Uma rainha sem ornamentos: o que aconteceu com as joias de Maria Antonieta durante a Revolução Francesa?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 16 de maio de 1770, Maria Antonieta fez sua entrada oficial em Versalhes, o famoso palácio construído por Luís XIV no século passado que, a partir de então, seria sua nova morada. Cerca de 6.000 pessoas estavam ali para recepcionar a nova delfina, cujo casamento com o herdeiro do trono da França pretendia selar uma aliança política com o Sacro Império. Encaminhada aos aposentos que tinham pertencido à falecida mãe de seu marido, a jovem princesa levou um grande susto quando foi presenteada com uma coleção de joias magníficas, que incluíam diamantes, rubis e pérolas naturais, outrora propriedade da antiga delfina. Seu valor era estimado em quase 2 milhões de livres. Como não havia uma rainha na França naquele ano, Antonieta também recebeu um fabuloso colar de pérolas que havia pertencido a Ana d’Áustria (a menor delas “tão grande quanto uma avelã”), legado às consortes reais francesas. A tudo isso se somou uma grande quantidade de diamantes brancos, anéis e outras joias, avaliadas em 200 mil florins, que a noiva trouxe consigo de Viena, como presente de casamento dado pela imperatriz Maria Teresa.

Pérolas que pertenceram a Ana d’Áustria e que foram dadas a Maria Antonieta como presente de casamento. Fazia parte da coleção de Barbara Hutton.

Par de brincos de diamantes que pertenceram a Maria Antonieta. Hoje fazem parte do acervo do Museu de História Natural, do Instituto Smithsonian.

Parte da coleção de pérolas que pertenceu a Maria Antonieta, que ficou entre as posse da família Bourbon-Parma.

De acordo com o contrato nupcial, Luís XV deveria presentear a esposa de seu neto com uma quantidade igual de joias, “fosse à chegada [da delfina] na França, fosse quando da consumação do casamento” (CAMPAN, 2008, p. 360). Conforme mencionado acima, o rei francês não poupou recursos para agradar a princesa, dando-lhe ainda um leque incrustado de diamantes e pulseiras de fechos em esmalte azul, contendo o monograma MA. O tesouro real havia lhe sido entregue em um cofre de veludo carmesim, com cerca de 1,80m de comprimento por 90 cm de altura. Suas gavetas eram forradas de seda azul celeste com almofadas para combinar. A peça principal deste invólucro era um conjunto de diamantes para a delfina e o anel de casamento medido a partir de seu dedo, embora também houvessem ali alguns presentes para seus acompanhantes. Aos 15 anos de idade, Maria Antonieta podia se gabar de ser dona de uma das mais fabulosas coleções de diamantes e pedras preciosas da Europa. Nos anos seguintes, ela aumentaria ainda mais seu conjunto de joias, enquanto as finanças do Estado entravam em colapso devido à má administração de Luís XVI.

Com efeito, a imagem de Maria Antonieta enquanto mulher fútil e gastadeira foi usada pelos críticos da monarquia para ressaltar o contraste entre a vida dos nobres e a do Terceiro Estado, que arcava com pesados impostos para manter o luxo e a ostentação da Coroa. Devido ao medo que o rei e seu Conselho tinha de que a rainha interferisse nos assuntos do governo para promover as ambições imperialistas de seu irmão, José II, Luís XVI passou a estimular o consumismo da esposa para desviar sua atenção da política. Sendo uma mulher extremamente pródiga com seus gastos, Antonieta contraiu muitas dívidas na aquisição de novas pedras preciosas, como um par de brincos girandole contendo seis enormes diamantes, confeccionados pelo principal joalheiro da Coroa, Carlos Augusto Boehmer. Em 1776, ela persuadiu o rei a lhe conceder o crédito de 460.000 livres destinados aos seus gastos pessoais, o que era mais do que suficiente para manter sua casa e criados pelos próximos quatro anos. No ano seguinte, porém, a rainha gastou a soma de 250.000 livres apenas na aquisição de um bracelete. Da Áustria, a imperatriz Maria Teresa ficava alarmada com todo esse ultrajante show de extravagância protagonizado pela filha.

Réplica do famoso colar de diamantes criado por Boehmer e Bassenge que Maria Antonieta recusou.

O famoso diamante hope, ou “french blue” da Coroa Francesa. Hoje exposto no Museu de História Natural do Instituto Smithsonian.

O diamante regente, joia de Estado que adornava a Coroa e que também foi utilizado por Maria Antonieta em uma ocasião. Hoje no Museu do Louvre.

Curiosamente, a peça mais famosa da coleção de joias de Maria Antonieta foi uma que ela nunca possuiu: o complicado colar de diamantes com muitas voltas, criado originalmente por Boehmer e seu sócio, Paulo Bassenge, para Madame Du Barry. Composto de 647 gemas da mais alta qualidade e pesando 2.800 quilates, a peça tinha sido oferecida à rainha em diversas ocasiões e por ela recusada. “Ela já considera os seus porta-joias bastante cheios”, foi a resposta dada por Maria Antonieta. Desesperado com o investimento feito na aquisição das pedras, Boehmer reduziu bastante o preço do objeto, que valia quase dois milhões de francos. Mesmo diante das facilidades oferecidas para o pagamento, a rainha declinou. “Precisamos mais de navios do que diamantes”, disse ela em decorrência da insistência da dupla. Qual não foi a surpresa da soberana quando, em 1785, ela descobriu que seu nome havia sido utilizado pelo cardeal de Rohan que, enganado por uma charlatã chamada condessa Jeanne de La Motte, comprou o magnífico colar?! A joia foi desmembrada pela condessa e as pedras vendidas separadamente. O Parlamento julgou o caso e Jeanne foi condenada à prisão.

Todavia, a reputação de Maria Antonieta ficou irremediavelmente manchada com o que ficou conhecido como “o caso do colar”. As pessoas a apelidaram de Madame Déficit e passaram a responsabiliza-la pela falência do Estado, numa época em que a rainha havia abandonado todas aquelas extravagâncias que a tornaram tão conhecida na juventude. Quando a população de Paris marchou até o palácio de Versalhes para exigir farinha dos soberanos, Antonieta por pouco não escapou com vida de um ataque aos seus aposentos, ocorrido na madrugada de 6 de outubro de 1789. Conduzida de volta à antiga capital, a família real empacotou todos os seus pertences, incluindo as preciosas joias, que seguiram guardadas dentro de um cofre na carruagem da rainha. Decidida a se livrar desse cativeiro, ela arquitetou uma fuga no início de 1791. Seus objetos foram cuidadosamente embalados e parcialmente remetidos para Bruxelas, onde sua irmã, Maria Cristina, era arquiduquesa regente. Madame Campan conta nas suas Memórias que “permanecera uma noite inteira no quarto da rainha, encerrada com Sua Majestade, a embalar todos os seus diamantes” em panos de linho para a viagem (2008, p. 228). As joias de Estado, incluindo o colar de pérolas que pertenceu a Ana d’Áustria, já tinham sido requisitadas pela Assembleia Nacional.

Colar de pérolas e diamantes rosa confeccionado a partir das joias da rainha que foram desmontadas no período revolucionário.

Brincos de diamantes e pérolas naturais que pertenceram a Maria Antonieta, leiloados pela Sotheby’s de Geneva.

Colar de pérolas naturais que pertenceu a Maria Antonieta, leiloado pela Sotheby’s de Geneva.

Uma vez embaladas e trancafiadas num baú de madeira, as pedras preciosas que Maria Antonieta havia trazido consigo de Viena foram remetidas ao cabeleireiro Léonard, que deveria leva-las até Bruxelas na companhia do duque de Choiseul. A rainha esperava poder viver do dinheiro da venda dessas joias, caso conseguisse escapar da França. Em carta a Léonard, ela disse o seguinte:

Esses diamantes nunca custaram à França um penny. Essas são as pedras que eu trouxe comigo de Viena em 1770, e ninguém tem o direito de me prevenir de usa-las da forma como eu quiser. Leve-as para a Inglaterra, Léonard. Em Londres você encontrará facilmente um joalheiro que comprará esse cofre de você. Eu conto inteiramente com a sua descrição para a gestão desses negócios, e na sua integridade ao serviço que você me prestará (apud BASHOR, 2013, p. 187).

A fuga dos reis, porém, não saiu como o planejado. Capturados no vilarejo de Varennes no dia 21 de junho de 1791, a família real foi reconduzida à Paris, onde uma multidão furiosa a aguardava. De repente, Antonieta se viu despojada de todos os seus preciosos ornamentos. Sem ter conseguido escapar, ela acreditava poder usar suas pérolas e pedras preciosas para financiar os exércitos aliados para invadir a França e conter o avanço da Revolução. No total, as joias no baú entregue a Léonard valiam aproximadamente 350.000 livres (algo em torno de 1,5 milhão de dólares). Uma parte delas foi remetida ao conde Mercy-Argenteau e transportada em sigilo para Viena. Outras foram desmembradas e as pedras e demais ornamentos vendidos separadamente. Assim começa a epopeia dos diamantes da esposa de Luís XVI.

Em 1792, o que restavam das pedras preciosas da rainha foram tomadas pela população de Paris, no saque efetuado ao palácio das Tulheiras no dia 10 de agosto. Em 11 de setembro, as outras joias da Coroa, que estavam em posse da Assembleia Nacional, foram roubadas, incluindo o famoso diamante hope, ou “french blue”, imortalizado em ficções modernas como Titanic (1997). O rei e rainha, por sua vez, foram aprisionados com os filhos na Torre do Templo. No ano seguinte eram julgados culpados por crimes de traição e condenados à morte pela guilhotina. Após a fase do Terror revolucionário, a única sobrevivente da família real, Maria Teresa Carlota, foi posta em liberdade e mandada para Viena, onde recebeu parte das joias da mãe que estavam guardadas pelo imperador. Casada em 1799 com o primo, Luís Antônio, duque de Angoulême, a filha de Maria Antonieta levou uma vida bastante infeliz, devido às situações difíceis vividas por ela na juventude e ao seu matrimônio, que se provou estéril. À beira da morte, em 1851, Maria Teresa deixou suas joias para uma sobrinha, que tinha como filha adotiva. Assim, algumas das pedras preciosas que um dia pertenceram à ultima rainha da França ficaram espalhadas entre o ducado de Parma, a Áustria e a França.

Broche de pérola natural em formato de gota e anel com o monograma de Maria Antonieta, leiloado pela Sotheby’s de Geneva.

Broche de diamantes que pertenceu a Maria Antonieta, leiloado pela Sotheby’s de Geneva.

Infelizmente, a grande maioria dos colares e braceletes de pérolas naturais de Maria Antonieta (que valiam na época até mais do que diamantes), foram desmembradas e utilizadas na confecção de novos conjuntos. Seu paradeiro, portanto, se perdeu com o tempo. O que sobrou pode atualmente ser visto em muitos museus e galerias de toda a Europa e dos Estados Unidos, como o diamante hope, que foi localizado no início do século XIX na coleção do rei George IV da Inglaterra, e o diamante regente, que foi entregue a Napoleão Bonaparte. Ambas as pedras, de valor inestimável, eram utilizadas por Maria Antonieta em ocasiões solenes, ornamentando seus vestidos e penteados, conforme podemos observar em alguns retratos pintados. Em novembro de 2018, a Sotheby’s de Geneva realizou um grande leilão contendo algumas pedras preciosas da Coroa francesa, que eram propriedade da família real Bourbon-Parma, incluindo as famosas joias da rainha. Entre elas, destacam-se um broche com laço de diamante, brincos e colares de pérolas naturais, um anel com o monograma MA e outro com uma miniatura de Antonieta em perfil. Estima-se que o lote foi arrematado pela impressionante bagatela de 33 milhões de libras, dado à importância atribuída à sua antiga proprietária.

Referências Bibliográficas:

BASHOR, Will. Marie Antoinette’s head: the royal hairdresser, the queen and the revolution. Guilford, Connecticut: Lyons Press, 2013.

BECKMAN, Jonathan. How to ruin a queen: Marie Antoinette and the diamond necklace affair. Boston: Da Capo Press, 2014.

CAMPAN, Madame. A camareira de Maria Antonieta (memórias). Tradução de Carlos Vieira Leiria. Lisboa, Portugal: Aletheia, 2008.

DELALEX, Hélen, A day with Marie Antoinette. Paris: Flammarion, 2015.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

3 comentários sobre “Uma rainha sem ornamentos: o que aconteceu com as joias de Maria Antonieta durante a Revolução Francesa?

  1. Sempre gostei de história antiga, adoro ler essas matérias sobre a vida desses monarcas que reinaram num passado já tão longínquo, mas que até hoje instigam nossa imaginação.

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