As prendas da rainha: tecido possivelmente bordado por Mary Stuart vai a leilão!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No século XVI, fazia parte da educação reservada às mulheres da realeza o estudo de idiomas (incluindo o Latim), desenho, caligrafia, música, dança e a arte da conversação. O conjunto desses saberes garantia a uma princesa destinada ao casamento com um príncipe estrangeiro as qualidades necessárias para se tornar uma consorte agradável e capaz de organizar seu séquito de damas. Assim, ela projetava uma imagem favorável na corte real e no governo do príncipe. O estudo da religião cristã era exercido de forma disciplinadora e a Virgem Maria se tornou um modelo de retidão feminina, cujo comportamento uma rainha deveria adotar. Outro dos dotes adquiridos pelas princesas em sua fase de formação eram os trabalhos de agulha. Um pedaço de tecido bordado pela esposa ou filha de um rei era considerado um item valioso e também exemplo de favorecimento real para quem o recebesse. Essa prática sobreviveu durante muitos séculos na Europa e em outras monarquias fora do continente, como no Brasil do século XIX. Entre as soberanas que se dedicaram com afinco à prática do bordado foi Mary Stuart, que geralmente abordava temas religiosos em suas estampas ou fazia alguma referência à difícil situação política na qual se encontrava desde que foi forçada a abdicar do trono e pedir asilo na Inglaterra.

Moldura contendo um retrato de Mary Stuart e um fragmento de cortina que teria sido bordado por ela durante os anos de seu cativeiro na Inglaterra.

Recentemente, um fragmento de cortina, supostamente bordado pelas mãos da trágica monarca, foi resgatado dos escombros de uma tempestade que quase o arruinou. O tecido, armazenado em uma moldura envidraçada, era mantido dentro de uma propriedade nas Terras Altas da Escócia, quando uma grande enchente, conhecida pelo nome de Storm Jorge, atingiu o centro e a zona oeste da Escócia no início de 2020, inundando várias casas. Antes que a relíquia de mais de 450 anos fosse destruída pela ação das águas, seus donos conseguiram salvá-la. A atual proprietária, uma caçadora de antiguidades, havia conseguido localizá-la entre os itens de um pequeno bazar. A peça teria sido bordada por Mary durante os anos de seu confinamento na Inglaterra e agora está sendo posta à venda em um leilão que deve ocorrer no final de dezembro de 2021. Especula-se que o item deva arrecadar mais de mil libras esterlinas (cerca de 7.546,47 reais, em câmbio atual). A “descobridora” da peça declarou o seguinte: “Sempre fui fascinada por antiguidades. Eu estava olhando em volta de um salão de leilão escocês um dia e encontrei o pedaço de bordado emoldurado caído de cabeça para baixo no chão. Eu o levantei e não pude acreditar quando li a inscrição”.

A moldura contendo o pedaço de tecido bordado apresenta um retrato de Mary Stuart acompanhado de uma pequena biografia e a seguinte inscrição: “De uma cortina de cama bordada por Mary, rainha dos Escoceses, enquanto estava na prisão. Apresentado pela condessa de Elgin, um membro da família Stuart, à Sra. Salena C. Lynch, nascida Girdler, esposa de James C. Lynch e mãe do Dr. Henry C. Lynch”. A atual proprietária da peça disse que a adquiriu por um valor relativamente modesto, embora não consiga se lembrar da cifra exata. Após a compra, ela levou a moldura para sua propriedade em Strathnacro, nas Terras Altas da Escócia. Mas, quando sua família visitou a casa em junho de 2020, levaram um grande choque ao perceber que o local havia sido atingido pela Storm Jorge. “Quando abrimos as portas, o chão estava molhado, o teto tinha caído e havia mofo crescendo nas paredes”, disse a vendedora. “Storm Jorge causou milhares de libras em danos”. Segundo ela, “o telhado e as empenas da varanda foram parcialmente destruídos”. Mas, para seu alívio, o bordado que teria sido feito por Mary Stuart conseguiu sobreviver: “Felizmente o fragmento de material não foi danificado. Eu o coloquei em uma caixa e a chuva não o atingiu”.

Retrato de Mary Stuart que acompanha o fragmento de bordado, contendo abaixo uma pequena biografia da soberana.

Entre alguns dos bordados mais famosos feitos por Mary Stuart, encontra-se um painel quadrado com duas videiras de galhos frutíferos separadas por outra de galhos áridos ramificados pelo chão. Acima, a mão de um podador aparece ameaçando ceifar a metade árida sob o lema “Virescit Vulnere Virtus” (A Virtude Floresce Ferindo-se). Muitos costumam interpretar essa imagem como uma alusão ao relacionamento da rainha da Escócia com Elizabeth I. A rainha da Inglaterra estaria associada ao galho seco e estéril, que precisava ser podado para que a videira frutífera (Mary) florescesse. Outro bordado famoso apresenta um gato malhado de pelos alaranjados (outra suposta alusão a Elizabeth), prendendo um ratinho com uma das patas (supostamente Mary). Essas peças foram feitas durante os anos de cativeiro da rainha deposta da Escócia na Inglaterra, quando a leitura, a música e os trabalhos de agulha eram as únicas formas que ela tinha para passar o tempo. O pedaço de cortina, que teria também sido bordado pela soberana, apresenta uma flor e o fragmento de um galho, cujas cores acabaram se desbotando com o passar dos séculos.

A atual proprietária da peça falou da tragédia que se abateu sobre sua casa nos seguintes termos: “Meu avô escocês costumava me contar histórias sobre as Highlands, montanhas, rios e vales e eu sempre quis uma casa lá. Nós a compramos em 2000 e era absolutamente linda. Agora, por causa dos danos da tempestade, é uma concha vazia que ainda está sendo reparada”. Infelizmente, os danos causados na propriedade fizeram com que a família vendesse alguns de seus bens de valor. Foi então que a atual proprietária do fragmento de cortina resolveu investigar mais a respeito da autenticidade do bordado em sua posse: “É um alívio o bordado ter sobrevivido. Sempre quis saber mais sobre isso, então levei-o para um evento de avaliação gratuito realizado pelas Hansons Auctioneers, em Kelmarsh Hall, em Northamptonshire”. Charles Hanson, proprietário da Hansons, disse: “Foi certamente uma descoberta empolgante – e estamos muito felizes por ter sobrevivido àquela tempestade. Mary, rainha dos Escoceses, era uma costureira entusiasmada. Existem exemplos de seu trabalho e este fragmento está muito no estilo de meados do século XVI”.

Detalhe do fragmento de bordado que teria sido feito por Mary Stuart e que está sendo leiloado.

Segundo Charles: “Devido ao fato de que ela foi mantida prisioneira por quase duas décadas, ela teve muitos anos para aprimorar seu ofício. Na verdade, em 1569, Mary passou um tempo em confinamento no Castelo de Tutbury, que fica a uma curta distância de carro da sede dos Hansons em Derbyshire”. Depois de perder o trono da Escócia em 1567 e ser forçada a abdicar em favor de seu filho, Mary conseguiu fugir pra a Inglaterra em busca de asilo. O que ela não contava era que passaria os próximos 19 anos de sua vida em cativeiro, sendo movida de um castelo a outro, mantida constantemente sob vigilância por ser considerada pelos conselheiros de Elizabeth I como uma ameaça à Coroa e à Igreja Anglicana. Na qualidade de presuntiva herdeira do trono inglês, o nome de Mary Stuart foi utilizado em várias rebeliões contra a autoridade da rainha inglesa e até hoje alguns historiadores disputam se ela teve ou não participação nas tramoias que acabaram lhe custando a vida em 8 de fevereiro de 1587. Os trabalhos de bordados feitos por Mary nesse período são muito reveladores do seu estado de espírito e se constituem em itens muito valiosos, uma vez que evocam a história e a cultura do Reino Unido.

Fonte: Daily Record – Acesso em 23 de dezembro de 2021.

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