Opulência imperial: o guarda-roupas de Josefina de Beauharnais, imperatriz dos franceses

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Se Maria Antonieta era extremamente criticada por seu modo de vestir, por seus trajes caros e extravagantes, o mesmo não poderia ser dito de sua sucessora, a imperatriz Josefina, que acumulou uma coleção de joias e vestidos quase tão vasta quanto à da última rainha da França. Rendas, seda, linho, tecidos, cetim, camisolas, veludo, tafetá … Estes são alguns dos termos que evocam uma rica, preciosa e delicada coleção de vestidos, parte dos quais expostos no Château de Malmaison. É também com estas palavras que descreveremos o maravilhoso guarda-roupas da primeira esposa do imperador Napoleão Bonaparte, Josefina de Beauharnais. Para as mulheres, as roupas significavam muito mais do que um mero ornamento. Eram símbolos que demonstravam sua força e poder de expressão, numa época em que a participação feminina na esfera política era estritamente limitada. Suas roupas eram, portanto, um forma auto-afirmação social. Selecionamos aqui algumas fotos dos vestidos da imperatriz que costumam ficar expostos da sua antiga residência, dando um testemunho do bom gosto e elegância daquela a quem eles costumam ornar.

Vestido de corte bordado com fios de prata, que pertenceu à Josefina. A peça foi fabricada por volta de 1805. (© Agathe Lautréamont de 2016).

Segundo Kate Williams, biógrafa de Josefina,  os gatos da primeira imperatriz dos Franceses com roupas, joias, criadagem e ornamentos ultrapassariam a soma atual de um milhão de libras. “Com efeito”, argumenta Williams, “surpreende que [ela] não tenha despendido ainda mais. O guarda-roupa era espetacularmente dispendioso, as joias absurdas e tinha os aposentos cheios de bugigangas caríssimas” (2014, p. 332). No total, encontram-se expostos em Malmaison cerca de cinquenta trajes que remetem à moda do primeiro império, incluindo um robe que pertencera à filha de Josefina, Hortense, chinelos da imperatriz, entre outras peças, que, por sua vez, evocam todo um passado de esplendor. As roupas da imperatriz dos Franceses raramente ficam fora do acervo de museus, uma vez que, devido à sua idade (mais de dois séculos), as peças poderiam sofrer muito com a exposição ao ar e/ou à luz. Sua fragilidade, porém, acrescenta algo a mais à sua beleza.

Vestido de gala usado pela Imperatriz Josefina da França durante a primeira década do século XIX (Châteaux de Malmaison et Bois-Préau, Malmaison France). À direita, Imperatriz Josefina, por Antoine-Jean Gross.

Para Napoleão Bonaparte, era imprescindível que sua esposa se mostrasse impecável diante dos olhos do mundo, ricamente vestida com joias e tecidos caros, refletindo assim a imagem de esplendor que o imperador pretendia causar. Esse aspecto, contudo, contrastava com os hábitos das outras cortes europeias. A extravagância fora um dos pontos de críticas ferrenhas feitas ao antigo regime e esse costume era algo que as novas monarquias no início do século XIX não pretendiam reproduzir. Os tecidos simples, como a musselina branca, combinados com fitas de cores claras era o traje ideal para uma dama daquele período. Josefina preferiu combinar a moda da nova era com o exagero de décadas atrás, criando, dessa forma, um estilo próprio, que seria copiado por muitas princesas europeias. Napoleão queria a esposa vestida à maneira das antigas rainhas, o que dava a Josefina bastante trabalho.

Vestido de noite, em seda decorada com pérolas artificiais, que pertenceu a Josefina de Beauharnais ( Metropolitan Museum of Art).

Certa vez a imperatriz declarou para sua filha, Hortense, que não havia nascido “para tamanha grandeza e estaria mais feliz em retiro, rodeada daqueles que amo”. Josefina dava o máximo de si para satisfazer as vontades do marido. “Sua noção de ter a palavra certa e a ação correta e sua irresistível atração convenciam-nos a todos de que ela tinha nascido para o papel que o destino lhe dera”, escreveu Ducrest, almirante naval de Napoleão. Sua conduta, apesar disso, não tinha o mesmo efeito em todos os espectadores. A escritora Mary Berry, por exemplo, achou-a uma mulher de “aparência distinta”, embora mais velha do que seus retratos faziam crer. Tendo posado para os pinceis de artistas de talento, como o barão Antoine-Jean Gross, Robert Lèfevre e François Pascal Simon, poucos imaginariam que, por trás daquele sorriso sedutor que podemos ver nas telas, Josefina escondia uma dentição bastante estragada pelo consumo de caldo de cana-de-açúcar na infância.

Esquerda: Imperatriz Josefina em Malmaison, usando um vestido matutino (Barão Antoine-Jean Gross, 1809). Direita: Josefina em trajes da coroação, por François Pascal Simon (1807/8).

Outra testemunha diria que “se a sorte não a tivesse elevado [Josefina] a um pináculo, não se repararia mais de um minuto nela”. Um comentário bastante inverossímil, diga-se de passagem, uma vez que a figura de Josefina de Beauharnais já encantava uma significativa quantidade de pessoas antes mesmo de se tornar consulesa e depois imperatriz. Aliás, a distinção de comportamento, o bom gosto que ela havia adquirido em Paris, suas conexões com a antiga nobreza e a classe burguesa, foram alguns dos elementos que a tornaram numa candidata a esposa perfeita para um homem ambicioso como Napoleão Bonaparte. Josefina, apesar de ciumenta, tentava o máximo que podia irrelevar os casos extra-conjugais do marido e responder aos seus modos e palavras rudes, sempre que possível, com ternura. Esses gestos a engrandeciam ainda mais diante dos olhos do imperador, que via na companhia dela seu porto-seguro, onde poderia esquecer por um tempo os problemas.

Sapatos de seda que pertenceram à imperatriz Josefina (Châteaux de Malmaison et Bois-Préau, Malmaison France)

Certo de que a forma de provocar impacto diante do povo era lhe causando deslumbre, Napoleão exigia que Josefina se vestisse de forma mais esplendorosa do que qualquer outra mulher presente, não poupando dinheiro para isso. A esposa do general Junot, Laure d’Anbrantès, escreveu que “madame Bonaparte, que compreendia em alto nível a arte de bem vestir, dava o exemplo de grande elegância”. Ela havia encomendado indumentárias consideras espetaculares, desde um vestido crepe cor de rosa, coberto inteiramente com pétalas de rosa, que mal permitia que ela se sentasse ou andasse, até um delicado vestido enfeitado com penas de tucano e pérolas. Josefina tinha também uma paixão por luvas luxuosas, e já chegou a encomendar mil pares ao ano. Suas compras eram tão exageradas, que muitas vezes se esquecia de que já havia adquirido determinada peça e acabava comprando-a de novo.

Vestido de gala que pertenceu à Imperatriz Josefina de Beauharnais, primeira esposa de Napoleão Bonaparte (Châteaux de Malmaison et Bois-Préau, Malmaison France).

Enquanto o imperador dispendia seu tempo em planos de campanhas militares, Josefina era todos os dias banhada e perfumada. Seu rosto, coberto com a pesada maquiagem da qual o marido tanto gostava de vê-la usando. Suas camareiras lhe aplicavam rouge nas faces. Em seguida, vestiam a imperatriz com um roupão de renda, para receber o cabeleireiro. Enquanto seus cabelos eram penteados, as criadas iam uma a uma lhe desfilando vestidos, xales e chapéus. Já foi dito que Josefina trocava três vezes de roupa ao dia e nunca usava duas vezes o mesmo par de meias. Esse processo de montagem demorava bastante tempo. Mesmo o mais simples dos saraus era motivo para que a imperatriz encomendasse um vestido novo, com rendas que chegavam a custar milhares de francos. Em todas as lojas chiques de Paris, havia alguém trabalhando para a soberana.

Tiara de diamantes que pertenceu à imperatriz Josefina.

Uma vez arrumada, os aposentos da imperatriz eram invadidos por vários lojistas, mercadores, músicos e artistas. Sua renda anual de 600 mil francos longo de mostraria insuficiente, diante da quantidade de diamantes, vestidos, xales e outras bugigangas que ela costumava comprar. Dizem que sua caixa de joias chegou a conter mais peças do que a de Maria Antonieta. De acordo com sua biógrafa,

Como uma viciada, a imperatriz precisava sempre de novidades, esquecendo-se do que se tornava velho. Por vezes pagava 12 mil francos por um xale que depois usava como almofada ou cobertor para o cão. Usava um vestido extraordinariamente caro durante um dia e depois dava-o às damas ou às criadas, que logo o vendiam. Mademoiselle Avrillon recordou que, em Mainz, ela e as outras senhoras apresentavam os vestidos usados de Josefina como pagamento pelos bens de luxo a vendedores locais, que os vendiam rapidamente aos dignatários da região. “Lembro-me de um baile em que a imperatriz poderia ter visto todas as damas de uma dança usando suas vestes descartadas – cheguei mesmo a ver princesas alemãs usando-as” (WILLIAMS, 2014, p. 320).

Todos aqueles que faziam parte do círculo da imperatriz, mesmo os criados, acabavam lucrando com essa proximidade. Em determinados momentos, Napoleão chegava a se enfurecer com os gastos da esposa, chamando-a de a “louca da extravagância”. Ele diria a ela que “a natureza concedeu-me um caráter forte e decidido; a ti, fez-te de renda e gaze”. A imperatriz contraia muitas dívidas com mercadores e lojistas.

Vestido da imperatriz Josefina, bordado com emblemas florais (Musée du Luxembourg, Paris).

Se por um lado Napoleão criticava os gastos da esposa, por outro, exigia dela a impecabilidade na aparência. Obcecado com os vestidos de Josefina, ele interferia diretamente naquilo que ela usava, proibindo-a de vestir trajes com decotes acentuados. Chegava até mesmo a jogar no fogo xales que ele considerasse feio. Em alguns casos, obrigava a esposa a trocar de roupa repetidas vezes, até encontrar uma combinação que lhe deixasse satisfeito. Napoleão tinha uma verdadeira veneração por Josefina. Ela era seu amuleto da sorte. Com o tempo, a ausência de um herdeiro do sexo masculino obrigou o imperador a repudia-la e se casar novamente. Anos mais tarde, de seu exílio em Santa Helena, ele confessaria seu amor por Josefina. Rendas, seda, linho, tecidos, cetim, camisolas, veludo e tafetá eram muito mais do que simples ornamentos. Para Napoleão, a moda também ajudava a construir impérios. Nesse caso, podemos afirmar que o guarda-roupas de sua primeira esposa é um exemplo notório dessa assertiva.

Referência:

WILLIAMS, Kate. Josefina: desejo, ambição, Napoleão. Tradução de Luís Santos. São Paulo: LeYa, 2014.

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