Você já ouviu falar na “síndrome de Maria Antonieta”?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Maria Antonieta é famosa no mundo inteiro por ser rainha da França quando a revolução burguesa mudou para sempre a imagem daquele país, bem como a configuração política do mundo ocidental. Reverenciada como ícone da moda e símbolo da decadência do antigo regime, Antonieta continua a servir de inspiração para o mundo da arte, da culinária e, acredite, da medicina. Poucos sabem, mas existe uma patologia conhecida pelo nome genérico de “síndrome de Maria Antonieta”. Refere-se a uma situação na qual o cabelo de alguém fica grisalho ou cai de repente, como de um dia para o outro. O nome, por sua vez, se baseia na crença de que as mechas da última rainha da França embranqueceram repentinamente, antes de sua execução em 16 de outubro de 1793.

O embranquecimento dos fios de cabelo é uma situação natural, que acontece com a maioria das pessoas que atingem uma certa idade. Conforme se envelhece, você pode começar a perder pigmentos de melanina que são responsáveis pela cor do cabelo. Contudo, a “síndrome de Maria Antonieta” não está relacionada com a idade e sim a uma forma de alopecia areata, ou seja, perda súbita de cabelo. Conforme o depoimento de algumas testemunhas que estavam presentes no julgamento da soberana, ocorrido entre os dias 14 e 15 de outubro de 1793, Antonieta apareceu no tribunal com os cabelos completamente grisalhos, mais parecendo uma senhora idosa, do que uma mulher prestes a completar 38 anos.

Todavia, as pesquisas indicam que, embora seja possível que o cabelo fique branco em um período relativamente curto, isso não acontece em minutos, como o folclore criado em torno de Maria Antonieta nos induz a acreditar. No caso da esposa de Luís XVI, é recordado que suas mechas perderam o loiro natural em pelo menos três ocasiões. A primeira delas foi em 5 de outubro de 1789, quando uma multidão de mulheres parisienses marchou até o palácio de Versalhes, exigindo farinha dos soberanos, “o sangre e as tripas da rainha”. Na madrugada do dia 6, um grupo invadiu os apartamentos de Antonieta, obrigando-a a fugir por uma passagem que ligava seu quarto ao do rei, antes que fosse esfaqueada pela peixeiras afiadas das mercadoras.

Retrato póstumo de Maria Antonieta, precocemente envelhecida, durante seus dias de prisão no Templo.

A segunda ocasião em que o cabelo de Maria Antonieta teria ficado mais grisalho teve lugar no episódio da “noite de Varennes”, uma desastrosa tentativa de fuga que ocorreu no dia 21 de junho de 1791. O casal real e seus filhos foram capturados perto da fronteira com a Áustria e reconduzidos ao cativeiro em Paris, no palácio das Tulheiras. Após três dias de uma humilhante viagem de retorno, a rainha aparentava ter muito mais do que seus 35 anos. Dois anos depois, quando da execução de Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, e sua seguinte prisão numa cela da Conciergerie, não restava sequer um fio de cabelo louro na cabeça da rainha. Suas madeixas, que outrora ostentaram penteados elaborados que podiam chegar a 1 m de altura, estavam completamente grisalhas.

Com efeito, a pesquisa recente não dá suporte à teoria da brancura repentina do cabelo. Ainda assim, contos de tais incidentes na história continuam a correr soltos. Além de Maria Antonieta, que, conforme demonstramos nos parágrafos anteriores, não teve seu cabelo embranquecido de uma hora para outra, mais personalidades históricas também sofreram mudanças súbitas na cor do cabelo. Um exemplo notável é Thomas More, célebre autor de Utopia, que teria sofrido um repentino branqueamento de cabelo antes de sua execução, em 1535. Um relatório publicado no Archives of Dermatology Trusted Sourceal também registra relatos de testemunhos de sobreviventes de bombardeio da Segunda Guerra Mundial, que experimentaram um súbito branqueamento dos pelos capilares. Mudanças repentinas na cor dos fios também foram notadas na literatura e na ficção científica, geralmente com tons psicológicos.

Conforme o depoimento de algumas testemunhas que estavam presentes no julgamento da rainha, ocorrido entre os dias 14 e 15 de outubro de 1793, Antonieta apareceu no tribunal com os cabelos completamente grisalhos, mais parecendo uma senhora idosa, do que uma mulher prestes a completar 38 anos. 

Conforme escreve o Dr. Murray Feingold para o Metro West Daily News, nenhuma pesquisa até o momento sugere que se possa perder a cor do cabelo durante a noite. Um artigo publicado no Journal of the Royal Society of MedicineTrusted Source argumenta que os relatos históricos de cabelos brancos repentinos provavelmente estavam ligados à alopecia areata, ou à lavagem temporária de pigmentação do cabelo. Acredita-se que os casos da chamada “síndrome de Maria Antonieta”, muitas vezes, podem ter sido provocados por um distúrbio autoimune. Tais condições mudam a forma como o seu corpo reage às células saudáveis do corpo, atacando-as inadvertidamente. No caso dos sintomas semelhantes aos da “síndrome de Marie Antonieta, o corpo interrompe o processo de pigmentação normal do cabelo. Como resultado, embora os fios continuem a crescer, estes seriam na cor cinza ou branca.

A chamada “síndrome de Maria Antonieta” costuma ser retratada pelo exemplo de casos do passado, como provocada por um súbito estresse. Tanto a última rainha da França como o autor de Utopia ficaram completamente grisalhos após as semanas que passaram na prisão. Entretanto, conforme ficou exposto acima, a causa subjacente do embranquecimento dos fios é muito mais complexa do que um único evento. Apenas uma noite de estresse não causa o clareamento súbito do cabelo. Mas, com o tempo, o estresse crônico pode levar os fios a ficarem grisalhos de forma prematura, como certamente foi o que aconteceu com a esposa de Luís XVI, entre os anos de 1789 e 1793.

Referências:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

HEALTHLINE. Marie Antoinette Syndrome: Real or Myth? – Acesso em 15 de junho de 2019.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

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