A “espiã austríaca” e a “mulher alemã”: paralelos entre Maria Antonieta e Alexandra Feodorovna

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A Revolução Francesa (1789) e a Revolução Russa (1917) foram dois marcos divisores de água na História Mundial. A primeira, destituiu o regime absolutista e instalou a burguesia no poder. A segunda, depôs uma dinastia de mais de 300 anos e a substituiu pela ditadura do proletariado. Na confluência desses dois movimentos, que até hoje rendem debates calorosos devido ao seu amplo alcance significacional, cheio de metamorfoses, destacam-se figuras de liderança bastante controversas. Para cada Luís XVI e Nicolau II, encontraremos um Robespierre e um Lenin. Os dois primeiros, representando a decadência e ineficácia de um governo que não mais conseguia se sustentar ou responder às necessidades do povo, cansado de arcar com o ônus da autocracia. Os dois últimos, simbolizando a promessa de um futuro que ficou apenas no papel, já que sua prática se distanciou bastante do discurso. Nesses dois processos de ruptura e mudança de regime, duas personalidades foram (e continuam sendo) alvo do ódio público: Maria Antonieta (1755-1793), rainha da França, e Alexandra Feodorovna (1872-1918), czarina da Rússia. Ou, como eram pejorativamente conhecidas, a “espiã austríaca” e a “mulher alemã”. Apesar de separadas por quase 117 anos de história, existem mais paralelos entre elas do que uma morte sanguinária.

Maria Antonieta, por Elisabeth Vigée Le Brun (1786)

Não foram poucos os veículos de informação, como jornais e revistas, ou mesmo comentários de políticos, que estabeleceram paralelos entre essas duas princesas, principalmente devido à sua nacionalidade germânica, considerada suspeita para os franceses do final do século XVIII, assim como para os russos do início do XX. A xenofobia fez de Maria Antonieta e Alexandra Feodorovna perfeitos bodes expiatórios para quase todas as mazelas sociais que afligiram o povo, nos anos mais críticos dos reinados de Luís XVI e Nicolau II, respectivamente. Desde sua chegada à França, em 1770, Antonieta era chamada de l’autrichienne (a austríaca). Se dividirmos a palavra, temos l’autre chienne (a outra cadela). Esse era apenas um dos muitos apelidos nada lisonjeiros que a nobreza de Versalhes e a burguesia atribuíram ela. A rainha era chamada também de “a espiã austríaca”, “vadia austríaca” e “madame déficit”, em alusão aos seus gastos excessivos e à crença de que trabalhava secretamente para os seus irmãos, os imperadores José II e Leopoldo II. Hoje sabemos, porém, que Maria Antonieta de fato repassou segredos militares do exército francês para a Áustria, embora essas provas tenham aparecido apenas muitos anos depois do seu julgamento, ocorrido nos dias 14 e 15 de outubro de 1793.

Nascida em Darmstadt, no dia 6 de junho de 1872, Alexandra Feodorovna era igualmente acusada pelos russos de cooperar com seu primo, o kaiser Guilherme II da Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial. Mesmo que nenhuma prova tenha sido encontrada para dar suporte a essa acusação (diferentemente de Maria Antonieta), ela também foi chamada de “espiã alemã”. Embora Alix reafirmasse constantemente seu vínculo sanguíneo com a família real britânica, foi como alemã que ela ficou mais associada nos seus últimos anos, inclusive por seus parentes ingleses. Quando sua mãe, a princesa Alice do Reino Unido, faleceu em 14 de dezembro de 1878, Alix ficou sob os cuidados de sua avó, a rainha Vitória. Ela cresceu viajando de Darmstadt para a Inglaterra. Vitória exerceu perante a jovem grande influência, assumindo aos poucos o papel materno para a princesa e zelando pelo seu bem-estar e educação. Nesse aspecto, também encontramos paralelo com Maria Antonieta. Nascida Maria Antônia, em 2 de novembro de 1755, ela era a mais jovem de suas irmãs a chegar à idade adulta. Descendia de uma soberana tão poderosa quanto Vitória fora em seu próprio tempo, a imperatriz Maria Tereza do Sacro Império Romano-Germânico. Mas, ao contrário da rainha inglesa, a imperatriz pouca atenção deu à educação de sua filha, deixando-a bastante despreparada para o papel que iria desempenhar.

Alexandra Feodorovna, por Heinrich von Angeli (1896-7)

Com efeito, quando Maria Tereza percebeu as muitas falhas na educação de Maria Antônia, pouco se podia fazer para remediar essa situação, pois as negociações para o casamento da arquiduquesa com o delfim já estavam em estado conclusivo. Imediatamente, foi enviado da França o abade de Vermond, para dar assistência à jovem, mas este não obteve muito sucesso. Ao chegar à corte de Versalhes, em 1770, Antônia, agora Antonieta (do diminutivo francês Antoinette), desconsiderava a grande importância que as regras de etiqueta e o protocolo tinham para aquela nobreza em decadência. Seu desprezo àqueles hábitos logo lhe conquistaram inimigos, especialmente entre as filhas de Luís XV, Madame Adelaide e Madame Vitória, que foram contra ao casamento de seu sobrinho, o delfim Luís Augusto, com uma arquiduquesa austríaca. A ideia de matrimônio do czarevich com uma princesa germânica tampouco agradou a nobreza russa da virada do século XIX para o XX. Mesmo o czar Alexandre III se colocou contra a vontade de seu filho Nicolau em desposar Alice de Hesse. Mas, no final, a escolha do jovem prevaleceu. Ao contrário de Luís XVI e Maria Antonieta, que nunca tinham se visto até 1770, Nicolau e Alexandra já se conheciam há cerca de 10 anos antes de se casarem, em 1894. Desde então, passaram a nutrir afeto um pelo outro.

Entretanto, a morte de Alexandre III e o casamento do novo czar, Nicolau II, com a jovem Alexandra Feodorovna (como passou a se chamar após seu batismo ortodoxo), 25 dias depois, deu pouco tempo a Alix para que ela aprendesse o protocolo da corte russa. Sequer chegou a aprender o russo corretamente, preferindo conversar com o marido quase sempre em inglês. Tanto Maria Antonieta quanto Alexandra cresceram em cortes marcadas pela informalidade, com espaços bastante delimitados para a vida pública e a vida privada/familiar. Para Antonieta, foi um grande choque se deitar e acordar na presença de vários cortesãos, que tinham direito de entrada e saída dos seus aposentos. “Ponho rouge e lavo as mãos na frente do mundo inteiro”, disse ela sobre sua rotina, em 12 de julho de 1770. Após se tornar rainha, em 1774, Antonieta passou a ridicularizar abertamente as pomposas cerimônias da corte de Versalhes, cercando-se de pessoas jovens e menosprezando a nobreza mais antiga, que passou a se queixar cada vez mais da esposa de Luís XVI. Maria Antonieta reagia a essas críticas com indiferença, passando cada vez mais tempo no château de Saint Cloud ou no Petit Trianon, verdadeiros pontos de fuga de todo protocolo e da rígida etiqueta de Versalhes. Ali ela poderia usar vestidos simples, na companhia de seus amigos.

Alexandra Feodorovna, por sua vez, também tentou criar seu próprio mundo privado, no Palácio Alexandre, com seu marido e filhos. Ela era uma mulher bastante tímida e reservada, para quem todo o cerimonial público da corte russa era uma verdadeira provação. Sua ausência em determinados eventos foi tomada por descaso, seu silêncio por arrogância, o que lhe valeu a antipatia da nobreza. Em resposta a toda essa hostilidade, ela passou a se isolar cada vez mais, dando como desculpa a saúde debilitada. Para um regime que sobrevive de símbolos e de cerimonial como a monarquia, a ausência de Alexandra e o deboche de Antonieta mostram-se muito prejudiciais para suas imagens como soberanas. As companhias que escolheram contribuíram ainda mais para debilitar sua reputação. Muitos cortesãos, com direitos hierárquicos, ficaram chocados com as amizades de Maria Antonieta, especialmente com a princesa de Lamballe e a duquesa de Polignac. Não tardaram a espalhar uma série de rumores negativos sobre sua soberana, de que ela promovia orgias no Petit Trianon ao lado das amigas, ou de que ela e Polignac eram amantes. A sexualidade da rainha da França foi bastante caricaturada pela imprensa machista da época, que a acusou de ser fútil e lasciva, em detrimento de sua imagem como esposa, mãe e rainha.

Maria Antonieta e Alexandra Feodorovna eram primas em quarto grau, com quatro gerações de diferença. Ambas descendia de Jorge II de Hesse-Darmstadt, cuja neta desposou o imperador Leopoldo I de Habsburgo.

Com efeito, não é exagero dizer que o mesmo aconteceu com Alix. Sua relação com Rasputin foi alvo de escárnio público. Inúmeros folhetos percorreram as ruas de Moscou e São Petersburgo, contendo caricaturas pornográficas da imperatriz e do mujique. A situação ficou ainda mais fora de controle quando estourou a Primeira Guerra Mundial e a constante interferência de Alexandra nos assuntos de Estado a transformaram na inimiga n° 1 do povo russo. Seu isolamento pessoal lhe passou uma noção muito vaga das necessidades da população, assim como a Maria Antonieta. Ambas eram casadas com monarcas inadequados para a função de governante, que acreditavam serem escolhidos por Deus para reinar e se mostraram indispostos a fazer concessões, quando estas eram mais necessárias. A diferença talvez resida no fato de que Maria Antonieta, ao contrário do que se diz, quase não interferia em assuntos de Estado. Luís XVI e seus ministros nutriam profunda desconfiança por ela e estimulavam seus gastos excêntricos, para afastar sua atenção da política. O que não impediu, porém, que ela usasse a moda como forma privilegiada de expressão. Essa situação mudou após a queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, quando os principais aliados de Luís fugiram do país, ficando apenas a rainha para liderar a contrarrevolução dentro da França.

Contudo, as similitudes entre Maria Antonieta e Alexandra Feodorovna não terminam com a Revolução e com suas mortes violentas. Por muitos anos, elas falharam naquilo que era considerado o principal dever de uma rainha consorte: gerar um sucessor masculino para o trono. Por mais de sete anos, os reis da França permaneceram sem consumar o casamento, vivendo à beira de uma crise dinástica. A primeira filha do casal, Maria Teresa Carlota, nasceu em 19 de dezembro de 1778. O tão esperado delfim, batizado de Luís José, só nasceu três anos depois. No caso de Alix, o herdeiro nasceu dez anos após seu casamento com Nicolau. À época, já eram pais de quatro filhas. A pressão para gerar um herdeiro cobrou bastante da saúde física e mental destas duas mulheres, já que o insucesso nessa empreitada era sempre atribuído a elas, nunca a eles. As preocupações de Alexandra, no entanto, não se interromperam com a chegada do czarevich Alexei. A criança era portadora da hemofilia, doença que de tempos em tempos assombrava os descendentes da rainha Vitória. Toda a dinâmica da família imperial russa se alterou em função da enfermidade do garoto, pois era de suma importância omitir sua condição do conhecimento público. A luta para manter esse segredo e cuidar da saúde do filho deixou a czarina bastante esgotada. Era constantemente acometida por fortes dores no nevo ciático, que a deixavam dependente de uma cadeira de rodas.

Retrato da sala de estar do Palácio Alexandre, onde se pode ver a tapeçaria Gobelin, feita segundo o retrato pintado por Madame Vigée Le Brun de Maria Antonieta com seus filhos, que foi dada de presente a Alix pelo presidente da França.

Há ainda um aspecto na vida dessas duas soberanas bastante desconhecido do público em geral: Maria Antonieta e Alexandra Feodorovna eram primas em quarto grau, com quatro gerações de diferença. Ambas descendiam de Jorge II de Hesse-Darmstadt, cuja neta desposou o imperador Leopoldo I de Habsburgo. Poucos sabem também que Alix tinha grande admiração pela esposa de Luís XVI. Em 1896, durante uma visita oficial do casal imperial à França, Alexandra ficou instalada no quarto de Maria Antonieta em Versalhes. “Pessoalmente ela ficou contentíssima, mas o fato foi recebido com horror contido pelo seu séquito, que achou a associação de mau agouro”, explica Antonia Fraser (2009, p. 496). Não obstante, a czarina possuía um retrato de Maria Antonieta em sua escrivaninha, no Palácio de Inverno, além de uma tapeçaria Gobelin, feita segundo o retrato pintado por Madame Vigée Le Brun de Maria Antonieta com seus filhos, que foi dada de presente a Alix pelo presidente da França. A peça costumava ficar pendurada na sala de estar da czarina, no Palácio Alexandre. Hoje, o visitante pode conferir a obra, exposta no seu lugar original, acompanhada da seguinte descrição: “este mundo idílico era observado pelo sorriso triste e profético de Maria Antonieta”. Certamente, Alexandra e seus filhos cruzaram com o olhar “triste e profético” da rainha da França, antes de se despedirem para sempre do palácio, na manhã de 1° de agosto de 1917.

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

RADZINSKY, Edvard. O último czar: a vida e a morte de Nicolau II. Tradução de Vera Maria Marques Martins. São Paulo: Nova Cultural, 1992.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

STEINBERG, Mark; KHRUSTALËV, Vladimir. A queda dos Romanov. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta: retrato de uma mulher. Tradução de Irene Aron. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

 

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