A rainha e sua neta: a ligação especial entre Vitória I do Reino Unido e Alexandra Feodorovna

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 7 de março de 1917, num dia frio de inverno, a imperatriz Alexandra Feodorovna se aconchegava defronte à lareira de seu Boudoir Malva, no palácio Alexandre, em Tsárskoe Seló. Ao seu lado, havia uma mesa contendo uma pilha de cartas, documentos e diários pessoais, que remontavam à época de sua juventude em Hesse. Um a um, a czarina atirou os papeis às chamas, enquanto lágrimas lhe corriam pelos olhos. O fogo da lareira aumentava à medida em que as lembranças de Alexandra em Osborne, Balmoral e Windosr eram consumidas por ele. Apenas alguns dias antes, a notícia da abdicação de Nicolau havia chegado aos seus ouvidos e a soberana julgou prudente se livrar de qualquer documento que pudesse ser utilizado contra o marido. Um maço de cartas, cuidadosamente atado com fitas, passou em seguida pelas suas mãos. Tinham-lhe sido endereçadas pela sua avó, a rainha Vitória, assim como por outros parentes, tais como seu irmão Ernie, seu pai Luís de Hesse, e suas irmãs Victoria, Irene e Ella. Quantos pensamentos não devem ter passado pela mente da imperatriz, antes que ela entregasse aquele precioso conteúdo às chamas da lareira? Alguns dos momentos mais felizes de sua vida estavam registrados ali e agora tudo se transformava em cinzas.

Retrato da princesa Alice do Reino Unido, pintado em 1861 por Franz Xaver Winterhalter.

Alexandra Feodorovna, nascida Alice Victoria Helena Louise Beatrice de Hesse-Darmsdat, era a sexta filha do grão-duque Luís IV de Hesse com a princesa Alice do Reino Unido. Encantada com a chegada de mais uma menina na família, a mãe da criança escreveu à rainha Vitória que Alicky (adaptação eufônica mais aproximada de Alice, no alemão) era “uma pessoinha alegre, sempre rindo, com covinha numa bochecha” (apud MASSIE, 2014, p. 48). No seu batismo, ela teve como padrinhos o czar Alexandre III da Rússia e o futuro rei Eduardo VII, então príncipe de Gales. A menina sorridente logo foi apelidada pelos familiares de Sunny, (“Ensolarada”). Crescendo na atmosfera frugal do palácio do grão-duque, a pequena Sunny e suas irmãs eram constantemente vigiadas das paredes pelos retratos expostos da rainha Vitória, sempre com uma expressão séria e olhar duro. Sua educação contemplou um rígido sistema de horários, cumpridos sobre os auspícios de Mrs. Orchard, uma governanta inglesa enviada para supervisionar as crianças de Hesse. Viviam de palácio em palácio, visitando a avó anualmente em Windsor, Balmoral, ou nas Terras Altas da Escócia, na belíssima Osborne House. Nesses lugares, uma afeição especial se desenvolveu entre a rainha e sua netinha.

Com efeito, Vitória achava Alicky “a criança mais bonita que já vi”, com seu rostinho redondo e rosado, olhos azuis e cabelos loiro-arruivados (apud RAPPAPORT, 2016. 34). Não demorou muito e a tristeza se abateu sobre aquela família antes feliz: em maio de 1873, o filho de dois anos da princesa Alice, Frederico (apelidado de Frittie) morreu de hemorragia interna provocada por uma queda de seis metros de uma janela. Apenas um ano antes, a criança tinha sido diagnosticada com hemofilia, assim como o seu tio e padrinho, o príncipe Leopoldo. Em 1878, quando Alicky tinha seis anos, um surto de difteria levou embora sua irmã mais nova, May. A família inteira caiu doente, exceto a mãe, que cuidou zelosamente de cada um deles. Infelizmente, a grã-duquesa também foi contaminada pela enfermidade, falecendo em 14 de dezembro, aos 35 anos. Ao saber da notícia, a rainha Vitória ficou despedaçada, lamentando a perda desta filha “tão querida, inteligente e distinta, de bom coração e espírito nobre” (apud KING, 1995, p. 38).  Da Inglaterra, ela enviou uma carta de condolências para seus pequenos netos, que agora ficavam órfãos de mãe:

Pobres e queridas crianças, pois a todos escrevo – vocês sofreram o golpe mais terrível que pode recair sobre as crianças – perderam a vossa preciosa, a vossa querida e abnegada mãe, que os amava – e que havia consagrado sua vida à de vocês, seus filhos, e a vosso querido papai. Essa horrível enfermidade que levou a doce e pequena May, e da qual vocês e os demais se recuperaram, os atingiu tanto quanto a sua velha avó, que com sua outra boa avó tratará de ser uma boa mãe para todos. Oh! Queridas crianças, a amada mamãe foi se juntar ao seu avô e com o outro avô e com Frittie e a doce e terna May, num lugar onde não existe dor nem separação. Desejo conhecer todos os detalhes. Pobre e querido Ernie, sentirá tão terrivelmente tudo isso. Que ele e o querido papai não sofram em demasia a causa desse golpe terrível. Façam todo o possível para reconfortar e ajudar ao pobre e querido papai. Que seja feita a vontade de Deus. Que Ele apoie e ajude a todos. De vossa devotada e muito entristecida avó, VRI (apud KING, 1995, p. 39).

A morte da irmã mais nova, a quem era muito apegada, e da mãe um mês seguinte, tiveram consequências irreversíveis na personalidade da antes extrovertida Sunny. Um semblante de tristeza se apoderou do seu rosto e apenas em raras ocasiões, quando estava no conforto da Inglaterra junto com sua avó e primos, ela se permitia sorrir e esquecer um pouco o peso daquelas perdas. A alegre disposição deu lugar a um comportamento introspectivo, atrelado a uma profunda desconfiança para com pessoas estranhas. Durante as visitas anuais à Inglaterra, Vitória fazia de tudo para agir como uma mãe substituta e exigia dos tutores da neta em Hesse que lhe enviassem regularmente relatórios sobre os seus progressos. De sua parte, Alicky correspondia a afeição da avó, assinando suas cartas endereçadas à rainha como sua “Filha muito carinhosa, respeitosa e grata” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 37). Nunca se esquecia qualquer data de aniversário de nascimento ou de morte, que eram importantes para a soberana. Quando a rainha visitou Darmstadt, em abril de 1880, ela ficou muito feliz ao comprovar que os aposentos da princesa Alice estavam intocáveis, desde o dia em que ela havia falecido, com um tecido negro cobrindo o leito da grã-duquesa de Hesse.

A rainha Vitória e a pequena Alicky.

Destarte, Vitória dava conselhos aos preceptores de sua neta sobre quais livros ela deveria ler, quais disciplinas cursar ou que tipo de instrumento deveria aprender a tocar. Alicky se deu muito bem com o piano e era constantemente convidada pela rainha a emitir uma melodia durante suas temporadas nas residências reais inglesas. As primeiras redações que escreveu, ainda sobre a supervisão da princesa Alice, eram quase sempre endereçadas à “querida vovó”. Aos 15 anos, Alicky tinha um ótimo conhecimento de História, Geografia, Literatura Inglesa e Germânica. Uma de suas tutoras inglesas, Margareth Jackson, transmitiu à jovem pupila o interesse pela política. Afinal, sua avó era uma das chefes de Estado mais poderosas da Europa. Vitória, porém, desaprovava esse tipo de incentivo e expressou o desejo de que não deixassem a neta sozinha “com a senhorita Jackson, com sua péssima saúde, suas atitudes ásperas e seu mau caráter. Tudo isso arruinaria Alicky” (apud KING, 1995, p. 56). A rainha exortava para que a tutora fosse substituída por uma senhorita mais jovem e terna, que lhe servisse como dama de companhia. Foi assim que Gretchen von Fabrice, governanta dos filhos da princesa Helena (tia de Alicky), entrou para o serviço da princesa.

Durante sua primeira visita à Rússia, em 1884, para o casamento de sua irmã Ella com o grão-duque Serguei Aleksándrovich, Alicky conheceu o herdeiro do trono, o czarevich Nicolau. Na época, ela tinha 12 anos. Ele, 16. Apesar de encantada pelos modos e aparência do príncipe, a jovem não cogitava a possibilidade de ter que mudar de religião para se casar, apesar de concordar em escrever para Nicky em segredo. A rainha Vitória, porém, tinha outros planos para ela. Seu desejo era que a neta aceitasse a proposta de casamento do primo Albert Victor, primogênito do príncipe de Gales. Em caso afirmativo, Alicky seria a próxima rainha da Inglaterra. Ela, entretanto, declinou da oferta, causando assim grande frustração na sua avó. “Receio que toda a esperança de Alicky se casar com Eddy tenha chegado ao fim” (apud MASSIE, 2014, p. 52), escreveu a soberana a uma amiga.

Ela escreveu para lhe dizer como é triste para ela causar-lhe tristeza, mas que não pode casar-se com ele, muito porque gosta dele como primo, que ele não seria feliz com ela e que não deve pensar nela… É uma verdadeira pena para nós… mas… ela diz que, se for obrigada, se casará, mas que seria infeliz e ele também. Isso mostra grande força de caráter, como toda a família dela e todos nós desejamos. Ela recusa a maior posição que há (apud MASSIE, 2014, p. 52-3).

Quando Albert Victor morreu em 14 de janeiro de 1892, em decorrência de uma epidemia chamada na época de gripe russa, especulou-se a possibilidade de Alicky se casar com o irmão mais novo dele, George, duque de York. Assim como aconteceu com o pedido anterior, a jovem se recusou. George, por sua vez, resolveu firmar compromisso com a noiva de seu finado irmão, Mary de Teck, e os dois se casaram no ano seguinte. Contudo, as tentativas de Vitória de casar sua neta com o herdeiro do trono demonstram as grandes expectativas que ela depositava na princesa. Aos 20 anos, Alicky era considerada uma mulher muito bonita, “afetuosa, boa e inteligente”, conforme descreveu sua avó (apud KING, 1995, p. 60).

Todavia, o ano de 1892 trouxe mais perdas para a família real. No dia 13 de março, Luís IV, grã-duque de Hesse, faleceu depois de um colapso nervoso, aos 54 anos. Nos últimos tempos, sua filha lhe era uma companhia constante. Todas as outras já estavam casadas e apenas Alicky permaneceu ao seu lado, ajudando-o no que fosse preciso. Quando a notícia chegou aos ouvidos da rainha, ela escreveu à sua outra neta, Victoria de Battenberg: “Isso é demasiado terrível… minha dor, que já era bastante esmagadora, aumenta ao pensar na tua angústia e em que o pobre Ernie e Alix estão sozinhos – órfãos… É terrível! Mas eu, entretanto, estou aqui, e enquanto eu viver, Alicky, até que se case, será mais que nunca minha própria filha” (apud KING, 1995, p. 58). A princesa, por sua vez, encontrou conforto para as perdas sucessivas de seus pais e irmãos na religião (havia se tornado uma luterana convicta) e na companhia da avó. Elas podias ser vistas juntas nas poucas aparições públicas da rainha, incluindo em visitas aos distritos mineradores de Gales. Vitória a mantinha perto de si constantemente. Mas, por trás da frieza e da expressão melancólica da jovem, havia também momentos de descontração, como a própria admitiu: “posso ser alegre, às vezes, e às vezes posso ser agradável, creio […] mas estou mais para uma criatura contemplativa e séria” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 40).

Uma questão que preocupava a rainha Vitória, que adorava se intrometer nos casamentos de seus filhos e netos, era a escolha de um noivo para Alicky. Acima de tudo, não desejava uma união com o czarevich Nicolau, uma vez que ela considerava a Rússia como “falsa” e “pérfida”. Suas hostilidades para com aquele país remontavam à época da Guerra da Crimeia (1853-1856) e ela então implorou aos outros filhos da princesa Alice, Victoria e Ernie, para que fizessem de tudo para dissuadir sua irmã mais nova dessa união. Porém, em São Petersburgo a grã-duquesa Ella trabalhava no sentido contrário. Quando Alicky visitou a Rússia novamente em 1890, a soberana demonstrou inquietude. Naquele ano, Vitória estava decidida a casar sua neta com Albert Victor e escreveu à princesa de Battenberg a seguinte carta:

Disse que lamentava que Alicky fosse de novo à Rússia, pois isso levava a muitas possibilidades – mas não quero dizer com respeito a Nicky, pois ele está longe, e além disso a ideia não pode prosperar por causa da religião; mais ainda, sei que Minny [a imperatriz da Rússia] não deseja isso. Em resumo, isso não pode acontecer. Mas existem muitos outros grão-duques e princesas. E eu ouvi dizer que Ella está decidida a intentar e conseguir um matrimônio com outro russo e eu afirmo que isso ofenderia gravemente ao tio Bertie e à tia Alix, o mesmo se sucede comigo. Mas talvez isso não seja verdadeiro e se tomardes o cuidado de dizer a Ella que nenhum matrimônio para Alicky na Rússia será permitido, então terminaremos com essa história (apud KING, 1995, p. 69).

Foto oficial do noivado entre Nicolau e Alexandra, feita em Coburg, no ano de 1894 (colorização: Kilmbim).

A oportunidade de juntar os dois apareceu por ocasião do casamento de Ernie, em 1894. Vários membros da família real compareceram à cerimônia em Coburg, incluindo Nicolau e seus tios. Dois anos antes, o czarevich tinha feito a seguinte anotação no seu diário: “Meu sonho é me casar algum dia com a princesa Alix H. Amo-a há longo tempo, e ainda mais forte profundamente desde 1889, quando ela passou seis semanas em São Petersburgo. Por muito tempo resisti ao sentimento de que meu mais caro sonho se realizasse” (apud MASSIE, 2014, p. 47). Naquele ano em Coburg, porém, Alicky estava quase decidida a aceitar o pedido, mas a mudança de religião era um problema grande para ela. O afeto mútuo entre os dois levou a rainha Vitória a deixar de lado seus preconceitos e ela então aconselhou a neta a aceitar o pedido. A princesa, depois de muito deliberar, aceitou com satisfação. Nicolau descreveu o momento como “maravilhoso, inesquecível. Hoje é o dia do meu noivado com minha querida e adorada Alix” (apud MASSIE, 2014, p. 54).

Com efeito, o jovem casal foi convocado a passar uma temporada na Inglaterra, sob os auspícios da rainha, para que pudessem se conhecer melhor e lá foram convidados para serem padrinhos do primogênito do príncipe George com Mary de Teck, o futuro rei Edward VIII. Enquanto isso, a noiva aprendia a história e a língua russa, bem como os rituais da religião ortodoxa grega. Essas semanas idílicas só foram interrompidas pela notícia do grave estado de saúde do czar Alexandre III. Os dois retornaram imediatamente para a Rússia, a tempo de receber a bênção do imperador. Porém, a chegada da noiva em seu novo país, naquelas circunstâncias, foi interpretado por muitos como um sinal de mau agouro. Alexandre morreu em 11 de novembro de 1894, passando a coroa para seu filho, que subiu ao trono como Nicolau II. Seu casamento com a recém-batizada Alexandra Feodorovna aconteceu três dias depois. O enviado britânico, lorde Carrington, informou à rainha Vitória que a nova czarina “parecia a perfeição do que se imaginaria ser uma imperatriz da Rússia a caminho do futuro altar” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 45). Alta e esbelta, Alexandra chamou a atenção de todos quando apareceu com seu vestido de brocado branco e prateado, de cauda forrada com pele de arminho e o manto imperial de tecido de ouro sobre os ombros.

No início do ano seguinte, a imperatriz apresentou os primeiros sinais de gravidez. Sua irmã, Ella, escreveu à rainha que Alexandra estava “com ótimo aspecto, graças a Deus, o rosto bem mais rechonchudo, uma pele tão saudável, fazia anos que não a via tão bem” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 53). Em 15 de novembro, depois de longas horas de trabalho de parto, ela deu à luz uma menina, a quem chamou de Olga. Em maio de 1896, eles fizeram uma visita à rainha Vitória na Escócia. A soberana ficou encantada com o aspecto saudável da neta e exultante ao contemplar o bebê que ela lhe trazia. “Ela é maravilhosamente boa e amável conosco, e encantada ao ver nossa filhinha”, escreveu Nicolau para sua mãe, Maria Feodorovna (apud MASSIE, 2014, p. 78). Em 10 de junho do ano seguinte, Vitória escreveu à sua filha Beatrice que “Alicky teve uma segunda filha, o que eu já absolutamente esperava” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 67). Uma terceira garotinha nasceu no dia 26 de junho de 1899, batizada de Maria. Ao saber da notícia, a soberana da Inglaterra escreveu: “Sou tão grata pela querida Alicky ter se recuperado tão bem. […] Pelo país, lastimo a terceira filha. Sei que um herdeiro seria mais bem-vindo que uma filha” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 74).

A despeito da decepção pela ausência de um herdeiro, a rainha Vitória era cheia de atenção para com sua neta e bisnetas. Enviava bonecas caras de porcelana de presente para as pequenas grã-duquesas e exigia informações detalhadas do cotidiano de Alexandra. Sua outra neta, Thora, filha da princesa Helena, em vista a Tsárskoe Seló, disse que a prima levava a existência mais reclusa possível:

Levamos uma vida muito tranquila aqui e mal se pode perceber que são um imperador e uma imperatriz, pelo modo como há, aqui no campo, uma absoluta inexistência do Estado. Nenhum cavalheiro mora na casa e a única dama de serviço faz suas refeições no próprio quarto, de modo que não se vê sinal do séquito a menos que as pessoas venham ou haja alguma solenidade (apud RAPPAPORT, 2016, p. 70).

O casal imperial apresenta sua filha Olga à rainha Vitória, em junho de 1896.

Com efeito, a rainha Vitória estava muito preocupada com o futuro de Alexandra na corte russa, isolada e quase sem amigos, exceto pela companhia do marido e das filhas. No final de 1900, a saúde da soberana começava a fraquejar. O Dr. Reid, que a atendia no seus últimos anos de vida, disse que ela estava “cheia de ideias mórbidas, sobre dores imaginárias” e que ficava constantemente “nervosa, lamurienta e infantil” (apud BAIRD, 2018, p. 411). Desde os 60 anos que Vitória sofria com um prolapso uterino e hérnia no ventre, decorrentes dos seus sucessivos partos. No dia 19 de janeiro de 1901, o boletim oficial público dizia que “a rainha está sofrendo de grande prostração física, acompanhada de sintomas que geram preocupação” (apud BAIRD, 2018, p. 412). Dois dias depois, ela teve uma leve melhora, mas a doença finalmente venceu aquele corpo idoso e cansado. Às 18h30 do dia 22, ela deu seu último suspiro, na presença de alguns de seus filhos e netos.

Quando a notícia da morte da rainha Vitória chegou à Rússia, Nicolau II demonstrou grande preocupação com a reação da esposa. Na época, ela estava grávida de sua quarta filha, Anastásia, que nasceu no dia 18 de junho daquele ano. A imperatriz ficou inconsolável, principalmente por não ter podido estar ao lado da avó quando o príncipe de Gales, agora rei Edward VII, lhe fechou os olhos, ou mesmo presente no grandioso funeral que percorreu as ruas de Londres. Desde a morte da princesa Alice, em 1878, que a rainha assumiu os cuidados da pequena Alicky, priorizando-a em relação aos outros netos. Acima de tudo, preocupava-se com o futuro de Alexandra num país que ela considerava “corrupto, onde não se pode confiar em ninguém” (apud RAPPAPORT, 2016, p. 39). Em 1904, quando a czarina deu à luz o tão esperado herdeiro do trono, Alexei, logo se descobriu que a criança era portadora da hemofilia, um gene que Vitória havia passado para os seus filhos e netos e que teve consequências desastrosas para a estabilidade da monarquia na Rússia. Sentada defronte à lareira, naquele inverno de 1917, Alexandra Feodorovna certamente repassou na memória toda essa narrativa, enquanto queimava uma por uma as cartas que a “querida vovó” lhe enviou ao longo dos anos. Todo um passado era assim consumido pelas chamas, juntamente com a esperança da restauração do trono imperial.

Referências Bibliográficas:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

KING, Greg. La última emperatriz de Rusia: vida y época de Alejandra Feodorovna. Tradução de Aníbal Leal. Buenos Aires, Argentina: Javier Vergara Editor, 1996.

MASSIE, Robert K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda dos Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

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