A Rainha Elizabeth II e sua luta de 70 anos para salvar a casa de Windsor – Parte IV

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 1962, quando a então primeira-dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy, abriu as portas da Casa Branca para as câmeras de TV, o mundo inteiro parou para assistir. Em uma República como a norte-americana, tal exibição criava um vínculo especial entre o público o presidente John F. Kennedy, a quem a rainha da Inglaterra recepcionou no palácio de Buckingham um ano antes. Mas, em um regime como a Monarquia, onde o mistério e o cerimonial são cruciais, esse estratagema não funcionou. Alguns críticos consideraram que o documentário sobre a família real nada mais era do que um prelúdio para a investidura de Charles como príncipe de Gales[1]. Foi o conde de Snowdon, marido da princesa Margaret, quem organizou o evento no castelo de Caernarfon, adaptando a cerimônia secular para os tempos modernos. O sucesso da investidura foi interrompido apenas pelos movimentos nacionalistas organizados pelos galeses, que estavam descontentes com sua posição no Reino Unido. O tratamento da mídia para com a realeza também vinha endurecendo, especialmente depois do australiano Rupert Murdoch adquirir o News of the World, entre outros jornais como o The Sun. Para os seus tabloides sensacionalistas, a vida íntima dos Windsor era um prato cheio.

A rainha Elizabeth II e o príncipe Philip durante as comemorações do Jubileu de Prata.

Internamente, a família real enfrentava vários problemas. Em sua biografia autorizada, publicada anos mais tarde pelo jornalista Jonathan Dimbleby, Charles disse que sua relação com os pais sempre foi mais protocolar do que afetiva, fazendo com que a rainha parecesse uma mãe insensível. O tradicionalismo dos Windsor foi confrontado com o estilo de vida em voga nos anos 1960 e 1970. Ironicamente, o membro da família real que parecia melhor adaptado à corrente dos novos tempos era a princesa Margaret, que era constantemente vista em festas e na companhia de celebridades. Logo, seu comportamento dispendioso começou a render críticas não apenas entre os membros do Partido Trabalhista, como também na imprensa. Notícias sobre os casos extraconjugais da princesa e do seu marido enchiam as páginas dos jornais de Murdoch, comprometendo de vez a deferência que a imprensa costumava ter para com a realeza. A situação atingiu seu clímax quando o jovem paisagista Roddy Lewellen assumiu publicamente seu affair com a irmã da rainha. A separação do conde e da condessa de Snowdon aconteceu pouco depois. Em 1978, os jornais noticiaram o primeiro divórcio real desde Henrique VIII e Ana de Cleves, em 1540.

No plano político, Elizabeth II precisava lidar com o fato de que a Comunidade de Nações aos poucos se desintegrava. Até hoje, a soberana defende os interesses deste grupo acima dos desejos individuais de qualquer um de seus membros. Criado em 1949 a partir dos destroços do antigo Império Britânico, a rainha atualmente é chefe de 16 dos 54 países que fazem parte da Comunidade[2]. Seu trabalho com os outros líderes mundiais consiste em os encontrar, ouvi-los, mas nunca os interrogar. Depois da Índia e da África do Sul terem cortado seus vínculos com o governo da Inglaterra, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia engrossaram o coro dos insatisfeitos. No Canadá, os focos de republicanismo se intensificaram nos anos 1960. Em 1964, quando Elizabeth II fez uma viagem diplomática a Quebec, ela foi recebida de costas por alguns australianos contrários à ideia de uma monarquia. Não obstante, desde a década de 1970 que o governo australiano já se prepara para a possibilidade da criação de uma nova República[3]. Panfletos com o rosto da rainha, com um alfinete amordaçando os seus lábios, foram espalhados pelos antimonarquistas, que enxergavam a instituição como algo ultrapassado. Em 1975, o político Willie Hamilton publicou o best-seller My Queen and I, no qual fazia duras críticas ao papel da soberana é à instituição que ela representa.

Contudo, em 1978, quando Elizabeth II completou 25 anos no trono e as comemorações para o seu Jubileu de Prata começaram a ser preparadas, houve uma ligeira e benéfica mudança na opinião pública com relação à família real. É curioso como, ainda hoje, basta o Palácio de Buckingham estender o tapete vermelho para que o frenesi popular em torno da figura da monarca aumente. No seu discurso proferido em Guildhal, Elizabeth disse que enxergava a Coroa como um símbolo da associação livre e voluntária entre os povos. Em outras palavras, ela se referia a uma espécie de monarquia democratizada, embora ainda afeita aos seus privilégios hereditários. Tudo parecia estar se acalmando no final da década de 1970, quando o inesperado aconteceu. Em 27 de agosto de 1979, enquanto navegava pela costa irlandesa próximo à sua propriedade, Louis de Mountbatten foi assassinado pelo IRA (Exército Republicano Irlandês). Sua lancha explodiu, matando o velho conde de 79 anos, seu neto e deixando outros tantos feridos. Com essa atitude terrorista, o IRA pretendia ameaçar o governo britânico quanto à unificação das duas Irlandas. Nesse mesmo ano, foi eleita a primeira mulher na história do parlamentarismo inglês para o cargo de Primeira-Ministra: Margaret Thatcher.

Margaret Thatcher

Segundo depoimento de antigos funcionários do palácio, o relacionamento da rainha com a Primeira-Ministra foi classificado como “difícil”. Eram duas mulheres da mesma idade, mas com origens diametralmente opostas. Filha de um dono de mercearia que mais tarde se tornou vereador, Margaret Thatcher conseguiu se graduar em Química pela Somerville College, na Universidade de Oxford e depois seguiu a carreira política. Em 1975 ela se tornou a líder do Partido Conservador e quatro anos depois venceu o Trabalhista James Callaghan nas eleições para o cargo de Premiê. De repente, a rainha se viu em uma situação bastante delicada: era criticada pela esquerda marxista e também pelos radicais de direita, que desaprovavam sua relação como os líderes comunistas de países membros da Comunidade de Nações. Chamavam-na de socialista e faziam sátiras dela ao lado do busto de Lênin. De sua parte, Thatcher nunca deu apoio a esse tipo de vitupério e sempre tratou a soberana com o máximo de deferência. O relacionamento entre as duas foi facilitado por Denis Thatcher, marido da Primeira-Ministra, devido ao seu caráter mais descontraído. Com o tempo, as duas passaram a se tratar de forma mais cordial, apesar das supostas intrigas alimentadas pelos jornais de Rupert Murdoch.

No início dos anos 1980, os gastos da monarquia superaram a sua renda anual. Diante dessa situação, a rainha precisou contratar especialistas de Oxford e Cambridge para reorganizar as finanças do palácio. Não se via uma crise como essa na instituição desde a abdicação de Eduardo VIII, em 1936. De acordo com os dados fornecidos pelo Ministério das Finanças, as fontes de renda da rainha provém de: a) Lista Civil – tesouro da monarquia e as propriedades da Coroa; b) as propriedades que financiam os seus gastos, como o ducado de Lancaster; c) os investimentos na Bolsa Privada. Depois de uma reforma orçamentária feita em 1980, apenas a soberana, o príncipe Philip e a rainha-mãe continuaram recebendo dinheiro da Lista Civil, enquanto os membros secundários da família real seriam sustentados pelo salário da própria Elizabeth. Já o príncipe Charles, seus rendimentos possuem origem no ducado da Cornualha e ele não tem participação na redistribuição do dinheiro pago pela Lista Civil. Segundo dados de 2011, o custo anual da monarquia para o bolso do contribuinte é de 32,8 milhões de libras, sendo que a rainha paga impostos sobre a sua fortuna pessoal. Anualmente, um comitê de parlamentares se reúne especialmente para avaliar seus rendimentos.

Aos 54 anos e reinando já há quase 30, Elizabeth II conseguiu manter a estabilidade da casa real, a despeito das várias manifestações contrárias ao regime. Na opinião do historiador Robert Lacey, seu reinado se destaca pela forma como a monarquia conseguiu se adaptar à Era da TV, transformando a monarca em um rosto internacionalmente conhecido. Contudo, nos anos 1980 sua vida chegou a correr alguns riscos. Após o assassinato de Mountbatten, o IRA continuou sua onda de atentados, machucando membros da criadagem do palácio com bombas de prego. Em 13 de junho de 1981, enquanto fazia a tradicional saudação do Trooping The Colour, um rapaz entre a multidão disparou três tiros de festim contra a rainha, deixando sua égua bastante assustada. Não fosse Elizabeth uma exímia amazona, então um possível desastre poderia ter acontecido ao animal e à sua cavaleira. No mês seguinte, um homem de 30 anos, Michael Fagan, conseguiu invadir os aposentos da monarca no palácio de Buckingham. Estava aparentemente confuso e com uma das mãos machucadas por ter quebrado uma janela. Ele pediu um cigarro à rainha, que tentou acalmar o invasor até que a guarda apareceu e conseguiu removê-lo do local. Depois desse episódio, ficou claro para a polícia e o Ministério da Defesa que a soberana não estava segura em caso de um possível atentado do IRA.

Lady Diana Spencer.

Contudo, o ano de 1981 não trouxe apenas preocupações políticas e financeiras para a Elizabeth II. Um rosto novo acabava de entrar para a família real: Lady Diana Spencer. Filha do oitavo conde Spencer, Diana era uma garota de 19 anos quando começou seu relacionamento com o príncipe de Gales. Tímida e com um histórico escolar mediano, ela conquistou rapidamente os olhares da mídia, por seu porte belo e aristocrático. Sem dúvidas, aquela parecia a candidata ideal para o posto de futura rainha da Inglaterra. Durante anos, Charles se envolvera com diversas moças à procura de uma consorte adequada. Seguindo o conselho do falecido Lorde Mountbatten, ele precisava de alguém que fosse jovem, dócil, que os ingleses pudessem colocar em cima de um pedestal e adora-la. Aos olhos da imprensa, Diana parecia uma noiva recém-saída dos contos de fadas. Até mesmo o governo Thatcher tirou proveito da situação para sufocar a frustração causada pela sua incapacidade de controlar a recessão econômica e o desemprego em massa. Afinal, nada como um casamento real para fazer diminuir as ondas de protestos pela Grã-Bretanha a atrair os ingleses novamente para o seio da monarquia. A partir do momento em que Diana Spencer entrou para a família mais famosa do mundo, nada mais seria como antes.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

Notas:

[1] Charles foi o primeiro membro da família real a frequentar Cambridge, onde obteve um diploma em História.

[2] Durante o mandato de Edward Heath como Primeiro-Ministro, a Grã-Bretanha entrou para a União Europeia.

[3] Em 1999, uma pesquisa feita com os australianos constatou que 55% da população prefere manter a rainha, em vez de adotar um regime republicano.

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