O tiro que saiu pela culatra: a fuga de Varennes e a queda da monarquia francesa – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na manhã do dia 21 de junho de 1791, a comunidade de Paris estava em polvorosa. Tudo por causa da notícia da partida da família real da cidade, na noite anterior, bem debaixo dos narizes da guarda. Há muito que os boatos sobre a possibilidade da fuga de Luís XVI eram correntes, mas poucos lhes davam credito, uma vez que o rei, a rainha e seus filhos eram mantidos sobre intensa vigilância no palácio das Tulheiras. Uma vez constatada a ausência dos cativos, a euforia tomou conta do povo e da Assembleia, que rapidamente expediu um mandato de prisão aos 83 departamentos do reino. O temor de que Luís se juntasse às tropas inimigas para sitiar a capital era muito grande. Nesse caos instalado, era de suma importância que fosse encontrado antes que cruzasse a fronteira austríaca e arquitetasse a contrarrevolução. Tal episódio se constitui num dos eventos mais dramáticos das vidas de Luís XVI e Maria Antonieta. “A fuga de Varennes”, como ficou posteriormente conhecida, destruiu de uma vez por todas a imagem do rei enquanto pai da França e abriu espaço para a ideia republicana, que traria consigo consequências indeléveis tanto para a monarquia quanto para o destino da família real francesa.

Maria Antonieta, por Mme. Vigée Le Brun

Desde o dia 6 de outubro de 1789 (ano da Revolução), a família real estava submetida a um estado de semicativeiro, que se intensificou com o passar dos meses. O medo de que deixassem a capital era tão grande, que os portões do palácio das Tulheiras eram diariamente vigiados pela guarda e pelo povo nas ruas, que contemplavam seus soberanos através das grades do portão do edifício, como se fossem seus prisioneiros. O palácio funcionava como uma espécie de gaiola dourada para Luís XVI e Maria Antonieta. Apesar disso, certo grau de respeitabilidade era mantido para com família real. Tratamento esse que sofreria uma intensa modificação após os eventos dos dias 20 e 21 de junho de 1791. A possibilidade de uma fuga para o casal e seus filhos já era discutida muito antes de a população tomar o palácio de Versalhes, a 5 e 6 de outubro de 1789. Nesse caso, quase todas as fontes são unânimes em atribuir o malogro dos planos ao rei, que se recusava a deixar sua corte e ficar conhecido como um monarca fugitivo. Mas, entre os últimos meses de 1790 e os primeiros do ano seguinte, a situação ficou quase insustentável para a família real. O nó da vigilância ficou ainda mais apertado e até mesmo uma simples ida do rei à Igreja se constituía em motivo de preocupação e aborrecimento.

Um a um, os pilares do absolutismo francês eram derrubados. Em 26 de dezembro de 1790, o rei foi obrigado a aprovar a Constituição Civil do Clero, que transformava os padres em servos do Estado e não de Roma. Temendo uma revolta popular, caso se recusasse a assinar tal decreto, Luís o sancionou a contragosto. Na ocasião, ele dissera que “prefiro ser rei de Metz do que continuar sendo rei em tais condições”. Foi a partir desse dia que ele tomou a decisão de deixar Paris e lutar contra a Revolução. Em seguida, começaram os planos da fuga, arquitetados pelo general Bouillé e pelo conde Fersen. Após muita deliberação, chegou-se ao seguinte acordo:

Luís XVI, Maria Antonieta, os filhos, madame de Tourzel e madame Elisabete (irmã do rei) partiriam na mesma carruagem. Iriam para Montmédy, uma cidade-fortaleza, localizada na região sob o comando de Bouillé, que poderia ser preparada sem despertar suspeitas do público. Montmédy tinha a vantagem de ser muito próxima à fronteira, poderia ser facilmente alcançada por reforços externos. Se as coisas corressem mal para a família real, não seria difícil deslocar-se para território austríaco. […] Após cuidadosa deliberação, resolveu-se que a carruagem real seria escoltada por soldados somente após chegar a Châlons-sur-Marne, isto é, a mais de 150 quilômetros de Paris (LEVER, 2004, p. 276-7).

Entretanto, a parte mais difícil do plano seria deixar o Palácio das Tulheiras. Essa parte ficou sob inteira responsabilidade do conde Fersen, que a administrou com sucesso. Tampouco Luís tinha uma ideia para a reconquista do reino, uma vez que tivesse partido. Quem ficou ao encargo disso foi o barão de Breteuil, que contava com o apoio da rainha para rogar junto aos demais monarcas europeus que se juntassem numa intervenção militar contra os súditos rebelados da França. Assim sendo, Maria Antonieta manteve uma intensa correspondência clandestina com seus parentes e aliados, o que a tornava evidentemente numa traidora. Para ela, o que estava em jogo era a manutenção dos poderes absolutos da coroa, que seria herdada por seu filho. Dedicou-se com afinco a esta empresa, mas obteve pouquíssimos simpatizantes, além do rei Gustavo III da Suécia. Impedir o avanço dos ideais da Revolução e enfraquecer politicamente a França era muito mais interessante para os outros países do velho continente do que ajudar a uma família real que estava prestes a perder sua majestade. Nem mesmo o imperador, Leopoldo II, irmão da rainha, assumia uma postura firme quanto ao destino de Maria Antonieta, do cunhado e dos sobrinhos.

Luís XVI.

Desesperada ante a atitude do irmão e dos outros reis europeus, Maria Antonieta disse ao embaixador espanhol que “de longe é fácil aconselhar prudência e contemporizar, mas não quando se tem a faca na garganta. […] Se as outras cortes não salvarem a família real da situação em que se encontra, deve-se temer, e até mesmo esperar, que venham a encontrar-se na mesma situação”. Analisado essas palavras hoje, pode-se atribuir facilmente a elas um caráter quase profético. Cansada de esperar, a rainha deu prosseguimento aos preparativos para a fuga, sem se importar com a opinião dos outros reis e do imperador, que a aconselhava a persistir no jogo duplo até que a situação se mostrasse mais favorável. Mesmo sem garantias de Leopoldo II, o rei e a rainha marcaram a data da fuga para 20 de junho[1]. Durante aquele dia, o casal real se esforçou ao máximo para manter suas atividades no mais aparente grau de normalidade, de modo a não levantar a mínima suspeita na criadagem do palácio: passearam com os filhos pelos belos jardins Tivoli, onde se exibiram ao público curioso. Ao retornar, informaram à Guarda Nacional que fariam outro passeio como aquele no dia seguinte. À noite, a família ceou na companhia do conde e da condessa de Provença, onde os últimos detalhes do plano foram repassados[2]. O rei foi visto pela última vez em seu quarto às 23:20, quando as pesadas cortinas do seu leito foram formalmente fechadas por seus criados.

Com efeito, às 7 horas da manhã seguinte, terça-feira, 21 de junho, quando as cortinas da cama do rei foram abertas, encontraram o leito real vazio. Às quinze para as oito, quando começaria o despertar ritual da rainha, constatou-se que sua capa também estava vazia. Logo, um grito correu por toda Paris: “Eles se foram! Eles se foram!” Eram onze horas quando uma multidão irada se reuniu sob as janelas do palácio das Tulheiras, gritando insultos para a família que havia abandonado a casa. Imediatamente, a Assembleia achou prudente responsabilizar os inimigos da Revolução pelo rapto da família real. Luís seria então reconduzido ao trono e absolvido por antecipação. Porém, as intensões do rei ao fugir foram divulgadas numa carta que Luís havia deixado para trás, assinada no dia 20. Conforme cita Antonia Fraser:

Este extenso documento enumerava os acontecimentos dos últimos anos, inclusive as razões do rei para permanecer na França depois da violência de outubro de 1789. Com certeza deveria ter partido, mas preferiu não provocar a guerra civil; em vez disso, passara a residir nas Tulheiras como lhe fora pedido e desfez-se dos seus próprios guardas, uma perda dolorosa. Todos esses sacrifícios foram em vão; sob a nova ordem, o rei foi deliberadamente deixado de lado, privado do direito de aprovar ou rejeitar medidas constitucionais. Nestas circunstâncias, “o que resta ao rei exceto a impostura vazia da realeza?” (FRASER, 2009, p. 369).

Palácio das Tulheiras, por Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1757).

Nesta longa peça acusatória, o rei denunciava a Revolução e afirmava que seus atos haviam sido fruto de coação: “por haver perdido a esperança de que seus súditos voltassem à razão, resolvera partir de Paris com a família. […] prometia que, ao regressar para impor a Constituição de sua escolha, esqueceria as ‘injustiças’ de que fora alvo” (LEVER, 2004, p. 284). Após a leitura desse documento, que enumerava todas as afrontas que o rei suportou ao longo dos meses em cativeiro, a multidão berrava em ira do lado de fora. Enquanto isso, um grupo de viajantes trilhava alegremente as estradas a nordeste da França. Era composto por Monsieur Durand, o valete; Madame Rochet, a dama de companhia; e Rosália, babá de duas meninas. Estavam a trabalho da baronesa de Korff, uma aristocrata russa de meia-idade, proprietária da berlinda na qual todos viajavam. Para um simples observador, poderia tratar-se de mais um grupo de viajantes, a caminho da fronteira. Apenas uma análise atenta seria capaz de reconhecer a família real por trás daquelas roupas simplórias. Tudo estava correndo conforme o previsto e o espírito de liberdade já tomava conta dos passageiros. Em breve estariam em segurança, reunidos aos demais parentes e amigos e dispostos a liderar a contrarrevolução. Ou, pelo menos, assim imaginavam.

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa: Luís XVI, Maria Antonieta e o barão de Breteuil. Tradução de Julio Castañon Guimarães. – Rio de Janeiro: Record, 2007.

OZOUF, Mona. Varennes: a morte da realeza, 21 de junho de 1791. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Notas:

[1] De acordo com Antonia Fraser, a notícia da fuga da família real foi dada em Bruxelas ao conde Mercy d’Argenteau, pela chegada do cofre da rainha “que continha uma caixinha de marroquim vermelho para a ‘irmã’ (Maria Cristina), letras de câmbio no valor de 600.000 ou 700.000 livres e cerca de 20.000 livres em dinheiro” (FRASER, 2009, p. 368).

[2] O conde e a condessa de Provence haviam decidido fugir separadamente. O irmão do rei se passaria por um inglês a caminho de Bruxelas na companhia de um amigo, enquanto sua esposa seguia por outra rota com uma de suas damas.

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