Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Quando Maria Antonieta se tornou a futura rainha da França em 1770, ela recebeu de sua mãe, a imperatriz Maria Teresa do Sacro-Império, e do rei Luís XV uma vasta coleção de joias que faria qualquer soberana do continente europeu morrer de inveja. Entre as mais famosas, encontrava-se um colar de pérolas, cuja menor delas era do tamanho de uma avelã (legadas por Ana de Áustria no século XVII) e o lendário diamante azul da Coroa, que mais tarde seria rebatizado como Diamante Hope. Porém, quando a Revolução Francesa estourou em 1789 e a família real foi mantida sob vigilância no Palácio das Tulherias, em Paris, parte dessa coleção foi confiscada pela Convenção Nacional. Quanto às joias pessoais da rainha, foram secretamente despachadas para a Áustria em 1791, na esperança de que pudessem ser utilizadas como forma de sustento dos Bourbon, caso eles conseguissem obter êxito na malfadada fuga de Varennes. No meio desse valioso conjunto, encontravam-se duas pulseiras contendo 112 diamantes cada uma, incrustados em uma base de prata. Passados quase 230 anos desde a morte da última soberana da França absolutista, o valioso par reapareceu num leilão!

Par de pulseiras de diamantes adquiridas por Maria Antonieta em 1776, que foram leiloadas pela Christie’s.
As joias de Maria Antonieta que ficaram sob custódia de seu sobrinho, o imperador Francisco II do Sacro-Império (mais tarde Francisco I da Áustria) foram depois entregues para a princesa Maria Teresa Carlota, única filha de Luís XVI e sua esposa que conseguiu sobreviver à Revolução. Por ser a primogênita do casal de monarcas, ela era tratada pelo título de Madame Royale. Em 1799, quatro anos após ter sido libertada da prisão na Torre do Templo, Maria Teresa se casou com seu primo Luís, filho do futuro rei Carlos X, tornando-se a nova duquesa de Angoulême. Com a restauração Bourbon em 1814, a família real finalmente retornou à França. Em 1824, com a elevação de seu tio e sogro ao trono, Maria Teresa e seu marido se tornaram os novos delfim e delfina, até que a Revolução de 1830 os forçou a um exílio na Itália. Em seus anos como duquesa de Angoulême e depois delfina da França, Maria Teresa foi retrata pelos pincéis de Antoine-Jean Gros e Alexandre-François Caminade usando parte da lendária coleção de joias pessoais de sua mãe, incluindo os braceletes de diamantes que foram leiloados no dia 9 de novembro deste ano pela Christie’s, em Genebra (Suíça).

Detalhe do retrato de Maria Teresa Carlota, pintado em 1816 por
Antoine-Jean Gros, no qual ela usa as pulseira de diamantes de sua mãe, entre outras joias da rainha.
Como Maria Teresa e seu marido não tiveram filhos, a duquesa deixou em testamento as valiosas joias de sua mãe para suas sobrinhas e sobrinhos, como o conde e a condessa de Chambord e a duquesa de Parma. Com o passar dos séculos, muitas delas foram desmontadas para a confecção de novas peças e pouquíssimas joias originais de Maria Antonieta sobreviveram ao tempo. Em 2018, a Sotheby’s leiloou algumas delas, que estavam na coleção real Bourbon-Parma, por um enorme valor, dada a relevância histórica dos itens. As pulseiras que foram vendidas no mês passado estiveram por décadas em posse de uma família real que preferiu não se identificar. Elas contemplam três fios de diamantes, que se ajustam perfeitamente ao braço e foram mantidas durante todo esse tempo dentro de um estojo forrado com veludo azul. Antonieta as adquiriu diretamente da oficina de Boehmer, joalheiro oficial da Coroa nas décadas de 1770 e 1780 e um dos nomes envolvidos no famoso “caso do colar da rainha”, que mancharia a reputação da soberana de forma indelével e mais tarde seria imortalizado pela habilidosa pena de Alexandre Dumas, nas suas “Memórias de um Médico”.

Cada pulseira contém 112 diamantes dispostos em três fios com base de prata, que se ajustam perfeitamente ao pulso.
As pulseiras teriam sido adquiridas pela rainha em 1776 pelo valor de 250.000 livres e foram pagas de forma parcelada com diamantes de sua própria coleção e com dinheiro emprestado pelo rei, conforme registra um livro de contabilidade da época. Da Áustria, a imperatriz Maria Teresa enviou uma carta virulenta à filha, condenando o gasto dispendioso com joias que excediam ao valor da mesada que lhe era paga pelo erário real. A sobrevivência desses itens é quase inacreditável. Talvez por seu design mais simples, os proprietários póstumos não viram necessidade de desmontá-las. Marie-Cécile Cisamolo, especialista associada da Christie’s, disse: “Elas revivem e transportam uma parte da história francesa para o mundo de hoje”. As pulseiras também aparecem listadas em um inventário feito pelo conde Mercy-Argenteau, embaixador austríaco que acompanhou a jornada de Maria Antonieta na França de 1770 até a Revolução. Ele foi o curador da baú de madeira contendo as joias pessoais da soberana, despachadas em 1791. Conforme dito anteriormente, ela foram entregues a Maria Teresa em 1796, quando ela finalmente foi libertada da Torre, depois de uma troca diplomática de prisioneiros entre o governo do Diretório e o Imperador Francisco.

“Usar essas peças é como embrulhar o pulso em seda”, acrescentou Cisamolo. “Elas são leves, flexíveis e honestamente muito fáceis de usar”.
“Usar essas peças é como embrulhar o pulso em seda”, acrescentou Cisamolo. “Elas são leves, flexíveis e francamente muito fáceis de usar”. O valor do conjunto foi estipulado entre 2 e 4 milhões de dólares, mas elas foram arrematadas pelo impressionante lance de 11,1 milhões (aproximadamente 63.227.688 de reais, em câmbio atual). Jean-Marc Lunel, especialista sênior internacional da Christie’s, disse que as pulseiras se constituíam em um atrativo irresistível para os compradores em potencial, uma vez que era quase “um milagre que tenham permanecido juntas e intactas quando poderiam ser facilmente desmontadas, como muitas outras joias de procedência real”. Joias intactas que pertenceram a soberanas famosas, como a imperatriz Joséphine de Beauharnais, também costumam ser adquiridas por valores acima da média. Lunel acrescentou ainda que o estilo exclusivo das pulseiras não é tipicamente encontrado em designs contemporâneos, já que “o corte antigo imperfeito dos diamantes fornece um charme único que não pode ser encontrado em diamantes lapidados modernos”. As pulseiras foram vendidas a um comprador não identificado, que deu um lance por telefone.
Fontes: Jeweller Magazine e Town&Country – Acesso em 19 de dezembro de 2021.