A força da tradição: Elizabeth II e o mais longo reinado feminino da história ocidental!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 2 de junho de 1953, Elizabeth II foi solenemente coroada rainha reinante do Reino Unido da Grã-Bretanha, na abadia de Westminster. Ela tinha apenas 25 anos quando, 16 meses antes, seu pai, o rei George VI, falecera, passando a coroa para a filha mais velha. A última mulher a subir os degraus que levavam ao trono de Eduardo, o Confessor, havia sido sua tataravó, Vitória, cujo reinado de 63 anos coincidiu com o apogeu do imperialismo britânico. Depois da morte da velha monarca, em janeiro de 1901, todos os seus sucessores, filhos e netos, tiveram que lidar com o peso do seu legado, esmagando-os sob o baldão da tradição e.a imponência da falecida rainha A Inglaterra que a jovem Elizabeth herdou permanecia afeta às glorias do passado e com profundos resquícios do período vitoriano. Assim sendo, imprimir sua própria marca e criar uma nova era elisabetana poderia parecer algo bastante difícil para a soberana recém-coroada, considerando que seu poder e títulos eram menores, se comparados aos dos antigos reis. 66 anos depois, ela não só atingiu esse objetivo, como também quebrou uma série de recordes na história da monarquia.

Elizabeth II em três momentos de sua vida!

No início de 2015, o site oficial do Palácio de Buckingham iniciou uma contagem regressiva rumo ao dia 9 de setembro, quando Elizabeth ultrapassaria Vitória como a monarca britânica de reinado mais longo. A passagem dessa data foi significativa por muitos fatores: não só a era elisabetana superara a duração do período vitoriano, como também reinventara a tradição, adaptando-a às exigências do mundo moderno. Os eventos da família real, tais como casamentos, batizados e jubileus, passaram a ser televisionados para os quatro cantos do mundo, gerando milhões de renda para o Estado e a Coroa. Os palácios reais foram abertos para visitação do público, expondo assim a intimidade dos príncipes e daqueles que viveram naqueles cômodos antes deles. As turnês da rainha com o príncipe Philip pelos países membros da Comunidade de Nações tiveram como efeito a resolução de antigas rivalidades, bem como a fixação de novos acordos diplomáticos. Tudo selado com a graça da pequena monarca, que sorria e acenava para um multidão de pessoas espremidas para lhe ver passar!

Não obstante, Elizabeth II é herdeira de uma longa tradição de mulheres no poder, que começou muitos séculos antes de Maria I Tudor se tornar a primeira rainha reinante da Inglaterra, em 1555. No período medieval, nenhuma soberana inglesa foi mais formidável que Eleanor de Aquitânia, esposa do rei Henrique II, que foi também rainha consorte da França e governante do ducado de Aquitânia por direito próprio. Nas palavras de sua biógrafa, Marion Meade:

Eleanor de Aquitânia, rainha da França e, mais tarde, da Inglaterra, apesar de viver num tempo em que as mulheres, como indivíduos, tinham poucos direitos significativos, foi a figura política determinante do século XII. Aos quinze anos ela herdou um quarto da França atual, mas como as mulheres eram consideradas incapazes de governar, sua terra, assim como sua pessoa, foram delegadas à custódia de homens. A partir desse momento sua vida tornou-se uma luta pela independência e pelo poder político que as circunstâncias lhe haviam negado, embora poucos dentre seus contemporâneos fossem capazes de perceber essa luta (1991, p. 9).

Eleanor foi não só esposa de dois reis, como também mãe de mais dois. Mas, principalmente, foi a figura política mais importante do século XII, participando ativamente das cruzadas e comandando o país como regente em diversas ocasiões. Falecida em 1 de abril de 1204, aos 82 anos (uma idade bem avançada para os padrões medievais), ela detinha o título de governante mais longeva da história da Europa, até ser ultrapassada em 31 de janeiro desse ano por Elizabeth II.

Elizabeth II e sua tataravó, Vitória!

Em 67 anos de reinado, Elizabeth II viu e presenciou alguns dos maiores eventos do mundo contemporâneo, como a Guerra Fria e seus desdobramentos nos dois hemisférios: da guerra da Coréia à guerra do Vietnã, da queda do muro de Berlim ao fim da União Soviética. Se encontrou com mais líderes mundias do que qualquer pessoa viva, muitos dos quais não estão mais vivos, a exemplo de Winston Churchill e John F. Kennedy. Ela já reinava há 27 anos quando, em 1979, uma mulher, Margaret Thatcher, se apresentou pela primeira vez no Palácio de Buckingham para formar um governo em seu nome, permanecendo no posto de Primeira-Ministra até 1990. Viu quatro garotos de Liverpool, John, Paul, George e Ringo, embalarem o mundo ao som de Hey Jude, entre outros hits de sucesso. Seu rosto, inclusive, foi transformado em ícone da cultura pop pelo talento inigualável de Andy Warhol e estampado em camisetas, pôsteres e demais adereços. A história de sua vida, contada em peças de teatro, filmes e séries premiadas!

A nova era elisabetana, assim, marcou gerações de pessoas que nasceram, cresceram e, em alguns casos, morreram enquanto a rainha se sentava confortavelmente no trono e sorria para milhões de telespectadores de rádio e televisão, que se sentavam em família para escutar as mensagens de boas festas emitidas pela soberana ao final de cada ano. Segundo Andrew Marr:

A rainha não é uma atriz, mas a popularidade da monarquia deve muito à sua atuação. A vida a levou aos quatro cantos do mundo diversas vezes, apresentou-a a líderes de todos os tipos, dos heroicos aos monstruosos; e a mares de rostos dramáticos; e a florestas de mãos acenando. Desde muito pequena, já conhecia seu destino. Apesar de tímida, ela considera uma vocação ser rainha, um chamado do qual não se pode escapar (2012, p. 22).

Agora com 93 anos, depois de ter superado diversas crises familiares, como o divórcio de seus filhos e a morte da princesa Diana, Elizabeth II lida com o preconceito da idade. Infelizmente, a sociedade contemporânea, vivendo sob o signo do presente contínuo, coloca um prazo de validade na vida humana e relega a tradição ao esquecimento desencadeado pela inovação. Anualmente, rumores de uma possível abdicação são ressuscitados pela internet, apesar de a rainha não dar qualquer sinal favorável de que pretende fazer isso. Como uma verdadeira guardiã da nossa memória, Elizabeth resiste ao deslustre do tempo, espanando qualquer partícula de pó que ameace embaçar o brilho da sua coroa.

Fontes:

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista do papel de uma monarca em pleno século XXI. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia: uma biografia. Tradução de Claudia Sant’anna Martins. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

2 comentários sobre “A força da tradição: Elizabeth II e o mais longo reinado feminino da história ocidental!

  1. A monarquia inglesa nos traz a lição da modernidade deste sistema de governo. O Reino Unido da Grã-Bretanha é um belíssimo exemplo de democracia. E a Rainha Elizabeth II é um exemplo vivo de dignidade e de atualidade do regime. Que reine enquanto viver! E que saiba que seu nome já está inscrito na História!

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