“Queremos vê-la, não vê-lo”: Diana, Charles e o sucesso da princesa de Gales na turnê real de 1983!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em março de 1983, o príncipe e a princesa de Gales receberam da rainha Elizabeth II uma importante missão: embarcar em uma turnê de seis semanas pela Austrália e pela Nova Zelândia, onde crescentes focos de republicanismo ameaçavam a influência da Coroa. O recém-eleito líder trabalhista, Robert James Lee “Bob” Hawke, dissera de forma bastante desdenhosa que não pretendia recepciona-los. “Não acho que dar-lhes (a Charles e a Diana) as boas-vindas é a coisa mais importante que vou ter que fazer nos meus primeiros nove meses no cargo”, sintetizou grosseiramente o Primeiro-Ministro australiano. Sobre o príncipe Charles, ele foi ainda mais debochado: “Não acho que vamos ficar conversando sobre os reis da Austrália para sempre”. Assim como ocorreu em 1954 (quando Elizabeth e Philip fizeram uma turnê de sucesso pelo país), a soberana acreditava que só o encanto provocado pela presença de um membro da família real poderia amenizar a situação. Contudo, não foi por Charles que os australianos caíram de amores, e sim pela sua esposa de 21 anos. A excursão não só estabeleceu a figura de Diana como uma celebridade internacional, como também lhe deu mais confiança para lidar com o assédio diário dos paparazzi e das multidões aglomeradas ao seu redor.

Charles, Diana e William deram início à sua viagem real na pacata cidade de Alice Springs, onde a realeza dormiu em um motel e Charles encantou os espectadores enxotando a “primeira mosca australiana” do rosto de William.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

Charles vestiu um conjunto adequado para o gramado, enquanto sua esposa (então uma nova mãe!) era um verdadeiro raio de sol, conhecendo crianças em idade escolar em Alice Springs. Diana, que já trabalhou como assistente em um jardim de infância, sempre foi uma pessoa natural com crianças.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

Diana e Charles posaram em frente à Pedra de Ayer, um Patrimônio Mundial da UNESCO, em 21 de março de 1983, perto de Alice Springs. A princesa parecia fresca como uma margarida, em um vestido de  camisa, desenhado por Benny Ong.
Foto: © David Levenson / Getty Images

Uma Diana vestida de rosa com estampa floral atraiu multidões de admiradores do lado de fora da Opera House, em Sydney. O ícone de estilo superou seu conjunto Belville Sassoon, com um chapéu de John Boyd.
Foto: © Jayne Fincher / Princess Diana Archive / Getty Images

Foi novamente com um vestido rosa que Diana, ao lado de Charles, acenou para a multidão mais tarde na turnê. O espetacular anel de noivado de Diana, que a duquesa de Cambridge usa hoje, pode ser visto em toda a sua glória.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

Com efeito, quase toda a imprensa mundial viajou à Austrália para cobrir a turnê real. Havia não só fotógrafos ingleses, como também outros setenta da França, Estados Unidos, Alemanha e Japão. “Havia milhares de jornalistas nos acompanhando. […] O mundo todo focava em mim todos os dias. Estava na primeira página dos jornais. Achei aquilo tão estarrecedor”, disse Diana em depoimento para o seu biógrafo, Andrew Morton. O sucesso da princesa de Gales foi tão estrondoso, que exerceu um efeito esmagador no ego de Charles. Segundo o fotógrafo Kent Gavin, do Daily Mirror, de cada 100 fotos tiradas por ele durante a viagem, pelo menos 92 envolviam Diana e apenas 8 destacavam o príncipe. Na época, o fotógrafo disse: “ela é tão popular, que fica sob as minhas lentes desde o momento em que chega a algum lugar até o momento em que se retira”. O herdeiro do trono, porém, descontou sua frustração na própria esposa: “Ele estava com inveja”, disse Diana para Andrew Morton. “Entendi a inveja, mas não conseguia fazer com que ele entendesse que eu não procurara aquilo”, completou a princesa. Só em Brisbane, cerca de 400 mil pessoas foram para as ruas gritar o nome de Diana, paralisando assim o centro da cidade.

De acordo com o depoimento de Jayne Fincher, fotógrafa oficial da casal real que acompanhou a saga de Diana desde o início: “A multidão era amigável para o príncipe, mas era louca pela sua mulher”. A devoção à princesa de Gales irrompia de todos os lados e seu marido logo compreendeu que era ela e não ele a atração principal. Charles podia ser o herdeiro do trono, mas Diana definitivamente era a estrela da viagem. “Quando caminhavam por lados opostos da mesma rua, a multidão, desiludida por vê-lo e não a ela, lamentava-se abertamente”, relembra Fincher. A reação do príncipe ao desinteresse público sobre a sua pessoa era expressada por frases irônicas como: “Desculpem, mas tenho somente uma esposa – e ela está ali!”. Nas fotografias tiradas durante a esgotante turnê, é possível observar as pessoas se agarrado à barra da saia de Diana, tocando sua pele ou enchendo seus braços de presentes, como se ela fosse algum tipo de divindade clássica, a quem se prestava veneração. “Fomos a Sydney com a intenção de fotografa-la na Opera House, mas assim que chegamos lá foi como se toda a cidade tivesse saído de casa. Era um mar de gente espalhada até onde a vista alcançava”, recorda-se Fincher. Apenas o topo do chapéu da princesa podia ser visto entre a multidão.

Charles e sua amada vestiram roupas formais (ela em um vestido vermelho de babados, desenhado por Bruce Oldfield e a tiara da Família Spencer) para uma recepção estatal em Hobart, Tasmânia, em 30 de março de 1983.
Foto: © Jayne Fincher / Princess Diana Archive / Getty Images

A jovem princesa recebeu uma gargantilha de pérolas, que ela usou em uma visita a Jane Eliza Landing, em Renmark, no seu aniversário de 18 anos. Foi um presente da Família Spencer, que completou seu conjunto vermelho e branco assinado por Jan Van Velden .
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

Charles segura um pequeno buque, enquanto Diana recebe dezenas de flores no seu passeio em carro aberto pelo parque memorial em Bunbury, na Austrália.
Photo: © Anwar Hussein/Getty Images

A princesa Diana durante sua visita oficial à Austrália, no Hotel Brisbane, em 10 abril de 1983. Ela usa um vestido desenhado por Victor Eldestein.

Nenhuma viagem à Austrália está completa sem conhecer um dos personagens mais amados do país, Crocodile Dundee – ou, pelo menos, o ator que o interpretou, Paul Hogan. O Príncipe e a Princesa de Gales fizeram exatamente isso no Melbourne Concert Hall, durante sua turnê real pela Austrália.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

Quem também embarcou nessa viagem foi o pequeno príncipe William, por insistência da própria mãe, quebrando assim um protocolo da realeza. Em 1954, quando a rainha Elizabeth viajou à Austrália e à Nova Zelândia, ela e Philip não levaram consigo os pequenos Charles e Anne, que ficaram sob os cuidados da avó. Ao retornar para a Inglaterra, a soberana recebeu seu filho diante dos olhos da imprensa com um simples aperto de mão, o que até hoje é visto como um gesto de frieza. Com Diana seria diferente. Depois de um difícil processo de depressão pós-parto, a ideia de se separar do filho por seis semanas era bastante difícil de aceitar. Enquanto o príncipe e a princesa visitavam cada Estado australiano, seu filho de nove meses ficou sob os cuidados da babá em Woomargama, uma fazenda de criação de ovelhas em New South Wales. A cada três ou quatro dias, os pais interrompiam a agenda de compromissos para visitar o bebê. Era em momentos como aquele que o casal podia desfrutar de um verdadeiro idílio familiar. Conforme o próprio Charles reconheceu aos seus amigos Van Cutsems: “A grande alegria é que ficamos juntos completamente sozinhos”. Foi também durante essas semanas que William deu seus primeiros passos diante das lentes dos fotógrafos.

No seu primeiro compromisso na School of the Air, de Alice Springs, Diana podia ser vista agachada de forma encantadora, colocando-se à altura das crianças que estavam ao seu redor, enquanto Charles permanecia em pé ao seu lado. Mas, por detrás da fachada de doçura, a princesa chorava por conta da exaustão e do nervosismo. Ela se sentia constantemente ansiosa para estar perto de William, ao mesmo tempo em que fragilizada pelos acessos de bulimia. “Estava quente, eu estava cansada por causa do fuso horário, enjoada. Magra demais”, relembrou a princesa sobre seu estado de saúde naquele dia. “Essa foi a primeira tarefa difícil, o lado ruim de ser princesa de Gales”. No início da turnê, uma festa foi oferecida para o casal em Melbourne, no Southern Cross Hotel. Segundo o fotógrafo da Associated Press, Ron Bell, Charles estava radiante quando as portas do elevador se abriram: “Ron, ela não é absolutamente linda? Estou muito orgulhoso dela”. Embora se ressentisse pela a atenção exagerada da imprensa dispensada a Diana, nem mesmo Charles podia resistir ao seu charme. Afinal, a princesa tinha desabrochado em uma mulher exuberante e se revelado um valioso trunfo político. O príncipe, por sua vez, acreditava que toda essa adoração para com sua esposa era consequência da cerimônia do casamento, “porque foi muito bem executada, e porque foi como um filme maravilhoso, quase hollywoodiano”, disse ele a um amigo.

Diana usou um vestido estampado da marca Miss Antoinette, para um passeio em uma das diligências de Ballarat, na Austrália, em uma das maiores carruagens vitorianas existentes no país.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

William voltou para brincar em Melbourne, em 16 de abril de 1983, quando a família chegou para seu último dia na Austrália.
Foto: © David Levenson / Getty Images

Tchau! Diana e Charles acenaram um adeus ao deixarem o aeroporto de Melbourne, em 17 de abril de 1983, no final de sua primeira viagem real pela Austrália. Diana parecia tão chique quanto uma viajante poderia estar em seu vestido de estampa de penas azul royal.
Foto: © David Levenson / Getty Images

Olá, Nova Zelândia! Diana iniciou a segunda etapa de sua turnê real com Charles e William fazendo a tradicional saudação maori da massagem no nariz, no Eden Park Stadium, em sua chegada em 18 de abril de 1983 em Auckland. Ela usava um vestido desenhado por Donald Campbell e um chapéu por John Boyd.
Foto: © David Levenson / Getty Images

Diana encontra uma multidão em uma caminhada pelo centro da cidade de Wellington, em 20 de abril de 1983.

Todavia, a excitação dos compromissos deu uma nova injeção de ânimo em Diana. “A princesa aparecia sempre a sorrir por entre cheias, incêndios florestais e secas, do interior escaldante às cidades costeiras da Austrália”, disse Fincher. Apesar da agenda esgotante, com mais de 40 voos de um Estado a outro para apertar uma infinidade de mãos e participar de recepções, banquetes e passeios públicos, o príncipe e a princesa permaneceram firmes até o final. O que mais encantava ao povo australiano era a forma descontraída como Diana se dirigia às pessoas, algo bem diferente da arrogância colonial dos Windsor. O assessor de imprensa na viagem, Victor Chapman, recebia vários telefonemas do príncipe tarde da noite, reclamando da cobertura pouco expressiva que ele estava recebendo da imprensa. Em uma carta para amigos datada de 4 de abril, ele disse que estava “verdadeiramente aflito” por Diana: “Ela não pode fazer nenhum movimento sem que essas pessoas terríveis e, estou quase convencido, pessoas insensatas fiquem fotografando… O que deu nelas?”. O questionamento do herdeiro do trono era plausível. Conforme ele mesmo acrescentou: “Como é que se pode esperar que alguém, quanto mais uma pessoa de 21 anos, saia ilesa de toda essa atenção obsessiva e alucinada?”.

Realmente, a viagem de seis meses pela a Austrália e pela Nova Zelândia mudaram para sempre a forma como a outrora tímida Diana Spencer enxergava sua posição dentro da casa real. Em termos políticos, a turnê foi um verdadeiro sucesso e o crédito pode ser dado completamente a ela. Durante a passagem pela Nova Zelândia, o casal já estava visivelmente fatigado. Apesar das multidões serem menores ali do que na Austrália, eles mantiveram a agenda de compromissos e formavam agora um par mais experiente. Diana foi vista fazendo a saudação tradicional neozelandesa, segundo o costume Maori de roçar alegremente os narizes em vez de um aperto de mãos. Eles também desfrutaram de um passeio em uma canoa de guerra, com dezenas de guerreiros a bordo, que fizeram o transporte quase afundar. Em vez de ficar apreensiva, a princesa deu gostosas risadas. Jayne Fincher se lembra: “Quando um chefe Maori avançou na direção deles com uma lança imitando um desafio tradicionalmente feito a estranhos, Diana começou por recuar, dizendo: ‘Meu Deus, pensei que ele fosse me atacar!’, mas, depois, desatou às gargalhadas”. Sem dúvidas, sua autoconfiança havia sido reforçada após o seu estrondoso sucesso na Austrália.

Charles e Diana posam para um retrato no gramado da Casa do Governo, em Auckland, enquanto se divertem e brincam com o pequeno príncipe, que supostamente estava mordendo o brinquedo “abelhinha” dado a ele pela esposa do Governador-Geral .
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

O jovem casal encontrou o irmão mais novo de Charles, o príncipe Edward, na Wanganui Collegiate, na Nova Zelândia, onde Edward era tutor júnior por dois períodos. Diana usava um lindo vestido azul royal com cinto e debrum preto.
Foto: © David Levenson / Getty Images

Em 29 de abril de 1983, marido e mulher se viram em uma canoa Māori.
Foto: © Tim Graham Photo Library via Getty Images

A princesa de Gales usando um vestido desenhado por Donald Campbell, na Nova Zelândia.

Diana usando a famosa Queen’s Cambridge Knot Tiara, um esplendor neo-clássico de diamantes e pérolas, que foi dado à princesa por sua sogra como presente de casamento. Ela a usou no banquete de despedida na Nova Zelândia. Seu vestido de noite em seda cremosa é da estilista Gina Fratini.
Foto: © Anwar Hussein / Getty Images

Com o término da turnê, uma pesquisa de opinião feita entre os australianos revelou que os monarquistas superavam os republicanos em razão de 2 para 1. O objetivo político da viagem tinha sido cumprido com louvor, embora a um custo muito alto para a estabilidade do casamento de Charles e Diana. “Quando voltamos de nossa viagem de seis semanas, eu era uma pessoa diferente. Mais adulta, mas nada comparado ao processo pelo qual passaria nos quatro ou cinco anos seguintes”, disse Diana em depoimento para Andrew Morton. “Basicamente, nossa viagem foi um grande sucesso. Todos sempre diziam quando estávamos no carro ‘Ah, estamos do lado errado, queremos vê-la, não queremos vê-lo”. Para Charles, ouvir isso das multidões foi um duro golpe para sua autoestima. “Ele não estava acostumado àquilo, e nem eu. Ele descontou em mim”, confessou a princesa. Na opinião de Alan Clark, um aristocrata conservador, até mesmo a rainha Elizabeth se sentiu ameaçada pela enorme popularidade da nora: “Ali estava, nitidamente, uma rival desde o princípio. Era a personificação do ‘que viria no futuro’. Um ícone que se moldava a todas as imagens que habitavam a fantasia dos jovens”. A turnê de 1983 só confirmou o que ficaria ainda mais nítido nos próximos anos: que Diana era o rosto e a essência de uma nova espécie de realeza!

Referências Bibliográficas:

BROWN, Tina. Diana: crônicas íntimas. Tradução de Iva Sofia Gonçalves e Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

FINCHER, Jayne. Diana: retrato de uma princesa. Tradução de Carla de Sousa. Lisboa: Callaway, 1998.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

Sites:

HELLO! – Acesso em 20 de novembro de 2020.

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