Prostituição, Moralidade e Censura em “As Asas de Um Anjo”, de José de Alencar!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 23 de julho de 1858, o Diário do Rio de Janeiro noticiava aos seus leitores a proibição da peça em 4 atos, prólogo e epílogo, As Asas de Um Anjo, da autoria de José de Alencar, por ordem de “Sua Excelência o Sr. Dr. Chefe Polícia”. O texto deveria ser reconsiderado pelo Conservatório Dramático. A proibição da comédia, após sua terceira apresentação no teatro Ginásio Dramático, ocorreu depois de ter sido publicada no mesmo jornal, dias antes, uma análise do enredo feita por um certo senhor “X. P.”, na qual lhe pareceu que “a dignidade do palco sofreu com o desenvolvimento da cena de lupanar entre o pai e a filha, que bastaria esboça-la…” (apud AGUIAR, 1984, p. 128). A reação da polícia causou bastante indignação não só ao autor da peça, como também em outros intelectuais do período. Um amplo debate se seguiu na imprensa, liderado por nomes como Francisco Otaviano, Sousa Ferreira e Quintino Bocaiúva. Ferreira, por exemplo, se pronunciou “em nome de nossa nascente literatura contra a interferência da polícia em questões literárias”. Em nota de repúdio publicada no Diário do dia 27/06, ele acrescentava que “a polícia quis intervir em uma questão literária, e pronunciou-se contra a escola realista, a que pertence em parte o drama do Sr. Dr. José de Alencar” (apud FARIA, 1987, p. 89).

A peça As Asas de Um Anjo narra a trajetória de Carolina, uma moça de 18 anos, proveniente de família humilde, que se deixa seduzir pela promessa de uma vida faustosa nos salões e teatros da corte, caindo assim nos braços do opróbrio.. Tela: James Tissot, “Jeune femme en Bateau”.

Com efeito, o próprio autor, num longo artigo que depois foi utilizado como prefácio à primeira edição impressa de As Asas de Um Anjo (1858), ressaltava a incoerência do veto da polícia, quando, meses antes, o mesmo órgão havia aprovado a dramatização da peça para o grande público:

Ninguém ignora que uma composição dramatica qualquer não póde ser levada á scena nos theatros desta corte sem duas formalidades essenciaes: a licença do Conservatorio, e a permissão da policia. Ambas estas formalidades foram preenchidas na comedia As Azas de Um Anjo; o despacho do conservatorio é de 14 de janeiro, e o visto da policia de 25 de maio do corrente anno. […] A prohibição da comedia depois de ter subido tres vezes á scena e sem nenhuma manifestação reprovadora da parte do público, importa pois não só uma censura muito direta a uma corporação como o Conservatorio Dramatico, que não é subordinado á policia; como uma contradicção com o acto anterior; pois quando uma autoridade põe o seu visto em qualquer papel, é presumida haver lido e tomado conhecimento do conteúdo (ALENCAR, 1860, p. VIII-IX).

Reagindo dessa forma, José de Alencar expunha em nota publicada no Diário do dia 23/06 não apenas sua indignação ante o veto policial, como também se delongava ao se eximir das acusações de imoralidade, feitas “por alguns espectadores demasiadamente escrupulosos”, como o senhor “X. P.”, que teriam supostamente dado motivo para a proibição da peça.

Baseando-se na aceitação do público à peças de autores estrangeiros, como A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, Marion Delorme, de Victor Hugo e As Mulheres de Mármore, de Théodore Barrière e Lambert Thiboust, José de Alencar criou a sua própria versão para a história da prostituta regenerada, redimida pelo amor oferecido por um homem da sociedade. A peça As Asas de Um Anjo narra a trajetória de Carolina, uma moça de 18 anos, proveniente de família humilde, que se deixa seduzir pela promessa de uma vida faustosa nos salões e teatros da corte, caindo assim nos braços do opróbrio. De mulher amasiada, a protagonista se transforma numa prostituta de luxo, passando a escarnecer de todos os homens que lhe prestavam veneração. Findado o momento de esplendor para a cortesã, ela conhece a degradação e a miséria associada ao vício, que culmina na tentativa de sedução não concretizada por parte de seu pai que, bêbado, não reconhece a própria filha doente. Com a ajuda de amigos e do homem que era alvo de seu afeto, Carolina encontra a expiação para seus pecados em um casamento de aparências, tirando alento para a existência no cuidado da filha que tivera do seu primeiro amante. A possibilidade de incesto e de reintegração da prostituta no seio da família foram, então, os motivos que teriam levado a política a suspender a encenação da peça, dando assim assunto para os jornais da época.

De mulher amasiada, a protagonista se transforma numa prostituta de luxo, passando a escarnecer de todos os homens que lhe prestavam veneração.. Tela: James Tissot, “Quiet”.

Uma vez que histórias com enredo semelhante, escritas por autores estrangeiros, haviam sido dramatizadas nos teatros nacionais, José de Alencar demonstrava seu furor ao afirmar que “esquecia-me porém que tinha contra mim um grande defeito, e era ser a comedia producção de um auctor brasileiro e sobre costumes nacionaes”, pois “o véo que para certas pessoas encobre a chaga da sociedade estrangeira, rompia-se quando se tratava de esboçar a nossa própria realidade” (ALENCAR, 1860, p. X). A intenção de Alencar, conforme expõe na defesa de sua obra, era apresentar o vício castigado pelo próprio vício, tendo como base a experiência da prostituição na corte e suas consequências para as famílias, não apenas para os seus responsáveis, como também para aqueles que faziam uso do comércio do prazer nas ruas do Rio de Janeiro. Recorrendo ao modelo francês, o autor ressalta a ação moralizante da sua obra, ao dizer que “Victor Hugo poetisou a perdição na sua Marion Delorme; A. Dumas Filho enobreceu-a na Dama das Camelias; eu moralisei-a nas Azas de Um Anjo; o amor, que é a poesia de Marion, e a regeneração de Margarida, é o martyrio de Carolina” (ALENCAR, 1860, p. XVII). Por outro lado, apesar das diferenças entre as três protagonistas, apontadas por Alencar, João Roberto Faria (1987, p. 80) esclarece que existe um elemento que as aproxima: elas são capazes de amar e também de demonstrar esse amor.

Para Valéria De Marco (1986), a defesa de José de Alencar, publicada no Diário do Rio de Janeiro e depois na edição impressa da peça, oferece subsídios importantes para se entender os aspectos de composição de suas obras: a função moralizante da literatura, que busca representar e discutir os costumes da sociedade vigente. Segundo De Marco, o crítico redefinia assim os conceitos de tema, personagem e linguagem:

A obra seria moralizadora porque tematiza o vício apresentado pela sociedade para corrigi-lo e para puni-lo. Deve-se ressaltar que, nesse momento, Alencar entende o tema como um elemento que se define através da estruturação do texto. Essa concepção está implícita em toda a análise e em função dela se desenvolvem as considerações sobre os demais elementos de composição: personagem, linguagem, ação e jogo cênico. Talvez por isso, use conceitos mais amplos – tais como “pensamento”, “ideias”, “teses” – para referir-se à temática da obra. Quanto à ação e ao jogo cênico (entendido como expressão da ação na linguagem teatral), Alencar analisa-os em relação às teses que a peça quer apresentar. Estas se manifestam e se concretizam na estruturação da ação. Em função disso, a personagem define-se como encarnação da ação, de uma ideia social (DE MARMO, 1986, p. 27).

A linguagem da obra, segundo o autor, seria um dos elementos-chave para que o aspecto moral de seu texto fosse mantido. Alencar esclarece que existiam em todas as línguas dois dialetos diferentes: o primeiro, usado pela chamada “boa sociedade”, mais polido e decente; e o segundo, utilizado pelas classes que ele se refere como “sem educação”, portanto uma linguagem baixa. Sendo As Asas de Um Anjo composta na “linguagem fina da sociedade”, o autor apontava assim para qual tipo de público sua obra se destinava, denotando também seu caráter elitista, aspecto esse que ele utiliza como escudo para se eximir de qualquer acusação de imoralidade. Assim, a linguagem polida, à qual se refere Alencar, teria por função ocultar a indecência do vício, ao mesmo tempo em que a denunciava; silenciar sobre dos mistérios do amor, ao passo em que os punha em evidência.

Findado o momento de esplendor para a cortesã, ela conhece a degradação e a miséria associada ao vício. Tela: James Tissot, “The Fan”

Muito já se escreveu sobre a polêmica da proibição de As Asas de Um Anjo e sobre o perfil de Carolina, sua jornada pelo mundo do vício e da prostituição, até alcançar a expiação de seus pecados num casamento não consumado e a salvação através do exercício da maternidade, considerada pelos naturalistas como o destino da mulher. Por outro lado, muito além de apresentar a versão brasileira para o enredo europeu da prostituta regenerada, José de Alencar apresenta também aos seus leitores uma série de perfis masculinos, que são o nosso foco de estudo neste capítulo. A análise das personagens nas Asas de Um Anjo, por sua vez, nos permite compreender um pouco sobre os papeis de gênero estabelecidos na sociedade brasileira de meados do século XIX, bem como as ideias de masculinidade, plasmadas na obra pela pena do autor, um homem branco dentro de uma sociedade escravocrata, oriundo de um elite intelectual e política, que escrevia principalmente para a classe da qual fazia parte. Na opinião de Joan Scott (1995, p. 13), o uso da categoria “gênero”, por sua vez, rejeita as explicações do “determinismo biológico implícito, no uso dos termos sexo ou diferença sexual”, introduzindo assim a ideia de que a desigualdade dos lugares sociais e espaços que deveriam ser ocupados respectivamente por homens e mulheres, são construídos pela sociedade.

Não obstante, entro de acordo com o pensamento de Ana Carolina Eiras Coelho Soares (2012), ao afirmar que não pretendo neste texto utilizar a categoria gênero para tomar As Asas de Um Anjo como um documento histórico fidedigno, definidor das relações entre os sexos e dos papeis sociais que deveriam ser desempenhados por homens e mulheres. Assim como Soares, importa-me antes disso interpreta-lo como “parte de um projeto maior que visa a construção de modelos, hábitos e costumes adequados à noção de civilização, considerada nos padrões europeus da época” (2012, p. 71). Sob essa perspectiva, as obras de José de Alencar se constituem num testemunho possível desse universo de sociabilidades, principalmente se levarmos em consideração o projeto literário do autor, que enxergava na literatura um retrato da sociedade, no qual seus leitores poderiam se identificar através das descrições de ambientes e personagens inseridos na narrativa. Assim sendo, as obras de Alencar, incluindo As Asas de Um Anjo, podem servir como “modelos orientadores dos gêneros para que seus desejos, motivações e comportamentos estivessem em consonância com as expectativas e aspirações de uma elite de um país ‘verdadeiramente’ civilizado” (SOARES, 2012, p. 71).

Carolina encontra a expiação para seus pecados em um casamento de aparências, tirando alento para a existência no cuidado da filha que tivera do seu primeiro amante. Tela: James Tissot, “The Garden Bench”.

Dessa forma, a utilização da peça As Asas de Um Anjo como recurso para o estudo do tempo vivido possibilita um olhar mais dinâmico sobre o passado. Na opinião de Richard Miskolci, “a análise da literatura que lida com espectros auxilia em uma melhor compreensão da relação entre história, subjetividade e vida social” (2012, p. 97). Assim sendo, e sem deixar de levar em consideração o caráter ficcional do teatro oitocentista, ele pode, por outro lado, se constituir numa fonte importante para se entender o período no qual foi escrito, possibilitando-nos, dessa forma, entrar no campo de estudo das representações. Segundo Roger Chartier, representação pode ser entendida com “a relação entre uma imagem presente e um objeto ausente, uma valendo pelo outro porque lhe é homóloga” (1991, p. 184). O uso desta categoria de análise, por sua vez, permite-nos compreender como José de Alencar ressiginificou as imagens do vício e do desejo, aplicados à personagem Carolina, transformando-a em expoente no comércio do prazer voltado para os homens das classes mais abastadas da corte. Ao mesmo tempo, ele procurava desvelar o lugar que tais mulheres ocupavam na sociedade vigente, embora sempre fazendo uso de uma linguagem “polida”, como o próprio autor esclarece no texto de 1858, o que lhe possibilitaria dar um tratamento mais “decente” ao tema de sua peça.

Com efeito, não interessa ao autor de As Asas de Um Anjo esmiuçar para o leitor as condições de vida, exploração e, em alguns casos, de escravidão das prostitutas no Rio de Janeiro. Antes disso, ele se preocupa em narrar os motivos que teriam levando uma moça pura como Carolina, anjo de inocência, a perder as suas asas e mergulhar fundo no mundo do vício, induzida por homens que, por um momento, se beneficiaram dos favores prestados pela jovem. Ao longo da segunda metade do século XIX, a prostituição no Brasil foi tolerada pelas autoridades públicas como um “mal necessário”, a despeito da perseguição policial e sanitária que foi feita a essa prática. Esse jogo de ambiguidades, que acirrou os debates acerca do meretrício no período imperial, apontava a mulher como principal responsável pela manutenção do comércio sexual. A imagem da prostituta foi sendo construída de forma vil pelo discurso médico, literário e jurídico, na borda de instituições como a Família, o Estado e a Igreja, que relacionavam o comércio do prazer ao vício, o não-trabalho e como principal foco de doenças venéreas. Na sua obra, porém, José de Alencar apontava também os homens como contribuintes, senão diretamente responsáveis, pela manutenção do meretrício na capital. Daí a importância de um texto como As Asas de Um Anjo, que nos possibilita entender como a imagem do vício ligado à prostituição foi traduzida para o público oitocentista.

FONTES

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ALENCAR, José de. As Azas de Um Anjo: Comedia. Rio de Janeiro: Editores Soares e Irmão, 1860.

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