A rainha dos palcos: teatro particular de Maria Antonieta está sendo restaurado à sua antiga glória!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das maiores paixões de Maria Antonieta era o teatro. Entre os seus dramaturgos preferidos, estava o polêmico Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, autor de “O Barbeiro de Sevilha” e de “As Bodas de Fígaro” (peças que ridicularizavam a nobreza e o sistema baseado em estamentos). Em seu palacete do Petit Trianon, a rainha oferecia pequenos espetáculos no seu teatro particular para uma audiência seleta, composta de amigos íntimos, nos quais ela mesma representava algumas das personagens da trama. Brincando com a sua realidade, Antonieta gostava de aparecer vestida como uma simples camponesa ou uma serviçal. Embora muitos nobres tenham visto com péssimos olhos esse passatempo de sua soberana, por considera-lo indigno de uma mulher na sua posição, o fato é que ela adorava atuar em cima de um palco e exercitar seus dons criativos para a música e a dramatização. Após passar por várias transformações no século XIX e permanecer abandonado no século XX, o teatro da rainha esta sendo finalmente restaurado à sua antiga glória!

Teatro da Rainha em Versalhes, construído de 1778 a 1780 por Richard Mique para Maria Antonieta. Foto: © Thomas Garnier

Em 12 de julho de 1785, por exemplo, Maria Antonieta estava completamente absorta com as preparações para a peça “O Barbeiro de Sevilha” (da autoria de Beaumarchais), em que ela e sua troupe des seigneurs se apresentariam para um grupo seleto de espectadores, com a rainha no papel de Rosine. Anteriormente, Antonieta oferecia espetáculos como esse em temporadas específicas para seu círculo de amigos na galeria do Grand Trianon ou na Orangerie do Palácio de Versalhes. Esse tipo de entretenimento, porém, foi muito comum no reinado de Luís XIV e era uma das formas pela qual o soberano demonstrava seu poder e status, ao interpretar grandes personagens como Apolo, o deus do Sol. Usando a linguagem metafórica, Luis se metamorfoseava no astro supremo para comandar sua constelação de cortesãos. Antonieta, entretanto, gostava de inverter essa ordem, experimentando nos palcos uma realidade social diferente da sua, embora de forma romântica e idealizada.

O exterior do teatro dentro do Petit Trianon, em Versalhes.

Contudo, em 1778 (ano em que a rainha deu à luz sua primeira filha com Luís XVI), Maria Antonieta deu ordens para que um teatro particular fosse construído no seu palacete. Para tanto, ela contratou o arquiteto Richard Mique para encabeçar o projeto, que foi concluído na primavera de 1780. Camuflado pela vegetação dos jardins do Trianon, a entrada do teatro possui um pórtico discreto em estilo neoclássico e o espaço era grande o suficiente para acomodar ate 250 espectadores. Em sua decoração predominavam as cores azul, branco e dourado, com enfeites esculpidos usando uma técnica simples aplicada sobre papel machê. Segundo informações disponibilizadas pelo site do Palácio de Versalhes:

Os vários tons de ouro fundem-se harmoniosamente com o falso painel de mármore dominado pelos tons violáceos. O teto, pintado por Lagrenée, foi concluído poucos dias antes da inauguração do teatro e representava Apolo rodeado pelas Graças e Musas. O original foi substituído por uma cópia no século XIX. O vasto palco (oito camadas, dois andares abaixo do nível do palco e dois nas vigas), foi habilmente equipado pelo especialista em mecânica Pierre Boullet, sucessor de Blaise-Henri Arnoult, que projetou o maquinário da Royal Opera House. O fosso da orquestra tem espaço para cerca de vinte músicos.

Com efeito, o teatro de Maria Antonieta não só funcionava como espaço para as apresentações da rainha, como também servia de palco para atrações encomendadas aos artistas da Royal Academy of Music e, portanto, possuía instalações técnicas satisfatórias. Ali, a rainha encontrava um verdadeiro refúgio de todo o protocolo e etiqueta da corte de Versalhes. Porém, ao se distanciar dos nobres de famílias mais antigas e se cercar de uma camarilha de aduladores, a soberana acabou se tornando alvo de histórias sórdidas, nas quais seu teatro privado era transformado em um antro de promiscuidade.

As decorações douradas do interior são feitas principalmente de papel machê, arame e madeira. Foto: © Thomas Garnier

Foi nesse espaço que, em 1784, a controversa peça “O Barbeiro de Sevilha” foi encenada pela primeira vez na França, apesar de Beaumarchais ter sido censurado pela Coroa pelo conteúdo satírico de suas obras, que zombavam da aristocracia. Com a Revolução Francesa e a transferência da corte para Paris, o teatro da rainha permaneceu fechado até que Napoleão Bonaparte tomou posse de suas instalações em 1809. Algumas reformas foram implementadas no espaço, com a introdução de uma espécie de toldo militar neoclássico e um novo papel de parede adornado com as abelhas imperiais. Décadas depois, o rei Luís Felipe de Orleans fez uma nova reforma e acrescentou um veludo vermelho e lustres de cristal. O teatro continuou servindo como espaço para entretenimento do imperador Napoleão III, mas com a derrocada da monarquia na França ele foi fechado e entregue ao abandono. Pelos idos da Segunda Guerra Mundia, estava em sério estado de degradação.

A maquinaria original do teatro do século XVIII. Foto: © Thomas Garnier

Recentemente, uma equipe de conservação em Versalhes está trabalhando na restauração do teatro para devolvê-lo à sua antiga glória, quando Maria Antonieta encarnava Rosine em “O Barbeito de Servilha”. Devido ao fechamento do Palácio em decorrência da pandemia de COVID-19, a equipe técnica teve tempo para elaborar uma pesquisa meticulosa sobre o processo de edificação do prédio, para deixa-lo o mais próximo possível de sua versão original. Ainda de acordo com as informações contidas no site do Palácio de Versalhes:

A maquinaria original foi restaurada para funcionar, tornando o teatro Trianon o único teatro do século XVIII na França que ainda está intacto e em pleno funcionamento. Junto com um conjunto excepcional datado de 1754 e mostrando o templo de Minerva do primeiro ato de Quinault e Lully’s Thésée – projetado pelos irmãos Slodtz para o teatro em Fontainebleau – o teatro da rainha ainda tem vários itens de cenário (incluindo dois conjuntos completos) produzido no século XIX por Pierre-Luc-Charles Cicéri e sua oficina: um “interior rústico”, uma floresta e fragmentos de uma praça pública e “salão rico”.

No momento, a cortina do palco foi restaurada usando uma técnica manual original do século XVIII e costurada com um belíssimo linho azul-cobalto. O curador-chefe do patrimônio do Palácio de Versalhes, Raphaël Masson, descreve o teatro como “um milagre de conservação” e está usando o projeto original de Richard Mique para reconstruir outras partes que foram modificadas ou perdidas ao longo dos séculos. Entre elas, um dispositivo que fazia três conjuntos de florestas se erguerem de um alçapão até o palco, para criar o cenário do Templo de Minerva (uma das decorações mais antigas do mundo do teatro ainda intactas, datada de 1754).

A cortina do palco durante a restauração, com um cenário de floresta do século XIX pintado por Pierre-Luc-Charles Cicéri e seu ateliê. Foto: © Didier Saulnier

Não obstante, o teatro de Maria Antonieta é o único exemplo de século XVIII que ainda possui seu maquinário original e seus cenários, que eram transportados de um lado a outro do palco com o auxílio de trilhos, criando assim um fundo em movimento. Segundo Raphaël Masson, isso era muito inovador para a época. “Um testemunho do virtuosismo dos decoradores do século XVIII.” Quando Versalhes finalmente abrir as portas, o teatro da rainha será novamente um espaço para apresentações regulares. Embora tenha passado por uma grande restauração no ano de 2001, sua estrutura permaneceu bastante frágil, permitindo apenas uma apresentação a cada dois anos. Com o atual programa de reformas, esse número poderá aumentar. Aos olhos de Masson, isso torna momentos como esse particularmente especiais: “sempre ficamos muito emocionados ao ouvir as notas que saem do alçapão”, diz ele. O momento em que o curador-chefe e sua equipe se sentaram no auditório para ver a nova cortina pendurada pela primeira vez foi uma experiência comovente. “Tinha que ser perfeito'” diz Masson, acrescentando: “Se você não pode ter perfeição em Versalhes, então onde?”.

Bibliografia Consultada:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Sites:

TATLER, APOLLO e CHÂTEAU DE VERSAILLESAcesso em 18 de março de 2021.

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