobreviveu. A arquiduquesa faleceu em 3 de setembro de 1881, aos 85 anos, no Château de Chantilly, na França. Antes de morrer, ela teve a oportunidade de conhecer suas sobrinhas Januária e Francisca, filhas de Pedro I e Leopoldina, assim como seu sobrinho, o Imperador D. Pedro II do Brasil.

Maria Carolina, princesa da Saxônia

Em 22 de Maio de 1832, falecia no castelo de Pillnitz a arquiduquesa Maria Carolina da Áustria, irmã mais nova da imperatriz Leopoldina. Nascida em Viena em 8 de abril de 1801, a princesa recebeu em batismo o nome de Maria Carolina Fernanda Teresa, em homenagem tanto aos seus avós maternos, a rainha e o rei de Nápoles, como também à sua mãe, a soberana consorte do Sacro Império. Infelizmente, a criança desfrutaria pouco da companhia materna, pois a imperatriz Maria Teresa faleceu em 1807, deixando oito crianças órfãs. O destino de Maria Carolina, porém, era contrair um casamento dinástico e assim expandir a influência dos Habsburgo-Lorena. Para tanto, ela recebeu uma educação apropriada, que a qualificava como representante da casa d’Áustria em outros reinos. Enquanto sua irmã Leopoldina se destacava bastante nos estudos de botânica e mineralogia, Maria Carolina, por sua vez, desenvolveu habilidades incríveis na área do desenho e da pintura, conforme se pode observar nos esboços em carvão vegetal que se encontram preservados nos Arquivos Austríacos.

Sua infância dourada nos belos palácios de Schönbrunn e Laxenburg foi perturbada apenas pelas guerras napoleônicas e pelo seu delicado estado de saúde, já que a princesa sofria com ataques de epilepsia, que acabariam causando sua morte. Uma vez derrotado o perigo representado por Napoleão, foi organizado para Carolina um matrimônio com o príncipe Frederico Augusto da Saxônia (por quem certa vez sua irmã Leopoldina estivera interessada, antes de desposar o futuro D. Pedro I do Brasil). Os dois se casaram por procuração em 26 de setembro de 1819. Descrita como uma jovem doce e ingênua, Maria Carolina, contudo, não teve uma vida conjugal feliz. Sua vida como princesa herdeira da Saxônia foi marcada profunda melancolia. Sofria com seu estado de saúde fragilizado e com os boatos da infidelidade de seu marido. Em decorrência disso, em 13 anos de casamento ela e Frederico nunca tiveram filhos. Após longas horas de agonia, provocada por um ataque epiléptico, Carolina acabou falecendo precocemente aos 31 anos. Ela se encontra sepultada na Catedral da Santíssima Trindade, em Dresden

Maria Ana, arquiduquesa da Áustria e princesa da Hungria

Retrato em miniatura da arquiduquesa Maria Ana da Áustria, irmã mais jovem de Dona Leopoldina, pintado por Natale Schiavoni. Nascida no Palácio Imperial de Hofburg, em Viena, no dia 8 de junho de 1804, Maria Ana era a quinta filha oriunda do casamento entre o então Imperador Francisco II e a Imperatriz Maria Teresa da Sicília. O contexto político do período era marcado pelas disputas militares com Napoleão Bonaparte, que culminaram com a fuga da família imperial durante a invasão do exército francês e a consequente dissolução do Sacro Império Romano-Germânico em 1806. Como era um bebê nesse período, Maria Ana não guardou memória de tais eventos, exceto pelo que ficaria sabendo anos mais tarde. Tampouco podemos mensurar a dor causada pela morte de sua mãe, no ano de 1807, em decorrência de complicações no parto de um bebê natimorto. Segundo alguns registros, Ana sofria com transtornos mentais e era portadora de deficiência física, assim como seu irmão mais velho, Ferdinando, que acabaria sucedendo ao Imperador Francisco.

Possivelmente, tais características foram causadas pela endogamia do casamento de seus pais, já que Francisco I da Áustria e Maria Teresa eram primos em primeiro grau tanto por via paterna, quanto materna. Em 1810, com a partida de Maria Luísa, a mais velha das arquiduquesas, para a França, onde se casou com Napoleão I, Leopoldina ficou responsável pela irmã mais nova. Nas suas cartas ao pai, a futura Imperatriz do Brasil costumava acrescentar ao final que “a irmã Maria Ana pede que lhe beije as mãos” (28 de outubro de 1813). Em outra, ela diz que houve celebrações no dia do onomástico da arquiduquesa, batizada em homenagem a Santa Ana. Leopoldina também conta em sua correspondência que, antes de viajar para o Brasil, recebeu da caçula um cajado para fazer caminhadas. Devido à sua deficiência física, Maria Ana foi a única filha do imperador Francisco I que não se casou. Ela viveu no Palácio de Schönbrunn até o ano de 1835, quando seu pai morreu e foi sucedido pelo filho, Ferdinando I. Ana passou o resto de seus dias no Palácio de Hetzendorf, até falecer em 28 de dezembro de 1858, aos 54 anos. Seu corpo se encontra sepultado na Cripta Imperial de Viena, ao lado de outros membros dos Habsburgo.

Referências Bibliográficas

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

PRANTNER, Johanna. Imperatriz Leopoldina do Brasil. Tradução de Hanns Pellischek e Elena Dionê Borgli. – Petrópolis: Vozes, 1997.

SCHUBERT, Mons. Guilherme (Coord.). 200 anos imperatriz Leopoldina. Rio de Janeiro: IHGB, 1997.

WILLIAMS, Kate. Josefina: desejo, ambição, Napoleão. Tradução de Luís Santos. São Paulo: LeYa, 2014.

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