A vida íntima da Imperatriz: resenha da nova biografia de Dona Leopoldina, escrita por Marsilio Cassotti

CASSOTTI, Marsilio. A biografia íntima de Leopoldina: a imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. – São Paulo: Planeta, 2015.

Dos três personagens que mais contribuíram no processo de emancipação política do Brasil, em 1822, a figura de D. Leopoldina permanece ainda quase desconhecida pelo atuais brasileiros. Comparada com D. Pedro I e José Bonifácio, a relevância atribuída a essa distinta arquiduquesa da casa d’Áustria é bastante inferior. Durante o século passado, alguns historiadores e biógrafos se preocuparam em resgatar a sua importância histórica. No aniversário de 150 anos da Independência, por exemplo, o Conselho Federal de Cultura publicou aquela que ainda é considerada a melhor biografia já escrita sobre a primeira imperatriz do Brasil, de autoria de Carlos H. Oberacker Jr., que se tornou leitura obrigatória para todo trabalho posterior referente à soberana. Até recentemente, novos esforços têm sido empreendidos em prol do resgate da memória de Leopoldina. Suas cartas destinadas a parentes e amigos foram compiladas e publicadas, exposições foram feitas em sua homenagem e ela também foi tema de palestras e eventos. Inclusive, seus restos mortais, atualmente sepultados no Monumento ao Centenário da Independência (São Paulo – SP), já foram estudados e preservados. Agora, uma nova biografia sobre a imperatriz acaba de chegar às livrarias, trazendo em suas páginas uma Leopoldina mais emotiva do que a soberana introspectiva que até então acreditávamos conhecer.

Marsilio Cassotti, autor de

Marsilio Cassotti, autor de “A Biografia Íntima de Leopoldina”.

Escrita por Marsilio Cassotti, “A Biografia Íntima de Leopoldina”, publicada em abril deste ano pela editora Planeta, carrega na sua capa um subtítulo bastante pretensioso: “a imperatriz que conseguiu a independência do Brasil”. A ideia certamente foi impressionar o público, que em sua maioria desconhece o fato de que uma mulher trabalhou ativamente a favor da emancipação política do país. Por outro lado, essa afirmativa atribui à esposa de D. Pedro I um mérito que não foi somente dela, uma vez que a atuação de Leopoldina se deu mais nos bastidores do que no centro do palco político propriamente dito. A despeito desse aspecto, a obra é uma saborosa narrativa em tom quase romanesco, que convida o leitor a descortinar a vida de uma das mulheres mais importante da nossa história, desde sua infância dourada em Viena até seu derradeiro final na cidade do Rio de Janeiro. Os conhecimentos de Cassotti acerca da casa dos Habsburgo e de outras casas reinantes europeias emprestam ao livro um brilhantismo ainda mais intenso, especialmente pelo paralelo de que o autor traça entre a filha de Francisco I da Áustria e sua tia-avó, Maria Antonieta, última rainha da França¹. Os destinos destas duas arquiduquesas, separadas pelo tempo, estariam bastante ligados ao de outras princesas europeias, usadas no tabuleiro de alianças diplomáticas do período “tais quais dados, cuja sorte ou azar depende do resultado”, como a própria Leopoldina assim definiu.

Quando o assunto é princesas europeias, Marsilio Cassotti já tem bastante experiência. Ele é autor de livros como “Infantas de Portugal, rainhas em Espanha”, “D. Teresa, a primeira rainha de Portugal” e “Carlota Joaquina, o pecado espanhol” (ainda não lançados aqui no Brasil). Formado em Ciências Políticas com especialização em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Buenos Aires, e em Língua Francesa pelo Instituto Católico de Paris, Cassotti trabalhou por muitos anos como diretor de uma coleção de História publicada pelo Grupo Platena de Barcelona. Seu estilo de escrita, leve e agradável, lembra em muitos aspectos o do austríaco Stefan Zweig, autor de importantes estudos psicanalíticos e de famosas biografias, como as de Mary Stuart e Maria Antonieta.  O que dita o tom “íntimo” desse novo livro acerca da primeira imperatriz consorte do Brasil, por sua vez, são as cartas que ela escreveu ao longo de sua vida e as que escreveram sobre ela, contando certos detalhes do seu dia-a-dia que a arquiduquesa preferia não adentrar. A partir da análise desse material, salta aos olhos do leitor a figura de uma princesa rebelde, que precisava constantemente de corretivos para consertar suas “falhas” de conduta, assim como a de uma imperatriz que se apegou à religião para suportar os dissabores do matrimônio.

Dividida em 23 capítulos, a obra em si não apresenta qualquer dado novo acerca da vida de Leopoldina, apenas uma reinterpretação do que já conhecemos baseada nas suas correspondências. A parte mais interessante, acredito, concerne à primeira juventude da imperatriz, ainda bastante desconhecida por alguns. Os eventos que ela presenciou na infância, como a invasão das tropas napoleônicas em Viena, a morte prematura da mãe e posteriormente da madrasta, a separação de sua irmã Maria Luísa, dada em casamento ao imperador dos franceses, tiveram um profundo impacto na forma como Dona Leopoldina passou a enxergar as coisas. Quando jovem, a arquiduquesa foi testemunha do famoso Congresso de Viena (1814-1815), que redefiniu o mapa da Europa após a derrocada de Napoleão. Como filha do chefe da Santa Aliança e bisneta de Maria Teresa (a Grande), não é de se espantar que a princesa, a quem nada escapava, fosse dotada de um profundo discernimento intelectual e político que seriam de fundamental importância nos seus anos aqui no Brasil. Uma vez instalada na corte portuguesa, situada nos trópicos, ela não tardou em perceber as falhas na educação de seu esposo e tentou da melhor forma corrigir essa questão, embora sem grandes resultados. Como em breve Leopoldina perceberia, sua formação a distanciava bastante do príncipe.

Retrato em miniatura de Dona Leopoldina, enquanto era uma arquiduquesa d'Áustria (artista desconhecido).

Retrato em miniatura de Dona Leopoldina, enquanto era uma arquiduquesa d’Áustria (artista desconhecido).

Um dos aspectos evidenciados por Marsilio Cassotti na obra, consiste no tom de ironia que Leopoldina usava nas suas cartas para se referir aos seus desafetos, como, por exemplo, o chanceler austríaco, Metternich; ou as palavras reprobatórias que ela usava para descrever o relacionamento de sua irmã Clementina com o marido, Leopoldo de Bourbon. Com efeito, para se entender a mensagem por trás de tais documentos, é preciso “ler nas entrelinhas”. Como disse o próprio autor, “embora nem sempre Leopoldina fosse capaz de controlar sua língua, podia ser extremamente cautelosa e até críptica para escrever sobre assuntos delicados que afetavam pessoas muito próximas em seu coração” (CASSOTTI, 2015, p. 89). De acordo com o autor, ao contrário do que muitos pensam, Leopoldina estava ciente da relação extraconjugal que sua irmã mais velha, Maria Luísa, mantinha com o general Neipperg, baseado no que suas correspondências contam (ou ocultam), conforme podemos ler nesta carta endereça da Luísa em maio de 1817: “o que completou minha felicidade foi poder falar tête-à-tête na carruagem com o bondoso tio [Rainer] sobre ti, minha querida, como és merecedora em todos os sentidos; como infelizmente só nós sentimos isso, podemos falar em sigilo, para não sermos interrompidos por uma língua invejosa”. Esse comentário permite supor que talvez Leopoldina estivesse ciente do caso de sua irmã com Neipperg e da gravidez dela.

Outro tema bastante pertinente, discutido pelo autor, concerne à autoria de um documento chave para se conhecer o caráter de Leopoldina: as pautas e máximas de comportamento conhecidas como Mes résolutions. Muitos atribuem a autoria desta espécie de “manual”, composto um pouco antes de sua viagem ao Brasil, à própria soberana. Contudo, “à medida que se leem suas páginas”, uma vez que já conhecemos as cartas de Leopoldina desde a juventude, “chega-se à conclusão de que foram escritas por alguém que, além de possuir um sólido e rigoroso conhecimento da doutrina católica, também conhecia muito bem os pontos fracos e defeitos do caráter da primeira imperatriz do Brasil” (CASSOTTI, 2015, p. 85). Nesse caso, Marsilio se refere à condessa Lazansky, camareira mor da Imperatriz Carolina Augusta, que havia guiado moralmente Leopoldina desde a adolescência. A finalidade prática das Mes résolutions era ser um guia espiritual e comportamental para a arquiduquesa, durante os anos em que ela permanecesse na corte portuguesa. Porém, o que a jovem não esperava era que sua estadia nos trópicos se prologaria por muito mais tempo do que os 2 anos previstos. À medida que os acontecimentos foram se desencadeando, Leopoldina percebeu que o sonho de retornar para a Europa e rever sua família era uma possibilidade cada vez mais remota. O destino havia lhe pregado uma grande peça: em vez de rainha de Portugal, acabou se tornando Imperatriz do Brasil.

Durante os seus últimos anos de vida, o caráter de Leopoldina sofreu uma grande transformação: de uma jovem extrovertida, ela acabou se tornando uma adulta introspectiva, que tinha receio de expor todas as suas aflições por temer as consequências que isso poderia ter. Nos seus anos finais, “afoga em uma negra melancolia”, ela buscava o conforto unicamente na religião, na leitura e na educação dos filhos. Descuidou inclusive de sua aparência, embora a culpa disso não tenha sido inteiramente dela, como Marsilio Cassotti nos induz a pensar. Em uma carta datada de 12 de dezembro de 1824, endereçada a Maria Luísa, a imperatriz agradece à sua irmã por lhe enviar alguns vestidos e tecidos para suas filhas e nenhum para ela, “pois meu esposo certamente não mo deixaria vestir, porque imagina que quando alguém se veste segundo a moda é porque tem segundas intenções”. Nesse caso, “para manter a paz doméstica”, ela preferia aquiescer à vontade de Pedro, como aliás sempre fez. Enquanto sua esposa vivia numa situação financeira apertada, o imperador cobria a amante, Domitila de Castro, de vestidos e joias caras. Numa época onde o domínio das grandes cortesãs havia desaparecido junto com o antigo regime derrubado pela revolução francesa, no Brasil a Marquesa de Santos reinava absoluta sobre seu imperial amante, para desespero de Leopoldina, que cresceu num ambiente familiar estável e encarava o estado do matrimônio como algo sagrado.

Capa do livro

Capa do livro “A Biografia Íntima de Leopoldina”, publicado no Brasil pela editora Planeta.

A primeira imperatriz consorte do Brasil faleceu em 11 de dezembro de 1826, pouco antes de completar 30 anos de idade. Após dias de febre e convulsões, ela partiu desse mundo de forma tranquila, quase como se estivesse dormindo. Assim termina o livro escrito por Marsilio Cassotti, sem fazer qualquer referência à exumação dos restos mortais de Dona Leopoldina, realizada em 2012 pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel. Acredito que essa negligência dos dados da autópsia da soberana seja uma das maiores falhas da obra, publicada dois anos depois que os mesmos foram divulgados. Eles acrescentariam muito mais detalhes ao livro referentes não só à aparência da soberana (que não era uma mulher obesa, como já foi dito), como também às circunstâncias de sua morte. Quem sabe numa segunda edição o autor possa prestar atenção nesse aspecto que, se acrescentado, deixaria a biografia com uma abordagem muito mais atual. Dada à forma delicada e desprovida de preconceitos com que Cassotti trata a figura da imperatriz, penso que a obra tem muito a contribuir para a nossa tradição historiográfica, promovendo uma revisão dos acontecimentos e personalidades que marcaram o palco político europeu e brasileiro no início do século XIX. Entre os quais, Dona Leopoldina, que, ao contrário do que o subtítulo da biografia sugere, não conseguiu a independência do Brasil, mas foi uma de suas principais colaboradoras.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestrando em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Notas:

¹ Dois anos antes da publicação do livro “A Biografia Íntima de Leopoldina”, também já havíamos traçado esse paralelo no texto “A Imperatriz Leopoldina e o fantasma de Maria Antonieta”, onde expomos que filha de Francisco I da Áustria provavelmente conheceu a última rainha da França através dos lábios de sua avó, Maria Carolina de Nápoles, irmã favorita de Antonieta. Marsilio Cassotti também chegou a essa conclusão no seu livro.

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10 comentários sobre “A vida íntima da Imperatriz: resenha da nova biografia de Dona Leopoldina, escrita por Marsilio Cassotti

  1. Acho muito boa essa tentativa de trazer ao público a importância da Dona Leopoldina. Eu só fiquei sabendo da participação dela na independência quando li o livro 1822. Mas acho que essa nova biografia vai estar bem mais completa ^^

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  2. Eu prefiro ler um biografia sem referência a exumação do corpo, é meio chocante porque você se deixa cativar pelo personagem e não quer pensá-lo dessa maneira, acho que o final foi bem condizente com a ideia do livro, porém, muito boa a resenha.

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  3. Eu nunca soube muito dela. Com a estreia da novela “novo mundo” conheci melhor a figura de maria carolina Leopoldina. Eu tinha duvidas sobre ate onde ia a licença dramática e ou poética da dramaturgia mas depois de ler o texto acima algumas coisas ficaram mais claras , e outras confirmadas. Nunca achei o mala do dom Pedro um príncipe piorou alguém de sangue real. Ate pq o que nunca foi real foi o seu CARATER. Aprendi a me afeiçoar pela Leopoldina. Mas convenhamos que a vida dela era uma bosta. Tadinha. Se eu pudesse e tvss nascido naquela época dava uma vida mt melhor pra ela jkkkkkkkkkk mas infelizmente o ser humano e filho de puta o suficientes ponto deacahr que pode fazer o que , eque revire no seu caixão dom Pedro I. Pq por mim vc poderia mt bem ir tomar no olho do seu cu, seu desajustado vai pro inferno ! Mas enfim , uma rainha ( considero ela rainha pq ng não e qualquer uma que nasce pra entregar a vida pra um qualquer num fim de mundo chamado brasil) como ela merece todo o meu amor e o meu respeito. Sinceramente.

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  4. Obras como esta tornam-se fundamentais para quem gosta de conhecer a real historia do Brasil. Infelizmente a literatura didática não nos permite saber o que de fato aconteceu nos bastidores da formação do nosso país. Obrigada e parabéns ao autor pela disponibilização de sua pesquisa apresentada de maneira agradável.

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  5. Eu gostaria de saber se realmente houve um relacionamento amoroso entre a imperatriz Leopoldina e José Bonifácio agardo a resposta obrigado.

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    • Oi, Thafila. A história não registra qualquer ligação de natureza íntima entre o ministro e a princesa. Havia entre eles uma reciprocidade de interesses em prol da emancipação política do país, além de alguns gostos em comum. Leopoldina era uma mulher muito religiosa, devota aos seus deveres de esposa e mãe. Uma cena como aquela transmitida pela novela jamais teria se passado entre os dois. Abraços!

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