Documentos que contam a história dos últimos Romanov retornam para a Rússia, 100 anos depois!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

2017 marca o centenário de uma das revoluções mais importantes da história, a Revolução Russa, que pôs fim ao governo dos czares e instaurou uma nova ordem política que afetaria não apenas o país em si, como as outras partes do globo. De uns anos pra cá, tem se observado um crescente interesse na vida de personalidades que marcaram esse processo, tais como os revolucionários Lenin, Stalin e Trotsky, o místico Rasputin, o czar Nicolau II e sua família. Figura controversa, a imagem de Nicolau foi alvo de intenso debate ao longo de todos esses anos: sanguinário para uns, mártir para outros, péssimo governante e/ou ótimo pai de família. Seus retratos, quase sempre em poses militares, pouco confirmam a autenticidade de qualquer uma dessas interpretações. Basta dizer que, para cada pesquisador ou entusiasta, é possível encontrar um Nicolau diferente. Entretanto, a pauta de nossa discussão agora é a devolução de um lote de cartas e documentos que pertenceram à última família imperial. Elas revelam o medo que os Romanov tinham da revolução bolchevique, de 1917.

O arquivo contem cartas, fotografia e documentos feitos durante a fase de ascensão do governo bolchevique.

Houve uma crescente sensação de presságio entre os membros da família real nos anos anteriores à revolução, com muitos aristocratas predizendo que os eventos provavelmente acabariam violentamente.

O arquivo, que contem telegramas desesperados dos membros da família, cartas angustiantes, fotografias e desenhos que foram feitos durante o período em que os bolcheviques se responsabilizaram por eles. Essa coleção permaneceu guardada de forma sigilosa por parentes de Nicolau II, que conseguiram fugir da Rússia antes que também fossem aprisionados ou mortos por ordens do novo governo. Eles foram adquiridos em julho desse ano por um comprador não identificado, que dispendeu a soma de 70.000 euros (cerca de 262.237 reais, na cotação de hoje). “Estas cartas e telegramas expõem a vida cotidiana da família imperial, e o muito que se amavam”, disse Irina Raspopova, do fundo de conservação do Museu de Tsarskoye Selo. A descoberta desse arquivo fez a alegria de muitos historiadores da revolução: “nós somos muito sortudos por tê-lo encontrado”, alguns deles disseram. A descrição detalhada da coleção consiste nas seguintes itens:

  • Mais de 200 peças datadas de 1860 a 1928
  • Cartas escritas pelo último czar da Rússia, Nicolau II
  • Cartas escritas por outros membros da família imperial
  • Desenhos e fotografias do clã dos Romanov

Atualmente, essa incrível coleção pode ser contemplada no Museu de Tsarkoye Selo, o antigo palácio de veraneio da família imperial, localizada nas proximidades de São Petersburgo. O mostruário faz parte de uma exposição que marca o centenário da queda da monarquia na Rússia. Muitos desses documentos estão escritos em mais de um idioma, como russo, francês e inglês. As páginas amarelas das cartas trocadas entre os membros da família imperial podem lançar uma nova luz sobre os turbulentos anos de 1917-1918, período em que Nicolau II, sua esposa, Alexandra, filhas e filho, foram mantidos em cativeiro e depois executados pelos bolcheviques. Já outros documentos, dão detalhes do dia a dia dos Romanov. Por exemplo: num telegrama enviado para sua filha Xênia pouco antes de morrer, em 1994, o czar Alexandre III se mostra desapontado com o resultado de sua caçada: “Não estou indo muito bem. Mas eu cacei e matei onze faisões”, ele escreveu.

A documentação inclui esta carta, escrita por uma grã-duquesa, que escapou da execução de outros membros da família real, em 1918. Ela passou o resto de sua vida amargurada contra os britânicos. por não salvarem seus parentes de “demônios de sangue frio”, como ela se referia aos bolcheviques.

O tom da correspondência encontrada fica mais tenso à medida que os anos avançam e a revolução começa a bater nas portadas do belo palácio de Inverno. “Todas as relações com os revolucionários estão arruinadas”, escreveu o Grão-duque Nikolai Mikhailovich, tio do czar Nicolau II, que se lamentava ao ver as forças revolucionárias de Lenin arrombarem as portas douradas do belo palácio decorado em estilo rococó, que foi a joia da família desde os tempos da imperatriz Isabel I. “É provável que os bolcheviques vençam”, continuou o Grão-duque. As cartas do início de 1918, por sua vez, são marcadas por um teor ainda mais preocupante por parte daqueles que as escreveram, uma vez que o governo havia lançado uma repressão aos membros da família imperial. “Continuamos descendo por uma encosta e não é difícil imaginar o que nos espera”, escreve o Grão-duque em crescente tom de desespero. “Infelizmente, todos os nossos amigos aguardam um lugar onde não há alegria ou arrependimento”, ele gravou em sua última carta, datada de fevereiro de 1918.

A família do czar Nicolau II da Rússia (1868-1917): fila da frente, da direita para a esquerca: Grã-duquesa Xenia Alexandrovna, a Imperatriz viúva Marie Feodorovna; Grã-Duquesa Olga; Duas mulheres desconhecidas. Segunda fila: o czar Nicolau; Grão-duque Michael e um soldado desconhecido.

O czar Nicolau e suas filhas.

Alguns meses antes da morte do Grão-duque Nikolai Mikhailovich, em 28 de janeiro de 1919, seu sobrinho foi assassinado num porão, junto com sua família e criados, na noite de 17 para 18 de julho de 1918. A investigação da morte da última família de governantes da Rússia Imperial, porém, ainda está longe de terminar. O estudo do caso, que contou com novos testes de DNA feitos com os ossos dos Romanov, ainda está em andamento. A descoberta dessa documentação certamente oferece um testemunho em primeira pessoa dos últimos anos da mais poderosa dinastia de imperadores, que governaram a Rússia durante mais de 300 anos e que hoje atrai um número cada vez maior de pesquisadores, entusiastas e curiosos. Os Romanov podem não mais governar, mas sua popularidade certamente não diminuiu com o tempo.

Fontes:

Daily Mail – Acesso em 21 de setembro de 2017

Stiripesurse – Acesso em 21 de setembro de 2017

Culture Box – Acesso em 21 de setembro de 2017

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2 comentários sobre “Documentos que contam a história dos últimos Romanov retornam para a Rússia, 100 anos depois!

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