A imperatriz e a marquesa: Dona Leopoldina e Domitila de Castro

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Prática comum entre as casas reinantes da Europa desde que a primeira monarquia cristã foi fundada na França, os casamentos dinásticos eram nada mais do que uma aliança política entre dois países, cimentada pelo matrimônio de uma príncipe com uma princesa estrangeira. Os jovens herdeiros eram educados desde cedo para esse destino, cujo objetivo principal era gerar sucessores para a coroa. Ao longo da história, muitas foram as princesas que fizeram viagens extenuantes, para contrair casamento com um homem que não conheciam, sem saber ao certo o que esperar do lugar para onde estava indo e de sua nova família. Uma vez no reino estrangeiro, elas passavam por um processo de aculturação, abandonando seus costumes nativos, para adotar os do país para onde fora enviada. Uma princesa que se casava num reino estrangeiro poderia ser considerada uma espécie de refém, mas também uma embaixadora, servindo aos interesses de suas pátrias de origem e de adoção. Isabel de Parma, por exemplo, assim definiria o papel de uma princesa consorte: “o que deveria esperar a filha de um grande príncipe? (…) Nascida escrava dos preconceitos dos outros, vê-se sujeita ao peso das honras, essa etiqueta interminável presa à grandeza (…) um sacrifício para o suposto bem público”.

Arquiduquesa Leopoldina, por Josef Kreutzinger.

Com efeito, essa frase faz eco a um trecho da correspondência da imperatriz do Brasil, Dona Leopoldina, à sua irmã, Maria Luísa, na qual diz que “nós princesa somos como dados que se jogam, e cuja sorte ou azar depende do resultado”. Nessas circunstâncias, não é de se surpreender que muitas mulheres de casas reais nutrissem fortes sentimentos de sua terra natal, da qual tiveram de ser arrancadas em prol do “suposto bem público”. Nesse quadro, Dona Leopoldina não diferia de outras princesas europeias, que passaram por muitas situações desagradáveis no casamento e na sua pátria de adoção. Basta lembrarmos de Maria Teresa da Espanha, esposa de Luís XIV da França, de Catarina de Aragão, esposa de Henrique VIII da Inglaterra, ou mesmo de Catarina de Médici, esposa de Henrique II da França, entre outras. Sentimentos como amor fundamentado no afeto mútuo não era algo com o qual elas poderiam contar. Isso sem falar que a ideia de amor que temos hoje em dia é bastante diferente da que se tinha nos séculos passados. Do amor cavalheiresco, das trovas medievais, ao amor romântico, dos romances folhetim, as diferenças são muito grandes. Esse tipo de sentimento, fundado no afeto, os reis e os príncipes preferiam resguardar para suas amantes.

A questão do adultério é um fato bastante conhecido durante quase toda a história ocidental. De acordo com os preceitos bíblicos, os cônjuges deveriam se manter fieis um a outro, especialmente as esposas. Numa época em que não existiam testes de DNA, sobre elas repousava a legitimidade dos futuros herdeiros do casal. No antigo regime monárquico, uma rainha acusada de adultério, por exemplo, era declarada traidora e, por isso, condena à morte, como aconteceu com Ana Bolena. Por outro lado, era considerado um direito dos reis tomar para si uma, ou várias amantes, visto que, na maioria dos casos, eles se casavam não por afeto, e sim por política. A presença de uma amante real era algo que reforçava aos olhos da população a suposta virilidade dos reis e sua capacidade de produzir filhos. Assim sendo, no leito conjugal, o que ditava a obrigação dos soberanos era a perpetuação da linhagem, enquanto a paixão e o desejo carnal eles reservavam às suas amantes. Muitas delas, inclusive, chegaram a exercer forte papel político na vida de seus parceiros, opinando em questões de Estado e distribuindo favores reais aos seus mais chegados. Nosso olhar anacrônico, porém, classificou essa prática como uma coisa vil, quando era bastante tolerada séculos atrás.

Na França, por exemplo, existia a posição de amante titular, a favorita do rei, cargo esse que foi desempenhado por mulheres inteligentíssimas como Madame de Maintenon e Madame de Pompadour. Essas mesmas mulheres também funcionavam como um escudo para as rainhas. Enquanto fossem o alvo dos boatos e mexericos da corte, as soberanas permaneciam fora do alcance da mira dos fofoqueiros. Basta lembrar do caso de Maria Antonieta: na ausência de uma amante titular do rei, os olhos da corte todos se voltaram para a rainha que se vestia de forma extravagante, sendo execrada pela população. Porém, o império das grandes cortesãs cairia na Europa definitivamente com a Revolução Francesa e com o surgimento da chamada monarquia familiar, no século XIX, embasada em princípios burgueses de amor e fidelidade conjugal. A família real passou então a ser vista como um modelo de conduta moral para os súditos. O exemplo deveria vir de cima da pirâmide. Mas, no caso brasileiro, as coisas seguiram rumo um pouco diferente. Leopoldina de Habsburgo viajou da Europa para cá, iludida com a promessa de um príncipe encantado, mas encontrou um homem, embora bem intencionado, cheio de falhas educacionais, de gênio explosivo, mas que, a seu modo, soube ama-la e respeita-la. Infelizmente, o conceito de moralidade no Brasil dos anos 1810-1820 ainda possuía fortes resquícios do período colonial, no qual a população, em sua grande maioria, vivia amasiada. Foi nesse ambiente que o príncipe D. Pedro cresceu e, dentro do que era permitido pelo patriarcalismo, ele poderia ter quantas amantes desejasse.

D. Pedro I, por Simplício Rodrigues de Sá.

Com o tempo, Leopoldina descobriu o verdadeiro perfil do marido e passou a se queixar em cartas de não ser amada e que era muito mais feliz quando solteira, em vez de casada. Às faltas de conduta do príncipe, ela respondia com uma imensa compostura e dignidade, próprio da boa educação que recebeu na Áustria. Ela nunca se rebaixou ao ponto de confrontar qualquer uma das amantes do seu marido, nem mesmo a maior delas, a marquesa de Santos. Nunca houve um embate direto entre as duas.¹ Domitila sabia muito bem qual era o lugar de Leopoldina na hierarquia social e nunca poderia ser comparada à primeira imperatriz do Brasil. Ela, por sua vez, pagava as demonstrações públicas de infidelidade do marido com indiferença, pois estava mais preocupada em manter a dignidade da casa real e preservar os filhos de algum escândalo. Mesmo tendo se apaixonado por Pedro, Leopoldina não era qualquer tola, a ponto de acreditar que seu marido lhe era inteiramente fiel. Sua própria irmã, Maria Luísa, manteve um caso extraconjugal com o general Neiperg, com quem se casou depois da morte de Napoleão Bonaparte. Em outras palavras, o adultério, conforme o encaramos hoje, era visto de uma forma bem diferente em finais do século XVIII e início do século XIX. Apenas quando os valores burgueses penetram no seio do regime monárquico é que observamos uma transformação nesse quadro, com o surgimento da chamada monarquia familiar. No Brasil, isso aconteceu sob o reinando de Pedro II, filho de Dona Leopoldina.

O que talvez tenha ferido mais no âmago da imperatriz foi ver seu marido dispensando grande atenção a Domitila e sua família, deixando para segundo plano os assuntos de Estado, ainda mais para uma mulher que colocava o deve para com a pátria em primeiro lugar. É verdade que já chegaram a oferecer à imperatriz à coroa imperial e a regência do império, algo que ela recusou, pois ia contra sua consciência de lealdade para como Pedro. Um esposa no século XIX era considerada um apêndice da casa e do marido, devendo-lhe obediência. Poucas foram aquelas que romperam com esse modelo. Domitila de Castro, marquesa de Santos, foi uma delas. Numa monarquia extramente nova instalada nos trópicos, até mesmo a posição de amante titular, em decadência nas cortes europeias, era novidade. Domitila de fato foi uma das responsáveis pelo sofrimento da imperatriz. Mas se me permitam esse pequeno anacronismo, o verdadeiro responsável foi o homem que as colocou nessa situação, Pedro I. Na nossa sociedade, ainda com fortes resquícios do patriarcalismo, é muito mais fácil culpar a mulher pelos erros do homem, do que reconhecer ele como o verdadeiro culpado. O complexo de Eva ainda está bastante arraigado no imaginário coletivo. Então, antes de procurar criar uma rivalidade entre essas duas mulheres, deveríamos avaliar as contribuições que elas deixaram para a posteridade.

Leopoldina será para sempre a Paladina da Independência do Brasil e ninguém irá demove-la desse posto. Ela triunfou na morte assim como sofreu e batalhou em vida e hoje é adorada por uma multidão de súditos que não cansam de lhe render sincera homenagem. É a imperatriz da independência, primeira mulher a governar o país enquanto Estado autônomo. Quanto a Domitila, após o término do relacionamento com Pedro, refez sua vida, dando um novo sentido para a mesma. Morreu numa idade avançada para a época, cercada de filhos e netos, um mês antes de completar 70 anos, no dia 3 de novembro de 1867, e deixou para a cidade de São Paulo grandes contribuições. A visão da Domitila como o monstro sedutor, vilã e destruidora de lares foi alimentada durante décadas, especialmente com a reinvenção da moralidade no século XIX, da qual nossa sociedade é herdeira. Sua vida é repleta de elementos trágicos: foi dada em casamento muito jovem a um homem ciumento e violento, que chegou a esfaqueá-la e quase teve a guarda dos filhos tomada pelo sogro. Presa nessa relação abusiva, D. Pedro foi a única saída apresentada para se livrar daquele casamento e conseguir os filhos de volta.

Domitila de Castro Canto e Melo, Marquesa de Santos,por artista desconhecido.

O casamento era um negócio estabelecido entre dois homens, sendo um deles o pai da noiva e o outro o futuro genro, através do qual se trocavam mulheres e dinheiro, atividades exclusivas do espaço público masculino. Elas não participavam dessa transação. As escolhas para uma mulher de classe média/alta eram bastante restritas. O que Domitila deveria fazer? Permanecer em um relacionamento abusivo, com um marido que a esfaqueou, impedida de ver os filhos e sujeita à toda sorte de humilhações domésticas? Passada como uma propriedade da tutela do pai para a tutela do marido, ela assumiu as rédeas do jogo e se tornou senhora de sua própria vida. Precisamos lembrar que, como súdita, Domitila não podia simplesmente rejeitar as mercês do imperador, algo que poderia arruinar as pretensões de sua família. Não digo com isso que ela não tenha se aproveitado de sua conexão com D. Pedro I para enriquecer e de não ter sido uma das causas do sofrimento da imperatriz Leopoldina. Ela teve sua parcela de culpa, se é que podemos dizer assim. Em cartas, Leopoldina chega a se referir a ela como “bruxa” e a compara com Madame de Maintenon e Madame de Pompadour. Porém, é preciso lembrar que quem impôs a presença da marquesa no paço e a elevou ao posto de primeira dama de Leopoldina foi o próprio Pedro I. Foi o imperador quem ergueu a estrela de Domitila ao auge. Quando ela lhe deixou de ser útil, quis descarta-la, da mesma forma como fez com tantas outras mulheres. Ela não foi responsável pela morte de Leopoldina, que veio a óbito em 11 de dezembro de 1826 após contrair uma febre pós-parto, que não foi bem tratada pelos médicos. Muitos boatos mentirosos foram criados com o nome da marquesa de Santos, a fim de denegrir a sua imagem.

Todavia, mesmo na adversidade, Domitila soube se reinventar. Sua vida não se resume ao relacionamento de 7 anos que ela manteve com Pedro I do Brasil. Ela retornou para São Paulo em 1829 e, graças ao dinheiro adquirido junto ao imperador, reconstruiu sua vida, casando-se novamente e se dedicando a atividades filantrópicas. Não teria ela esse direito? Domitila sobreviveu a Pedro e a Leopoldina e se tornou uma das damas mais respeitadas na sociedade paulista de seu tempo. Então, por que uma mulher que morreu cercada de filhos e netos, há 150 anos, ainda incomoda tanta gente? Por que ficamos presos a uma imagem de mulher, bastante estereotipada, e nos esquecemos da extrema fibra e coragem que ela demonstrou em vida? Domitila foi das poucas mulheres emancipadas de seu tempo, recusando-se a continuar sendo utilizada em prol das ambições masculinas. Existe uma outra história, menos conhecida, da marquesa de Santos, e que diz muito sobre a mulher que ela foi. Ambas, Leopoldina e Domitila, cometeram erros e acertos em vidas. Antes de serem amante e imperatriz, eram seres humanos. Não caiamos, assim, no equívoco de rivaliza-las. Eram duas mulheres muito diferentes, que venceram as adversidades que a vida lhes colocou de forma distintas. Precisamos analisar suas trajetórias com o olhar do antropólogo e a distância necessária para não se perder em paixões partidárias que pouco contribuem para o debate e a criação do bem mais precioso, o conhecimento.

Notas:

¹ No caso da viagem à Bahia, em princípio de 1826, foi o imperador que quis leva-la, que a instalou próximo de si e forçou a esposa a presenciar essa cena. Deplorável, mas até aí não vejo atitude ofensiva da parte de Domitila. Talvez de Pedro. No caso da quase intromissão dela nos aposentos da imperatriz em princípio de dezembro de 1826, precisamos lembrar também que Domitila era a primeira dama-camareira de Leopoldina. Fazia parte das obrigações dela dar assistência à imperatriz.

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