A Rainha Elizabeth II e sua luta de 70 anos para salvar a casa de Windsor – Parte V

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O casamento entre Lady Diana Spencer e o príncipe Charles, ocorrido na Catedral de São Paulo em 29 de junho de 1981, foi um evento que parou toda a cidade de Londres. Dias antes, as pessoas dormiam nas ruas para ver a carruagem transportando a noiva com seu exuberante vestido de tafetá marfim, desenhado pelos estilistas David e Elizabeth Emanuel. Quando Diana estacionou em frente ao degraus da Catedral, ela arrastou consigo uma calda de 6,5 m de cumprimento pela nave em direção ao altar. Uma orgulhosa Elizabeth II podia ser vista próxima aos noivos, triunfante por finalmente ver o herdeiro do trono desposando uma moça que representava o futuro da dinastia. Porém, poucos sabiam que por detrás da fachada do palácio de Buckingham, o casal começa a manifestar os seus primeiros desentendimentos, algo que ficou patente já na lua de mel, com a sombra da ex-amante do príncipe a assombrar os sonhos da princesa. O matrimônio foi televisionado para cerda de 750 milhões de pessoas de todas as partes do mundo e obteve um efeito muito benéfico para a monarquia, dando também um novo impulso para a Guerra das Malvinas, ocorrida no ano seguinte. Graças à vitória inglesa contra os argentinos, a popularidade do governo Thatcher cresceu de forma exponencial. Em 1983, ela foi reeleita pata o cargo de Primeira-Ministra.

Foto oficial do casamento de Diana e Charles.

A princesa Diana era tudo o que a monarquia precisava naquele momento para revigorar a sua imagem. Jovem e atraente, ela logo ofuscou os membros sêniores da casa de Windsor, incluindo seu marido, que passou a se ressentir da crescente popularidade da esposa. Afinal, ele era o príncipe de Gales, mas os holofotes pareciam todos concentrados na princesa. O carisma de Diana, sua empatia e capacidade de se relacionar com as pessoas em seu nível, deu a ela um status de superstar. Por onde quer que ela passasse, multidões se acotovelavam para ter um breve vislumbre da princesa top model, do alto de seus quase 1,80m, acenando graciosamente para a multidão e apertando as mão dos súditos sem usar qualquer luva. Bem diferente da tradicional frieza dos Windsor, quando em contato com o público. No final do primeiro ano de casamento, ela anunciou que estava grávida do seu primeiro filho. Nascido em 21 de junho de 1982, William Arthur Philip Louis logo se tornou o terceiro na linha de sucessão ao trono britânico. No ano seguinte, o casal de Gales fez uma bem-sucedida turnê pela Austrália e pala Nova Zelândia, levando consigo o bebê Wiliam de quase um ano de idade. O êxito da visita conseguiu fazer com que aqueles países permanecessem unidos na Comunidade de Nações.

Contudo, a pressão dos deveres oficiais para com a Coroa e o assédio incessante da mídia fizeram com que a princesa de Gales desenvolvesse bulimia, um transtorno alimentar que atualmente atinge milhões de jovens pelo mundo e pode ser fatal. Diana podia ser vista devorando quantidades absurdas de comida e vomitando tudo em seguida. Após o parto do príncipe William, ela emagreceu tanto que os tabloides consideraram a possibilidade de ela estar anorexa, tal como ocorrera anos antes com a sua irmã, Lady Sarah. A indisposição da princesa em comparecer aos eventos oficiais devido ao seu delicado estado de saúde fez com que ela cancelasse muitos compromissos. Fontes ligadas ao palácio garantiram que essa foi uma das razões para as constantes brigas entre o casal de Gales. Percebendo as dificuldades no casamento real, a rainha Elizabeth teria chamado Diana para uma conversa particular. Segundo o depoimento da princesa feito anos depois para o seu biógrafo, Andrew Morton, Diana lhe disse que a rainha falou que “a razão por que o nosso casamento não deu certo foi porque o príncipe Charles estava com dificuldades para aceitar minha bulimia. Ela via aquilo como a causa dos problemas matrimoniais e não como um sintoma. Fiquei calada. Não pedi conselhos a ela. Agora posso tomar conta de mim mesma.”.

Baseada em seu próprio casamento com o príncipe Philip, a rainha Elizabeth II parecia não compreender os problemas de incompatibilidade entre o príncipe e a princesa. Além da diferença de idades (Charles era 12 anos mais velho), seus gostos eram bastante diferentes. Diana era mais urbana, enquanto Charles adorada o campo. Ele passava a maior parte do tempo em Highgrove, sua propriedade em Gloucestershire, enquanto ela preferia seus aposentos no palácio de Kensington. A situação entre os dois teve uma rápida recuperação pouco antes do nascimento do príncipe Harry, em 15 de setembro de 1984. Mas, quando soube que seu segundo filho era um menino e ainda por cima mais parecido com a família da mãe, Charles ficou bastante desapontado. Depois disso, a relação entre os dois esfriou de vez, apesar de manterem a fantasia do contos de fadas nos eventos oficias. Não tardou muito e os dois começaram a procurar consolo nos braços de outras companhias: Charles com sua ex-amante, Camilla Parker Bowles, e Diana com seu guarda-costas, Barry Mannakee. Após a morte deste em um trágico acidente de moto em 1987, a princesa se envolveu em um caso amoroso com James Hewitt, um oficial de cavalaria britânico que mais tarde vendeu toda a história de seu affair com Disna.

O relacionamento entre a rainha e a Primeira-Ministra ficou particularmente tenso a partir do ano de 1986.

Com feito, além de ter que lidar com os problemas do casal de Gales, a rainha Elizabeth II passava por verdadeiros sufocos com a gestão de Margaret Thatcher. Sua política neoliberal, que incluía privatizações de empresas estatais e limitação do poder dos sindicatos trabalhistas, foi muito mal vista pela população e até mesmo pelo príncipe Charles, que escreveu cartas ao Ministério criticando as atitudes da Primeira-Ministra. De acordo com Andrew Marr:

A questão mais interessante é saber se a família real de alguma forma se opunha aos princípios da revolução conservadora de Thatcher. Defensores arraigados do governo e alguns da esquerda sempre suspeitaram que sim. Como prova, há quem aponte que o príncipe Charles tinha inclinação para se interessar pela pobreza urbana. Lorde Charteris[1], o secretário particular que talvez conhecesse a rainha melhor do que toda a sua tribo, depois de aposentado disse ao historiador Peter Hennessy: “Pode-se dizer que a rainha prefere um tipo de política consensual, em vez de polarizada, e eu suspeito que seja verdade, embora eu realmente não possa falar com conhecimento de causa nesse caso [com relação a esse último ponto, Hennesey achou que Charteris estava dissimulando]. Mas, se você está na posição da rainha, você é o titular, a cabeça simbólica do país, e quanto menos disputas ocorrerem, obviamente será mais conveniente e você se sentirá mais confortável” (MARR, 2012, p. 307-8).

Em junho de 1986, quando Thatcher já estava há 7 anos ocupando o cargo de Primeira-Ministra, o Sunday Times, de Rupert Murdoch, publicou uma suposta entrevista concedida por Michael Shea ao jornalista Simon Freman, na qual Shea afirmou que a rainha teria expressado que Margaret era uma mulher indiferente, confrontadora e socialmente divisiva. Entre outras informações, a matéria dizia também que Elizabeth ficou preocupada com a greve dos mineiros e muito desapontada com o acordo entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para bombardearem a Líbia.  Não menos importante, a rainha estava supostamente indignada com a recusa de Thatcher em aprovar as sanções contra o regime do apartheid na África do Sul. A matéria concluía dizendo que a soberana enxergava na Primeira-Ministra “uma rival astuta e política que está deveras preparada para tomar Downing Street se provocada”.

A reportagem, por sua vez, causou danos relevantes à posição de Elizabeth como monarca constitucional. Quando a soberana colocou Michael Shea diante de Margaret Thatcher para esclarecer toda a confusão, ele se desculpou com a Primeira-Ministra, que teria lhe dito para que ficasse tranquilo, pois aquilo era “um monte de bobagens”. O Sunday Tmes, por sua vez, desmentiu a negativa de Shea, de que os depoimentos “pretensamente expressando a opinião da rainha sobre políticas no governo eram totalmente desprovidas de fundamento”. De fato, a rainha se abstém de manifestar qualquer opinião política. Uma das poucas vezes em que ela o fez foi quando o presidente Yeltsin, a bordo do Britannia, lhe perguntou insistentemente se devia ou não encarar uma reeleição. Cansada de tanto o ouvir, Elizabeth teria respondido que “pela forma como você tanto fala no assunto, eu diria que sim”. Para muitos, sua maior conquista tem sido amenizar e humanizar o processo de uma nação em declínio. Nesse contexto, as viagens oficiais da soberana para outros países possuem um papel importantíssimo. Elas se dividem em quatro tipos: a) as viagens oficiais, que duram geralmente três dias[2]; b) as digressões reais aos países da comunidade; c) as que correspondem a um objetivo específico; d) as viagens particulares.

O duque e a duquesa de York em 1986.

Em junho 1986, a família real ganhou um novo membro: Sarah Fegurson, ou simplesmente “Fergie”, como era apelidada pelos parentes e amigos. Filha do major Ronald Ferguson, Sarah se tornou duquesa de York por seu casamento com o príncipe Andrew. Juntos, os dois são pais das princesas Beatrice e Eugenie, mas nunca gozaram da popularidade do casal de Gales. Assim como estes, o casamento dos York estava fadado ao fracasso, bem como a união da princesa Anne com Mark Philips. De repente, todo o sistema cuidadosamente controlado pela rainha, baseado na unidade familiar e na fidelidade conjugal, parecia ruir debaixo de seus próprios pés. E os responsáveis por esse colapso eram ninguém além de seus próprios filhos. O tabloides faziam uma cobertura suja da vida íntima da realeza e ninguém parecia imune aos seus ataques, exceto talvez a própria soberana e a rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, que ainda era vista como um símbolo do nacionalismo pós Segunda Guerra. Entrando na década de 1990, a Guerra do Golfo envolveu o governo de Margaret Thatcher em uma grave crise de confiança, fazendo com que a Primeira-Ministra perdesse o apoio da maioria dos membros do Partido Conservador. Sem mais opções, ela renunciou ao cargo depois de 11 anos no poder. Mas, conforme os anos seguintes provaram, o pior ainda estava por vir.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

MORTON, Andrew. Diana: sua verdadeira história em suas próprias palavras. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

Notas:

[1] Quando Michael Adeane, secretário particular da rainha, se aposentou em 1972, ele foi substituído por Martin Charteris, que havia servido anteriormente a soberana antes de ela ascender ao trono.

[2] Em 1968, por exemplo, ele visitou o Brasil, viajando por Recife, Salvador, São Paulo e Rios de Janeiro.

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