A figura da história e a personagem de ficção: reflexões de internautas sobre Mary Stuart e “Reign”

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das rainhas mais controversas da história, Mary Stuart da Escócia é também uma das personagens mais amadas pelo público de leitores e apreciadores de filmes e séries de televisão. Sua biografia encantou gerações e já foi narrada nos mais diversos formatos, incluindo também peças de teatro, trilhas sonoras e concertos musicais, e para os públicos mais variados. Nos anos recentes, o público jovem tem demonstrado bastante interesse na figura desta soberana, graças à série de TV americana Reign (Reinado), transmitida pela CW. O enredo conquistou de imediato aos telespectadores, graças ao apelo contemporâneo da produção, que inclui cenas de romance, aventura, traição, lutas pelo poder e morte. A série se encerrou em 2017, na sua quarta temporada, com a cena da execução da protagonista, decapitada sob as ordens de sua prima, Elizabeth I, rainha da Inglaterra. Reign deixou para trás uma grande quantidade de fãs órfãos e chorosos, que partiram em busca de livros, textos, blogs e canais que abordassem a vida de Mary Stuart com mais profundidade. A comparação entre história e ficção, porém, foi um duro golpe para muitos, pois entre a Mary do passado e a Mary de Reign existem diferenças bastante significativas.

Imagem da pesquisa realizada pelo Rainhas Trágicas em parceria com outras páginas no facebook, em dezembro de 2016.

“Eu amo Reign e amo a história real. A série nos faz sonhar, saber que aquelas pessoas existiram mesmo que não seja completamente fiel”, disse uma seguidora da página do Rainhas Trágicas no Facebook, numa pesquisa realizada em dezembro de 2016 sobre a aceitação de Reign pelo público. Pedimos aos internautas para que escolhessem entre a história e a ficção. De um total de 546 votantes até o dia 06 de fevereiro de 2018, 342 optaram pela Mary da história, enquanto 200 optaram pela Mary da ficção, com quatro votos indecisos. “Na série extrapolaram na licença poética, ficou muito ruim, ficou muito juvenil. Nem deveriam ter feito com personagens históricos, deveriam ter feito um reinado fictício”, disse outra leitora, acerca das distorções factuais em Reign, feitas para tornar o enredo mais atrativo ao público jovem, que em sua maioria considera a história ensinada nos livros bastante enfadonha e pouco atrativa. Vistos em Reign, os acontecimentos ganham uma nova cor através dos rostos e das falas do atores, contracenando em cenários belíssimos e com um figurino estilo “Barrados no baile”. “É aquele papo: o “filme” nunca é igual ao “livro”. Eu amo a história da Mary, mas a série também é maravilhosa, apesar de destoar bastante da realidade”, opinou um internauta em meio a uma discussão levantada acerca da qualidade da produção.

Interpretando a personagem principal, temos a atriz Adelaide Kaine, que na primeira temporada do show vive um triângulo amoroso com os atores Torrance Coombs e Toby Regbo. De feições agradáveis, pele azeitonada e cabelos escuros, Adelaide não cansa de receber elogios do público de telespectadores. Palavras como “linda”, “perfeita” e “deusa”, são constantemente utilizadas pelos internautas para se referir à sua aparência física. Sendo assim, Reign construiu uma imagem idealizada de Mary Stuart como uma femme fatale, sedutora, inteligente e corajosa. Atributos esses que causam inveja às demais personagens que gravitam ao seu redor. Perto dela, a Mary Stuart da história sai perdendo fácil na opinião do grande público: “It, a coisa, é reencarnação da rainha”, disse uma seguidora da página Rainhas Trágicas, nos comentários de um retrato da estátua de cera de Mary, exposta no museu Madame Tussauds (Londres), feita a partir de uma miniatura de Nicholas Hilliard, pintada em 1578. “Nossa. Mary foi mais bonita em Reign hein?!”; “Ela era feia cruzes”; “Nossa coitada”; foram alguns dos comentários bastante depreciativos de fãs de Reign na foto mencionada. Outros, porém, foram mais cautelosos: “é que naquela época ela era considerada muito bonita. E nos tempos de hoje uma mulher bonita tem características diferentes”, disse uma seguidora, ao passou que outro se limitou a comentar: “Pensava que ela era morena”.

Estátua de cera de Mary Stuart, exposta no museu Madame Tussauds (Londres)

Com efeito, para o século XVI, Mary Stuart poderia ser considerada uma mulher muito bonita: tinha a pele leitosa, cabelos acobreados, olhos castanhos, nariz aquilino e uma alta estatura (cerca de 1,80m), o que dava a ela uma característica exótica. Era o perfeito arquétipo do padrão de beleza renascentista. Com o passar da eras, porém, os padrões estéticos foram passando por muitas transformações, variando de acordo com a cultura e a sociedade. Para o século XXI, Mary dificilmente seria considerada uma beldade, caso não levemos em consideração o caráter subjetivo da apreciação do que é belo. Esse aspecto deixou a muitos internautas, que entraram em contanto com a história da personagem pela primeira vez após o término do seriado, bastante desiludidos. “Fomos enganadas, na série ela é linda”, comentou uma leitora, manifestando seu desapontamento. Imaginaram uma rainha da beleza e, em vez disso, se depararam com uma figura bastante diferente “A maioria das pessoas da nobreza era horrorosa. Mandar exige cara feia”, disse um seguidor da página. Mas nem todos os comentários foram tão negativos assim. Alguns simplesmente comentaram “olhos lindos”, ou com uma saudação “Deus salve a rainha”. Por outro lado, mensagens que elogiavam a aparência física da estátua foram quase inexistentes.

Esse aspecto, por sua vez, é bastante frustrante. Para além de uma redução da figura histórica aos seus atrativos estéticos (ou à falta deles, como é o nosso caso), somos confrontados com o medo de que a personagem da ficção se sobreponha à personalidade do passado. Entre o objeto e sua imagem representada na série, as diferenças são consideráveis, não só no aspecto físico, como também no comportamental. Talvez seja por isso que os apreciadores da história, aqueles que entraram em contanto com a vida de Mary Stuart antes de Reign através de livros e afins (meu caso), manifestem tamanha desaprovação à produção da CW. “Essa série não me desce, especialmente por conta dos figurinos. Nada certo, tudo moderno demais, só para ficar bonitinho em tela para gente jovem que curte moda e não para retratar uma época”, escreveu uma leitora na pesquisa que fizemos em dezembro de 2016. A mesma enquete também foi compartilhada numa página no facebook, dedicada à série, chamada “Reign Brasil”. Aqui, porém, a vitória da série foi esmagadora: de um total de 2,8 mil votantes, 2,3 mil disseram preferir a série, em detrimento da história factual. Em grupos e outras páginas dedicados à produção, como a “Reign Br“,  o resultado foi semelhante.

Adelaide Kane, na segunda temporada de Reign

Esses números me permitem concluir o quanto a maioria dos votantes desconhecem a trajetória dessa soberana. “Assista à Reign e você ficará sabendo o que aconteceu com ela”, respondeu uma seguidora numa postagem do Rainhas Trágicas, ao comentário de outro internauta. Programas de TV, assim como novelas e romances, que usam a história como pano de fundo, não possuem compromisso com a veracidade dos fatos. A narrativa apresentada por esses veículos é verossímil na medida em que possuem uma essência de verdade, apresentando uma versão alternativa para a vida da personagem. Não aquilo que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido. No caso de Reign, que possuí um apelo bastante místico, com eventos sobrenaturais, bastardos com poderes miraculosos, sociedades secretas, entre outros, a coisa fica ainda mais complicada. Lembro-me da primeira vez em que assisti ao show. À época, já tinha lido dezenas de livros sobre Mary Stuart e escrito um capítulo sobre ela para minha obra, “Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa” (Vogais, 2016). Não sei dizer ao certo minha reação ao ver o rei Henrique II (Alan van Sprang) movendo um processo para se separar de sua esposa, Catarina de Médici (Megan Follows) e legitimar o seu filho com Diana de Poitiers, Sebastian (Torrance Coombs), que não encontra correspondente na história, diga-se de passagem. Foi quase um remake de The Tudors.

Infelizmente, não consegui avançar além da segunda temporada, embora estivesse por dentro do andamento do seriado e dos muitos deslizes do enredo. Esperar fidelidade de séries, cujo principal objetivo é entreter a um determinado público, é como esperar o retorno daqueles que nunca foram. Sempre haverá o sacrifício deste ou daquele fato, pra tornar a trama mais comercial Por outro lado, há diversos elementos no enredo que prendem a atenção do público, como os que foram citados no primeiro parágrafo desse texto. “Prefiro a série. Apesar de amar ambas, a atuação dos atores é tão boa que parece real, é algo natural e faz com que seja emocionante passar as horas assistindo os eps”, disse uma internauta nos comentários da enquete. Quando perguntamos a preferência dos seguidores entre Reign e outras produções midiáticas sobre Mary Stuart, tais como o filme “Mary Queen of Sctos”, de 2013, o resultado foi bastante parecido com o das outras enquetes. Exceto nas páginas “Rainhas Trágicas” e “Tudor Brasil”, a vitória de Reign foi esmagadora. Isso, por sua vez, é um indicativo dos diferentes públicos que curtem páginas voltadas para a história, daquelas que se dedicam à produção ficcional. Essa última ganha com facilidade da versão geralmente vista como chata e enfadonha, apresentada pela história.

Saoirse Ronan como Mary Stuart no filme Mary Queen of Scots (2018)

Todavia, acredito que um dos saldos mais negativos de Reign tenha sido a distorção do relacionamento de Mary Stuart com Elizabeth I, que ficou cristalizada na mente do público como uma mulher invejosa, que assassinou a prima por crueldade e que não tinha direito ao trono que ocupava. As imagens dessas duas soberanas costumam ser bastante exploradas em outros livros, filmes e séries. Em 2018, Margot Robbie e Saorise Ronan darão vida a essas duas personagens, para delírio dos fãs e demais entusiastas. Na outra mão, Reign fez muito para reabilitar a figura de Catarina de Médici, que costuma ser bastante vilipendiada pela história. Nesse caso, preciso tirar meu chapéu para Megan Follows, que fez uma ótima atuação ao longo do seriado e conquistou a simpatia do grande público. O que demonstra que, a despeito das muitas críticas especializadas, Reign abriu as portas para que mais e mais indivíduos entrassem em contanto com a vida de Mary Stuart. Para os padrões estéticos modernos, ela não é considerada bela, como era no século XVI. Mas sua história é tão ou até mais envolvente do que a apresentada em Reign. Despirmo-nos de certos preconceitos é o primeiro passo para se aprecia-la. A ficção é apenas uma das muitas máscaras que escondem a face da mulher incrível que Mary Stuart foi.

Bibliografia consultada

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary Queen of Scots. – New York: Delta, 2001.

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

STEPANEK, Sally. Maria Stuart. Tradução de José Carlos Barbosa dos Santos. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. – Tradução de Alice Ogando. 12ª edição. Porto: Livraria Civilização, 1969.

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8 comentários sobre “A figura da história e a personagem de ficção: reflexões de internautas sobre Mary Stuart e “Reign”

  1. Concordo inteiramente com você, Renato Drummond, essas séries, (The Tudors idem), não retratam de forma alguma a vida real. Quanto a beleza de Mary Stuart, na época era sim considerada linda, assim como ouras Rainhas foram. Padrões da época. Não consegui assistir nem a primeira temporada, o que vale para mim é a história.
    Abraços!!

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  2. Olá Renato! Adoro este site e todos os “posts” educativos do Rainhas Trágicas. Eu que também sou fã das histórias de reis e rainhas, acompanho sempre seus relatos e deixo aqui meus elogios ao seu trabalho.

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  3. É frustrante como, quando se trata de uma soberana, o aspecto mais comentado e aparentemente mais relevante seja o aspecto físico. Pouco se fala dos feitos e da personalidade, temas centrais quando se comenta a vida de um soberano masculino. No mais, achei o blog interessante.

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  4. Concordo inteiramente com você Renato, como graduanda em História, muitas vezes somos confrontados com a “História dura” por trás da mágica que o cinema/TV criam em nossas mentes, mas a série tem, para mim um papel importante no que diz tratar do ensino de História, ela abre as portas para a imaginação e curiosidade, encontrar os sentidos que condizem com os acontecimentos Históricos, traças paralelos, comparar e menos “embelezar” um período que há muito e descrito como escuro e feio.

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  5. Lembro de assistir ao primeiro episódio e quando as damas de companhia descem da carruagem eu vi uma sapatilha quase que da moleca. Isso já me fez desacreditar da série, eu ainda assisti alguns episódios e aí percebi que era totalmente voltada para o público jovem e desisti. Mas quando lembro de mim alguns anos atrás, na casa dos meus 17/18 anos assistindo The Tudors e depois pesquisando tudo a respeito, eu vejo que esses seriados podem ser um caminho para que os mais jovens se interessem por história. Eu sempre gostei de história, talvez por isso comecei a pesquisar mais depois de ver o seriado, pode ser que não aconteça com tantas pessoas mas acho que vale por isso.

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  6. São justamente por razões assim que evito ver séries baseadas em personalidades históricas. Essa aí por exemplo só ouvi falar porquê tinha gente comentando num documentário à respeito da Mary e depois meu irmão mais velho falou a repeito, detonando a série por toda a fantasia que ela coloca pra enfeitar e tudo mais.Eu tinha certeza aliás que ela ia destruir a imagem da Elizabeth I (pior que até os documentários costumam fazer isso) pintando-a como a terrível vilã e Mary apenas a pobre vítima da situação. Ah e quanto a aparência real dela pfff, coisa mais irrelevante, é a cara de certas pessoas eu diria, comentar isso.Pra mim não parece lá uma beldade (como aliás boa parte da aristocracia da época) mas também não é lá feia assim, não.

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